No Domingo, vamos votar. Pela mais válida das razões possíveis.

(In Blog Contracultura, 07/06/2024)

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Porque é que devemos ir votar no domingo?

Não porque a União Europeia seja uma entidade de inspiração constitucional, de fundamentos democráticos e liberais (no sentido clássico do termo). Não é.

Não porque o Parlamento Europeu seja instrumental numa ofensiva contra as elites neo-liberais que estão instaladas nas verdadeiras estruturas de poder do Velho Continente. Está longe de o ser.

Não porque uma vaga populista se mostre a curto prazo eficiente contra a maré globalista. Que se desenganem os optimistas.

Não porque alguma coisa de substancial vá de repente mudar nas políticas da agenda 20/30, no triunfo aberrante da ideologia de género ou no apoio criminoso do bloco ocidental ao regime Zelensky. Não vai.

Não porque von der Leyen seja através do voto corrida de Bruxelas para o pior buraco do inferno, que é precisamente o sítio para onde devia ser corrida. Lamentavelmente, teremos que ser pacientes.

Não porque no conteúdo destas urnas se encontrem as fundações de um regresso aos mais nobres valores da civilização ocidental, ou até os alicerces, mesmo que tímidos, que impeçam o declínio que é já incontornável do mundo em que fomos criados e dos valores morais que consideramos sagrados. Não vale a pena esperar milagres.

Não porque estas eleições sejam mais de que um processo de fachada, que tenta disfarçar o regime despótico a que fomos subjugados, nos últimos 30 anos. Não são agora nem serão tão cedo.

Não porque estas eleições constituam sequer o princípio do fim de uma era de trevas, protagonizada por líderes vis, fracos, mesquinhos, pequenos, autoritários, arrogantes, irresponsáveis e alienados. Esse momento iniciático, a acontecer, terá contornos diferentes e instrumentos diversos.

Não porque o voto faça diferença nas actuais dinâmicas de poder no Ocidente. Não faz.

Devemos ir votar pela razão mais simples, mais básica, mais óbvia, mais válida de todas as que agora são possíveis:

Para que os nossos inimigos saibam da dimensão do exército que têm que continuar a enfrentar para cumprir os seus sinistros objectivos.

Para que durmam menos bem, sabendo que estamos aqui, dissidentes, firmes, e que mesmo sabendo que a democracia é hoje, no Ocidente, um mito, um embuste de prestidigitação que esconde a tirania concreta que levantaram sobre a nossa vontade, não estamos dispostos a aceitá-la.

Para que oiçam a nossa voz, que lhes diz: Não.

Para que vivam com a nossa teimosa insistência em sermos livres criaturas de Deus.

Para que percebam que terão sempre pela frente milhões de pessoas que querem ser donas dos seus destinos.

Para que nos temam. Porque – é bom que sobre isto não restem dúvidas – eles temem-nos.

Para que o medo, que as cúpulas corporativas tanto gostam de usar contra as massas, seja agora usado pelas massas contra as cúpulas corporativas.

Sim, é para que as elites vivam no medo, que devemos ir votar no Domingo.

Fonte aqui.

Sermão da Senhora Ursula aos portuenses

(Por Sérgio Luís de Carvalho, in Pagina Um, 08/06/2024)

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No dia 13 de junho de 1654, em São Luís do Maranhão, o padre António Vieira proferiu o seu Sermão de Santo António aos Peixes aos brasilienses. Era dia de Santo António, santo propiciador na busca de objetos perdidos, padroeiro pobres e dos oprimidos, dos casais e das mulheres grávidas. 

Trezentos e setenta anos depois, no Porto, a Senhora Ursula van der Leyen proferiu um discurso aos portuenses. Era Dia de São Norberto, que foi bispo de Magdeburgo, germânico como a Senhora Ursula e padroeiro da Boémia. 

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Lisboa, cidade perdida

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/06/2024)

Primeiro são os lisboetas expulsos da sua própria cidade. Depois, vai ser preciso inventar outro país para onde os portugueses possam fugir.


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Cada um sabe do que gosta, pelo que muitos discordarão do que se segue. Fui um lisboeta de adopção desde a infância, mas só aprendi a gostar de Lisboa já na idade adulta e terminado o sufoco do Estado Novo: sem dúvida que uma e outra coisa estavam ligadas, pelo que não posso culpar a cidade disso. Quando era pequeno, em casa dos meus avós, numa das colinas da cidade, subia a um terraço e de binóculos em punho ficava fascinado a ver os paquetes que acostavam ao cais da Rocha do Conde de Óbidos e depois partiam, rebocados Tejo fora, soltando um apito de despedida da cidade, um apito triste. Eram os italianos “Saturno” e “Vulcano”, o inglês “Queen Mary I”, o francês “France”, elegantes, misteriosos, desembarcando passageiros silenciosos e discretos. Hoje vejo os paquetes encostados em frente à Casa dos Bicos, monstruosos, grandes como urbanizações, os maiores poluidores da cidade, despejando nela 700 mil passageiros por ano e por algumas horas, para o circuito da beira-rio e dos pastéis de nata, ruidosos e absolutamente alheios à “Lisboa e Tejo e tudo” de que falava Pessoa. Mas isso, os novos paquetes, de que Barcelona e Veneza já se vão livrando, é apenas uma das coisas que num ápice, mas à vista de todos, vêm paulatinamente fazendo de Lisboa uma cidade prostituída ao turismo e roubada aos seus habitantes.

Lisboa recebe 19 milhões de turistas por ano, 40 novos hotéis apenas em 2023. Não é muito, para Carlos Moedas. Em Junho passado, ele declarava a “O Globo” que “ainda estamos muito longe do excesso de turismo. Muito longe da situação de Veneza ou Barcelona. Devemos continuar a apostar no turismo”. Em contrapartida, nos últimos dez anos, a cidade perdeu 30% dos seus habitantes, sobretudo no centro histórico: os turistas expulsaram-nos. Quem não perdeu a sua casa para a especulação imobiliária, quem deixou de poder pagar arrendamentos que são os segundos mais caros da Europa, perdeu o prazer de viver numa cidade onde todas as lojas históricas, o pequeno comércio de bairro, os restaurantes e tascas de rua foram cilindrados pelas lojas de souvenirs e ‘CR7’, e toda a zona histórica, do Castelo até à Torre de Belém, toda a beira-rio onde durante tanto tempo esperámos pacientemente por obras de requalificação, hoje é autódromo de tuk-tuks, pradaria de trotinetas à solta, território comanche onde um lisboeta se sente em terra alheia.

De há uns anos para cá, também eu me tornei um dos desertores de Lisboa, um dos que desistiram de continuar a perseguir um amor impossível. De que me servia a luz de Lisboa se as esquinas estão tapadas de turistas ou da tenebrosa silhueta dos paquetes que hoje se chamam “Icon of the Seas” ou “Spectrum of the Seas”?

De que me servem os jacarandás de Maio se estão pejados de trotinetas abandonadas aos pés? De que me serve o cheiro a sardinhas se nem consigo chegar perto de Alfama? De que me servem as esplanadas se não consigo abstrair-me da poluição visual dos horríveis guarda-sóis e cadeiras de plástico da Super Bock ou da Sagres? De que me servem o Terreiro do Paço ou a Ribeira das Naus lindos de morrer se não consigo lá chegar nem sair de lá a não ser de tuk-tuk e em cada metro está um camone a fazer selfies? Hoje sou um lisboeta de toca e foge, vou a Lisboa uma vez por semana por razões profissionais, circulo à volta da cidade para fugir à confusão e, talvez porque já me habituei à tranquilidade e doçura da vida na província, sinto, mesmo fugindo do centro, uma urgência hostil à flor da pele, no trânsito, nas pessoas, nos ruídos, e tudo me conta que esta não é uma cidade de gente feliz. E com razões para isso.

Nunca compreendi as causas da derrota autárquica de Fernando Medina. Parece, mas é uma explicação curta, que terá sido por causa da questão das faixas para ciclistas na Almirante Reis, cuja revolta local lhe retirou o número de votos suficientes para a inesperada vitória de Carlos Moedas. Por ironia democrática e ao contrário do prometido, nem isso, porém, Moedas resolveu. E digo nem isso, porque não vejo que tenha resolvido mais o que quer que seja. Peço desculpa se por acaso estou mal-informado ou observo mal, nas minhas rápidas incursões semanais à capital, mas, de facto, não vejo uma rua melhorada, um piso renovado, um espaço verde a mais, uma praça reconfigurada, um novo estacionamento, uma árvore plantada: apenas radares de velocidade por todo o lado, num exercício abusivo de autoritarismo e confisco que muito deve contribuir também para a irritação dos lisboetas ao volante. Medina requalificou a frente do rio, a Avenida da República, a 24 de Julho, o Martim Moniz, deu uma praça a cada bairro, um novo parque à cidade, inúmeros espaços verdes novos e licenciou centenas de esplanadas. O que fez Moedas em três anos? Vejo-o constantemente no combate político ao PS e ao anterior Governo, sempre a reclamar louros de coisas não vistas, mas sempre também a recorrer ao governo quando se vê à rasca — seja na Jornada Mundial da Juventude, na construção de residências estudantis ou em instalações para os sem-abrigo. Graças ao turismo e à especulação imobiliária, tem receitas que nunca a Câmara tinha tido e ainda duplicou as célebres ‘taxas e taxinhas’ que o PSD tanto criticava e mesmo assim conseguiu levar o superavit recebido de Medina a um inexplicável défice. Mas talvez, repito, eu esteja mal-informado ou esteja a ver mal.

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Mas o que eu não vejo com certeza é que Carlos Moedas tenha, ou consiga explicar, caso tenha, uma ideia de futuro para Lisboa. Vejo-o debitar vagos pensamentos sobre atrair talentos e empresas internacionais para a cidade, mas nem sequer esclarece como conseguiria conciliar isso com uma cidade que aposta tudo, e com o seu apoio, na exploração do filão turístico até ao infinito. Por exemplo: o que pensa Moedas quando ouve as associações empresariais do sector turístico reclamarem um aeroporto que possa trazer até 60 milhões de turistas por ano para Lisboa? A mim, apetece-me puxar da pistola; e a ele? O que pensa Moedas sobre o artigo saído na última edição de domingo do “El País”, onde se procede a um requiem da cidade, prostituída de alma e coração ao turismo? Tem orgulho no que está a fazer, no que vai continuar a ser feito?

Eu sei que Lisboa não é caso único. Portugal inteiro está à venda a troco de €25 mil milhões, 9,5% do PIB, o valor do turismo no ano passado. Veja-se o pesadelo planeado para a costa alentejana, de Tróia a Melides, descrito no último Expresso, ou as 100 mil camas ainda para serem construídas no Algarve. Tudo isto num país ameaçado por faltas de água contínuas e cada vez mais severas, com arribas a desabarem pelo excesso de construção, praias saturadas, hospitais públicos sem capacidade de resposta, mão-de-obra estrangeira amontoada em contentores ou pardieiros e os serviços públicos inoperacionais. Eu não defendo o fim do turismo, eu defendo, desde há muito, o que todos prometem e logo esquecem: menos turistas, mais qualidade, mais respeito pela paisagem e pelos recursos naturais, e, como resultado, iguais ou maiores receitas. Mas em Portugal, quando um negócio dá dinheiro, não há limites que não a ambição e a ganância de todos e de cada um. Ninguém estuda, ninguém planeia, ninguém mede as consequências adiante, apenas os lucros a curto prazo. Por isso, primeiro vemos os lisboetas expulsos da sua própria cidade. Depois, vai ser preciso inventar outro país para onde os portugueses possam fugir.

2 No Expresso online, Henrique Raposo escreveu uma das suas recorrentes crónicas de propaganda de Israel, desta vez ultrapassando os próprios mentores. Diz ele que os miúdos palestinianos, a partir dos 7 anos, “são educados a usar com orgulho as AK-47, logo na primária, ao mesmo tempo que lêem propaganda igual à dos nazis sobre os judeus”. Enquanto que “as meninas palestinianas são obrigadas a casar aos 15 e, se recusarem, são deserdadas, espancadas ou assassinadas”. Não sei se tão vívida descrição lhe virá de conhecimento in loco ou de excesso de imaginação militante. Mas considerando que desde o 7 de Outubro, Israel já matou 15 mil crianças palestinianas em prédios habitacionais, escolas, hospitais e campos de refugiados e que reduziu Gaza a um horizonte de ruínas, não me parece que seja preciso propaganda igual à dos nazis para levar os miúdos palestinianos a odiar os israelitas nem que as meninas palestinianas tenham alguma coisa de que possam ser deserdadas se recusarem casar-se — se é que ainda encontrarão, entre os sobreviventes, maridos disponíveis ou pais com vontade de as assassinarem em caso de recusa, como assegura Henrique Raposo. Mas talvez Raposo não fizesse mal — apenas por uma questão de honestidade intelectual — em estender a sua dissertação daquilo a que chama “a masculinidade tóxica palestiniana e a raiz patriarcal da cultura muçulmana” aos comportamentos familiares e sociais do mundo submerso dos judeus ortodoxos. Esperem sentados.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia