Poderia Trump ser o salvador da Europa?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 11/07/2024)

Não faltaram à Europa oportunidades para afirmar o seu projeto. Referimo-nos concretamente às relações com a China e a Rússia, e à sua intervenção como um mediador internacional incontornável.


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Ainda nos recordamos de quando Angela Merkel, em maio de 2017, num comício em Munique, aludindo às dificuldades com Donald Trump, disse que os europeus não podem depender completamente dos outros. “Nós, europeus, temos realmente de tomar o nosso destino nas nossas próprias mãos – naturalmente em amizade com os Estados Unidos da América, em amizade com a Grã-Bretanha, ser bons vizinhos de quem quer que seja, também com a Rússia e outros países”.

No fundo, o apelo de Merkel não passava de wishfull thinking, uma vez que as elites europeias estavam devidamente sociabilizadas, “condenadas” a comportarem-se bem e de modo servil perante os desígnios da potência hegemónica. Embora alguns políticos fizessem oportunisticamente a quadratura do círculo e se apresentassem simultaneamente como atlantistas e defensores do projeto europeu (independentemente do que isso possa significar), a verdade é que na sequência da guerra na Ucrânia a ideia de uma Europa estrategicamente autónoma é colocada na gaveta pelos líderes europeus.

A ideia de um polo de poder europeu estrategicamente autónomo foi objeto de várias formulações desde a Estratégia Europeia de Segurança (Solana, 2003) até à Estratégia Global da União Europeia (2019, Mogherini) e à Bussola Estratégica (von der Leyen, 2022), que não passaram de alívios de consciências.

Entre tornar-se num polo de poder alternativo, credível e mediador, explorando e beneficiando da competição entre outros polos de poder (Washington, Pequim e Moscovo), a Europa optou por se auto subalternizar e colocar-se disciplinadamente ao serviço de um deles.

Na sua formulação inicial, o projeto europeu ambicionava ser uma entidade geopolítica de atuação planetária, com objetivos geoestratégicos muito concretos e precisos, em que a atuação global e a autonomia estratégica andavam de mãos dadas, dotada de capacidade para participar na construção de uma ordem securitária mundial, a qual, para além de ter de se apoiar numa grande estratégia europeia requeria a existência de uma estratégia militar. Aspirava, pois, a ser um par interpares dos atores maiores da cena internacional, em vez de um ator secundário funcionando como apêndice de um qualquer outro projeto hegemónico.

Nesta conceção de ator global, para além de capacidade para se defender e/ou deter agressões militares, a União Europeia (UE) precisaria de recursos para impor as suas escolhas políticas pelo uso da força militar, de modo a transpor para a cena política internacional um poder que correspondesse ao seu poder económico e à sua dimensão humana e tecnológica. É difícil conceber essa ambição de outra maneira, com outras premissas.

Apesar do desencorajante droit de regard exercido por Washington sobre os penosos desenvolvimentos europeus no capítulo da segurança e defesa comuns, em que Londres funcionava geralmente como um spoiler para impedir o seu avanço, não faltaram à Europa oportunidades para afirmar o seu projeto. Referimo-nos concretamente às relações com a China e a Rússia, e à sua intervenção como um mediador internacional incontornável. No primeiro caso, na competição entre os EUA e a China e, no segundo, entre os EUA e a Rússia.

Faltou esclarecimento às elites europeias para o fazer. Em ambos os casos, Bruxelas soçobrou colocando-se ao dispor da potência hegemónica, pondo os interesses desta à frente dos seus, com as consequências que já se começam a sentir e se agravarão no futuro.

Costuma dizer-se que todos têm uma oportunidade na vida. A UE poderá ter duas, caso Donald Trump se venha a tornar presidente dos EUA e tome duas decisões cruciais, envolvendo a NATO e a Ucrânia. O pensamento de Donald Trump sobre estas duas matérias começa a ser discernível.

Através de colaboradores próximos, Trump já deu a entender que tem um plano para pôr fim à guerra na Ucrânia e ao projeto belicista da clique liberal intervencionista que se encontra presentemente instalada na Casa Branca, apoiada pelos atlantistas europeus.

A ser implementado, provocará uma mudança radical na atual política externa norte-americana assente na escalada do conflito, como emergiu da reunião do G7, em Itália, e da Conferência de paz, na Suíça, ambas realizadas em junho de 2024, onde foi defendida a perpetuação da guerra.

Dois conselheiros de Trump, o Tenente-general reformado Keith Kellogg e Fred Fleitz, um antigo analista da CIA, que ocuparam cargos importantes em questões de segurança nacional durante a presidência de Trump, e que desempenham presentemente funções importantes no Center for American Security (Kellogg é copresidente e Fleitz é vice-presidente), um influente think-tank fundado em 2022 por veteranos da Administração Trump, publicaram recentemente um artigo (America First, Russia & Ukraine) onde apresentaram esse plano pormenorizadamente.

De uma forma sintética, o plano propõe forçar a Ucrânia a assinar a paz com a Rússia e a fazer concessões territoriais, ameaçando cessar o apoio a Kiev se não se sentar à mesa das negociações, e renunciar à adesão à NATO.

No artigo, refere-se que “Trump mostrou-se aberto à cooperação com a Rússia e ao diálogo com Putin… procurando encontrar formas de coexistência e de diminuição das tensões… mantendo-se simultaneamente firme na defesa dos interesses e da segurança americana.” Sem que esta postura possa significar “brandura”, Trump pretende, através da negociação, desanuviar as relações entre Washington e Moscovo.

No que respeita à NATO, em declarações ao “Politico”, Dan Caldwell, outro conselheiro de segurança do círculo próximo de Trump, fala de uma nova abordagem, que não passará pela retirada dos EUA, nem pela destruição da organização, mas pela sua reformulação. Trata-se de uma “reorientação radical” em que Washington passa voluntariamente para segundo plano em relação à Europa. “Já não temos [os EUA] escolha”, argumentando com o aumento da dívida do país, a diminuição do recrutamento militar e uma base industrial de defesa que não consegue acompanhar o desafio da Rússia e da China.

Essa reformulação significa “uma redução importante e substancial do papel da América na segurança europeia, reservando-se apenas para intervir em situações de crise”. Os EUA continuariam a garantir o guarda-chuva nuclear na Europa, manteriam o seu poder aéreo e as bases na Alemanha, Inglaterra e Turquia, bem como as suas forças navais. A responsabilidade primária pelas forças terrestres e da logística passaria dos americanos para os europeus.

O plano considera ainda a possibilidade da NATO funcionar a dois níveis: os que gastam 2% do PIB em defesa e os que não gastam. Estes últimos “não desfrutariam da generosidade da defesa e da garantia de segurança dos Estados Unidos”. Em ponderação está a possibilidade de um acordo, segundo o qual a NATO se compromete a não se expandir mais para Leste, em particular para a Ucrânia e Geórgia. A possibilidade de se desenhar uma nova arquitetura de segurança para a Europa não está fora da agenda.

A concretização do plano de Trump poderia representar uma oportunidade histórica para a Europa concretizar as suas aspirações de autonomia estratégica articulada pelos seus fundadores. Os dirigentes europeus passariam a ter, aparentemente, mais liberdade de manobra. Resta saber se serão capazes de a utilizar. O ceticismo é grande, dado o processo de socialização a que foram sujeitos e o modo como adotaram as crenças substantivas e os ideais normativos da potência dominante, manifestando o comportamento típico de líderes de Estados secundários.

A concretização destas suspeitas são um indicador de que os dirigentes europeus andaram todos estes anos a enganar os seus povos. Sabiam que não tinham capacidade nem intenção para implementar um projeto de tamanha envergadura, preferindo repousar à sombra da potência hegemónica. Passados cerca de oito anos, as declarações de Angela Merkel soam a conversa fiada.

Para concretizar a “tal” autonomia estratégica facilitada por uma mudança de política em Washington e explorar um possível “vazio estratégico” que se possa vir a colocar são precisos líderes esclarecidos e determinados, que não existem e não se perspetiva que venham a existir no curto e médio prazo, o que condena a União e os Estados europeus ao definhamento, remetendo-os para um papel secundário. Como disse Shapiro, do European Council on Foreign Relations, “os líderes europeus estão em negação”, “não têm realmente qualquer ideia de como substituir os Estados Unidos”.

Muito obrigado senhor General, Agostinho Costa

(Por Estátua de Sal, 13/07/2024)

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Estes últimos dias têm sido um acrescido manancial de lavagem cerebral áqueles que seguem as notícias das televisões. O grande tema tem sido a cimeira da NATO e o apoio à Ucrânia, ambos acompanhados de um rufar de tambores de guerra, de forma a preparar os espíritos para os ímpetos belicistas que os EUA tentam impor aos vassalos, para que continuem a evitar o desmoronamento do Império.

Contudo, a realidade tem muita força e, quando ela nos denega os propósitos resta-nos o teatro e a propaganda como forma de a substituir por uma ficção conveniente. Com o Ocidente cada vez mais isolado no concerto das nações, a NATO surge como uma relíquia da guerra fria, uma lança de ataque da política externa dos EUA e da sua vocação imperial e colonizadora.

Então, o que se viu foi o deprimente espectáculo da subserviência dos líderes europeus à peça teatral montada, pretensamente reveladora de uma estratégia consensual. Como se ainda fosse o Ocidente a “dar cartas” ao mundo inteiro, como sucedeu durante séculos. E lá foram ameaçando a Rússia, a China e todos aqueles que não se queiram submeter, e que são cada vez mais.

Contudo, tirando a capa e o verniz belicista aos discursos e aos documentos que aprovaram, parece que se ficaram por “uma mão cheia de nada”. A Ucrânia vai aderir à NATO, mas talvez lá para “as calendas gregas”. Não aderir agora, e já, revela que a NATO receia um confronto militar directo com a Rússia, apesar do tom de farronca do Stoltenberg e do Biden. Ainda assim, os europeus vão levar mais uma talhada nos serviços de saúde, no Estado Social, para se financiar a guerra e a NATO, de forma a que esta, sabe-se lá quando, se sinta apta a enfrentar a Rússia, e especialmente a China.

Em suma, foram dias de repetido “teatro trágico”, montado pelos propagandistas do Império, e que a comunicação social se encarregou de nos servir em doses cavalares. As exceções são poucas e devem ser louvadas e sublinhadas. De vez em quando, a CNN “engana-se” e dá palco a vozes dissonantes, como acontece com o Major-General Agostinho Costa. A sua intervenção sobre esta temática é um notável exercício de desmistificação, feito por quem sabe bem o que é a NATO e o que é a guerra que, potencialmente se pretende cozinhar nas costas dos cidadãos.

Perante o vídeo que aqui vos deixo, a Estátua de Sal só tem, em síntese, uma frase simples: muito obrigado senhor General Agostinho Gosta. O vídeo pode ser visto clicando aqui.

A necessidade de um novo vocabulário político

(Michael Hudson, in Resistir, 11/07/2024)

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As diferenças políticas entre os partidos centristas da Europa são marginais, todos apoiando cortes neoliberais nos gastos sociais em favor do rearmamento, da rigidez fiscal e da desindustrialização que o apoio à política dos EUA e da OTAN acarreta. A palavra “centrista” significa não defender nenhuma mudança no neoliberalismo da economia. Os partidos centristas hifenizados estão comprometidos com a manutenção do status quo pró-EUA pós-2022.

Isso significa permitir que os líderes dos EUA controlem a política europeia por meio da OTAN e da Comissão Europeia, a contraparte europeia do Estado Profundo dos EUA. Essa passividade está colocando suas economias em pé de guerra, com inflação, dependência comercial dos Estados Unidos e défices europeus resultantes das sanções comerciais e financeiras patrocinadas pelos EUA contra a Rússia e a China. Esse novo status quo mudou o comércio e os investimentos europeus da Eurásia para os Estados Unidos.

Os eleitores da França, Alemanha e Itália estão se afastando desse beco sem saída. Todos os partidos centristas em exercício perderam recentemente – e todos os seus líderes derrotados tinham políticas neoliberais pró-EUA semelhantes. Como Steve Keen descreve o jogo político centrista:   “O partido no poder adota políticas neoliberais; ele perde a eleição seguinte para rivais que, quando chegam ao poder, também adotam políticas neoliberais. Eles então perdem, e o ciclo se repete”. As eleições europeias, como as de novembro deste ano nos Estados Unidos, são em grande parte um voto de protesto – com os eleitores não tendo para onde ir, exceto para votar nos partidos nacionalistas populistas que prometem acabar com esse status quo. Essa é a contrapartida da Europa continental para a votação britânica do Brexit.

O AfD na Alemanha, o Rassemblement Nacional de Marine le Pen na França e o Irmãos da Itália de Georgia Meloni são retratados como destruindo e quebrando a economia – por serem nacionalistas em vez de se conformarem com a Comissão da OTAN/UE e, especificamente, por se oporem à guerra na Ucrânia e ao isolamento europeu da Rússia. Essa postura é a razão pela qual os eleitores os estão apoiando. Estamos vendo uma rejeição popular ao status quo. Os partidos centristas chamam toda a oposição nacionalista de neofascista, assim como na Inglaterra os media descrevem os conservadores e os trabalhistas como centristas, mas Nigel Farage como um populista de extrema direita.

Já não há partidos de “esquerda” no sentido tradicional da esquerda política

Os antigos partidos de esquerda se juntaram aos centristas, tornando-se neoliberais pró-EUA. Não há contrapartida na antiga esquerda para os novos partidos nacionalistas, com exceção do partido de Sara Wagenknecht na Alemanha Oriental. A “esquerda” não existe mais da mesma forma que existia quando eu estava crescendo na década de 1950.

Os partidos Social Democrata e Trabalhista de hoje não são socialistas nem pró-trabalho, mas pró-austeridade. O Partido Trabalhista britânico e os social-democratas alemães não são mais nem mesmo antiguerra, mas apoiam as guerras contra a Rússia e os palestinos, e apostam na Reaganomics neoliberal Thatcherita/Blairita e na ruptura econômica com a Rússia e a China.

Os partidos social-democratas que estavam na esquerda há um século estão impondo austeridade e cortes nos gastos sociais. As regras da zona do euro que limitam os défices orçamentários nacionais a 3% significam, na prática, que o encolhimento do crescimento econômico deve ser gasto em rearmamento militar – 2% ou 3% do PIB, principalmente em armas dos EUA. Isso significa queda nas taxas de câmbio dos países da zona do euro.

Isso não é realmente conservador ou centrista. Trata-se de austeridade de extrema-direita, de redução dos gastos trabalhistas e governamentais que os partidos de esquerda apoiam desde há muito tempo. A ideia de que o centrismo significa estabilidade e preserva o status quo acaba sendo autocontraditória. O status quo político de hoje está reduzindo os salários e os padrões de vida e polarizando as economias. Ele está transformando a OTAN em uma aliança agressiva contra a Rússia e a China, que está forçando os orçamentos nacionais a entrarem em défice, fazendo com que os programas de bem-estar social sejam reduzidos ainda mais.

Os chamados partidos de extrema direita são agora os partidos populistas contra a guerra

O que é chamado de “extrema direita” está apoiando (pelo menos na retórica da campanha) políticas que costumavam ser chamadas de “esquerda”, opondo-se à guerra e melhorando as condições econômicas dos trabalhadores internos e dos agricultores – mas não as dos imigrantes. E, como no caso da antiga esquerda, os principais apoiadores da direita são os eleitores mais jovens. Afinal, eles estão sofrendo o impacto da queda dos salários reais em toda a Europa. Eles percebem que seu caminho para a mobilidade ascendente não é mais o mesmo que o de seus pais (ou avós) na década de 1950, após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando havia muito menos dívidas imobiliárias do setor privado, dívidas de cartão de crédito ou outras dívidas – especialmente dívidas estudantis.

Naquela época, todos podiam comprar uma casa fazendo uma hipoteca que absorvia apenas 25% do rendimento salarial e era amortizada em 30 anos. Mas as famílias, as empresas e os governos de hoje são obrigados a tomar emprestado quantias cada vez maiores apenas para manter seu status quo.

A antiga divisão entre partidos de direita e de esquerda perdeu o sentido. O recente aumento dos partidos descritos como de “extrema direita” reflete a ampla oposição popular ao apoio dos EUA/OTAN à Ucrânia contra a Rússia e, principalmente, às consequências desse apoio para as economias europeias. Tradicionalmente, as políticas contra a guerra têm sido de esquerda, mas os partidos de “centro-esquerda” da Europa estão seguindo a “liderança por trás” (e muitas vezes por baixo da mesa) pró-guerra dos Estados Unidos. Isso é apresentado como uma postura internacionalista, mas se tornou unipolar e centrada nos EUA. Os países europeus não têm voz independente.

O que acaba sendo uma ruptura radical com as normas do passado é a Europa seguindo a transformação da OTAN de uma aliança defensiva para uma aliança ofensiva, de acordo com as tentativas dos EUA de manter seu domínio unipolar dos assuntos mundiais. A adesão às sanções dos Estados Unidos contra a Rússia e a China e o esvaziamento de seus próprios arsenais para enviar armas à Ucrânia e tentar sangrar a economia russa não prejudicou a Rússia, mas fortaleceu-a. As sanções agiram como um muro de proteção para sua própria agricultura e indústria, levando a um investimento que substitui as importações. Mas as sanções prejudicaram a Europa, especialmente a Alemanha.

O fracasso global da versão ocidental atual do internacionalismo

Os países do BRICS+ estão expressando as mesmas demandas políticas por uma ruptura do status quo que as populações nacionais do Ocidente estão buscando. A Rússia, a China e outros países líderes do BRICS estão trabalhando para desfazer o legado da polarização econômica, repleta de dívidas, que se espalhou pelo Ocidente, pelo Sul Global e pela Eurásia como resultado da diplomacia dos EUA/OTAN e do FMI.

Após a Segunda Guerra Mundial, o internacionalismo prometeu um mundo pacífico. As duas guerras mundiais foram atribuídas a rivalidades nacionalistas. Elas deveriam acabar, mas em vez de o internacionalismo acabar com as rivalidades nacionais, a versão ocidental que prevaleceu com o fim da Guerra Fria viu os Estados Unidos, cada vez mais nacionalistas, se fecharem na Europa e em outros países satélites contra a Rússia e o restante da Ásia. O que se apresenta como uma “ordem baseada em regras” internacional é uma ordem em que os diplomatas dos EUA estabelecem e mudam as regras para refletir os interesses dos EUA, ignorando a lei internacional e exigindo que os aliados americanos sigam a liderança dos EUA na Guerra Fria.

Esse não é um internacionalismo pacífico. Ele vê uma aliança militar unipolar dos EUA levando a uma agressão militar e a sanções econômicas para isolar a Rússia e a China. Ou, mais precisamente, para isolar os aliados europeus e outros de seu antigo comércio e investimento com a Rússia e a China, tornando esses aliados mais dependentes dos Estados Unidos.

O que pode ter parecido aos europeus ocidentais uma ordem internacional pacífica e até mesmo próspera na década de 1950, sob a liderança dos EUA, transformou-se em uma ordem americana cada vez mais autopromovida que está empobrecendo a Europa. Donald Trump anunciou que apoiará uma política tarifária protecionista não apenas contra a Rússia e a China, mas também contra a Europa. Ele prometeu que retirará o financiamento da OTAN e obrigará os membros europeus a arcarem com os custos totais da restauração de seus suprimentos de armamentos esgotados, principalmente por meio da compra de armas dos EUA, embora elas não tenham funcionado muito bem na Ucrânia.

A Europa está sendo deixada isolada e entregue a si mesma. Se os partidos políticos não centristas não intervierem para reverter essa tendência, as economias da Europa (e também as dos Estados Unidos) serão arrastadas pela polarização econômica e militar nacional e internacional atual. Portanto, o que acaba sendo radicalmente perturbador é a direção que o status quo atual está tomando sob os partidos centristas.

Apoiar a iniciativa dos EUA de desmembrar a Rússia e, em seguida, fazer o mesmo com a China, envolve aderir à iniciativa neocon americana de tratá-los como inimigos. Isso significa impor sanções comerciais e de investimento que estão empobrecendo a Alemanha e outros países europeus ao destruir seus vínculos econômicos com a Rússia, a China e outros rivais designados (e portanto inimigos) dos Estados Unidos.

Desde 2022, o apoio da Europa à luta dos Estados Unidos contra a Rússia (e agora também contra a China) acabou com o que era a base da prosperidade europeia. A antiga liderança industrial da Alemanha na Europa – e seu apoio à taxa de câmbio do euro – está sendo encerrada. Isso é realmente “centrista”? Trata-se de uma política de esquerda ou de direita? Seja qual for o nome que lhe dermos, essa fratura global radical é responsável pela desindustrialização da Alemanha, isolando-a do comércio e dos investimentos na Rússia.

Uma pressão semelhante está sendo feita para separar o comércio europeu da China. O resultado é o aumento do défice comercial e de pagamentos da Europa com a China. Juntamente com a crescente dependência das importações da Europa em relação aos Estados Unidos para aquilo que costumava comprar a um custo menor a partir do Oriente, o enfraquecimento da posição do euro (e a apreensão das reservas estrangeiras russas pela Europa) levou outros países e investidores estrangeiros a se desfazerem de suas reservas em euros e libras esterlinas, enfraquecendo ainda mais estas divisas. Isso ameaça aumentar o custo de vida e os negócios na Europa. Os partidos “centristas” não estão produzindo estabilidade, mas sim contração econômica à medida que a Europa se torna um satélite da política dos EUA e do seu antagonismo com as economias dos BRICS.

O presidente russo Putin disse recentemente que a ruptura das relações normais com a Europa parece irreversível nos próximos trinta anos, aproximadamente. Será que uma geração inteira de europeus permanecerá isolada das economias de crescimento mais rápido do mundo, as da Eurásia? Esta fratura global da ordem mundial unipolar dos Estados Unidos está permitindo que os partidos anti-europeus se apresentem não como extremistas radicais, mas como uma tentativa de restaurar a prosperidade perdida e a autossuficiência diplomática da Europa – de uma forma de direita anti-imigrante, com certeza. Essa se tornou a única alternativa para os partidos pró-EUA, agora que não há mais esquerda real.

Fonte aqui