Os homens devem estar loucos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/09/2024)

Atravessámos décadas de Guerra Fria a evitar cuidadosamente que qualquer dos lados fosse levado a sentir-se ameaçado ao ponto de perder a cabeça e carregar no botão. E agora andam a brincar com o fogo, testando até onde irá o sangue-frio e o juízo de alguém que eles próprios classificam como louco e assassino. Quem são os loucos, então?


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

No “Fórum TSF”, discutindo-se o envio de armas de longo alcance para Kiev, com a finalidade de serem utilizadas contra território russo, e as possíveis represálias de Moscovo a essa escalada da guerra, um ouvinte, corajosamente sentado na sua secretária, opinava, seguro, que nada havia a temer: mesmo que Putin levasse avante a sua ameaça de recorrer a armas nucleares, e se bem que o arsenal russo seja o maior do mundo, a superioridade tecnológica ocidental garantiria a vitória final. Uma douta opinião, por muitos partilhada, mas que assenta em duas presunções, uma abusiva, a outra simplesmente idiota. A presunção abusiva é a habitual, a de que cada vez que Putin abre a boca está a ameaçar com armas nucleares. Curiosamente, nunca o fez, pelo menos explicitamente, mas são sempre os media e os dirigentes ocidentais que põem a ameaça nuclear na boca dele: ou porque lhes interessa para efeitos de propagada ou porque acham mesmo, e temem, que essa possa ser a resposta fatal a cada novo passo do engajamento da NATO na guerra da Ucrânia. O que Putin disse desta vez foi que o fornecimento de mísseis de longo alcance a Kiev por parte de países membros da NATO, acompanhado da licença do seu uso contra território russo, equivaleria a uma declaração de guerra da NATO à Rússia, a qual “acarretaria consequências”. Sem perder tempo, essas “consequências”, tal como no passado, foram imediatamente traduzidas pela ameaça de utilização da arma nuclear. Quanto à presunção simplesmente idiota do ouvinte da TSF, ela consiste em imaginar que uma guerra nuclear na Europa, entre a NATO e a Rússia, se limitaria ao território da Ucrânia e que dela restariam vencedores e vencidos.

Como é que chegámos aqui, a este patamar de insanidade geral, com os nossos governantes a acumularem passos cada vez mais próximos do caminho de uma terceira guerra mundial, sem que os povos sejam esclarecidos e consultados? Que Putin o faça com o seu povo, ninguém estranha: é um ditador. Mas, e as democracias? Ainda agora vimos o novo PM inglês, o trabalhista Keir Starmer, correr a Washington para suplicar a Biden que junte os ATACMS americanos aos Storm Shadow ingleses e aos mísseis franceses para uma tempestade de fogo sobre os céus da Rússia. Acrescentou que se trata apenas de “ajudar a Ucrânia a enfrentar o inverno” e a conseguir prosseguir a guerra em pé de igualdade. O louco não só quer continuar a guerra sem fim à vista como ainda acredita, ou finge acreditar, que a Ucrânia pode vencer a guerra, mesmo quando já não dispõe de soldados que queiram combater e civis que queiram continuar a viver debaixo de bombardeamentos e escombros. Como disse o Presidente mexicano, López Obrador, a mensagem do Ocidente para Kiev continua a ser “vamos continuar a guerra, com as nossas armas e os vossos mortos”. No que à Inglaterra respeita, esta tem sido, aliás, uma política consequente e consensual: foi o antigo PM Boris Johnson quem, ao segundo mês de guerra, foi expressamente a Kiev dizer a Zelensky que não assinasse o acordo de paz com a Rússia, já negociado em Ancara, pois que era possível correr com a Rússia da Ucrânia à força, com os meios que os países da NATO poriam à sua disposição. O mesmo Boris Johnson que depois de sair de Downing Street se dedicou a correr mundo dando conferências sumptuosamente pagas para defender a continuação da guerra, onde os ucranianos combatiam em defesa das propostas e dos honorários dele… Mais tarde, foi o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin, quem foi a Kiev reforçar a mensagem ocidental, explicitando que o objectivo final da guerra da Ucrânia não era apenas correr com os russos de lá, mas enfraquecê-los de tal maneira que de futuro não mais se atrevessem a aventuras militares: fora de combate.

Saiba mais aqui

 

Nesta estratégia de tudo pela guerra, nada pela paz, a Inglaterra andou sempre um passo à frente dos Estados Unidos, mas, com a surpreendente colaboração de Macron, foram conseguindo arrastar Biden, hesitando sempre primeiro, acabando por aceitar depois: conselheiros militares, partilha de informações sensíveis, sistemas de mísseis, tanques de última geração, F-16 e — é só esperar uns dias — os mísseis de longo alcance para atacar território russo. Tudo o que Zelensky tem pedido, mais tarde ou mais cedo, tem obtido. Só lhe falta, e já o lamentou, não dispor de armas nucleares — o que é uma ironia histórica, pois que, quando a Rússia deu a independência à Ucrânia, a grande preocupação ocidental foi justamente que Moscovo não deixasse para trás, em mãos ucranianas, as armas nuclea­res que ali tinha estacionadas.

A guerra da Ucrânia, evitável desde antes do início da invasão russa, tem sido a ruína da Europa: arruinamo-nos para comprar armas aos Estados Unidos e depois fornecê-las à Ucrânia (70% delas), vimos a Alemanha, o motor económico europeu, gripar devido ao fim das importações de petróleo e gás russo com a sabotagem dos oleodutos Nordstream (onde pára o inquérito, aberto há mais de ano e meio?), pagámos a guerra com inflação, com energia mais cara, com o fim do mercado importador russo, com dez passos atrás nas políticas de descarbonização, com uma descolagem brutal na competitividade da economia europeia face às dos Estados Unidos, China ou Índia: está tudo no Relatório Draghi, só não se diz porquê. Mas, graças ao alinhamento militante de uma imprensa submissa a acrítica como nunca tinha visto, a própria palavra paz tornou-se símbolo de rendição, quando não de conivência com Putin, e até, numa curiosa inversão de valores, um sinal de falta de solidariedade com os ucranianos que já morreram e os que ainda vão morrer. Um por um, todos os que ousaram tentar ou sugerir um acordo de paz para pôr fim à guerra, foram politicamente exterminados, as suas palavras deturpadas, as suas intenções vilipendiadas: Erdogan, o ex-PM israelita, Xi Jinping, o Papa Francisco, Lula da Silva, o Presidente do México, quem quer que não professasse o credo da guerra para sempre e até à vitória final. Nunca tantos se deixaram arrebanhar tão facilmente durante tanto tempo.

Para nos assustar e convencerem da sua razão, dizem-nos que se Putin não for contido, acabará sentado em Kiev, e não ficará por aí, como garantiu Kamala Harris. Nenhum dado, nenhum relatório de serviços secretos, nenhuma tese de observadores independentes, nenhuma análise séria e lógica confirma tal dedução, mas isso o que interessa? Mais depressa e com mais razões Putin concluirá que os mísseis de longo alcance disparados contra a Rússia não se deterão em objectivos militares ou estratégicos e rapidamente estarão a visar Moscovo ou São Petersburgo — e, aí sim, entrará em vigor a doutrina nuclear russa, que é conhecida e idêntica à das potências nucleares ocidentais. Então, o que esperam, o que querem estes loucos que nos governam? Atravessámos décadas de Guerra Fria a temer que qualquer estúpido acidente de percurso levasse alguém, de qualquer dos lados, a carregar no botão vermelho. A evitar cuidadosamente que qualquer dos lados fosse levado a sentir-se ameaçado ao ponto de perder a cabeça e carregar no botão. E agora andam a brincar com o fogo, testando até onde irá o sangue-frio e o juízo de alguém que eles próprios classificam como louco e assassino, como disse Biden. Quem são os loucos, então?

Outra das teses da propaganda dos discípulos da NATO é a de que qualquer negociação implicaria a cedência de territórios ucranianos. Porquê? Porque Putin o disse. Disse, sim, como Zelensky disse que exigiria a devolução da Crimeia. Qualquer negociação começa assim, com posições extremadas de ambos os lados, e o papel dos negociadores é levá-los a perceber, neste caso, que um acordo no meio termo é melhor para ambos do que uma guerra sem fim.

É muito fácil estar sentado aqui, no extremo ocidental da Europa a pregar que a NATO dispare os seus mísseis e não se preocupe com as armas nucleares de Moscovo. Mas se ele estivesse numa aldeia da Ucrânia, à mercê de bombardeamentos diários, a ver a sua casa destruída, os seus familiares e vizinhos mortos e uma vida sem outro futuro pela frente, quem sabe não acabaria a desejar a vitória de Trump nas eleições americanas? “A vida é uma história contada por um idiota”, escreveu Shakespeare.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Não é a Terceira Guerra Mundial: esta é uma Guerra de Terror

(Por Pepe Escobar, in Strategic Culture, 18/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

Cartoom from International Art

A Rússia está a travar uma guerra existencial pela sobrevivência da Pátria – o que tem feito repetidamente ao longo dos séculos.


Isto não é festa
Isto não é discoteca
Isto não é brincadeira
Não há tempo para dançar
Ou amores
Eu não tenho tempo para isso agora
.

Talking Heads, A vida em tempos de guerra


Primeiro tivemos ação: o Presidente Putin – calmo, sereno, controlado – alerta que qualquer ataque à Rússia com mísseis de longo alcance da NATO será um ato de guerra. Então tivemos reação: os ratos da NATO a correrem e a regressarem à sarjeta – à pressa. Por enquanto.

Tudo isso foi uma consequência direta do desastre de Kursk. Uma aposta desesperada. Mas o estado das coisas na guerra por procuração na Ucrânia era desesperado para a NATO. Até que ficou claro, como cristal, que tudo é basicamente irrecuperável. Então restam duas opções.

A rendição incondicional da Ucrânia, nos termos da Rússia, que equivale à completa humilhação da NATO. Ou uma escalada para uma guerra total  (itálico meu) com a Rússia.

As classes dominantes dos EUA – mas não do Reino Unido – parecem ter registado a essência da mensagem de Putin: se a NATO está em guerra com a Rússia, “então, tendo em mente a mudança na essência do conflito,  tomaremos as decisões apropriadas  em resposta às ameaças que serão colocadas sobre nós”.

O vice-ministro das Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, foi ainda mais preciso e ameaçador: “A decisão foi tomada, foi dada carta-branca e todas as indulgências foram dadas [a Kiev], então nós [Rússia] estamos prontos para tudo. E reagiremos de uma forma que não será bonita.”

A NATO está de facto em guerra com a Rússia

Para todos os efeitos práticos, a NATO já está em guerra com a Rússia: voos de reconhecimento sem escalas, ataques de alta precisão em campos de aviação na Crimeia, forçando a Frota do Mar Negro a mudar-se de Sebastopol, esses são apenas alguns exemplos. Com “permissão” para atacar até 500 km de profundidade na Rússia, e uma lista de vários alvos já submetidos por Kiev para “aprovação”, Putin declarou claramente o óbvio.

A Rússia está a travar uma guerra existencial pela sobrevivência da Pátria – o que tem feito repetidamente ao longo dos séculos. A URSS sofreu 27 milhões de baixas mas emergiu da Segunda Guerra Mundial mais forte do que nunca. Essa demonstração de força de vontade, por si só, assusta até à morte.o Ocidente coletivo.

O Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov – cuja paciência taoista parece estar a esgotar-se – acrescentou um pouco de cor ao Grande Quadro, trazendo à cena a literatura inglesa:

“ George Orwell tinha uma rica imaginação e previsão histórica. Mas, mesmo ele, não conseguia imaginar como seria um estado totalitário. Ele descreveu alguns de seus contornos, mas falhou em penetrar nas profundezas do totalitarismo que agora vemos, dentro da estrutura da ‘ordem baseada em regras’. Não tenho nada a acrescentar. Não tenho nada a acrescentar. Os actuais dirigentes de Washington, que suprimem qualquer dissidência, ultrapassaram-no. É o totalitarismo na sua forma mais pura”.

Lavrov concluiu que “eles estão historicamente condenados”. No entanto, eles não têm realmente coragem de provocar a 3ª Guerra Mundial. Covardes de marca registada só podem recorrer a uma Guerra de Terror.

Aqui estão alguns exemplos. O SVR – A Inteligência russa – descobriu um plano de Kiev para encenar um ataque de míssil russo a um hospital ou jardim-de-infância em território controlado por Kiev. Os objetivos incluíam elevar o moral – em colapso – das AFU; justificar a remoção completa de quaisquer restrições a ataques de mísseis de longo alcance dentro da Federação Russa; e atrair o apoio do Sul Global – que entende amplamente o que a Rússia está a fazer na Ucrânia. Paralelamente, se essa descomunal falsa bandeira funcionar, o Hegemon vai utilizá-la para “aumentar a pressão” (Como? Gritando a plenos pulmões?) sobre o Irão e a Coreia do Norte, cujos mísseis provavelmente seriam os supostos perpetradores da carnificina.

Por muito que isto pareça rebuscado ao nível do Estupidistão Máximo, considerando a Demência Profunda que vai de Washington e Londres a Kiev, continua a ser possível, uma vez que a NATOstão detém, de facto, a iniciativa estratégica nesta guerra. A Rússia, por seu lado, permanece passiva. É a NATO que escolhe o método, o local e o momento para os seus ataques-chave decisivos.

Outro exemplo clássico da Guerra do Terror é o facto de o grupo jihadista e subproduto da Al-Qaeda, Hayat Tahrir al-Sham, na Síria, ter recebido 75 drones de Kiev, em troca da promessa de enviar um grupo de combatentes experientes do espaço pós-soviético para o Donbass. Nada de novo na frente do terror: O espião ucraniano Kirill Budanov – adorado no Ocidente como uma espécie de James Bond ucraniano – está sempre em contacto estreito com os jihadistas em Idlib, como noticiou o jornal sírio Al-Watan.

Preparando o remix da Operação Barbarossa

Paralelamente, tivemos o Secretário de Estado Adjunto dos EUA, Kurt Campbell – o russofóbico/sinófobo que inventou o “pivot para a China” durante a primeira administração Obama – a informar os burocratas seniores da UE e da NATO sobre a cooperação militar do novo eixo do mal, como é designado pelo Império: Rússia-China-Irão.

Campbell concentrou-se sobretudo no facto de Moscovo ajudar Pequim com conhecimentos avançados sobre submarinos, mísseis e sistemas furtivos, em troca de fornecimentos chineses.

É óbvio que a gente por trás do zombie, que não consegue nem descobrir uma maneira de lamber um sorvete, não tem conhecimento da colaboração militar interligada das parcerias estratégicas Rússia-China-Irão. Cegos como mil morcegos, tal gente interpreta a partilha pela Rússia do seu conhecimento militar com a China – até então fortemente guardado -, como “um sinal de crescente imprudência”. A verdadeira história preocupante por trás dessa mistura de ignorância e pânico é que não tem origem no zombie que não consegue nem lamber um sorvete. É o “bando Biden” que está, de facto, a trabalhar arduamente para pré-definir a trajetória da guerra por procuração na Ucrânia para além de janeiro de 2025 – independentemente de quem ganhe as eleições para a Casa Branca.

A Guerra do Terror deverá ser o paradigma geral – enquanto prosseguem os preparativos para a verdadeira guerra contra a Rússia, com o horizonte fixado para 2030, de acordo com as deliberações internas da própria NATO. É nessa altura que eles acreditam que estarão no auge da sua capacidade para avançar com uma versão remisturada da Operação Barbarossa de 1941.

Esses palhaços são congenitamente incapazes de entender que Putin não faz bluff. Se não houver opção, a Rússia recorrerá (itálico meu)  ao nuclear. Ainda que, atualmente, Putin e o Conselho de Segurança – não obstante a retórica incendiária de Medvedev – estejam empenhados na difícil tarefa de encaixar, golpe após golpe, para evitar o Armagedão.

Isso exige uma paciência taoista ilimitada — partilhada por Putin, Lavrov, e Patrushev — aliada ao facto de que Putin joga o GO japonês muito melhor do que xadrez, e é um tático formidável. Putin lê o manual demente do NATOstão como se fosse um livro de histórias infantis (de facto é). No momento fatídico em que se perspetivar o ganho máximo e em toda a linha para a Rússia, Putin ordenará, por exemplo, a necessária decapitação da serpente de Kiev.

O debate incessante e acalorado sobre o uso de armas nucleares pela Rússia depende essencialmente de o Kremlin considerar um ataque de mísseis da NATO como uma ameaça existencial.

Os neoconservadores e os zio-cons, bem como os vassalos da NATO, podem desejar uma guerra nuclear – teoricamente – porque, de facto, isso geraria um despovoamento maciço. Nunca devemos esquecer que o bando do Fórum Económico Mundial/Davos quer e prega uma redução da população humana a nível mundial na ordem dos 85%. O único caminho para isso é, obviamente, uma guerra nuclear. Mas a realidade é muito mais prosaica. Os cobardes neoconservadores e zio-cons – imitando o exemplo dos genocidas talmúdicos de Telavive – querem, na melhor das hipóteses, usar a ameaça de uma guerra nuclear para intimidar especialmente a parceria estratégica Rússia-China.

Em contrapartida, Putin, Xi e alguns líderes selecionados da Maioria Global, como o malaio Anwar, continuam a dar provas de inteligência, integridade, paciência, previsão e humanidade. Para o Ocidente coletivo e as suas elites políticas e bancárias terrivelmente medíocres, o que interessa é sempre o dinheiro e os lucros. Bem, isso também pode estar prestes a mudar drasticamente a 22 de outubro, em Kazan, na cimeira dos BRICS – quando deverão ser anunciados passos importantes para a construção de um mundo pós-unilateral.

O assunto do momento em Moscovo

Em Moscovo, há uma discussão generalizada sobre a forma de pôr fim à guerra por procuração na Ucrânia. A paciência taoista de Putin é fortemente criticada – não necessariamente por observadores informados com o conhecimento interno mais completo da geopolítica. Os críticos não compreendem que Washington nunca aceitará as principais exigências russas. Paralelamente, quando se trata da desnazificação total da Ucrânia, Moscovo acaba já por não se contentar com a existência de um mero regime “amigável” em Kiev.

Parece haver um consenso de que o Ocidente coletivo não reconhecerá de forma alguma a soberania da Rússia sobre a Crimeia, bem como tudo o que foi conquistado nos campos de batalha de Novorossiya. No final, a principal evidência é que todos os detalhes do plano de negociação da Rússia serão decididos por Putin. E eles  mudam a toda a hora. O que ele propôs – de forma bastante generosa – na véspera daquela patética cimeira de paz na Suíça, em junho, já não está em cima da mesa depois de Kursk.

Tudo vai depender, mais uma vez, do que acontecer no campo de batalha. Se – ou melhor, quando – a frente ucraniana se desmoronar, a piada hoje recorrente em Moscovo ganhará atualidade: “Pedro [o Grande] e Catarina [a Grande] estão à espera”. Bem, já não estarão à espera, porque estes foram os Grandes que incorporaram na Rússia, de facto, o que é o leste e o sul da Ucrânia.

E isso selará a humilhação cósmica da NATO. Daí a perpetuação do Plano B: nada de 3ª Guerra Mundial, mas uma implacável Guerra de Terror.

Fonte aqui.


Não, o Serviço Nacional de Saúde não é um caos

(Por José Gabriel, in Facebook, 17/09/2024, revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

“Ao princípio era o Caos, a Noite, o negro Érebo…”, conta-nos Hesíodo, ao descrever a autocriação do Mundo. O Caos é, assim, a realidade primordial, o infinito e escuro abismo, o indeterminado, no interior do qual tudo se gerará por um processo a que os biólogos chamariam mitose, já que é um processo assexuado, por cisão de elementos, sendo que o Caos poderia ser considerado uma potência divina andrógina, da qual emergirão, numa elegante, poética – e dialética – sucessão as potências divinas primeiras – Gaia, Tártaros, Eros, Anteros –  da interação das quais toda a realidade devirá – incluindo os deuses, que só no final deste processo têm direito à existência, não tendo, portanto, nenhum papel nesta história.

Muitos séculos mais tarde, o poeta romano Ovídio, com aquele despachado espírito latino, identificou a noção de Caos com confusão e desordem, dando ao conceito diferente sentido e compreensão do que se encontra na complexa teia narrativa da Teogonia do poeta grego.

E a noção lá se foi degradando, como se o mito das idades, também narrado por Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias – a Idade do Ouro, a Idade da Prata, a Idade do Bronze, a Idade dos Heróis e a atual, Idade do Ferro; atual para o poeta, já que, passados todos estes séculos, nós podíamos, pelo menos ao ver a nossa televisão, acrescentar-lhe a Idade dos Calhaus – ganhasse nova razão. E assim, desde o divino Hesíodo, passando pelo descuidado Ovídio, aos comentadores, produtores de notícias, fabricantes de percepções p’ró povo, a beleza e a grandiosidade da inicial ideia de Caos, foi-se transformando em caos, dispositivo rasca de manipulação de consciências ao serviço de quem mais pagar aos seus titereiros.

Que bizarro percurso argumentativo é este que aqui percorres, descuidado José? – perguntareis.

Eu explico. Depois de ouvir, em vários canais de notícias televisivos, a palavra caos aplicada ao Serviço Nacional de Saúde, e constatando que os métodos de montagem de notícias e linguajar narrativo não diferem muito do que já víamos aquando do governo anterior, notamos que alguma coisa está a decompor-se, já que o cheiro não engana.  Quer dizer: parece que a alguém interessa – muito para lá do âmbito de um confronto partidário – fazer germinar na consciência dos cidadãos a noção e a convicção de que o SNS está um caos, se reduz a um caos, e que importa alguém pôr mão a esta situação. Quem? Há alguns anos, os dois partidos eleitoralmente dominantes, PS e PSD – apesar das diferenças óbvias, já que o primeiro votou a favor da fundação do SNS e o segundo votou, desde logo, contra -, argumentariam entre si qual dos dois seria capaz de tal façanha.

Mas, notem: hoje, as cloacas televisivas não poupam na adjetivação, nas mentiras, nas deformações torpes da realidade e do acontecido, mesmo com a direita no poder. Como nenhum de nós acredita que a comunicação social televisiva – e não só – o faz por escrúpulo e corajosa vontade de servir a verdade, pois há muito que a verdade é a última coisa que interessa a esta gente, forçoso é concluir que esta violenta campanha de distorção da realidade e de mentira grosseira – de onde estão sistematicamente ausentes a crítica procedente e a vontade de informar com probidade e verdade – sobre o SNS, esta brutal pressão sobre a consciência dos incautos, só tem uma explicação e ela está cada vez mais à vista: os interessados, os donos dos grandes grupos privados que sobrevoam o sector da Saúde – desde os Hospitais às seguradoras, passando por outros poderosos interessados – já não se satisfazem com a fatia que recebem do orçamento da Saúde, já não lhes chega o poder fáctico que já têm neste domínio. Já nem lhes chega o serviço dos seus mainatos ministeriais, os quais lhes vão fazendo o jeito consoante a fragilidade ou fortaleza das suas consciências – longe de mim igualá-los nas suas práticas e intenções -, lhes vão ajeitando os mecanismos de gestão e governo das Unidades de Saúde, até que os seus principais protagonistas – os seus profissionais e os seus utentes – percam complemente qualquer controlo eficaz sobre a sua direção, objetivos e funcionamento.

Numa palavra: eles já não se contentam em condicionar a ação de governos e ministros; eles querem governar e promover diretamente os seus interesses. Para isso, já têm ao seu serviço o aparelho ideológico que mora nos esgotos televisivos, os quais não se cansam de falar do tal caos sem produzir uma única notícia sobre o seu extraordinário desempenho – por vezes proezas! -, sobre a dedicação e sobre as competências que habitam nas unidades públicas de Saúde. E bem sabemos como mecanismos ideológicos de manipulação condicionam a perceção da realidade e, a partir daí, promovem comportamentos desadequados e visões do mundo distorcidas.

A manobra está a caminho. E nunca este jogo esteve tão perigoso, E não nos enganemos: a triste amostra de ministra da Saúde que agora governa não é a doença, por muito torpes que sejam algumas das suas intervenções. Ela é um sintoma. Uma verruga. De uma doença que nos pode ser, política e fisicamente, fatal.

 E não, o SNS, com todas as suas dificuldades e insuficiências não é o caos, não é um caos. Mas pode vir a ser um defunto, se quem deve cuidar não tiver a coragem que se impõe. Se os cidadãos não sacudirem a poeira da indiferença, lavarem os olhos das ilusões, endireitarem a coluna. E ouvir quem, verdadeiramente, está com eles.

Finalmente, ocorre perguntar a razão deste ódio do capital e suas metástases liberais a um sistema tão obviamente bondoso como o SNS? Os interesses, sim, são muitos milhares de milhões em causa e os gulosos bem sabem que há que sugar depressa os recursos, pois um sistema de saúde convencionado com a iniciativa  privada – para além dos casos razoáveis e já hoje praticados – é financeiramente insustentável seja para que país for.

Mas o ódio tem raízes mais profundas que o interesse e a cupidez, por muito que estas sejam determinantes. Lembrem-se de que os serviços nacionais de saúde surgiram no pós-guerra, em países da Europa do Norte, na altura governados por coligações e/ou acordos entre sociais-democratas e comunistas. E correspondem ao que de mais generoso e avançado havia nos projetos e pensamento político do tempo, obedecendo à mais avançada aspiração de Marx, “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”. Nenhuma outra instituição dos estados modernos se aproxima, sequer, deste nível de exigência, desta excelência ética e política. E se os cidadãos se lembrassem de aplicar este objetivo a outras realidades sociais?  Daí, suscitar ódios verdes a quem sonha apropriar-se dos recursos públicos distribuídos pelo sistema e impedir que este possa, outrossim, progredir e positivamente contaminar outros domínios do Estado. Daí, a urgência de as populações defenderem o SNS a todo o custo. Quem não percebeu que esta é uma questão de vida ou de morte, acorde. Antes que seja tarde.