Fogos, eucaliptos, comentadores e políticos

(Raquel Varela, in Facebook, 17/09/2024)


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Já cá faltavam comentadores a explicar que as “propriedades das celuloses não ardem”. Como? Ardem, e ardem sem parar. O país todo é das celuloses. Que têm meia dúzia de propriedades suas, em zonas muito produtivas, e planas, com muita água e onde compensa ter, por exemplo, guardas florestais próprios. As outras propriedades das celuloses – onde há mais riscos – são o país restante, quase todo, da serra do Algarve onde o eucalipto seca tudo, ao pinhal interior, onde nenhum bombeiro chega. Em que as celuloses não estão para arriscar, compram a famílias pequenas a madeira, que são juridicamente proprietárias mas de facto quem controla o mercado e a quem vendem é as celuloses.

As famílias arriscam porque quando não arde dá para, ao fim de 9 anos, pagar os estudos de um filho. Se trabalharem a vida toda muitos não conseguem pagar os mesmos estudos. As celuloses é que fixam o preço, escoam o produto, determinam a taxa de lucro, são um monopólio que controla governos. Nenhuma casa – repito – nenhuma casa de proprietários das celuloses está rodeada de eucaliptos. Da mesma forma que a EDP subcontrata a milhares de pequenas empresas inviáveis os serviços que antes eram da EDP, e nela se acumulam lucros e nas pequenas só custos, as celuloses subcontratam a milhares de pequenos proprietários o risco de colocar uma piscina de gasolina – é isso o eucalipto – às portas de casa.

A falta de limpeza, o clima, os poucos meios, são cerejas numa refeição fatal que se chama eucalipto. Sou filha de engenheiros florestais. O meu pai fez-nos uma lista de praias fluviais, zonas a nunca visitar entre Maio e Outubro, estradas onde não devemos passar, e já me obrigou – e bem – a sair de um turismo rural com os meus filhos porque não há bombeiros, aviões, máquinas que parem um fogo de eucalipto. Paguei e saí, sem dormir, e não havia incêndios ativos. Havia calor, baixa humidade e vento, como há em todo o Mediterrâneo desde sempre. Há pessoas na minha família que compraram o terreno do lado para tirar de lá os eucaliptos, e não ter a casa em risco.

Fiz este verão 7 mil km na Europa de comboio. Vi florestas lindas, que só dão riqueza ao fim de 30 ou 40 anos. Madeiras nobres, magníficas. Portugal é um eucaliptal, e os mortos e casas destruídas são o “normal funcionamento do mercado”. As lágrimas de Ursula Von der Leyen são de uma UE que alimenta a monocultura ao mesmo tempo que finge chorar as tragédias. Ah! Quase ia esquecendo – na minha viagem, passei pelo castelo, na Alemanha, de um onde vem a família Von der Leyen – um lugar magnífico, rodeado de carvalhos e vinha.


(Raquel Varela, in Facebook, 18/09/2024)

O Governo do PSD, namorado pela extrema-direita, veio explicar que vai ter mão firme contra os pirómanos e resolver os incêndios com mais polícia. Depois de o governo PS ter explicado em Pedrógão que a culpa era do mato e que ia resolver tudo com uma máquina de cortar mato. Só há uma palavra proibida – eucalipto. Digam comigo: não se pode dizer a palavra eucalipto.

Terá passado despercebido ao governo, já que a nós cidadãos não passou, que só ardeu eucalipto, porque não há mais nada para arder. Que o eucalipto é o pirómano, o criminoso, que joga novos fogos a km de distância. E que a polícia não estava lá para cumprir os mínimos de segurança, encerrando estradas. São centenas as imagens de estradas e autoestradas a arder e que se não fosse o Google Maps e o Waze, e a desobediência das pessoas, teríamos provavelmente um drama ainda pior do que o de Pedrogão. As imagens são dos carros a ser abandonados, a arder, são das pessoas a vir em sentido contrário em plena autoestrada a fugir, e nem um polícia se vê. Um!

Mas o Governo anuncia mais uma taskforce para mais polícias. Vou dizer-vos, com sinceridade, depois de um mês fora daqui, em silêncio, só a ver, fazer e falar de coisas bonitas, no meio de florestas lindas, que o que mais me incomoda é que a lógica do capitalismo – palavra proibida, como o eucalipto -, nos empurra todos os dias para falar de propostas absurdos, em debate com medíocres. De cada vez que procuramos dar um salto e pensar, somos empurrados pela ignorância alheia para baixo.

Queremos falar de um país com cidades pequenas, ligadas por comboio, redes de bicicleta ao longo de rios, agricultura biológica, parques naturais, floresta diversificada, e temos que responder a nada. Esse é um dos grandes truques deste sequestro intelectual que vivemos.

Estamos sempre a responder a nada. Não há um diagnóstico correto, uma ideia consistente, planeamento por anos de nada, já que o mercado, os acionistas, querem retorno a meses, sobra um caos e um terramoto de propaganda.

TEDx em vez de política. Um dia isto dá a volta, há muita gente farta, indignada, e que sabe planear e pensar o país, na educação, na saúde, no território, nos transportes. Parte do problema dos média, sem contraditório, é fazer-nos pensar que não há, perdemos assim a esperança. Mas há. São urgentes formas de jornais, que venham dos sindicatos e das comissões de trabalhadores, das associações, que abram uma nova esfera pública, que dê espaço, com contraditório, a quem pensa a sério o país e acredita nele.

Biden e NATO efectivamente declaram guerra à Rússia

(Por Stephen Bryen, in Blog República Digital, 18/09/2024)

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A verdade é que Washington quer retomar as propostas de Zelensky de ataques profundos em território russo, porque a Ucrânia está perdendo a guerra e pode ser derrotada antes mesmo das eleições presidenciais de Novembro.

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Killary inaugura uma nova fase na repressão do povo americano

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 17/09/2024, revisão da Estátua)

É sempre o repressor quem decide o motivo da repressão. Sempre.


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Hillary Clinton, num tête a tête com Rachel Medow (programa Rachel One-to-One na MSNBC) que assume bem o posto de rainha dos propagandistas russófobos e principal propagadora mainstream do infame “russiagate”, vem admitir a promoção de acusações criminais contra americanos que propaguem “desinformação” russa.

A própria Hillary Clinton tem enormes responsabilidades no que a desinformação diz respeito, diga-se de passagem, uma vez que foi no seu círculo pessoal que se projetou o “russiagate” e toda uma estratégia de diabolização da Rússia, visando separar a União Europeia desta potência euroasiática. Embora, à data, não fosse ainda tão transparente, esta estratégia de acusação à Federação Russa de querer “interferir” nas democracias ocidentais – como se os EUA não fossem monopolistas disso mesmo – representava já o resultado do que podemos chamar de “novo normal” político ideológico: a “normalidade” em que os partidos do centro se unem numa só massa monolítica e coesa de princípios, valores e objectivos. À data, já o Partido Democrata representava Wall Street e todo o complexo militar industrial, como o faziam os mais fervorosos néocons, que muita gente pensava estarem apenas no Partido republicano.

O apoio de figuras como Dick Cheney, acompanhada de um apoio massivo de 238 néocons, antigos staffers de George W. Bush, McCain e Mitt Romney, referindo Kamala Harris como a “salvadora da democracia”, demonstram claramente a abrangência do partido democrata junto da classe dominante. Não se deixem enganar; para esta gente, muitos deles genocidas da pior espécie, responsáveis por crimes como o das “armas de destruição massiva” no Iraque, responsáveis pelas guerras eternas como no Afeganistão, não se trata de “salvar a democracia”. Trata-se de prosseguir o plano de recuperação da hegemonia mundial. Com tudo o que essa recuperação possa significar. Trump, para já, ameaça esse projeto, pretendendo virar-se para dentro. Veremos o que fará quando constatar que nada do que possa fazer travará a perda do domínio norte-americano no mundo.

Ora, se existe alguém com culpa na escalada que está a destruir a europa, essa pessoa é Hillary Clinton. No reinado do seu marido (Bill Clinton), entre saxofones e adultérios, o Partido Democrata não apenas se vendeu a Wall Street, iniciando um processo em que com o tempo passou a recolher tantos donativos corporativos (PACS’s) como o partido Republicano, demonstrando o jogo da generalidade das corporações nos dois tabuleiros. Só o fazem porque acreditam que os dois respondem aos seus interesses. A verdade é que o partido democrata recolhe donativos individuais de importantes bilionários como Michael Bloomberg.

O papel do Partido Democrata como instrumento de domínio antidemocrático sofre súbita importância na era Clinton, como quando, em 1996, destruiu a Lei da Imprensa de Roosevelt (Telecomunications Act), que impedia o que aconteceu depois e que constatamos hoje: a concentração da média mainstream em meia dúzia de grandes conglomerados que se cartelizam e criam uma narrativa comum. Tudo sob a bandeira da “liberalização dos mercados dos média”, que acabou com as operadoras mais pequenas, acusadas de terem “monopólios locais”. A desregulação conduziu ao domínio dos média por meia dúzia de grandes conglomerados.

Ou seja, foi com Hillary e o Partido Democrata e depois com o “Patriot Act” já com Bush Jr, que os EUA perderam a liberdade de imprensa, a privacidade e a liberdade de oposição, abrindo a porta à tortura e à vigilância massiva respaldada na “luta contra o terror”. Foi a era da legitimação do poder através da vitimização.

À data, o Partido Democrata dividiu-se, mas ainda tinha 45 resistentes à lógica da guerra eterna. Quando chegámos a 2022 e à Ucrânia, este número já se havia reduzido substancialmente. Hoje, é mais comum assistirmos a resistências do lado republicano, do que do lado democrata, para se ter uma noção do quão corrompido foi o Comité Nacional Democrata.

Provando que a repressão nunca começa com a cabeça no cepo, sendo antes resultado de um processo em escalada, que visa responder a uma crise, também nos EUA – e na Europa – a perda da elasticidade democrática e o consequente endurecimento ideológico tem sido progressivos. Novamente, tal como com o 9/11 de 2001, os EUA tentaram com a Ucrânia uma nova forma de legitimação através da vitimização. Contudo, falta aos EUA o capital mundial de confiança, cuja degradação acompanha a perda de influência, respondendo a crescente repressão à perda da hegemonia mundial. A repressão é assim um “tocar a reunir” para impedir a progressão da crise.

A crescente desagregação do dólar – que nem os próprios já conseguem disfarçar – , com Trump a propor uma medida (100% em produtos que não usem dólar), aliada à crescente descredibilização e desmontagem, por cada vez mais países, do seu soft power (média, Think Tanks e Academia), bem como o surgimento de um competidor de luxo, que assume o lugar que sempre teve na história, deslocando, novamente, para a Ásia, o centro da economia mundial, traz aos EUA uma realidade em que, caso percam a Europa e o domínio que sobre ela têm, não apenas ficam isolados da “heartland” (Emanuel Todd pensava que tal iria acontecer na primeira década do século XXI, mas o wokismo e a concentração republicana e democrata num bloco de poder unificado conseguiram mitigar a situação por algum tempo), como ficam relegados ao seu pior terror, a descida para um patamar de potência regional.

Para já, não surge uma única notícia na imprensa ocidental mainstream sobre a adoção do BRICS Pay ou do facto de, em Outubro, em Kazan, 126 países irem discutir o fim da sua dependência do dólar. Nestes países concentra-se 85% da população mundial. Se isto não é notícia suficiente para um simples rodapé… A inocuidade ou a vantagem sistémica, passaram a ser a característica fundamental da atividade noticiosa.

Não obstante todos estes desenvolvimentos e a sua previsibilidade já em 2022, infelizmente, apenas uma percentagem ínfima de pessoas viu em que consistia, realmente, o conflito ucraniano. Historicamente, a relação euroasiática constitui o pior das ameaças para o hegemonismo dos EUA. A Rússia e as relações entre a Europa ocidental e o Leste, são a peça chave. Há que separá-las. Contudo, a separação humana não resiste à conexão geográfica e, acima de tudo, à mútua necessidade. Essas serão, a meu ver, inexoráveis. Até ao domínio ocidental, pela força bruta, a partir dos séculos XV-XVI, o mundo havia sido sempre multipolar. É para lá que está a voltar, novamente.

Para o impedir, a estratégia assenta, ainda e sempre, na diabolização e isolamento da Rússia. Há que impedir a conexão intercontinental Europa, Ásia, África. Face à incapacidade e à impossibilidade de tudo caracterizar como “propaganda do Kremlin” quando os factos não se ajeitam à narrativa oficial, Hillary propõe agora uma nova fase no controlo das mentes. Também os nazis perceberam a importância deste vasto país para o domínio do mundo.

Questionei-me muitas vezes quando começariam, no Ocidente, a prender as pessoas por falarem “propaganda”, agora do Kremlin, amanhã de qualquer outra coisa considerada inoportuna, para quem comanda. Como num qualquer estado fascista. Já o tinha escrito diversas vezes, alertando para o facto de que as características materiais (económicas, políticas e sociais), do regime em que vivemos, constituírem o tipo de realidade que enforma os regimes que se podem designar por “fascistas”: o momento mais alto do nível de concentração de riqueza numa oligarquia dominante, que usa o poder adquirido para acelerar ainda mais a concentração e que perante a resistência das massas à destruição do seu bem-estar, usa a repressão para as conter.

Os mais incautos, vendidos, reacionários ou iludidos, incapazes de reconhecer na História o seu movimento, a relação dialética entre realidade e ação humana, acreditavam que o fascismo não voltaria. Que vivíamos em democracia e que, votando, tudo estaria garantido. No fascismo vota-se, nas constituições fascistas também se fala em democracia. O fascismo é apenas uma fase, mais agressiva, do processo de concentração da riqueza, com os efeitos que tal provoca na vida política, enquanto espelho das relações sociais que lhe estão subjacentes. Alguns ainda acham que vivem na mesma fase do regime em que viviam há 20 anos, mesmo que a estrutura de redistribuição da riqueza se tenha alterado radicalmente. Como se a concentração de maior poder, numa classe dominante – e com cada vez maior domínio – não mudasse nada na política.

Como se a política não fosse o espelho das relações materiais que estão na sua origem! A fase fascista inaugura também a fase mais grave da crise capitalista, reproduzida, neste nosso tempo, na crise da hegemonia do sistema económico neoliberal liderado pelos EUA. Como muito bem demonstra Mathew C. Klein e Michael Pettis no seu excelente livro “Trade Wars are Class Wars”, a guerra comercial EUA-China é também o resultado da luta de classes.

Hillary vem dar o mote político – e teórico – para o início do processo repressivo em que se agrava a luta do povo contra a classe dominante. O controlo dos média, censura nas redes sociais, vigilância em massa de cada telefone, computador, televisão ou eletrodoméstico, tudo a fluir para as redes neuronais da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA), fazendo o profiling, predizendo e prevendo comportamentos, não foram suficientes para impedir a degradação do “full spectrum dominance, doutrina que desde a segunda guerra mundial constituía o guião da “liderança mundial dos EUA”.

Depois de Jack Rubin culpar a RT pelo falhanço do projeto ucraniano (que melhores assunções da artificialidade desse conflito queriam?), vem agora Killary propor o próximo passo: prender os que dizem a verdade! Os EUA falham em criar uma falsa Palestina (Ucrânia) e um falso Israel (Federação Russa), prevendo para a Rússia o tratamento mundial que impedem para Israel, e culpam a RT. A culpa não é da realidade, não é da falácia da narrativa. A culpa é de quem a desmonta.

Poderiam dizer-me “ah! mas é propaganda do Kremlin”! Mas quem decide o que é ou não é “propaganda do Kremlin”? Quando os comunistas, progressistas e outros democratas, durante a noite fascista denunciavam a repressão, “tratava-se de propaganda comunista”, quando denunciavam a pobreza, a fome, a miséria e o analfabetismo “era propaganda comunista”. É sempre o repressor quem decide o motivo da repressão. Sempre.

E nenhuma repressão acontece sem motivo, de forma injustificada ou gratuita. Todos assumem as melhores intenções do mundo, quando respondem, a uma crise profunda, com os instrumentos da repressão. E os EUA são quem melhor narra as suas “boas intenções” …

Contudo, como diz o povo: “De boas intenções está o inferno cheio”.

Fonte aqui.