Israel versus Irão: a Rússia entrou no jogo

(Por M.K. Bhadrakumar, in Outras Palavras, 10/10/2024, revisão da Estátua)

2018: Putin encontra-se, em Teerão, com então presidente do país, Hasan Rohani

Um grande analista do Médio Oriente sustenta: os mísseis iranianos já são capazes de penetrar a “cortina de ferro” israelita. Há indícios claros de que Moscovo está apoiando Teerão – e de que ambos firmarão, em breve, um pacto de defesa mútua.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Israel, aparentemente, pôs na gaveta o seu ataque planeado contra o Irão. Uma combinação de circunstâncias pode estar na base desse recuo, o que desmente a retórica intensa de Telavive, de que estava pronta para agir.

Apesar da brilhante gestão dos média por Israel, surgiram relatos de que o ataque de mísseis iranianos a 1 de outubro foi um sucesso espetacular. Foi uma demonstração da capacidade de dissuasão do Irão para esmagar Israel, se necessário. O fracasso dos EUA em intercetar os mísseis hipersónicos iranianos trouxe uma mensagem própria. O Irão afirma que 90% dos seus mísseis penetraram nos sistemas de defesa aérea de Israel.

Will Schryver, engenheiro técnico e comentador de segurança, escreveu no X: “Não entendo como, alguém que viu os muitos vídeos dos ataques de mísseis iranianos contra Israel, pode não reconhecer e não admitir que foi uma demonstração impressionante das capacidades iranianas. Os mísseis balísticos do Irão ignoraram as defesas aéreas dos EUA/Israel e realizaram vários ataques com grandes ogivas contra alvos militares israelitas.”

Evidentemente, na situação de pânico que se seguiu em Israel, até 4 de outubro ainda havia indecisão sobre qual tipo de resposta dar ao Irão. Como disse o presidente dos EUA, Joe Biden, “se eu estivesse no lugar deles [israelitas], estaria a pensar em outras alternativas além de atacar campos de petróleo”. Esta declaração foi feita numa rara aparição na sala de imprensa da Casa Branca, um dia depois das autoridades israelitas dizerem que uma “retaliação significativa” estava iminente.

Biden acrescentou que os israelitas “ainda não concluíram como — e o que vão fazer” em retaliação. Biden também disse aos repórteres que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deveria lembrar-se do apoio dos EUA a Israel ao decidir os próximos passos. Também afirmou que estava a tentar mobilizar o mundo para evitar uma guerra total no Médio Oriente.

Nesta pantomina, é mais seguro acreditar em Biden, já que a verdade é que, sem a ajuda prática e financeira — e a intervenção direta — dos EUA, Israel simplesmente não tem fôlego para enfrentar o Irão. O dominío regional de Israel restringe-se a executar planos de assassinato e a atacar civis desarmados.

Mas, mesmo aqui, é discutível o quão autossuficiente Israel é, em comparação com o Irão. Surgiram relatos de que foi a nova inteligência tecnológica dos EUA que localizou o paradeiro do líder do Hezbollah, Sayyed Nasrallah, o qual foi transmitido a Israel, levando ao seu assassinato.

Curiosamente, o diretor da CIA, William Burns, interveio para refutar os rumores de que o Irão tenha conduzido um teste nuclear no último sábado, 5 de outubro. Falando numa conferência de segurança na segunda-feira, Burns afirmou que os EUA monitoraram de perto a atividade nuclear do Irão em busca de qualquer sinal de que o país esteja acelerando em direção a uma bomba nuclear. “Não vemos evidências hoje de que tal decisão tenha sido tomada. Observamos isso muito cuidadosamente”, disse ele. Burns desfez, assim, suavemente, outro pretexto para atacar o Irão.

Um fator crítico que obrigou Israel/EUA a adiar qualquer ataque ao Irão foi o severo aviso de Teerão de que qualquer ataque à sua infraestrutura por Israel seria respondido com uma reação ainda mais dura. “Ao responder, não hesitamos nem agimos precipitadamente”, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, que, aliás, fez uma viagem ao Líbano e à Síria no fim de semana para enviar uma “mensagem” desafiadora a Israel — como ele afirmou — de que “o Irão apoiou fortemente a resistência e sempre a apoiará.”

No início de 4 de outubro, o Líder Supremo, Aiatola Ali Khamenei, usou um raro sermão público para defender o ataque de mísseis do Irão contra Israel, dizendo que foi “legítimo e legal” e que, “se necessário”, Teerão o faria novamente. Falando em persa e árabe durante as orações de sexta-feira em Teerão, Khamenei disse que o Irão e o Eixo da Resistência não recuarão diante de Israel. O Irão não “procrastinará nem agirá apressadamente ao cumprir seu dever” de confrontar Israel, declarou Khamenei.

No entanto, o que desmotiva os israelitas e causa desconforto nos EUA é outra coisa — a crescente sombra da Rússia sobre o cenário do Médio Oriente.

Analistas militares norte-americanos divulgaram que certas armas altamente avançadas da Rússia foram transferidas para o Irão nas últimas semanas, apoiadas pelo envio de pessoal militar russo para operar esses sistemas, incluindo mísseis S-400. Há especulações de que o secretário do Conselho de Segurança da Rússia (ex-ministro da Defesa) Sergei Shoigu fez recentemente duas visitas secretas ao Irão.

Aparentemente, Moscovo também respondeu ao pedido iraniano do envio de dados de satélite, relativos a alvos israelitas, para realizarem o seu ataque de mísseis a 1 de outubro. A Rússia também forneceu ao Irão o sistema de guerra eletrónica de longo alcance “Murmansk-BN”. O sistema “Murmansk-BN” é um poderoso sistema de guerra eletrónica, capaz de bloquear e intercetar sinais de rádio inimigos, GPS, comunicações, satélites e outros sistemas eletrónicos até 5.000 km de distância, neutralizando munições “inteligentes” e sistemas de drones — e é capaz de interromper sistemas de comunicação via satélite de alta frequência pertencentes aos EUA e à NATO.

Sem dúvida, o envolvimento russo no impasse do Irão com Israel é potencialmente um divisor de águas. Do ponto de vista dos EUA, isso levanta o espectro preocupante de um confronto direto com a Rússia, algo que Washington quer evitar.

É nesse cenário que agências de notícias oficiais russas citaram o assessor presidencial Yury Ushakov, no domingo, afirmando que Putin planeia encontrar-se com o seu homólogo iraniano, Masud Pezeshkian, na capital do Turquemenistão, Ashgabat, em 11 de outubro. Ushakov não elaborou sobre a reunião. De facto, isso é uma surpresa, já que os dois líderes programaram encontrar-se novamente na cúpula do BRICS, na cidade russa de Kazan, de 22 a 24 de outubro.

Claro, os iranianos também estão sendo discretos. Tanto Moscovo quanto Teerão anunciaram que os seus presidentes visitariam Ashgabat em 11 de outubro para participar numa cerimónia marcando o 300º aniversário de nascimento do poeta e pensador turcomano Magtymguly Pyragy. Fumaça e espelhos! (aqui e aqui).

É totalmente concebível que, no meio das crescentes tensões regionais, Moscovo e Teerão possam ter pensado em antecipar a assinatura formal do pacto de defesa russo-iraniano, originalmente programado para acontecer em Kazan.

Se for assim, o evento de sexta-feira será semelhante à visita não programada do então ministro das Relações Exteriores soviético, Andrei Gromyko, a Nova Deli para a assinatura do histórico Tratado de Paz, Amizade e Cooperação entre a Índia e a URSS, em 9 de agosto de 1971.

Curiosamente, Ushakov acrescentou que Putin não tem planos de se encontrar com Netanyahu. Putin ainda não respondeu a um pedido de Netanyahu para uma conversa telefónica, feito há cinco dias. Uma lenda que Netanyahu criou, nos últimos anos, para impressionar o seu público doméstico (e confundir as ruas árabes) — de que ele tinha um relacionamento especial com Putin — está a desmoronar-se.

Por outro lado, ao marcar uma reunião urgente em Ashgabat — na verdade, o presidente do Turquemenistão, Serdar Berdimuhamedov, esteve em Moscovo apenas na segunda-feira/terça-feira para uma visita de trabalho — o Kremlin está deixando claro para Washington e Telavive que Moscovo está irrevogavelmente alinhado com Teerão e ajudará este último, não importa o que for necessário. (Veja, no meu blog outro artigo, “Crise na Ásia Ocidental leva Biden a quebrar o gelo com Putin”, 5/10/24, aqui).

A história não estará a repetir-se? O Tratado Indo-Soviético de 1971 foi o tratado internacional mais consequente assinado pela Índia desde sua independência. Não foi uma aliança militar. Mas a União Soviética aumentou a capacidade militar da Índia para uma guerra iminente e criou espaço para que o país fortalecesse as bases de sua autonomia estratégica e da sua capacidade de ação independente.

Fonte aqui.


Médio Oriente — Um claro momento de exposição da natureza humana

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/10/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O aniversário dos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, um sangrento ataque de guerrilheiros do Hamas a uma povoação do sistema de ocupação do Estado de Israel do território palestiniano serviu, como se esperava, para a montagem de uma gigantesca campanha de apoio à política que desde a sua fundação o Estado de Israel conduz na Palestina .

Para erigir Israel como mártir e vítima valeu tudo: Inventar a História, esquecer o passado, manipular factos do presente. A linha central da mistificação da justificação dos atos assenta na afirmação do direito “à defesa de Israel” e da sua existência. Na realidade o Estado de Israel é uma entidade política criada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial e por sua conveniência. O direito à defesa de Israel é o mesmo de qualquer guarnição romana nos confins do império. Tem o direito a defender-se correspondente à força de que dispuser ou lhe for proporcionada. Quanto ao direito à existência do Estado de Israel ele resulta do poder de potências exteriores imporem um bastião armado num ponto chave de domínio de um território. Em resumo, o atual Israel corresponde ao Krak des Chevaliers do tempo das cruzadas, uma fortaleza da Ordem dos Hospitalários na Síria e que serviu como centro de administração e base militar, permitindo aos europeus dominar a ampla região do Médio Oriente.

Desde a ocupação do Krak pelos cruzados da ordem dos Hospitalários, 1142, esta fortaleza foi o centro do conflito entre os cruzados e os árabes com vitórias e derrotas. Na primeira metade do século XIII, enquanto outras fortalezas dos cruzados foram ocupadas, o Krak e sua guarnição permaneceram na sua posse até 1271, sendo a única área importante sob seu controlo. A proximidade da fortaleza dos territórios muçulmanos permitiu-lhe assumir um papel ofensivo como uma base a partir da qual áreas vizinhas poderiam ser atacadas. Em 1250 um exército muçulmano devastou o campo ao redor do castelo. Em 1268, o mestre da ordem, Hugo Revel, informou os superiores que a área estava deserta e que a propriedade do Krak no Reino de Jerusalém já valia pouco. O direito do Krak a existir extinguiu-se com a perda de valor para a estratégia do Ocidente, que iria concentrar-se no seu desenvolvimento e na expansão marítima.

Krak des Chevaliers, como atualmente Israel, são exemplos clássicos de perturbadores estratégicos. Os pregadores da nova história têm inventado um outro, o Irão, agora o responsável pelo genocídio israelita na Palestina e pela invasão do Líbano. O Irão faz parte da história do Médio Oriente desde sempre. Para não ir aos tempos bíblicos, o Médio Oriente e o Norte de África foram dominados por dois grandes impérios, o império persa e o império otomano. Quem não faz parte da história, a não ser como interventor externo, são Israel, o império britânico e o seu herdeiro, os Estados Unidos.

Durante a antiguidade, o império persa englobava os territórios desde a atual Turquia até o Punjab, incluindo o Egito. Do século VII até ao século XI a Pérsia foi anexada pelo império árabe e a partir de então o islamismo passou a ser a religião oficial, mas os iranianos adotaram a versão xiita como forma de reação nacionalista, já que o império árabe seguia a versão sunita. Da mesma forma, a língua persa foi mantida em oposição à língua árabe. Mais tarde a Pérsia vir-se-ia espremida entre os impérios russo na Ásia Central e britânico na Índia. Cada um destes retirou ao Irão territórios que se tornariam Azerbeijão, Quirguistão, Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão e partes do Afeganistão.

A Convenção Anglo-Russa de 1907 formalizou as esferas de influência da Rússia e do Reino Unido sobre o norte e o sul do país, respetivamente, onde a potência colonial detinha a decisão final em assuntos económicos. O Xá Cajar concedeu à Anglo-Persian Oil Company autorização para explorar e operar campos de petróleo, que começaram a produzir em 1914. Winston Churchill, que supervisionava a conversão da Marinha Real Britânica para navios de guerra movidos a petróleo, nacionalizou parcialmente a companhia antes do início da Primeira Guerra Mundial.

O atual Irão foi envolvido na Primeira Guerra Mundial devido à sua posição estratégica entre o Afeganistão e os impérios otomano, russo e britânico e ao seu petróleo. Em 1914, o Reino Unido enviou uma força militar à Mesopotâmia para negar aos otomanos o acesso aos campos de petróleo persas. A Alemanha infiltrou agentes na Pérsia para atacar os campos petrolíferos e provocar uma guerra santa contra o governo britânico na Índia. Após a I Grande Guerra o norte do Irão foi ocupado pelo general britânico William Edmund Ironside e o Reino Unido assumiu o controlo dos campos petrolíferos.

Em 1953, após a nacionalização da Anglo-American Oil Company surgiu um conflito entre o xá (pró-americano) e o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh (nacionalista), que levou à deposição e prisão deste num golpe militar realizado com a ajuda dos serviços secretos do Reino Unido e dos Estados Unidos. O xá Reza Pahlevi, que havia fugido do país, retornou e assumiu poderes ditatoriais.

Os laços militares com os Estados Unidos aprofundaram-se em 1971, quando os norte-americanos concederam ao Irão crédito para a compra de armas no valor de um bilião de dólares.

Os Estados Unidos são o herdeiro do império britânico e utilizam Israel como base de ataque na sua estratégia de domínio do Irão. É esta a causa da guerra de Israel contra todos os seus vizinhos e é a recusa em serem submetidos que leva os persas ou iranianos a atacar Israel, que vêm como um factótum americano.

Na década de 80 os interesses no domínio da região do Médio Oriente materializaram-se na guerra Irão-Iraque, oficialmente por razões de definição de fronteiras na região do Shatt al-Arab, onde os rios Tigre e Eufrates se encontram e desaguam no Golfo Pérsico e com um fundo religioso, porquanto o Irão seguia a versão xiita do islamismo, o Iraque era de maioria xiita, mas com um governo sunita e secular. Além disso, o Iraque possuía uma minoria curda que não apoiava o governo iraquiano e, por isso, recebia apoio secreto dos iranianos. Os Estados Unidos apoiaram o Iraque, aliados à Arábia Saudita, dentro da estratégia que está em curso de domínio da versão atual do “Crescente Fértil”, o que inclui os Estados do Golfo, a Arábia Saudita, o Iraque, a Síria, o Líbano e o Egito, tendo como objetivo final o domínio do Irão. Esta estratégia replica a reconstituição do união dos antigos impérios Otomano e do Persa, o domínio do Mediterrâneo Oriental, do Mar Vermelho, do estreito de Ormuz, que permite ameaçar a Rússia e controlar o tráfego marítimo entre o Índico (Índia e China) e o Ocidente através do Canal do Suez. Israel é o pivô desta estratégia e o elemento desestabilizador que a justifica.

O apoio do Irão a vários grupos de resistência na região tem por objetivo opor-se ao domínio dos Estados Unidos que seria a continuação do domínio do império britânico e do regime do Xá Reza Pahlevi.

Durante séculos o desestabilizador da região foi o Império Britânico e desde a revolução industrial e a importância do petróleo, os Estados Unidos e as grandes companhias petrolíferas. O Irão nunca foi um desestabilizador, foi sempre uma entidade sujeita. A justificação de que a Arábia Saudita se aliou aos Estados Unidos por se sentir ameaçada pelo xiismo de Teerão é do domínio da mais despudorada desonestidade. O regime religioso da Arábia Saudita, o wahhabismo sunita, não deve nada em termos de exigência fundamentalista ao xiismo. Grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Alqaeda são expressões do radicalismo sunita. O fundamentalismo foi legitimado com a formação da dinastia saudita, no século XVIII, e institucionalizado pelo Reino da Arábia Saudita, formado em 1932, criado pelos ingleses. O fundador da dinastia saudita, Muhammad bin Saud, incorporou na sua política as ideias radicais de Wahhab. Não existe em termos de radicalismo religioso distinção que favoreça o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente à Arábia Saudita a não ser a venda de petróleo barato e a compra de material de guerra caro. O resto é hipocrisia e desonestidade intelectual.

Os israelitas são apenas os atuais ocupantes do Krak des Chevaliers que é Israel.

A posição do “resto do mundo” sobre a ação dos Estados Unidos no Médio Oriente reflete o momento de transição das relações de poder que estão em curso. Ao resto do mundo interessa o desgaste que esta guerra provoca nos Estados Unidos, que são quem a paga. À China e à Rússia, em particular, interessa o empenhamento dos EUA nesta região, que limita as possibilidades de intervenção na Ucrânia e em Taiwan. Para os BRICS, esta guerra irá aumentar a já monstruosa dívida pública americana e desvalorizar o dólar, o que é para eles um fator positivo.

A ação de Israel durará até os financiadores americanos entenderem ser lucrativo pagá-la. Uma ação devastadora de Israel sobre o Irão obrigaria os Estados Unidos a empenharem ainda mais meios na região e a aumentar a despesa e é este balanço entre custos e benefícios que os estados maiores financeiros americanos devem estar a fazer relativamente à retaliação de Israel ao Irão.

Contas. Contabilidade. Nada mais do que isso. As vidas humanas estão fora da contabilidade. A nossa civilização é um mercado! Estamos num claro momento de exposição dos valores da nossa civilização e da natureza da humanidade.

A cultura da vitória e da violência é uma faca de dois gumes — lições d’Os Lusíadas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 13/10/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A propósito da guerra na Ucrânia, numa entrevista recente, Sergei Lavrov, o ministro dos negócios estrangeiros russo, afirmou que ela apenas poderá terminar com a vitória da Rússia, porque vitória e derrota são as únicas linguagens que o Ocidente entende.

Independentemente do que cada um possa pensar sobre as causas do conflito e das justificações dos contendores, a vitória com esmagamento do adversário é a doutrina da Europa e do Ocidente desde que a Europa iniciou a sua expansão no século XV.

Estamos, embora se note pouco, na celebração dos quinhentos anos de Os Lusíadas, de Camões. Ora, Os Lusíadas refletem a diferença de pensamento e de estratégia do que foi o conceito português de abordagem do “outro” e o conceito vencedor do Ocidente, o dos impérios espanhol e inglês. Os Lusíadas expõem a diferença radical no modo como os dois grandes impérios europeus expandiram o seu poder e o da abordagem dos portugueses aos outros povos e civilizações. Motivam a provocadora interrogação: Com quem e com o que fariam os espanhóis uma epopeia? Com Cortés e a conquista do México, ou com Pizarro, que realizou o feito de prender o imperador Atahualpa, dos incas, depois de aceitar o convite deste para um jantar, durante o qual assassinou a sua pequena guarda? E os ingleses que herói têm para uma epopeia? Os corsários Drake e Raleigh, que os seus contemporâneos designavam por Sea Dogs, os cães do mar?

Os Lusíadas são também um extraordinário manual de relações internacionais. Os dirigentes dos impérios europeus que sucederam aos portugueses, os ingleses e os espanhóis, agiram com a arrogância e a convicção de superioridade que se iriam traduzir na gigantesca empresa da escravatura de africanos, na destruição das culturas e civilizações do continente americano e no genocídio dos povos. A partir da chegada de espanhóis e ingleses e também dos portugueses às américas que contributo foi permitido aos povos locais — desde a Patagónia ao Alaska — darem ao progresso do mundo e que possa ser comparado ao que as civilizações do Índico e do Pacífico proporcionaram?

A ordem internacional imposta por espanhóis e ingleses, também por franceses e alemães, atualmente pelos norte-americanos, assenta em princípios opostos aos que Camões expressou em Os Lusíadas. Fundou-se na morte por asfixia das culturas e civilizações existentes.

É este reconhecimento que Sergei Lavrov faz e que motiva a atitude da Rússia nos atuais conflitos que o Ocidente conduz na Ucrânia e no Medio Oriente.

A estratégia que o império Ocidental — herdeiro dos impérios inglês e espanhol — está a conduzir na Ucrânia e no Medio Oriente é a do esmagamento dos povos que existem desde o Líbano à Rússia — com propositado exagero, estabelecer uma Gaza de Beirute a Moscovo — ou uma limpeza como a que foi feita na América do Norte de Nova Iorque a São Francisco, ou como as levadas a cabo por Cortés e Pizarro na América Central e do Sul.

A velha Europa, como a tratam os “jovens americanos” — Reagan e Trump — acredita que a sua forma de abordar os outros — esmagando-os — ainda é a certa para impor a sua civilização e os seus interesses. A atual Europa, agora uma província do Ocidente Global, adotou como política para se relacionar com o Velho Mundo persa e mesopotâmico a dos invasores ingleses e espanhóis no Novo Mundo, o problema é que o “velho mundo” não está nu, apenas com arcos e flechas para se defender!

As visitas do presidente da Assembleia do Irão e do ministro dos negócios estrangeiros a Beirute realçam a aliança existente e a assinatura de um pacto de defesa entre o Irão e a Rússia. E isso significa que a reprodução da estratégia de vitória por esmagamento que presidiu à estratégia ocidental durante cerca de cinco séculos tem grandes probabilidades de degenerar num desastre a vários títulos, militar, desde logo, mas também económico e, mais profundamente ainda, civilizacional.

Apenas para recordar, os princípios filosóficos em que assenta o pensamento europeu foram transpostos do grego para a Europa através dos árabes e foram-no principalmente durante os sete séculos em que eles estiveram na Península Ibérica no Al Andaluz. Já agora, os nossos algarismos ainda são conhecidos por números árabes.

A estratégia de terra queimada que o Ocidente está a desenvolver em Gaza e no Líbano, mas que já utilizou na Líbia, no Iraque e na Síria é a-histórica e a Europa vai pagá-la com o definhamento que ocorre às árvores a quem cortam as raízes.

Os Lusíadas são a epopeia de uma península que era a proa de um continente que viajava ao encontro de outras gentes e culturas e ali aportava. Da epopeia dos portugueses no Oriente cantada em Os Lusíadas mantiveram-se e desenvolveram-se civilizações tão pujantes como a Índia, a China, a Indochina, o Japão, enquanto nas Américas nada restou, além de ruínas e a humilhação espelhada nos rostos daqueles a quem arrogantemente o Ocidente uniformizou sob a designação de “índios”. Na expansão para Ocidente, os europeus provocaram terror a todos os que encontraram com o barulho ensurdecedor das armas, o cheiro insuportável da pólvora e com os “monstros de quatro patas”, o cavalo, desconhecido pelos povos do continente americano. Tal como acontecerá em Hiroshima e Nagasáqui com as duas bombas atómicas e acontece hoje em Gaza e no Líbano com as mais mortíferas armas ocidentais.

A anti epopeia da Europa terminou com a sua derrota na Segunda Guerra Mundial, quando foi substituída por uma entidade sem alma, que funda o novo mundo com um imenso genocídio e uma exploração sem regras nem limites da natureza, expressa na célebre carta do cacique de Seattle ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, em 1855:

O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também a sua amizade e benevolência. Isto é gentil da sua parte, pois sabemos que não precisa da nossa amizade. Vamos, porém, pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. […]

Cinco séculos após a passagem do Cabo das Tormentas, rebatizado em da Boa Esperança, o Adamastor venceu, o Ocidente perdeu. O Oriente apresenta hoje ao mundo uma civilização vencedora, mais aberta, mais flexível, mais adaptada ao mundo. O Ocidente seguiu o caminho na direção contrária ao que Camões celebrou e, em vez de respeitar o ‘Outro´, aniquilou-o, esquecendo-se que as sementes do ódio são eternas. São estas sementes que o Ocidente continua a espalhar.

Há uma diferença radical entre a chegada dos europeus às Américas e a de Vasco da Gama à Índia. Entre a dominação e uma aliança, Vasco da Gama propõe uma aliança ao Samorim:  E se queres, com pactos e lianças/De paz e de amizade, sacra e nua, Comércio consentir das abondanças/Das fazendas da terra sua e tua, Por que creçam as rendas e abastanças/(Por quem a gente mais trabalha e sua)/De vossos Reinos, será certamente/De ti proveito, e dele glória ingente.

Os Lusíadas não fazem parte das leituras nem na sede da UE, nem da NATO.