Sous le ciel de Paris…

(Por José Gabriel, in Facebook, 17/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Hoje, os comentadores televisivos têm um prato bem servido: a reunião de Paris, promovida pelo presidente Macron, na qual estiveram dirigentes dos “principais países europeus” – deve ser uma nova organização. Claro que os “explicadores” televisivos, mais ansiosos por servir os donos, começaram as justificações. Curiosamente, nenhum deles manifesta surpresa pela escolha de duvidoso critério – nem a Kallas, com as funções que tem, esteve presente -, pela natureza e fins da reunião, pela autoproclamada legitimidade dos promotores e participantes.

Ouvi – com sacrifício – o comentário do senhor Germano Almeida no canal NOW. Este, ostentando um ar ansioso, quase ofegante, tenta as mais esforçadas piruetas para tudo justificar. Sucederam-se as falsidades e o esforço justificativo, do qual já nem se percebe a razão. É que parece que alguns comentadores, embalados na rotina de recadeiros do sistema, não conseguem vencer a inércia, não acordam para o que de novo os desafia.

Assim, seu Germano explicou que os convidados eram os países que mais contribuíam para a NATO, que cumpriam as percentagens do PIB acordadas – ou impostas. Não é verdade, nem de perto. Dos dez países que mais contribuem, da União Europeia – além do Reino Unido, este em estado de delírio castrense -, só 2 estavam presentes – Polónia e Dinamarca. São os países que fazem fronteira com o “inimigo”, dizia também o “explicador”. É falso. Desses, só esteve um, a Polónia. E, por aí fora. O importante é que os espectadores fiquem com a impressão de que aquilo teve um sentido estratégico subtil, profundo.

Depois, vem o paleio guerreiro, as tropas europeias que vão inundar a Ucrânia de heróis protetores e outros disparates. Quer dizer: esta malta acredita que, após as negociações de paz, nas quais terão um papel de espectadores caladinhos, o governo da Rússia vai permitir que um exército de cachorros de trela curta da NATO armados até aos dentes – os EUA já se pisgaram desse papel, claro –, fique às suas portas.

 A Europaconnosco – a Europa a sério é outra coisa – anda de cabeça perdida. Não havendo “guerra fria”, não havendo “guerra quente”, saia uma “guerre chambre”.

Entretanto, os Germanos deste mundo levam a sério os disparates de um desesperado Zelensky e comentam a eminência de um ataque da Rússia já no próximo ano.

Daquela Rússia que, num dia, está prestes a colapsar economicamente – como esperava Biden e todos os dias prognosticava o Isidro -, e no dia seguinte é uma potência capaz de engolir a Europa num minuto. Num dia está a tirar os chips das máquinas de lavar roupa para pôr nos mísseis, e no dia seguinte tem uma tecnologia capaz de manipular as eleições em todo o mundo. Num dia não consegue avançar e, sequer, retomar Kursk, e no dia seguinte tem 150 mil homens – só? – disponíveis para entrar pela Europa adentro.

Entretanto, ficam muito zangados por Lavrov vir dizer uma coisa óbvia: a Europa não oferece soluções.

E Isto vais ser – está a ser – assim durante todo o dia. Até que, mais pela noite, apareçam os analistas que digam coisas sérias.

Bilhete ao Sr. dono/a da PGR em exercício, se é que existe…

(Por oxisdaquestão in Blog oxisdaquestao, 15/02/2025, revisão da Estátua)


Exmo./a dono/a da Procuradoria-Geral da República

Excelentíssimo/a

Não sei quem é o/a senhor/a mas presumo que existe, está nomeado/a, recebe no fim do mês e faz despachos nos processos que lhe chegam às mãos. Ainda tenho em mente o comunicado que iniciou o pontapé no cú que foi dado ao Costa, por ordens da NATO, para o PS ceder o governo ao PPD-AD e fazer de Montenegro um Primeiro- ministro de faz-de-conta, mais vendedor da banha da cobra que decisor íntegro e cumpridor da Lei.

Tenho para mim que Vosselência vai tendo a noção do que ocorre no seu país, da legislação que é aprovada pelo governo/AR e de outros factos comezinhos que as televisões usam para encher noticiários e tempos de analistas-comentamerdosos que proliferam como cogumelos depois das primeiras chuvadas. Como quem enche chouriços, sabe?

Creio também que, como detentor do poder de fazer cumprir a Lei com os seus tempos passando, que consegue ligar o dito caso Costa dos homens das autorizações para exploração do lítio no governo anterior, com a liberalização dos terrenos agrícolas para construções urbanas e fomento da especulação imobiliária e negócios de crédito à habitação. Tudo a bem do negócio, do capital, dos sócios das sociedades que vão receber a legislação como um maná.

Ainda não conheço comunicado algum acerca do assunto depois de Hernâni Dias, Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento, ter sido apanhado com (dez!) empresas prontas para beneficiarem da legislação que o governo atual fez aprovar por ele mesmo, Secretário de Estado, agente promotor e vencedor dos acidentes burocráticos que a legislação enfrentou.

Agora, cai-me sob os olhos, na imagem acima, o título que envio a Vosselência e fico sem compreender nada. Vosselência existe ou não existe? A PGR ainda é capaz de produzir comunicados ou tem as impressoras com os tinteiros secos? Não há um Twitter/X, um Instagram, um Facebook que receba dez linhas a mostrar que a Lei ainda tem quem a defenda no país?

 Digo-lhe que estou varado e de coração aos saltos a pensar que não, que andamos todos a brincar, correndo e espreitando no Portugal dos Pequenitos. Será que Vosselência também anda nas correrias e espreitadelas, distraído e a não querer sujar o bibe que lhe vestiram?

Desculpe, senhor doutor juiz, mas há coisas que não encaixo; mas é que ainda não estou convencido de que o defeito seja meu.

Aceite o atrevimento.

Fonte aqui

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Elites e o exército de soldadinhos de chumbo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/02/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O “espanto” e a “surpresa” que os dirigentes europeus dizem ter sofrido com o discurso de J. D. Vance, vice presidente dos EUA, na conferência de Munique deve ser entendido, isso sim, como causa de espanto e surpresa por parte dos cidadãos europeus. Esse espanto e essa surpresa das elites europeias revela a sua incompetência para entenderem vários aspetos essenciais mas básicos nas relações entre a Europa e os Estados Unidos.

Em Munique estiveram em confronto dois conceitos de sociedade e dois conceitos de elites, de classe dominante (ruling classes), que foram expostas numa obra clássica de 1945; “The American Business Elite: A ColIective Portrait”, Journal of Econorruc History de Wright MiIIs. Os burocratas europeus não leram e agora agitam-se como moscas dentro de um prato de azeite.

O que Wright Mills explicou, ainda mal a Segunda Guerra havia terminado, é que a elite americana é constituída por um grupo cujo elemento definidor se encontra no domínio do poder económico, o que a distingue das elites europeias que surgem associadas à produção de ideias e à administração pública. Na Europa a entrada na elite é feita maioritariamente através formação técnica, e pelo acesso às grandes escolas, depende em boa parte do background social dos candidatos que são maioritariamente destinados a administrarem o Estado. Pelo contrário, as elites dos Estados Unidos, são recrutadas no mundo dos negócios e dos produtores de violência (militares e agentes de serviços secretos — makers of violence). É esta elite económica e de ação violenta que controla o processo de tomada de decisão política para obter ganhos económicos. Para esta elite as guerras são negócios, um deve e haver.

Em Munique estiveram em confronto estes dois tipos de elites. A elite de Trump, semelhante à elite de Bush Jr que conduziu a invasão do Iraque e do Afeganistão, a elite de Clinton que conduziu o ataque à Sérvia e o desmantelamento da Jugoslávia. Os atores da trupe de Trump não são diferentes do vice Dick Cheney e de Rumsfeld no que diz respeito ao desprezo pelos europeus e pelos princípios! Os europeus presentes desconheciam estas personagens? Desconheciam Vitoria Nuland, funcionária da CIA (da elite dos makers of violence) que serviu nas administrações de Trump e de Biden e pilotou o processo que levou a Ucrânia à política de ameaça à Rússia?

J D Vance referiu que o inimigo da Europa é a cristalização em que a Europa vive, a sua resistência à mudança, o emaranhado de poderes que se esgotam em quezílias de vaidades. A União Europeia, em contra ponto à Rússia e à China, vive hoje como se o mundo fosse o da Guerra Fria, as suas elites são burocratas que administram programas a que falta um desígnio, um objetivo estratégico, além de satisfazer clientelas ao sabor das circunstâncias.

J D Vance foi a Munique o dizer o óbvio: a Europa não justifica um inimigo externo! (O desprezo é a mais dolorosa ofensa.) Veio dizer que os Estados Unidos concluíram que a Europa é um peso morto e as elites americanas no poder, as do MAGA, partilham essa visão com as novas elites russa e chinesa, pragmáticas, rudes e focadas nos resultados.

Um oligarca americano está muito mais próximo intelectualmente dos novos oligarcas russos ou até dos chineses (que são mais sofisticados) do que de um “enaca” ou de um politécnico francês, ou um de um graduado por Oxford ou Cambridge.

Sendo esta a visão que as elites americanas e russas partilham da Europa e dos seus dirigentes, porque carga de água a Rússia iria invadi-la e tomar conta dela, vir por aí abaixo, no imortal resumo de Ana Gomes, especialista em slogans dos gloriosos tempos de ouro do MRPP; para ocupar um continente de velhos e de burocratas, um asilo?

E assim chegamos ao absurdo delirante de, sem saberem o que fazer para se manterem no poder, os cérebros dos líderes europeus, os tais burocratas políticos, terem acendido a ideia luminosa de constituir um exército europeu! Isto num continente que não fabrica uma turbina para aviões de combate: a Rolls Royce a General Electic e a  Pratt&Whitney são americanas.

Uma passagem de olhos pela história da Europa revela que o último ataque à Europa ocorreu no cerco dos turcos (Império otomano) a Viena em 1693! Uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados. Na Primeira e na Segunda Guerra, os exércitos francês, alemão, polaco e italiano foram derrotados desde os Alpes a Estalinegrado, o exército inglês na Segunda Guerra, retirou-se da Europa continental com a dramática operação de Dunquerque. Foram os Estados Unidos e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a ocidente, e a União Soviética, a leste, que dividiram o continente entre si em Ialta e Potsdam, como o vão fazer atualmente, parece que na Arábia Saudita, uma zona decisiva, essa sim, para negociar a divisão do poder do futuro entre dois dos atores que verdadeiramente contam.

Enquanto pelas arábias dois dos grandes poderes de facto decidem lancetar o furúnculo da Ucrânia para passarem ao sério conflito do Médio Oriente, em Paris um pequeno grupo de funcionários reúne-se para discutir um “exército europeu”!

Um “exército europeu” é uma figura que não passa de uma representação em miniatura da Grand Armée em miniaturas de soldadinhos de chumbo, um diorama! Os líderes europeus estão hoje em Paris, com Macron, de rabo para o ar a construir um diorama, ou um Lego. No final, se entre eles existir algum com senso e sentido de humor, esse gritará: Vamos mas é comer umas ostras!