(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/02/2025)

Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.
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Assim como a enxurrada de decretos espalhafatosamente assinados por Trump está a transformar a democracia americana numa espécie de Coreia do Norte vergada ao culto da personalidade de Kim Il-Donald, também a sua ânsia de tornar tudo irreconhecível e irreversível está a acelerar o mundo. Deixemos agora de lado os seus sinistros projectos para a Palestina, onde o seu plano de ‘paz’ se resume a uma limpeza étnica, com a expulsão dos palestinianos da sua terra — um plano saudado por 76% dos israelitas. Fiquemos pela análise daquilo que aparentemente se pode concluir da expedição punitiva que ele enviou à Europa, do seu longo e frutuoso telefonema com Vladimir Putin e do início das conversações sobre a Ucrânia em Riade, reunindo os chefes da diplomacia russa e americana e deixando de fora ucranianos e europeus.
A primeira coisa a constatar é que em todas as questões de política externa em que já tocou — as tarifas ao mundo inteiro, o Canadá, a Gronelândia, a faixa de Gaza ou a Ucrânia — ele avança como um bulldozer, apresentando soluções e pretensões que, apesar de absolutamente insólitas e agressivas, são prudentemente levadas em conta e suavemente contestadas pelas potenciais vítimas de tais ideias. Até o Hamas pia baixinho quando ele se propõe “tomar conta” de Gaza e redesenhar o mapa da Palestina sem palestinianos! É a estratégia da ameaça e da intimidação, de quem nada se importa em ofender amigos ou perder aliados. Na tal expedição punitiva que enviou à Europa no final da semana passada, o exemplo acabado desta política externa, chamemos-lhe assim, foi o discurso insultuoso que o fedelho presumido J. D. Vance dirigiu aos líderes europeus sentados à sua frente e, por extensão, a todos os europeus, tendo suscitado apenas uma tímida reacção do chanceler Scholz, que, por acaso, está de saída. De resto, passando também por Pete Hegseth, secretário da Defesa, e Keith Kellogg, enviado especial para a Ucrânia, a Casa Branca fez questão de deixar bem claro o desprezo a que vota a Europa e os seus líderes. Do ponto de vista americano, nas conversações de paz para a guerra da Ucrânia, não só os ucranianos não fazem falta à partida, como os europeus não têm nada a ver com o assunto: como explicou Kellogg, podem dar sugestões desde que não venham com queixinhas por não terem lugar à mesa. Já sabemos que Trump pode mudar de ideias de um dia para o outro, mas na quarta-feira, quando este texto é escrito, a posição americana parece simples: Trump e Putin decidem os termos do acordo de paz, depois comunicam-no à Ucrânia e a seguir, sim, os americanos convocam a Europa para enviar tropas para a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia para velarem pela sua manutenção, mas sem que os Estados Unidos fiquem vinculados pelo artigo 5º da NATO, indo em auxílio das tropas europeias caso as coisas se compliquem. É pegar ou largar, a “pax donalda”.

Confesso que se isto não fosse trágico, envolvendo o destino de um país e dos seus nacionais, só me dava vontade de rir ao observar o estupor dos líderes europeus e as suas enxovalhantes tentativas de serem levados em conta nas negociações de paz para a Ucrânia. Durante três anos, estes mesmos senhores não só recusaram sugerir, integrar ou promover qualquer negociação de paz, como afirmaram mesmo — eles e a sua imprensa dedicada — que a simples ideia de o fazer era uma traição à Ucrânia e um serviço prestado a Putin. Mesmo quando se tornou evidente que Trump ia ganhar as eleições e que se propunha “acabar com a guerra em 48 horas”, custasse isso o que custasse à Ucrânia, os chamados “líderes” europeus não deram um passo para se anteciparem e posicionarem como actores e interessados no desfecho. Antes pelo contrário, estes “líderes” que agora suplicam um lugar à mesa como criancinhas enxotadas para a cozinha, mantiveram sempre inalterável o seu mantra: apoiar a Ucrânia por tanto tempo quanto necessário. E eles, que agora se atropelam nas promessas de aumentarem as despesas com a defesa, na tentativa de acalmarem o ogre, foram-se autodesarmando, fornecendo a Zelensky tudo o que ele foi sucessivamente pedindo: sistemas antiaéreos, mísseis, carros de combate, aviões — só faltou a bomba nuclear. Se tentarmos encontrar algum pensamento estratégico nesta conduta só pode ser a crença irracional de que a guerra teria de durar até que a Rússia fosse vencida, custasse isso o que custasse à Ucrânia e à Europa.
Mas fizeram ainda pior do que isso: não só não quiseram promover qualquer acordo de cessar-fogo ou de paz, como o impediram. Podiam tê-lo feito antes de a guerra se desencadear com base nos Acordos Minsk II, ou podiam ter apoiado, logo um mês depois, o cessar-fogo acordado em Ancara, por iniciativa da Turquia e de Israel e com a presença de russos e ucranianos. Porém, sucedeu o contrário: perante a inércia dos restantes, o então primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, pressionou Zelensky a não assinar o acordo, elevando-o à altura de um novo Churchill e prometendo-lhe todo o apoio ocidental para derrotar os russos. A Europa, a NATO e os Estados Unidos de Joe Biden quiseram a Ucrânia a lutar por eles contra a Rússia, apenas com o seu apoio em armas e discursos. E se é inquestionável que o início da tragédia ucraniana se inicia com a invasão de um país soberano por parte de Putin, também o é que os aliados ocidentais procuraram a guerra e não a paz e, enquanto os ucranianos combatiam e morriam, eles faziam discursos empolgantes e mesmo milionários — como as tournées em defesa da Ucrânia a que Boris Johnson se dedicou profissionalmente depois de ter sido forçado a sair de Downing Street. Faziam discursos, deixavam a Europa arruinar-se com a guerra e alimentavam o complexo militar-industrial americano em que Joe Biden se apoiava e as empresas americanas de combustíveis e gás liquefeito de quem se tornaram generosos clientes depois de Biden ter imposto e sabotado o fornecimento de energia russa mais barata à Europa. Imaginar que isto, mais o incitamento à entrada da Ucrânia na NATO — que sabiam que era a linha vermelha que despoletaria a guerra — foi tudo inocente e apenas a vontade de apoiar o herói Zelensky e o seu povo, ou de parar na Ucrânia aquilo que juravam seria uma subsequente invasão russa da Europa, não tem sustentação. Mas foi isto que eles nos venderam durante três anos, com o inquebrantável apoio de uma imprensa que se esqueceu de pensar e questionar e dos líderes de opinião a que ela recorria. E agora, que têm eles para dar à Ucrânia, quando Trump se prepara para lhe impor uma paz que recompensa o invasor e ainda lhes quer surripiar as riquezas minerais? O que têm eles para dar? O esforço para conseguirem um lugar à mesa, ao mesmo tempo que, já em tardio pânico, acabam de perceber que não têm solução para novos tempos em que terão de viver sem a protecção militar dos Estados Unidos. Se Putin quisesse mesmo invadir a Europa, como dizem, agora era o momento certo para o fazer.
Durante três anos, eu andei aqui a escrever que esta era uma miserável geração de líderes europeus, incapazes de pensamento estratégico, incapazes de lerem os sinais do tempo e exibindo uma bravura de quem manda outros combater e morrer pelas nossas crenças.
Hoje, assistindo à humilhação a que a Casa Branca de Trump nos sujeita, vendo as reuniões de emergência desta fraca gente, e, sobretudo, antevendo o preço que os ucranianos ainda terão de pagar pelos nossos erros de falta de visão, só não me rio, de facto, porque tudo isto é trágico. Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia.



