No artigo titulado O Penultimato – ver aqui -, escrevi meio a brincar que a Rússia devia enviar a dupla Vovan e Lexus a Istambul para negociar com Zelensky. Seria uma negociação entre colegas comediantes. A dupla concordaria com todas as exigências do ucraniano, assinaria a rendição da Rússia enquanto o exército de seu país continuava a avançar no terreno como se não houvesse amanhã.
Mais tarde, reflectindo sobre isso, a ideia não me pareceu tão disparatada assim, considerando os precedentes: regra geral o Ocidente colectivo nunca cumpriu nada do que assinou, logo talvez tenha chegado a altura de lhe dar a provar um pouco do seu remédio. Mas houve ainda outro aspecto que me fez pensar que tal solução absurda poderia responder às angústias dos líderes ocidentais.
Trata-se do seguinte: regra geral, tudo o que importa deste lado onde o sol se põe é o controlo da narrativa. De há alguns anos a esta parte, o arremedo de líderes que temos preocupa-se quase nada com o que é, e tudo com o que parece. Se a Rússia admitisse a derrota, mesmo comportando-se no terreno como vencedora, os media ocidentais exultariam com um punhado de assinaturas russas num documento surreal e inútil.
Há algum tempo ando a escrever um livro sobre um manicómio um pouco diferente dos outros. Nesse hospício, a filosofia seguida é nunca contrariar o paciente. Se ele se julga Napoleão, ele deve ser tratado como tal. Se ela acredita ser a Lady Gaga, há que dar-lhe um palco. Todo o espaço desse manicómio, desde os quartos até aos jardins, são lugares onde a realidade foi decretada como nula.
Entretanto, os hóspedes vão sendo espoliados de suas fortunas, é claro. Porque sim, tratam-se de pessoas com posses e fazer-lhes todas as vontades tem um preço muito alto. Assim que toda a sua fortuna é sugada pela instituição, os pacientes são descartados de formas variadas que podem ir do abandono ao assassinato.
Claro que a Rússia não pode actuar – como eu a brincar sugeri -, porque mesmo tendo em conta que foi várias vezes enganada pelos seus inimigos, ainda tem a sua credibilidade a defender junto do Sul Global, que é neste momento o foco de seus esforços para a construção de um mundo multi-polar.
Mas isso não significa que os líderes do Ocidente colectivo não continuem a preocupar-se sobretudo com a narrativa e isso será feito mesmo sem a farsa de um acordo para não cumprir. Mesmo quando for ainda mais evidente do que é hoje que todo o sangue (ucraniano) e o tesouro (ocidental) investidos na Ucrânia não impediram a vitória russa, nenhum líder dirá que foi uma aposta errada.
Assim, as “ideias” para justificarem o que não tem justificação possível de resto já andam aí, só não foram ainda marteladas exaustivamente para convencer as populações. Eles dirão, então, o que já vão sugerindo:
1- O sacrifício da Ucrânia salvou a Europa pois Putin ficou sem forças para atacar outros países. (a nova versão neocom de combatêmos-los lá para não termos de os combater aqui.
2- Enquanto a Ucrânia lutava, a Europa rearmava-se, portanto ganhámos tempo.
3- Permanecemos unidos e estamos prontos para qualquer eventual nova ofensiva russa.
E pouco importará que a Rússia nunca tenha tipo intenção de invadir a Europa, que o rearmamento tenha sido o previsível fiasco ou que as brechas entre os diversos países da União Europeia se tenham agravado por causa dessa guerra. Eles não se ocupam mais da realidade: tudo o que sabem fazer é tentar gerir as percepções.
(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 13/05/2025)
O general Valery Zalujny (à esquerda), à época chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Ucranianas, com o almirante Tony Radakin, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas do Reino Unido [Ingl. Chief of Defense Staff]
1. As duas fases principais da guerra em curso na Ucrânia
A guerra em curso na Ucrânia — a 2.ª guerra, a que se seguiu à que começou em Maio de 2014 entre a Ucrânia, de um lado, e a RPL + RPD, do outro — teve, até agora, política e militarmente, duas fases principais bem distintas. A segunda fase teve o seu início na terceira semana de Abril de 2022 e prolongou-se até aos nossos dias, sem fim à vista [1].
Durante a primeira fase, havia quatro beligerantes em liça: de um lado a Rússia, coadjuvada pela República Popular de Lugansk (RPL) e pela República Popular de Donetsk (RPD) na região da Donbass; do outro lado, a Ucrânia.
Estes dois lados chegaram a um acordo de paz no fim da última semana de Março de 2022, em Istambul, cujo teor tive ocasião de descrever em pormenor noutras ocasiões [2].
2. O ultimato de Boris Johnson
Porém, no dia 8 de Abril de 2022, Boris Johnson, à época primeiro-ministro do Reino Unido, fez uma visita-surpresa a Zelensky, em Quieve. Era o mensageiro portador, como noticiou na altura o jornal ucraniano Ukrainska Pravda, de uma proposta-ultimato previamente acordada entre o Reino Unido, EUA, Alemanha e França. Essa proposta-ultimato tinha, em substância, o seguinte, conteúdo:
«Putin não é confiável e a hora não é de negociações com a Rússia, mas de luta para a derrotar. Se a valente Ucrânia estiver disposta a fazê-lo, como esperamos, nós ⎼ e connosco a OTAN [/NATO], a UE e todo o “Ocidente alargado” ⎼ garantimos-lhe uma ajuda e um apoio totais (salvo em tropas no campo de batalha) e pelo tempo que for necessário.
Sr. Presidente Volodymyr Zelensky: se o governo da Ucrânia decidir ir por diante e celebrar com a Rússia o acordo de paz elaborado em Istambul de que tivemos conhecimento, recusando a generosa proposta que lhe acabo de fazer, então, sr. Presidente ⎼ lamento ter de o dizer tão incerimoniosamente, mas as coisas são como são ⎼ a Ucrânia ficará, doravante, por sua conta e risco».
3. O fim abrupto dos Acordos de Istambul e o massacre de Bucha
Sabemos qual foi o resultado da proposta-ultimato de Boris Johnson. Algures entre os dias 10 e 15 de Abril de 2022, seis semanas depois do início da OME da Rússia, a Ucrânia repudiou oficialmente o acordo de paz com a Rússia (muito vantajoso para a Ucrânia) que o chefe da sua delegação de negociadores, Davyd Arakhamia, tinha rubricado em Istambul, no início de Abril, em nome do presidente e do governo da Ucrânia, e empenhava-se numa guerra de alta intensidade com a Rússia (+ RPL + RPD) que perdura até aos nossos dias, com os efeitos calamitosos para a Ucrânia que todos conhecemos.
Para justificar este abrupto volte-face de 180.º aos olhos da opinião pública do “Ocidente alargado”, as tropas russas ⎼ que tinham retirado em 30 de Março dos arredores de Quieve, num gesto de boa-vontade destinado a assinalar o resultado positivo das negociações de Paz de Istambul ⎼ foram acusadas de terem perpetrado a matança de mais de 700 civis em Bucha (uma das pequenas cidades próximas de Quieve onde as tropas russas tinham estado estacionadas). A partir dos primeiros dias de Abril de 2022, foi orquestrada uma campanha cerrada de desinformação destinada a apresentar os russos como monstros sanguinários, com os quais não é possível estabelecer qualquer acordo de paz e que seria necessário exterminar sem dó nem piedade [3].
Há uma dupla mistificação em torno desta matança, conhecida como o “Massacre de Bucha”. A primeira mistificação diz respeito ao número das suas vítimas, que são da ordem das dezenas, e não das centenas. As centenas de civis que foram encontrados em valas comuns em Bucha foram vítimas colaterais dos violentos combates que tiveram lugar nesta cidade, durante cerca de um mês, entre as tropas russas e ucranianas, assim como dos bombardeamentos constantes de que a cidade de Bucha foi alvo por parte das tropas ucranianas enquanto esteve ocupada pelas tropas russas.
A segunda mistificação diz respeito às dezenas de civis cujos corpos foram encontrados insepultados em ruas, quintais, poços e caves e que parecem ter sido assassinados à queima-roupa. Há muitos factos e indícios que apontam no sentido de atribuir a autoria dessa matança não às tropas russas que estiveram estacionadas em Bucha, mas a uma das duas unidades militarizadas ucranianas, ou a ambas ⎼ o regimento AZOVE e o regimento especial SAFARI da Polícia Nacional Ucraniana ⎼ que entraram em Bucha em 31 de Março e 1 de Abril com a missão declarada de a “limpar de sabotadores e cúmplices” — entenda-se: de liquidar a tiro alegados sabotadores ucranianos ao serviço da Rússia e aqueles moradores de Bucha que tivessem alegadamente estabelecido um modo de convívio pacífico com as tropas russas [4].
4. Alteração da natureza da guerra na segunda quinzena de Abril de 2022
Seja como for, uma coisa é certa. A partir da segunda quinzena de Abril de 2022 a guerra na Ucrânia entra numa segunda fase em que o número e qualidade dos beligerantes se altera drasticamente. A partir dessa data os beligerantes em liça são: de um lado, a Rússia (coadjuvada pela RPD e a RPL) e do outro lado, a Ucrânia, coadjuvada pelos EUA, o Reino Unido, a Alemanha, a França, a UE (com excepção da Hungria), a OTAN [/NATO] (com excepção da Hungria e da Turquia), a Suíça, a Noruega e o resto do “Ocidente alargado” — Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova-Zelândia.
E assim aconteceu, de facto, com as armas (incluindo mísseis, artilharia, defesa aérea, carros de combate e outros veículos blindados, helicópteros e aviões de combate, drones), as munições, o treino militar, o aconselhamento militar, as informações militares (incluindo a obtenção de imagens por meio de satélites e aeronaves de vigilância e reconhecimento), a contra-informação e a logística militar que, desde há três anos, têm vindo a ser fornecidas continuamente, em quantidades gigantescas, à Ucrânia pelo “Ocidente alargado” — além do apoio económico e financeiro (também ele gigantesco) para ajudar o regime político, a administração pública e a economia da Ucrânia a manterem-se à tona.
5. EUA e Reino Unido assumem o comando das tropas ucranianas
Só não sabíamos até que ponto e como, concretamente, é que os EUA e o Reino Unido (os dois principais patrocinadores e aliados militares da Ucrânia) estiveram e estão envolvidos no planeamento e na condução prática (incluindo comando e controlo) dessa guerra contra a Rússia por interposta Ucrânia.
Pois bem, ficámos a sabê-lo muito recentemente por intermédio de dois extensos e pormenorizados artigos: um da autoria de Adam Entous, no The New York Times, em 29 de Março de 2025, relativamente ao envolvimento dos EUA, e outro da autoria de Larisa Brown, no The Times (de Londres), em 11 de Abril de 2025, relativamente ao envolvimento do Reino Unido.
Através destes artigos, ambos traduzidos por Fernando Oliveira, ficámos a saber que os EUA e o Reino Unido não são apenas os principais patrocinadores e aliados militares do esforço de guerra da Ucrânia contra a Rússia em todas as facetas descrita no fim da secção 4. São também quem assegura o comando e controlo centrais das operações militares ucranianas, em parceria com o Estado Maior ucraniano, através de um Posto de Comando sediado na base militar americana de Wiesbaden, na Alemanha. Segundo o general Valery Zalujny, ex-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Ucranianas, o Posto de Comando de Wiesbaden foi, até há poucas semanas, a “arma secreta” da Ucrânia (Realcei a amarelo essa afirmação de Zalujny no artigo de Larisa Brown por ela constituir o seu mais curto e melhor resumo).
A tradução, na íntegra, do artigo de Adam Entous foi publicada em 16 de Abril de 2025 na Tertúlia Orwelliana, aqui.
A tradução, na íntegra, do artigo de Larissa Brown encontra-se no fim do preâmbulo aqui.
Notas e referências
[1] Por sua vez, a segunda fase da guerra subdivide-se em vários períodos distintos. Mas este é um assunto que não vem agora o caso.
[2] Ver José Catarino Soares, “Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte I” in Tertúlia Orwelliana, 9 de Dezembro de 2023 aqui; Parte II aqui; Parte III aqui; Parte IV aqui; Parte V e última aqui.
[3] Tenciono reexaminar este assunto e outros conexos num artigo a publicar em breve, intitulado: “O morticínio de Bucha: um reexame três anos depois”.
[4] Existe uma bibliografia e uma videografia considerável sobre este assunto. Refiro-me, entre outros, aos seguintes artigos e vídeos: Raul Cunha, “Desinformação e perfídia, é o que temos na comunicação social” (in Estátua de Sal, 3/04/022); Joe Lauria,“Questions abound About Bucha Massacre” (Consortium News, April 4, 2022); Scott Ritter, “The truth about Bucha is out there, but perhaps too inconvenient to be discovered” (RT, April 4, 2022); “Interview with Scott Ritter, by Don Bar” (YouTube, April 6, 2022 [https://www.youtube.com/watch?v=kfHohl6gCJY]; Jason Michael McCann, “The Bucha Massacre” (Standpoint Zero, 4 April 2022 [https://standpointzerocom. wordpress.com/2022/04/04/the-bucha-massacre/]; Jason Michael McCann, “Serious Questions about Bucha”, StandPoint Zero, 5 April 2022 [https://standpointzerocom. wordpress.com/ 2022/04/05/serious-questions-about-bucha/]; Jason Michael McCann, “The Anatomy of a Russian Massacre” (StandPoint Zero, 7 April 2022 [https://standpoint zerocom.wordpress.com/2022/04/07/the-anatomy-of-a-russian-massacre/]; Carlos Branco, “As inteligências inúteis e as interrogações necessárias” (Público,15/04/2022); Tony Kevin, “Lies, truth, and forensics in Ukraine. The case of Bucha” (The Floutist, 16/04/2022 [https://thefloutist.substack.com/p/lies-truth-and-forensics-in-ukraine] ; Jean Neige, “Retour sur les allégations de crimes de guerre russes en Ukraine : Boutcha (3/6)” (France Soir, 7 septembre 2022) ; Alexandre Guerreiro, “Valas comuns” ? Não. Fake news que nem 24h duraram” (in Estátua de Sal, 16/09/2022) ; Scott Ritter, “Bucha, Revisited” (Scott Ritter Extra, 21 October 2022 [https://www.scottritterextra.com] ; Michel Collon, Ukraine, La guerre de Images : 50 exemples de desinformation. Investig’Action, 2023; Raul Cunha, “Sobre Bucha”. FaceBook, 20 de Março de 2025 [https://www.facebook. com/share/p/16VX7T3BUt/]; Raul Cunha, Canal Multipolar, 27 de Março de 2025 [https://www.youtube.com/watch?v=abZROfDzDHI], a partir do instante 33m45 segundos até ao instante 41m30s.
(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/05/2025)
Sob a capa da criação de fundos para a reconstrução ucraniana, o acordo em causa garante a Washington uma presença norte-americana permanente na Ucrânia, numa fronteira adjacente à Rússia.
A expressão “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita” podia aplicar-se ao acordo dos minerais [daqui em diante o Acordo] assinado em Washington, a 30 de abril de 2025, entre altos dignitários norte-americanos e ucranianos, e posteriormente ratificado pelo Parlamento ucraniano, que tem por objetivo criar um fundo de investimento para a reconstrução da Ucrânia. A saga em redor deste Acordo é longa, com o ponto alto na reunião de Trump com Zelensky, na Casa Branca, bem conhecida de todos. Apesar da insistência ucraniana em associar a este Acordo garantias de segurança norte-americanas, essa aspiração não se concretizou.
Há ainda alguns aspetos desse acordo por apurar. Compreende três documentos, mas só se conhece o que foi assinado, desconhecendo-se o conteúdo dos outros dois, pois o governo ucraniano não os facultou aos deputados. Alguns deles alertaram para o facto de a verdadeira substância do Acordo, a forma como irá funcionar, quem o controla e quais os compromissos legais a que a Ucrânia fica vinculada poder encontrar-se nos dois documentos não divulgados. Alguns deputados manifestaram incómodo pelo facto de estarem a ser pressionados para ratificarem uma versão incompleta do Acordo, quando poderão estar em causa sérias violações da soberania nacional.
As tergiversações norte-americanas também são conhecidas. Afinal, o objetivo do acordo já não é ressarcir os EUA das volumosas quantias gastas com o apoio à Ucrânia, anteriores à sua assinatura. Este acontecimento foi considerado uma vitória diplomática de Kiev. Resta saber se será mesmo assim, ou se não haverá algo obscuro que possa amarrar a Ucrânia, no longo prazo, a obrigações que foram negociadas sem transparência. As rápidas e sucessivas alterações da posição americana sugerem a possível camuflagem de intenções, em que se procurou desviar as atenções daquilo que era realmente pretendido.
O acordo
Talvez precipitadamente, alguns analistas associaram-se de forma apressada à narrativa da vitória ucraniana. Sendo o quinto acordo assinado por Kiev com os EUA desde 1999 (2008, 2017, 2011, 2021), de âmbito semelhante, restam poucas dúvidas das implicações que terá na soberania e independência do Estado ucraniano, já muito coartadas. Por exemplo, cerca de 40% da terra arável ucraniana encontra-se nas mãos de empresas estrangeiras, em particular americanas e chinesas.
A relação entre os signatários do Acordo é manifestamente assimétrica, com benefício da posição americana. As empresas ucranianas são excluídas dos projetos que se venham a contratar, nomeadamente empresas estatais como a Ukrnafta e a Energoatom. Kiev não será remunerada da distribuição de lucros do Fundo se violar os termos do acordo, e os gestores ucranianos perderão todos os direitos de voto no Conselho e nos comités relevantes do Fundo, gerido por um Conselho com igual número de representantes da Ucrânia e dos Estados Unidos, mas em que os principais comités ficarão nas mãos dos gestores americanos.
Ao terem as empresas norte-americanas direito de preferência sobre os novos projetos que vierem a ser propostos a Kiev, os acordos já assinados pela Ucrânia com o Reino Unido e a União Europeia ficam comprometidos. Só se investidores americanos – os primeiros a terem acesso às informações sobre projetos mineiros e de infraestruturas – não manifestarem interesse nos projetos apresentados, é que outros investidores poderão avançar com a sua implementação.
Não é crível que os EUA disponham de novas informações relativamente ao que já se sabe sobre os depósitos de minérios em território ucraniano proporcionado pelos estudos geológicos da era soviética e que, pelos vistos, não terá motivado os oligarcas ucranianos e empresas estrangeiras a explorar nas mais de três décadas que nos separam da independência.
O argumento das “terras raras” inicialmente aduzido para justificar um “negócio da China” é falacioso. É sobejamente conhecido que a Ucrânia não é fonte de nenhum dos 17 metais que compõem a lista de “terras raras”. Não serão os depósitos ucranianos em “terras raras” que vão dar resposta às necessidades da indústria norte-americana nesta matéria. Ao que se deve juntar a viabilidade económica destas explorações. Segundo o Washington Post “levará pelo menos uma década para que os cobiçados recursos possam trazer benefícios às cadeias de abastecimento dos EUA.”
Como o Acordo se refere exclusivamente a minérios não explorados, a rentabilidade económica da sua exploração tem obrigatoriamente de incluir a sua mineração, o que requer um grande investimento cujo retorno económico não é garantido. O mesmo se coloca relativamente ao petróleo e ao gás, com reservas de pouca expressão, cuja exploração as torna pouco atrativas para empresas que podem investir noutros locais com um menor risco de investimento e níveis de retorno mais elevados.
A exploração de titânio, grafite e lítio poderá valer a pena, embora as reservas existentes não sejam muito significativas, o que não as torna particularmente rentáveis. Os depósitos mais promissores destes minerais encontram-se em território ocupado pela Rússia. Comparativamente com outros países, as reservas ucranianas são modestas. A instabilidade política e securitária da região é um desincentivo ao investimento. Muitas das reservas de gás encontram-se em zona de conflito, onde as empresas estariam relutantes em investir, mesmo na eventualidade de um acordo de paz.
Não deixa de ser importante sublinhar, que a Corporação Internacional de Financiamento do Desenvolvimento dos EUA (DFC), um parceiro do Fundo, mantém unilateralmente a autoridade sobre as decisões de investimento, a resolução de litígios e as alterações aos termos da parceria. O estatuto de parceiro menor, apesar da representação nominal equitativa no conselho de administração (3 de 6 lugares), não confere à Ucrânia poder de veto. Kiev assume responsabilidade ilimitada pelas perdas, incluindo disputas legais, flutuações cambiais e reclamações de terceiros, enquanto as obrigações dos EUA se limitam a consultas não vinculativas. Perante isto e muito mais, seria necessária muita boa-vontade para considerar este acordo uma vitória ucraniana.
A posição da Administração Americana
O facto de a Administração Trump se encontrar ciente destas circunstâncias, sumariamente expostas, leva-nos a reequacionar os verdadeiros motivos que terão levado Washington a um tamanho empenho neste acordo. No curto e no médio prazo, os benefícios económicos para os EUA advirão mais da venda de armamento norte-americano do que da futura exploração de recursos a descobrir e a explorar. Cada uma das partes contribuiu para o fundo com 50%, sendo o contributo norte-americano feito em géneros, leia-se armamento.
Mas sobrepor-se-ão os benefícios económicos aos geopolíticos? Sob a capa da criação de fundos para a reconstrução ucraniana, este acordo garante a Washington uma presença norte-americana permanente na Ucrânia, numa fronteira adjacente à Rússia, à semelhança daquilo que anteriores Administrações fizeram na Polónia, países Bálticos e Finlândia (onde detém autorização de acesso a 15 bases militares).
Ao descair-se e apresentar o Acordo como um fator de pressão sobre a Rússia, o Secretário do Tesouro norte-americano Scott Bessent, o mesmo que considera Vladimir Putin um criminoso de guerra, deixou cair a máscara sobre o verdadeiro objetivo do Acordo, sugerindo aquilo de que desconfiávamos. Mais do que as questões económicas, o grande empenho dos EUA no Acordo é de natureza geopolítica. Subjacente, embora não formalmente admitido por Washington, encontra-se um compromisso alargado com a defesa de Kiev, mesmo que isso não envolva forças militares norte-americanas, pelo menos por agora.
Não é possível nesta altura prever quando e quanto dinheiro os EUA receberão de volta, mas isso não foi determinante. Trump presta-se a fazer, de modo subtil, aquilo que Biden não foi capaz.