Os títeres

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/08/2025)


Para os títeres, a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de Direitos Humanos estão equivocados e ao serviço do Hamas por considerarem os acontecimentos em Gaza um genocídio.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Apesar de desfeito, segundo Telavive, o Hamas ainda tem uma réstia de fulgor e ainda nos consegue ludibriar. Afinal não há fome em Gaza. As imagens de crianças subnutridas não são verdadeiras. São fabricadas, manipuladas e editadas pelo Hamas para impressionar as opiniões públicas. A fome em Gaza é uma narrativa fabricada, o que vemos são imagens produzidas e editadas pelo Hamas. Segundo o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) as horrendas imagens de crianças famintas inserem-se numa campanha de falsidades destinada a moldar perceções. Como alguém disse, trata-se da “pornografia da fome”.

Bem vistas as coisas, até talvez possa haver alguma fome em Gaza, mas o responsável é o Hamas, conivente com as agências da ONU que trabalham em Gaza; seguramente que essa responsabilidade não pode ser atribuída ao Governo israelita nem às irrepreensíveis FDI.

É um Hamas masoquista que destrói árvores, polui as águas costeiras e infiltra poluentes nas fontes de água subterrânea. É um desbaratado Hamas que impede os camiões carregados de alimentos, estacionados em Israel e no Egipto, de entrar na Faixa de Gaza, é quem dispara sobre as ambulâncias do Crescente Vermelho e sobre os palestinianos que aguardam na fila por uma malga de sopa.

Também não há mortos civis em Gaza. O número de mortos é fabricado pelo Hamas. As FDI são uma força moral, nunca matariam civis nem cometeriam crimes hediondos. Nada disso. Andamos todos a ser trapaceados pelo Hamas. Afinal o projeto da Riviera de Gaza e a expulsão dos palestinianos de Gaza não passou de um equívoco semântico, uma graçola. Percebemos todos mal. Não se tratava, de modo algum, de limpeza étnica. Só mentes sediciosas poderiam cogitar tal conspiração.

São precisas pessoas muito especiais, desprovidas de ética, para propalar estas “verdades”. É preciso “estômago” para dizer que não há fome em Gaza. Falamos de gente que vendeu a alma ao Diabo e se colocou ao serviço de um projeto demoníaco. Depois do Holocausto, esta é seguramente a maior atrocidade dos séculos XX e XXI, mais perversa do que os crimes em série de Pol Pot, no Camboja, ou a perseguição mortal aos Rohingya, em Myanmar, desta feita em direto nas televisões e sem defensores convictos nas lideranças ocidentais.

Referimo-nos a pessoas que branqueiam conscientemente a matança mais abjeta do planeta e que lançam fumo para manter os incautos na dúvida; gente desprovida de consciência que escamoteia os factos. Não deixa de nos surpreender – 80 anos após a assinatura da Carta das Nações Unidas – a ocorrência desta barbárie e, apesar da informação disponível, existirem pessoas a colocarem-se despudoradamente ao serviço dos responsáveis pelos acontecimentos em Gaza.

Os manipuladores precisam dos títeres para fazerem o trabalho sujo, pessoas desprezíveis que se prestam a tal. Negam todas as evidências. Como alguém escreveu magistralmente, se tivessem vivido em 1943, “estes comentadores até poderiam dizer que Birkenau era um campo de férias e que os vapores do gás provinham de banhos turcos.” Um dia destes dirão que as imagens de Gaza destruída são uma construção da Inteligência Artificial, ou mesmo uma instalação, e os emaciados palestinianos não passam de atores contratados. Quem desmonte estas alucinações é apelidado por eles de antissemita. A palavra sionismo foi apagada dos seus dicionários.

Ironicamente, os defensores da “verdade” não permitem que ela seja mostrada. O correspondente da BBC para o Médio Oriente sabe do que falo quando o impediram de filmar a partir do avião militar em que voava. “Israel não permitirá que repórteres como eu entrem em Gaza para relatar a história, eles não querem que a vejamos, ou que a filmemos, de qualquer forma, mesmo do céu.” Muito haveria a dizer sobre isto.

Como o Hamas rouba a ajuda humanitária contornando o sistema montado pela ONU, foi preciso Telavive substituí-lo por uma empresa privatizada norte-americana (GHF) protegida por contratados armados. Tudo isto, sem haver, segundo militares israelitas evidências de que o Hamas roube sistematicamente a ajuda da ONU, em Gaza, e confirmarem a eficácia do sistema da ONU que resiste à interferência do Hamas.

O antigo funcionário da GHF Anthony Aguilar corroborou as alegações da ONU de que Israel mata deliberadamente civis, incluindo crianças, que esperavam por comida e água nos postos de assistência, na faixa de Gaza, contrariando as lucubrações negacionistas de que os palestinianos não são mortos nos centros do GHF pelos elementos das FDI nem do GHF, mas pelo Hamas. O GHF apoiado pelos EUA para substituir as agências da ONU tem muito menos locais de distribuição de alimentos e tem sido letal para os civis, tendo matado mais de 1.300 pessoas que tentavam aceder à comida.

Os factos alternativos amplificados pelos títeres são desmontados e levadas ao tapete pelos israelitas que ainda têm algum assumo de decência. O ex-primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, num assombro de humanidade, considerou ilegal a guerra em Gaza e declarou que “já matamos e destruímos o suficiente em Gaza.” Estas ações podem ser consideradas crimes de guerra e são motivadas pelos interesses pessoais e políticos de Netanyahu. Os grupos israelitas de Direitos Humanos B’Tselem e Physicians for Human Rights Israel rotularam a guerra de Israel em Gaza como genocídio.

O branqueamento do genocídio abraçado pelos títeres é uma falha moral hedionda. Gaza está arrasada, sem infraestruturas, as pessoas estão a morrer diariamente aos magotes, e a culpa não é do Hamas. Para estas pessoas, a limpeza étnica e o genocídio não são a barbárie, mas sim a civilização. Haverá algum país, para além de Israel, que defenda matar os seus próprios cidadãos para não serem feitos prisioneiros (protocolo Hannibal), que terá sido implementado nos trágicos acontecimentos de 7 de outubro? Para estes seres, é um ato civilizacional as alusões de Netanyahu à condição sub-humana dos palestinianos, e à completa destruição de todos os amalequitas – incluindo bebés, bens, animais – tudo, aplicado ao Hamas e aos palestinianos.

A linguagem “politicamente correta” dos ministros israelitas extremistas Smotrich e Ben-Gvir, em matéria de limpeza étnica na Faixa de Gaza, levou a Holanda a declará-los persona non grata. Só a tremenda condenação internacional fez com que Netanyahu aprovasse timidamente o aumento da ajuda humanitária a Gaza, apesar da oposição do partido sionista religioso de Bezalel Smotrich, que defende abertamente a fome como arma de guerra. Não foi de livre vontade que Netanyahu o fez.

Para os títeres, a Amnistia Internacionala Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de Direitos Humanos estão equivocados e ao serviço do Hamas por considerarem os acontecimentos em Gaza um genocídio. Provavelmente, concordam que bombardear e fazer passar à fome até à submissão, matando, mutilando e deslocando a população é um adequado “incentivo à emigração”. Não é a barbárie a sobrepor-se à civilização. A negação sem incómodo ou perturbação moralmente inaceitável do que está a ocorrer em Gaza indica que não são seres saudáveis. As narrativas mirabolantes que constroem e inventam para sustentar as suas teses, assumem contornos de uma grave psicopatia.

O regresso da peste grisalha e o coro indignado da amamentação

(Ana Sá Lopes, in Público, 03/08/2025)


São ínfimas as mulheres que conseguem dar de mamar até aos dois anos. Ou a ministra tem conhecimento de hordas de mães a aldrabarem as empresas ou então foi inventar um problema onde não era preciso.


Em Portugal é muito fácil despedir. Os despedimentos colectivos são o pão nosso de cada dia, os despedimentos por extinção de posto de trabalho (depois muda-se o nome ao posto) também. Existe também a “inadaptação”. Quando um patrão se quer ver livre de um trabalhador habitualmente consegue.

Nas novas leis laborais, o Governo quer acabar com a possibilidade de “reintegração” na empresa como penalização no caso do despedimento do trabalhador ser considerado ilegal, coisa que até agora só estava reservada às microempresas. O patrão passa apenas a ser obrigado a pagar uma indemnização ao “colaborador” se argumentar que o regresso da pessoa em causa pode ser “gravemente prejudicial e perturbador do funcionamento da empresa”.

A queda da obrigação da reintegração torna totalmente fácil a qualquer empresário despedir quem quiser à vontadinha. Depois, só tem que pagar uma indemnização e está resolvido. A segurança no trabalho, se é que ainda a há – tendo em conta a tal facilidade em despedir que existe em Portugal – leva uma grande machadada se esta ideia de flexibilizar ao máximo os despedimentos que o Governo está a levar a cabo acabar por se tornar efectivamente lei. Pode argumentar-se: alguém quer voltar a uma empresa onde o patrão o quer ver pelas costas? Idealmente, não. O problema é que o trabalho é um valor fundamental e, se as pessoas não trabalham, não comem. Acabar com o direito à reintegração por despedimento ilegal é instituir a lei da selva.

Como se o Governo não estivesse já a ser bastante bondoso com as organizações empresariais – facilitando mais nos contratos a prazo e banco de horas, por exemplo – vem agora a CIP pedir que seja legalizado o direito a despedir os velhos. Ou mais velhos, vá lá. É uma forma alternativa de combate à “peste grisalha”. Como o Expresso noticiou, a CIP quer poder despedir quem quiser com o argumento da “renovação do quadro das empresas”. Os direitos dos trabalhadores com mais anos de casa ou mais idade são atirados ao lixo. A renovação pela renovação, e não a estratégia, tornou-se um mantra nos nossos dias. Se o Governo ceder aos patrões, podemos dizer que finalmente atingimos a excelência da sociedade americana – zero direitos laborais.

Agora, o que está a causar a maior polémica é o fim da redução do horário de duas horas para fins de amamentação quando a criança faz dois anos. A lei actual não tinha prazo. A Organização Mundial de Saúde defende a amamentação até aos dois anos “ou mais”. Este “mais” abre a porta a todas as possibilidades.

São ínfimas as mulheres que conseguem (e querem) dar de mamar até aos dois anos. Ou a ministra tem conhecimento de hordas de mães a aldrabarem as empresas invocando o direito à redução de duas horas quando a criança tem quatro anos ou então foi inventar um problema onde não havia.

A questão da amamentação varia de mulher para mulher. Há as que adoram e acham que “contribui para a ligação mãe-filho”, como diz a OMS. Há as que não gostam nada e fazem o que podem em nome das imunidades, rejeitando a lavagem ao cérebro de que a ligação mãe-filho é condicionada pela amamentação.

Sim, não gostei, o meu leite devia ser péssimo, o bebé não engordava e a minha relação mãe-filho melhorou imenso com o biberão. O uso do leite artificial e o regresso ao trabalho costumam acabar naturalmente com a produção do leite materno. Quantas mulheres estão a usar o direito de trabalhar menos de duas horas depois dos dois anos da criança? Sem este dado, foi criada uma polémica inútil que desgasta a ministra porque a amamentação transformou-se na religião dos nossos dias. Mesmo que aos dois anos muitos poucos bebés mamem.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A cidade que resta

(António Guerreiro, in Público, 01/08/2025)

António Guerreiro

Uma cidade feita de hotéis e arrendamentos a curto prazo (no centro histórico de Lisboa, metade das casas está por conta do Airbnb) transforma-se num deserto cultural.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Em pouco mais de um mês, Lisboa foi contemplada com dois artigos no jornal britânico The Guardian por motivos de que não se pode orgulhar.

O primeiro, publicado em 25 de Junho, assinado por Agustín Cocola-Gant (um investigador do IGOT, Instituto de Geografia da Universidade de Lisboa) inseria-se numa série de reportagens que o jornal está a publicar sobre a crise da habitação na Europa. O artigo consiste na descrição dos factores bem conhecidos que transformaram radicalmente a cidade na última década, de tal modo que ela passou de uma das mais acessíveis capitais europeias a uma das mais inacessíveis, sobretudo (mas não exclusivamente) por causa do preço da habitação.

Quanto ao segundo artigo, publicado no dia 27 de Julho, trata-se de um relato na primeira pessoa, de uma “nómada digital” inglesa, que veio de Londres para Lisboa em 2019. Agora, perante a acentuada gentrificação, notando o crescimento de tensões que eclodem no racismo e na xenofobia, sentindo um certo mal-estar na sua condição de estrangeira que beneficia de regalias que não são concedidas aos portugueses, olhando à sua volta e vendo que a cidade, em todos os aspectos da vida urbana, ficou conformada à lógica do turismo e dos residentes temporários estrangeiros, esta inglesa, chamada Alex Holder, faz a si própria esta pergunta: “Chegou a hora de os nómadas digitais como eu saírem de Lisboa?” Quem conhece alguns, sabe que esta questão começa a ser recorrente.

Assine já

Evidentemente, nenhum destes diagnósticos e descrições traz dados novos ao que todos conhecemos. Mas dito por estrangeiros e publicado num jornal britânico tem mais peso, na medida em que nos faz perceber que a incomodidade cresce mesmo entre aqueles que julgamos serem os felizes beneficiários da transformação da cidade. A queda do prestígio alastra e está a tornar-se pública para além das fronteiras. Ninguém gosta de viver numa cidade Potemkin.

Um estabelecimento de alojamento local em Lisboa.

Esta situação, que as administrações políticas de Lisboa acolheram e promoveram com grande entusiasmo, atingiu a máxima intensidade quando outras cidades já estavam a tentar restringir as causas que provocam a catástrofe urbana do nosso tempo. Não faltam as reflexões sobre os devastadores efeitos urbanísticos, sociais e económicos sofridos por cidades como Lisboa. Mas já é mais raro encontrarmos análises do empobrecimento cultural que daí advém. Uma cidade feita de hotéis e de apartamentos com licenças de arrendamento a curto prazo (no centro histórico de Lisboa, metade das casas está por conta do Airbnb, escreve Agustín Cocola-Gant no seu artigo), uma cidade que expulsou os seus habitantes, transforma-se num deserto cultural.

É verdade que não podemos pensar, desde há mais de meio século, numa cidade com os seus espaços criativos onde germinam a arte, a literatura, a ciência. Os ateliers dos artistas, tão importantes para as vanguardas, não têm, há muito tempo, espaço na cidade. Quanto às tecnologias digitais, o espaço é indiferente porque elas são ubíquas.

A primeira “cidade criativa”, onde se deu um vínculo essencial entre o artista e a cidade, foi Florença, no Renascimento. Na cidade moderna, na grande metrópole, a relação entre o artista (num sentido lato, que compreende também o poeta e o escritor) e a cidade não tem nada de harmonioso, pode mesmo ser uma relação esquizofrénica. Mas é, ainda assim, um lugar cheio de estímulos criativos. Sem Paris do Segundo Império, a capital moderna por excelência, não teria havido um Baudelaire.

A cidade como uma incubadora cultural é uma imagem poderosa que teve o seu tempo, que pode ter ainda, algures, algumas manifestações. Mas não em Lisboa, que é um exemplo dramático de cidade culturalmente estéril. Como pode sobreviver uma “cidade criativa” se às suas portas se estende um território habitado por uma população privada de casa e de segurança, se o seu centro foi colonizado pela cultura do entretenimento para a ocupação dos tempos livres dos novos “criativos” e dos seus residentes de passagem? A imagem emblemática desta nova funcionalidade urbana da cidade Potemkin a que Lisboa se conformou é a do Cinema Ideal, em plena Rua do Loreto, tão cheia de evocações, a 30 metros do Largo Camões, que desafia discretamente (discreto à porta, mas menos discreto na sala onde passam os filmes) o fluxo torrencial de turistas. Aquela sala de cinema sobrevive como um vestígio, um resto (a par de outros restos) para o qual já não há contexto. À sua volta, até as livrarias são um testemunho do crescimento do deserto.