Tudo pode mudar

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 04/06/2026, Revisão da Estátua)


Para explicar o dia de ontem é preciso não ter medo das palavras, nem mentir a nós próprios (a mentira mais perfeita porque parece verdade). Quero contar-vos o que a direita vai tentar fazer, e tocar nas nossas feridas, as feridas da esquerda.

Só a verdade é revolucionária. Porque quero, como vocês, vencer. E dedicar-me às minhas paixões, aos que amo, à história, jardinagem, literatura, bicicleta, e não a lutas sistemáticas por direitos elementares.

Warren Buffett disse à CNN a seguir às medidas “anticrise”, em 2011: “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está a  lutar e a ganhar”. Quando se retira a luta de classes, não se percebe nada. E fica-se na mão de comentadores superficiais, que repetem o discurso do PS da “dignidade do trabalho” e da “produtividade é culpa dos patrões” ou de mentirosos compulsivos, e patéticos, que atuam nas TVs pagos para tal pelos empresários de uma comunicação social que deixou de informar ou pensar. Primeiro, existem classes sociais e cada vez mais só existem duas classes (a burguesa, ou capitalista, e a trabalhadora, a nossa). A outra palavra é a Política, a única palavra que nos pode salvar, porque ela é a estratégia, para vencer. Porque podemos ser derrotados.

A burguesia portuguesa é fraca, nasceu de certa forma de um braço da burguesia inglesa, no século XIX. Há quem ache que nasceu dos artesãos da cidade e da expansão no século XV, não é o nosso caso. Mas esse é um debate, historiográfico, que não muda as conclusões seguintes que aqui avanço.

O capitalismo nasce no século XIX como um sistema inovador de concorrência que promove a inovação e a ciência e aumenta a produção. E que, rapidamente, se transforma em monopólio, a partir de 1870, concentrando as empresas que nas crises vão sendo engolidas. Isso explode na I Guerra Mundial, em 1910 – quando acaba a concorrência entre empreendedores que arriscavam, e passam os Estados, agigantados, a ser uma super concentração de grandes empresas, capitais financeiros, poder e força bruta, polícias e exércitos.

Mesmo hoje – tirando pequenas empresas familiares – , a maioria das chamadas PMEs são, na verdade, subcontratadas de grandes monopólios, da banca – onde estão asfixiadas -, de distribuição alimentar, da comunicação, da energia, ou de indústrias pujantes como a metalúrgica, das armas  e da aviação dos países centrais.

Nenhum dinheiro produz dinheiro, sem trabalho vivo. Turismo não produz capital – faz circular o capital -; comércio não produz capital, circula. Se colocarem milhões de euros e olharem para eles muito tempo e os perfumarem e taparem com um cobertor quente ou “investirem” na bolsa ou em casas, nada acontece. Alguém – aqui ou noutra parte do mundo – vai ter de trabalhar produtivamente (transformação de natureza) para esse capital se valorizar.

 Se venderem uma casa pelo dobro, camas de hotéis cheias, ou comprarem acções da Galp, alguém vai ter que produzir minério, mesas de madeira ou armas, sabões ou batatas, e alguém vai ter que transportar esses bens, e alguém vai ter que formar esses trabalhadores e tratá-los quando estão doentes (professores e pessoal de saúde).

A burguesia portuguesa, quando começa a fase imperialista, dos monopólios, vai para África capturar trabalhadores forçados (2 milhões até 1974) que apanham sisal, café, algodão, ouro (mineiros moçambicanos na África do Sul, entregavam até 60% do salário ao Estado português).

Para isso precisa de derrotar o sindicalismo revolucionário, o que faz em 1926, com uma ditadura, que proibia sindicatos, partidos e jornais livres. Ao mesmo tempo as mulheres deviam parir muitos filhos no mundo rural, onde se cavam as batatas que alimentam os operários da CUF.

Matérias-primas de África gratuitas, operários sem ter direito à greve e sem jornais alimentados a baixo custo pelos camponeses pobres, paridos às dezenas por mulheres, muitas mortas no parto. Era este o Portugal de Salazar.

É curioso ver que, se não erro, Passos Coelho, a Ministra do Trabalho, Ventura, a líder da IL, Gouveia e Melo, malta do CDS, toda esta gente é retornada, são colonos – é o retorno do reprimido. “Ai que saudades das colónias e da ditadura”.

A razão é só uma: a burguesia portuguesa depois de 1974 morreu. O que a salvava no quadro mundial, como Estado (a burguesia e o Estado são o mesmo) – ou seja, a possibilidade de competir mundialmente – era a ditadura do trabalho barato. Sem isso, Portugal não existe. Por isso os socialistas como eu são internacionalistas, não cantamos o hino no 10 de Junho, cantamos o Grândola no 25 de Abril.

A entrada da UE, depois da contra revolução em 1976, foi já um negócio de desespero – entregar o pouco que havia de produção em troca de investimentos na banca com juros artificialmente baixos (falida em 2008) – banca salva com cortes reais dos salários de 25% garantidos com as leis da troika – e venda de casas e camas de hotéis, depois de 2020. Para isso importou a burguesia 25% de trabalhadores do Brasil, do Nepal, e da Índia.

Todos os desastres laborais negociados, desde a derrota do sindicalismo de lutas de classe em 1986 – todos – foram negociados mantendo para a burocracia sindical (sindicalistas profissionais) os direitos. Os mais novos iam sendo precarizados: nos locais de trabalho nasceram como cogumelos trabalhadores, lado a lado, a fazer o mesmo mas a ganhar menos. Mantendo, os mais velhos, os seus direitos. A negociação era esta – a burocracia sindical lutava, e lutou. Mas não lutava para ganhar, apenas para dizer que existia e não perder a face na sua base. Foi assim em todas as revisões dos códigos de trabalho, quem era mais velho manteve direitos.

A razão é simples e é só uma: uma luta radical, de base, não é controlada pela burocracia (os que vivem do sindicalismo). Não quer dizer que seja caótica. Pelo contrário. Quer dizer que é feita com greves radicais, preparadas e não decretadas, com fundos de greve, por longos dias, plenários e assembleias que necessariamente criam novos dirigentes, mais radicais. E se há novos dirigentes, os que vivem do sindicalismo perdem o emprego.

Quem teve a paciência de me ler até aqui, sabe que já esteve em assembleias em que foram os dirigentes sindicais a fazerem tudo para impedir lutas ou a negociarem derrotas e dizer “foi o possível”.

Agora, este pacote laboral, pela primeira vez desde o 25 de Novembro – com a burguesia norte-americana a apostar na maior bolha da história com a IA e Musk, deixando Buffett parecer um menino de coro -, acaba com qualquer ideia de direito no trabalho, incluindo o direito à greve e – sublinho – ataca como nunca o tinha feito a burocracia sindical. Se ele for aprovado, o sindicalismo burocrático (profissional) morre. Por isso a UGT esteve na greve e a CGTP apoiou duas, no espaço de 8 meses. É a própria sobrevivência destes sindicatos que está em causa.

Mas há mais. A UGT é o PS e a CGTP é o PCP. Porque não existe independência política. Isso é ingenuidade. Quem não se mete em política deixa a política na mão dos outros. Tudo é político. Porque tudo é luta de classes. O problema não é o PS ter criado a UGT e o PCP a CGTP, fizeram muito bem, o problema é qual é a estratégia que têm para o sindicalismo.

O PS – quando a revolução, o PREC, em 1974 e 1975, afastou a direita do país, os ricos literalmente fugiram, e cá ficou a autogestão democrática dos trabalhadores – o PS foi o partido que a burguesia usou para ser recompor. E voltou a usá-lo na Geringonça, para acalmar as lutas contra Passos Coelho.

Hoje, a burguesia portuguesa – que não é mais existente: o Estado português não é independente, é tudo decidido em Bruxelas -, tem como projeto demolir o que resta e já em escombros dos serviços públicos, para pagar à indústria de armamento alemã, produzir drones ou seja, peças de morte, e mudar umas camas aos trabalhadores do Norte que vêm apanhar sol em Agosto.

Para isso têm a AD e o Chega a criminalizar imigrantes, para não fazerem greve nos hotéis e restaurantes, ou Passos Coelho, que veio a jogo dizer que está disposto a juntar-se ao Ventura para juntos serem uma espécie de Trump numa só pessoa. Trata-se de uma oposição neofascista, com ramificações nas forças armadas na sua ligação ao Chega (é isso que lhe dá o caracter fascista). São tropa de choque contra os trabalhadores (por isso ver a polícia bater em manifestantes não é assunto irrelevante).

O PCP – que resistiu como nenhum partido à ditadura – era o Partido fiel a Moscovo no PREC, contra a revolução, pelo capitalismo regulado, pela “dignidade do trabalho” mas não pela revolução (que o partido considerava e considera não estar no momento histórico). Foi sempre defensor da ordem Constitucional de 1976 e é hoje isso que coloca no seu programa, a defesa da Constituição.

Ou seja, temos uma oposição à ordem constitucional liberal, o neofascismo de Chega e Passos Coelho, e uma defesa da ordem constitucional liberal, PS, PCP e BE (este irrelevante). Nenhuma serve quem trabalha e vê a sua vida destruída por este regime.

Este vazio é o vazio que a esquerda se recusa a ocupar. Para a maioria dos que vivem em Portugal esta ordem já não serve, e não serve mesmo. Mas só surge uma oposição – a fascista. Precisamos de uma socialista. Por isso o centro adora dizer que o problema são “os extremos” e os “radicalismos”.

É que só uma política radical socialista pode derrotar o centro liberal da guerra e o neofascismo. Precisamos de um extremo – o extremo da igualdade e da liberdade, contra o centro e o fascismo.

Estas duas greves gerais demonstraram a força e a fraqueza dos sindicatos.

A força porque se quiserem amanhã param o país, têm fundos e força para isso, o pacote laboral morre, e conseguem reverter até as leis da troika. Mas isso vai abrir uma caixa de Pandora em que novos dirigentes, mais corajosos, ousados, vão tirar o lugar aos dirigentes sindicais actuais.

A fraqueza, porque se a UGT e a CGTP não param o país, o PSD, a IL e o Chega vão aprovar o pacote laboral e os dirigentes sindicais a muito curto prazo ficam sem o lugar.

Muito se tem escrito que quem é precário não faz greve. De facto o pacote laboral quer proibir a greve. Mas todo o sindicalismo nasceu no século XIX, e no PREC, com trabalhadores precários que faziam greve e venceram. A questão fundamental é que se queremos derrotar este pacote laboral, greves de um dia não chegam. É preciso uma oposição radical, socialista, igualitária, democrática contra a ordem constitucional liberal.

E isso – aqui termino – é a Política com P grande. Na Argentina uma líder radical de esquerda do PTS está à frente de todas as sondagens. Foi o mesmo PTS que quando Millei foi eleito disse aos trabalhadores “votem nulo” e organizem-se no nosso ou noutros partidos de esquerda, em sindicatos, em comissões de bairros. Não há “voto útil”, só os trabalhadores se salvam a si próprios, o voto útil no PS contra o Chega levou-nos ao pacote laboral da AD e do Chega. Este Governo só governa porque não há oposição socialista ao capitalismo. Governa porque o PS se absteve.

Só governa porque os trabalhadores andam a ouvir da burguesia portuguesa há 150 anos que a Política é com eles, com os partidos institucionais e os profissionais da política, e que os trabalhadores não se devem meter em política, devem trabalhar, e calar.

Estas greves mostraram a força de quem trabalha. E só há dois tipos de pessoas que trabalham neste país. Os mais de 5 milhões de trabalhadores, exaustos, e os milhares de pequenos empresários familiares, esmagados.

Do que precisamos? De sindicalismo combativo, e de partidos políticos radicais. Deitar para o lixo a palavra “independência”. Tudo é Política. Não podemos ter medo de ser socialistas, e debater – livremente – que sociedade queremos. Sem lutas para cumprir calendário, sem ilusões inúteis, e sem medo do papão. Porque foi esse medo que abriu a porta ao papão.

Precisamos de confiar nas nossas forças e não de votos “úteis” nas políticas dos outros. E isso só acontece se nos organizarmos politicamente, exige esforço e determinação, não é um sprint eleitoral, é um esforço concreto de organização.

Quem não quer militar, reunir, decidir, fazer, e só quer votar, vai ser derrotado. Se não lutamos a sério, vão aprovar este pacote e o que vem aí é morrer no trabalho de exaustão, viver com pânico do desemprego, o assédio de diretores e chefes como gestão corrente, e a farsa da educação e a desumanidade na saúde. Paremos de mentir a nós próprios.

Não tenho dúvidas que eles – o centro e o neofascismo, em suma, a burguesia -, parecem fortes, mas na verdade (ficará para outro texto) nunca estiveram tão frágeis. Têm armas e polícias, é muito pouco para governar. Eles parecem fortes porque nós parecemos frágeis, não temos programa, partido, organização. Basta deixarmos de nos comportar como vitimas e passarmos a agir como sujeitos, que o medo começa a mudar de lado.

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A investigação perpétua: em resposta a uma anunciada reportagem da SIC

(José Sócrates, in Facebook, 03/06/2026)


(Independentemente da culpabilidade de Sócrates – que não sabemos ainda se existe – pois ainda não foi julgado e, por isso, só devemos ater-nos a presunções -, há duas asserções indiscutíveis: 1) O que se está a passar, desde há muito, com Sócrates não é a tentativa da Justiça apurar se ele é ou não culpado – de que crimes e em que grau -, mas sim a reiterada acção de o culpar e condenar, seja ou não inocente. 2) Tem valido tudo, e hoje vi um tal nojo de reportagem que revela os escuros compadrios entre o Ministério Público e a comunicação social.

Como podem os portugueses acreditar na Justiça e acreditar que ainda vivem num Estado de Direito?

Estátua de Sal, 04/06/2026)


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Um professor de direito fez um parecer para a minha defesa e para a defesa do meu primo. Pagou o meu primo, que tem recursos, eu não os tenho.

Mas esta não é a revelação da SIC – a verdadeira revelação é que a informação foi dada à SIC pelo Ministério Público. O que é escabroso é ficarmos a saber que enquanto decorre o julgamento, o ministério público investiga a defesa. Querem saber os planos da defesa, a estratégia da defesa, quem aconselha a defesa.

Ao fim de treze anos a investigação torna-se perpétua: investigaram no inquérito, investigaram na instrução (mais propriamente, investigaram o juiz de instrução), investigam agora no julgamento. A devassa sempre tem algum ponto mais  a explorar. Já investigaram o comprador da minha casa, o empresário que me contratou e agora o Professor de direito que fez um parecer para as defesas.

No direito democrático investiga-se o crime – não a defesa. A criminalização da defesa é a perversão do processo penal. Nenhum estado de direito transforma a defesa em alvo processual pelo simples exercício das suas prerrogativas. Bem vistas as coisas, não se trata de uma investigação, mas de um ato contínuo e demoníaco de vingança.

Vingam-se do juiz Ivo Rosa, vingam-se da queixa no tribunal europeu e vingam-se da humilhação do procurador Rosário Teixeira, apanhado a prestar falsas declarações no julgamento da ação extracontratual contra o Estado.

A revelação da SIC sobre quem pagou o parecer é o eterno retorno da covardia e das sombras.

A notícia é encomendada pelo ministério público e o segredo de justiça é violado de acordo com o interesse dos procuradores.

Nunca é culpa de ninguém.

A violação do segredo de justiça é o crime de ninguém.   

Como as elites da Europa perderam o controlo em relação à Rússia

(Por Brian McDonald, in Substack.com, 01/06/2026, Trad. Estátua)


O Ocidente venceu a Guerra Fria oferecendo uma vida melhor, não policiando o pensamento. Os colunistas e membros dos think tanks parecem determinados a esquecer essa lição.


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Na semana passada, O Guardian deu-nos um curioso vislumbre do declínio acelerado  do pensamento político na Europa Ocidental. O ensaio de Timothy Garton Ash, “Como Derrotar Putin”, apresentado três dias depois como uma “Visão do Conselho”  pelo grupo de lobby financiado pela UE, ECFR, começa, como costuma acontecer, com a premissa sensata de que o bloco precisa de uma estratégia séria para a Rússia, mas termina num ponto muito mais sombrio, com uma receita para salvar a democracia tornando-a menos democrática.

Tudo isso faz parte da doença contemporânea recorrente em que o autor deseja que a UE se torne mais autoritária para derrotar os autoritários. Podemos chamar a isso “Von der Leyenismo”, enraizado naquela peculiar corrente de pensamento da Europa Ocidental que acredita que nem tudo associado à Alemanha da década de 1930 era ruim, e que havia mais do que alguns aspetos positivos. Um velho truque, disfarçado de bom senso, que insiste que devemos policiar a liberdade de expressão para a defender, algo muito semelhante a copular para manter a virgindade. Tudo construído sobre a crença de que a dissidência deve ser tratada como traição, desde que o dissidente use o vocabulário errado e venha do lado errado do espectro político.

A frase “eliminar os nossos próprios nacionalistas” é a grande pista aqui, e expõe a verdadeira agenda. Se significasse derrotá-los nas eleições, atendendo às preocupações dos eleitores, seria justo, porque é assim que a política deveria funcionar. Mas todos sabemos que o novo arsenal envolve guerra jurídica, censura, vigilância, exclusão de plataformas digitais, pressão financeira, interferência de serviços de inteligência, campanhas nos média e a incessante insinuação de que qualquer partido fora do centro aprovado por Bruxelas está, de alguma forma, carregando uma boneca matrioska recheada de dinheiro do Kremlin.

Para que o plano tenha sucesso, a democracia liberal terá que ser substituída por uma nova forma de “democracia administrada”, desta vez com a marca ocidental. Basicamente, o Surkovismo russo dos anos 2000 remodelado, com alfaiataria melhor, cotas de género, menos cigarros, menos rap, mais diversidade, bandeiras do arco-íris, pronomes e uma vida noturna bem mais sem graça.

A tragédia é que o autor quase se lembra da verdadeira lição da Guerra Fria do século XX, mas depois passa por ela a toda velocidade, como se fosse um potro de viseiras correndo nas 14h40 em Sandown. O Ocidente sobreviveu à União Soviética porque oferecia uma vida melhor, e não porque conseguia policiar o pensamento com mais eficiência. Até mesmo os filhos de Khrushchev e Estaline emigraram para os Estados Unidos, mas o clã Kennedy e os Roosevelt não fugiram para o leste, nostálgicos da vida comunitária de Leningrado.

O Ocidente ostentava instituições mais livres, padrões de vida mais elevados, debates mais abertos, mais espaço para o indivíduo e uma sensação mais profunda de que o amanhã poderia ser moldado por ti, em vez de algo imposto por um comitê de homens grisalhos que se tratavam por “camaradas” e tinham o estranho hábito de se beijarem na boca.

A juventude aprisionada do bloco oriental não olhava para o outro lado da Cortina de Ferro com inveja dos comunicados da NATO; o que eles invejavam eram supermercados, liberdade de viajar, universidades, discos de jazz, calças jeans, carros melhores, livros sem censura, Michael Jackson e a possibilidade de viver sem um pequeno censor alojado permanentemente no crânio.

Foi isso que tornou o Ocidente atraente, mas agora observe o programa oferecido pela classe liberal de articulistas. Envolve uma UE permanentemente securizada, isolada da energia e das matérias-primas russas baratas e comprometida com o rearmamento, com sanções, tensão industrial, queda do padrão de vida e doutrinação moral interminável. Será que Ash realmente acredita que isso se tornará o grande polo de atração do século XXI? E com base em quê? Será com base em eletricidade cara, desindustrialização, alto desemprego juvenil, desigualdade crescente, crises migratórias e uma classe política que chama os eleitores de perigosos quando reclamam?

A Alemanha é o exemplo mais óbvio de alerta porque, durante décadas, o seu modelo de sucesso baseou-se em energia barata, manufatura avançada, infraestruturas sólidas, uma sociedade coesa e acesso tanto a mercados desenvolvidos quanto a mercados em desenvolvimento.

Desde 2021, esse modelo tem sido abalado, com fábricas sob pressão, custos de energia em alta, o país absorvendo cada vez mais migrantes (muitas vezes de utilidade questionável para a sociedade em geral) e a antiga segurança industrial a tornar-se cada vez mais frágil, ao mesmo tempo que até a rede ferroviária se está a deteriorar. No entanto, em vez de questionar se os membros da UE podem realmente prosperar, permanentemente separados do maior país da Europa, os estrategas do continente buscam mais uma lição.

O que eles não conseguem entender é que a UE não pode censurar e moralizar para se tornar atraente, nem pode construir unidade fingindo desonestamente que o populismo é uma infeção exclusivamente estrangeira. Os figurões da UE preferem a mentira de que os eleitores foram hipnotizados por Moscovo porque não conseguem processar a verdade, que é a de que cada vez mais pessoas não acreditam que a classe política atual (ou seja, eles próprios) seja capaz de governar. E embora chamar aos seus oponentes agentes, enganados, racistas, “pró-russos” ou extremistas seja mais fácil do que lhes responder, também é suicídio político.

Agora, nada disso significa que a Europa Ocidental deva ser fraca e que os seus diversos países não devam, obviamente, defender-se. Eles devem ter exércitos funcionais, fronteiras que tenham significado, indústrias substanciais, identidades claras e líderes capazes de dialogar com Washington, Moscovo, Pequim e Kiev sem parecerem estagiários num painel de um think tank.

Mas uma União Europeia séria também entenderia geografia e aceitaria que a Rússia não é um fenómeno climático passageiro, mas sim o maior país da Europa, uma potência nuclear, uma importante fonte de recursos naturais e um facto permanente no continente.

Tentar excluir a Rússia do projeto europeu enquanto se inclui todos os outros ex-estados soviéticos sempre foi uma forma absurda de pensamento ilusório, e isso também teve implicações estruturais para a própria Rússia.

Se a UE tivesse agido de forma diferente, poderia ter esperado que a geração Putin passasse – geração essa que está compreensivelmente ressentida com o colapso soviético e a humilhação da década de 1990. Então, poderia ter lidado com uma liderança mais internacional e liberal, que nem sequer se lembrasse da URSS, e que certamente viria a seguir.

Nunca devemos esquecer que, apenas um mês antes dos primeiros protestos do Maidan em Kiev, Alexei Navalny ficou em segundo lugar nas eleições para prefeito de Moscovo, mas depois que a UE e os EUA apoiaram incondicionalmente o derrube do governo eleito da Ucrânia, as elites russas concluíram, quer queiramos quer não, que o compromisso do Ocidente com a democracia e as regras não passava de uma farsa.

Isto não é um apelo para que a UE se renda a Moscovo, mas sim uma sugestão para que construa uma arquitetura de segurança europeia que inclua tanto a Rússia como a Ucrânia, porque não se pode construir uma ordem estável fingindo que uma delas pode simplesmente desaparecer.

Se a UE continuar a empobrecer, a tornar-se mais censória, menos livre e mais receosa dos seus próprios eleitores, continuará a trilhar o caminho para a ruína.


Fonte aqui