(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/11/2016)

Miguel Sousa Tavares
1 Li dezenas de análises, de portugueses ou estrangeiros, sobre as razões e consequências da vitória de Trump. Não apenas por dever de função, mas por verdadeiro interesse cívico e político: é preciso tornar compreensível o incompreensível. Eu sei que nos tempos que correm, nas nossas sociedades de informação superficial e opinião instantânea, ler é um luxo, reflectir é uma perda de tempo e tentar entender o outro é um exercício inútil. E, todavia, no meu tempo de vida, nunca tal foi tão necessário, nunca a política terá sido tão importante. A grande política: a que exige tempo, reflexão, informação, contradição. De tudo o que li, a análise mais lúcida, mais focada no essencial, foi a de Augusto Santos Silva, no “Público”. Cito-o: “Quando o credo básico de uma democracia simultaneamente liberal e social deixou de ser óbvio, é preciso explicitar o óbvio.”
Assim, discordo de Jorge Sampaio, quando ele diz que é preciso “reinventar a democracia”. É uma afirmação típica de Sampaio, que adora as palavras começadas por ‘re’. Não é preciso reinventar democracia alguma, é preciso é explicá-la às criancinhas e aos ignorantes. A democracia funciona há mais de dois mil anos, sendo tão somente um sistema de organização política e social das sociedades — o melhor que se inventou até agora. Mas não é um programa de governo ou um catálogo de respostas para todos os males do mundo e para todos os novos desafios dos tempos. Não está escrito em lado algum que a democracia tenha ou deva ter resposta para problemas novos, como o envelhecimento das populações, as migrações em massa, as consequências, boas e más, da globalização do comércio mundial, do regresso aos nacionalismos, do fanatismo religioso de vários credos, da captura da economia pelo sistema financeiro ou do terrorismo em nome de Alá. A democracia não promete a riqueza das nações nem o eterno bem-estar dos povos, ela apenas propõe que aceitemos viver como homens livres e respeitando a liberdade dos outros, protegidos contra a tentação dos abusos, que sempre existe no exercício do poder. Mas, mesmo assim, as nossas sociedades devem à democracia 70 anos de paz e de prosperidade e um património comum de direitos e liberdades, hoje consensuais, mas jamais vividos.
2 A ameaça que hoje enfrentamos, e de que a vitória de Trump é o expoente máximo — (porque não vem de fora, como o terrorismo islâmico, mas de dentro, com o voto da “nossa gente”) —, só pode ser derrotada pela crença na superioridade dos valores democráticos e pela sua constante afirmação. Não há maior erro do que pensar que a democracia é inata à natureza humana. Não é: ela resulta de um processo de educação, pedagogia constante e informação. Quando oiço alguém, em sociedades democráticas, falar contra “o sistema” — como o fez Trump para cativar os eleitores — já sei que o discurso é, de facto, contra a democracia. Os erros, os abusos e as malfeitorias que sempre existiram e existirão resultam da natureza humana e não do sistema democrático. Mas a democracia, precisamente porque é o mais justo e o mais livre método de organização política, é também o mais exposto aos demagogos, aos populistas, aos aldrabões e aos simplesmente não-democráticos. Tanto o ‘Brexit’ como Trump são o resultado de campanhas assentes em factos falsos que os seus aderentes não se deram ao trabalho de confirmar, na exploração de medos irracionais, na demagogia de promessas irrealizáveis e no simplismo de soluções propostas para problemas de uma complexidade nova e infinitamente mais complicada. Como escreveu Martin Wolf, a democracia não é imune à estupidez. Mais: é, como se viu, vulnerável, e por vezes indefesa, face à estupidez.
3 Mas também constatei, nas análises de algumas vozes da direita portuguesa — a tal que era caracterizada como a mais estúpida do mundo e que está de volta das catacumbas —, uma euforia mal disfarçada com a vitória de Trump. Alguns saudaram o seu nacionalismo isolacionista, destinado a proteger um mundo que já não existe e cuja memória não se recomenda, como um saudável regresso à “nação”, como símbolo da soberania nacional recuperada — um discurso, não por acaso, coincidente com o neofascismo emergente na Europa e o comunismo museológico. É inacreditável constatar que quase cem anos decorridos, se possa regressar, sem um arrepio, às teorias que conduziram a Europa às tragédias do fascismo e do estalinismo! Outros acham que a receita económica de Trump — um keynesianismo despesista que aumentará brutalmente a dívida pública (coisa que sempre criticaram à esquerda), a baixa de impostos para os mais ricos, a desregulação financeira e empresarial (a que devemos a crise de 2008), a aposta no regresso de uma indústria sem qualquer preocupação ambiental e a protecção estatal contra a concorrência externa — é uma receita de sucesso garantido, agora e no futuro, ali e em qualquer lado. Outros ainda não pensam nada digno de registo, apenas estão felizes porque acham que a vitória de Trump representou a derrota da “esquerda arrogante e bem pensante” e do “politicamente correcto”. Estes últimos são verdadeiramente dignos de dó: não percebem ou fingem não perceber que o que estava em causa era muito mais do que um clássico combate entre a direita e a esquerda, mas sim entre a civilização e a boçalidade. Permitir que os estudantes vão armados para as universidades, devolver os doentes sem dinheiro às ruas, perseguir pessoas pela sua fé religiosa ou a sua origem étnica, fazer da “supremacia do homem branco” uma política de governo, voltar a criminalizar o aborto 70 anos depois, nomear fanáticos religiosos para administrar a Justiça, e tudo o mais, não tem que ver com ser-se de esquerda ou de direita, mas apenas com ser ou não ser uma pessoa decente. É uma questão de maneiras, de educação, de cultura, de valores éticos, que, tanto quanto sei, não são exclusivo da esquerda. E se não ficam preocupados com a amizade política entre Trump e Marine Le Pen, se não lhes soa a nada de familiar ouvi-la dizer que está em marcha uma nova ordem mundial, é porque, de duas, uma: ou são de extrema–direita ou de extrema imbecilidade. Qualquer das doenças é incurável.
4 Paradoxalmente, acredito que estes tempos perigosíssimos são também tempos politicamente fascinantes para a Europa. É a hora da verdade para um projecto europeu que terá de se afirmar por si, sem a Inglaterra e sem os Estados Unidos, ou morrer de vez. Acabou o tempo de discutir mercearias, de adiar sistematicamente decisões incómodas, de aceitar o governo da pequena gente. Vamos ter de discutir a sério a defesa europeia além da NATO, mas simultaneamente também deixaremos de ter de estar dependentes das operações da NATO levadas a cabo no exclusivo interesse americano, como sucedeu no Iraque, no Kosovo, no Afeganistão. Podemos ter uma política externa comum apenas baseada nos interesses da Europa, visto que os Estados Unidos vão fazer o mesmo. Podemos aproveitar a oferta de Trump e esquecer de vez o Tratado de Comércio Euro-Atlântico (TTIP) que os americanos nos queriam impor segundo as suas regras. Podemos aproveitar o isolacionismo e o proteccionismo económico de Trump para ocupar os mercados que, em retaliação, serão fechados aos produtos americanos. Podemos tirar partido da retrógrada política energética anunciada por Trump para investirmos cada vez em alternativas limpas, abundantes e baratas, infinitamente mais concorrenciais no mercado global do futuro. Podemos voltar a ser a vanguarda da cultura, da investigação, da justiça social. Podemos, em conjunto, procurar soluções novas para problemas novos, em lugar de querer regredir cem anos.
E podemos e devemos reafirmar os nossos valores, quanto mais ameaçados nos sentirmos. Podemos, enfim, recuperar o orgulho e a esperança da cidadania europeia. Pior do que tudo, será a fraqueza de ir cedendo a Trump, passo a passo. Deixemos a América dormir o sono dos imbecis. Quando voltar a acordar, a Europa tem de estar cá, porque eles vão precisar de nós.
(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)