O esplendor do politicamente idiota

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/04/2018)

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Miguel Sousa Tavares

Pobre Fernando Medina, do que ele se foi lembrar: fazer um Museu das Descobertas, ou dos Descobrimentos, em Lisboa! Uma ideia que pareceria absolutamente consensual e necessária e que só pecava por tardia, parece que se transformou numa polémica que já suscitou a indignação de mais de uma centena de historiadores e “cientistas sociais”, trazida a público num abaixo-assinado de professores de diversas Universidades, portuguesas e estrangeiras — se bem que, para dizer a verdade, quase todas de segundo plano, as Universidades, e quase todos, portugueses, os professores, com excepção de alguns, que presumo brasileiros, em decorrência dos nomes que ostentam e que só podem ter origem em antepassados portugueses e não em avós balantas ou mesmo tupi-guaranis.

Antes de, com a devida vénia e indisfarçável terror, entrar na polémica, deixem-me confessar a minha ignorância preliminar relativamente a duas questões, seguramente menores: desconheço quase por completo, não só os nomes, mas, sobretudo, a importância dos ditos historiadores para o que, num português em voga mas não recomendável, chamam “a riqueza problematizante” do que ora os ocupa; e desconheço ainda mais o que faça ao certo um cientista social que o torne uma autoridade na matéria.

Isto posto, e indo ao fundo da controvérsia, estas cem excelentíssimas autoridades indignam-se, em suma, contra o maldito nome do nascituro museu. Porque a questão, dizem eles, é que chamar-lhe Museu das Descobertas ou dos Descobrimentos, “não é apenas um nome, é o que representa enquanto projecto ideológico”. Este, esclarecem, é o projecto ideológico do Estado Novo, “incompatível com o Portugal democrático”. Bravo, António Ferro, o SNI continua vivo, os Descobrimentos portugueses mais não foram do que a antecâmara do colonialismo e o Estado Novo o seu apogeu e desfecho natural! O “mar sem fim português”, de que falava Pessoa, outra coisa não era, afinal, do que o Portugal do Minho a Timor, de que falava Salazar.

Pois, bem, se a palavra “descobertas” envolve um “projecto ideológico” de conotações maléficas, isso significa que as excelentíssimas autoridades têm outro projecto ideológico que se opõe e resgata este. Qual seja, e abreviando, chamar a atenção, por exemplo, para que os povos alegadamente descobertos pelos portugueses não se terão sentido descobertos, porque, de facto, já lá estavam. É um argumento tão fantástico, que, de facto, é irrebatível. Mas, salvo desconhecida opinião, ninguém sustenta que Vasco da Gama criou do nada o samorim de Calicut, que os Jesuítas encontraram o Tibete despovoado ou que Pedro Álvares Cabral celebrou a primeira missa em Terras de Santa Cruz para uns fantasmas vestidos de índios. Não, o que eles fizeram foi encontrar as rotas, marítimas ou terrestres, que ligaram o Ocidente e a Europa ao Oriente e às Américas, pondo em contacto dois mundos até aí sem contacto algum (com a excepção parcial das viagens de Marco Polo, por via terrestre, e as viagens marítimas, sem sequência científica ou outra, dos vikings). O que se sustenta é que não foi o samorim que se deu ao trabalho de largar o seu luxuoso trono e apanhar uma low-cost para a Europa, mas o Gama que se arriscou a ir mar fora naquelas cascas de noz ao seu encontro. Na época, isso significou — em termos de navegação, de cartografia, de indústria naval, de rotas comerciais e de avanços científicos em todas as áreas — um pulo de uma dimensão nunca antes e raras vezes igualado depois, na história da Humanidade. Sem falar das terras virgens que descobrimos e dos que não descobriram povos, dos que navegaram em pleno desconhecido, movidos por um verdadeiro sentido de descoberta tão extremo e destemido que só poderemos classificar como quase demência: Bartolomeu Dias dobrando o Cabo da Boa Esperança sem saber o que iria encontrar do outro lado; Fernão de Magalhães procurando insanamente o Estreito que ainda hoje tem o seu nome, ligando o Atlântico ao Pacífico e provando que a terra era redonda e circum-navegável em toda a sua extensão; os irmãos Corte-Real desbravando o limite extremo do norte navegável. Todos eles em mar aberto e em terra de ninguém, onde seria impossível às excelentíssimas autoridades encontrarem forma práctica de dar execução a outro dos argumentos arrolados para o conceito ideológico do seu museu: “Valorizar as experiências de todos os povos que estiveram envolvidos neste processo”.

Enfim, e sempre resumindo, vem depois o argumento da escravatura. É incontornável e eu subscrevo-o: deve estar referenciado num museu sobre as Descobertas, e subsequente colonização portuguesa. Sem esquecer, porém, que não foram os portugueses que inventaram a escravatura, mas apenas aproveitaram o comércio de escravos que encontraram florescente nas costas oriental e ocidental de África. E sem esquecer também que, sem desculpar o que foi a tragédia da escravatura, não há erro mais simplista de cometer do que julgar a História pelos padrões éticos contemporâneos. E estou à vontade no assunto, pois escrevi um romance histórico cujo tema central era a escravatura em São Tomé e Príncipe e em que, apesar de ela ter durado até à primeira metade do século XX (!), não encontrei, curiosamente, entre tanta fonte pesquisada e tanto historiador preocupado, nenhum trabalho histórico de referência que a contemplasse.

Não resisto a uma palavra aos invocados historiadores brasileiros que assinam esta petição. Conheço muito, de ver e de ler, da herança história de Portugal no Brasil — e tenho um profundo orgulho nela. Todos os ciclos de prosperidade histórica do Brasil, ligados às riquezas naturais, tirando o primeiro — o do pau-brasil, irrelevante, em termos económicos — foram feitos graças a árvores levadas para lá pelos portugueses: a cana de açúcar, a borracha, o cafeeiro, até os coqueiros, que levámos da Índia. E o ouro, o célebre ouro, roubado pelo D. João V? Ah, o ouro do Brasil! Do célebre “quinto real” (tudo o que cabia à Coroa), nem um quinto cá chegou. O resto? Perguntem a todas as ‘Lava-Jato’ que saltearam o Brasil, desde 1822. Pedras, monumentos? Tudo o que ficou de pé é português: no Pará, em Pernambuco, em Salvador, em Minas, no Rio, em Paraty, onde quiserem. E o Amazonas, cujo desbravamento por Pedro Teixeira é uma aventura assombrosa de coragem e persistência e cuja colonização, que incluiu a construção dos sete fortes de fronteira, erguidos com pedras de granito levadas de Portugal a mando do marquês de Pombal, e a que o Brasil ficou a dever milhões de quilómetros quadrados de floresta virgem preciosa, e que foi, no dizer do grande historiador brasileiro Joaquim Nabuco, “talvez a maior extraordinária epopeia de todos os Descobrimentos portugueses”? É bem provável que os brasileiros não saibam nem queiram saber dessa história. Os portugueses não sabem com certeza. Mas deviam saber.

Que haja portugueses que tenham vergonha desta história e queiram reescrevê-la numa espécie de museu de autoflagelação é problema deles. Mas não pode ser problema dos outros. O dinheiro dos nossos impostos não pode servir para fazer um museu contra a nossa História, contra uma História que foi tão grandiosa que, se calhar por isso mesmo, nem a conseguimos entender, na nossa pequenez actual. Tudo isto me faz lembrar o que escreveu no início de um poema uma senhora que, por acaso, era minha mãe: “Navegavam sem o mapa que faziam/ Atrás deixando conluios e conversas/ Intrigas surdas de bordéis e paços…”.

Para terminar: já me tinha pronunciado sobre isto antes. Antes de esta irrepetível oportunidade para fazer uma coisa bem feita ter sido capturada pela intelligentsia ociosa dos abaixo-assinados. Mas volto ao que então escrevi: eu não queria apenas um Museu das Descobertas em Lisboa. Queria um Museu de Portugal e do Mar ou dos Portugueses e o Mar. Onde coubesse também a história de duas outras extraordinárias epopeias que o comum dos portugueses e dos estrangeiros que nos visitam desconhece: a nossa contribuição única e indispensável na história da pesca à baleia (juntamente com os cabo-verdianos), no Atlântico e Pacífico, e na história da pesca ao bacalhau à vela, na Gronelândia e norte do Canadá. Desse modo se tornaria patente que não foi por um simples acaso, nem para espalhar a fé e o império, ou apenas para trazer a pimenta e a canela da Índia, que este pequeníssimo povo, entalado entre o fim da Europa e o mar, escolheu o mar como destino. E, porque o espaço tem relação directa com isso, porque está miseravelmente desaproveitado, porque é lindo e porque sai mais barato aos contribuintes, queria vê-lo na Cordoaria Nacional.


 Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia 

As escolhas: o que interessa e o que apenas entretém

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/04/2018)

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1 Portugal é um país assaz curioso: dentro da sua pequenez geográfica, o grande fascínio que tem é a sua diversidade — paisagística, cultural, arquitectónica, culinária. É tudo menos um país monótono. Mas, simultaneamente, do ponto de vista político, essa pequena dimensão geográfica, aliada a uma antiquíssima unidade e identidade nacionais e à sua localização na periferia de todos os conflitos contemporâneos que dilaceram a Europa e o mundo, mais os nossos tradicionais brandos, e agora liberais, costumes, deveria fazer deste país uma espécie de modelo perfeito de boa e fácil governança. Por que razão tal não sucede, então — pelo menos a fazer fé nas conversas com que os portugueses se entretêm nas tertúlias de café ou nos fóruns das rádios, onde se aliviam sem tréguas do seu inesgotável ódio e desprezo pela gestão política do país, venham os governos que vierem? Bem, há sempre aquela explicação, meio lenda meio verdade, do general romano que escrevia a César explicando que o problema era do povo que aqui vivia, os lusitanos, que nem se governavam nem se deixavam governar. Deixo a explicação profunda para os politólogos, que estudaram para isso, mas confesso que às vezes fico a pensar se o conceito de política que os portugueses gostam de discutir é realmente a política que interessa discutir. A política, simplesmente. E não a politiquice. Um bom exemplo é o charivari feito a propósito dos dois acordos estabelecidos esta semana entre o Governo PS e o PSD.

O que acordaram Costa e Rio de tão determinante e grave que levou a oposição interna a Rio a acusá-lo de posicionar publicamente o PSD como “muleta do PS”, os parceiros de extrema-esquerda do Governo a entrar em histeria de cônjuge enganado e os especialistas da politiquice a cheirarem sinais iniludíveis de regresso ao “bloco central”? Bom, primeiro acordaram numa posição conjunta em Bruxelas que permite defender a manutenção do valor do cheque de fundos estruturais a favor de Portugal no programa 20/30, já sem a contribuição inglesa, após o ‘Brexit’. É caso para perguntar a quem é que isto incomoda? Há por aí alguém, algum partido, que defenda o contrário, menos dinheiro de Bruxelas? A seguir, os dois conjurados defenderam aquilo a que pomposamente chamaram “pacote da descentralização”, que mais não é do que um tímido acréscimo de competências para as autarquias locais, acompanhado do respectivo envelope financeiro. Aqui entre nós, um simulacro de descentralização, que nada de substancial muda e a ninguém incomoda — a começar pelo PCP, o outro partido autárquico. Descentralizar é coisa absolutamente diferente e estamos longe, muito longe de ouvir o primeiro partido atrever-se a defendê-la, além dos discursos vácuos. E há duas formas de a fazer. Uma é a forma falsa, demagógica e ruinosa, que consiste em recuperar o já derrotado processo de regionalização. Dividiria o país em coutadas políticas, ao serviço dos partidos e seus caciques locais, instalaria um clima de guerra civil, financeira e política, permanente, e levaria Portugal à bancarrota num instante. A outra seria a fórmula séria, a única que verdadeiramente promoveria a descentralização e combateria aquele que é um dos principais problemas que enfrentamos, que é o despovoamento e envelhecimento galopante do interior. Consistiria em deslocar para fora dos grandes centros urbanos empresas públicas de vocação industrial e serviços públicos de apoio à indústria, à agricultura e infraestruturas, deslocar universidades e centros de investigação, em lugar de alterar excepcionalmente o PDM de Lisboa para os colocar à beira-Tejo, obrigar os museus, teatros e orquestras nacionais a passarem metade da temporada em digressão pelo interior, promover uma radical reforma fiscal que tributasse a zero por cento de IRC as empresas que se fossem instalar longe dos grandes centros urbanos criando postos de trabalho efectivos e com 50% de desconto o IRS dos trabalhadores, que criasse uma jurisdição especial para resolução acelerada de conflitos na aérea comercial, empresarial e de trabalho, e, já agora, se faz favor, uma política implacável de protecção ambiental, sem celuloses nem pocilgas nem lagares de azeite a despejarem esgotos sem tratamento para os rios. Enfim, uma descentralização que, preservando a superior qualidade de vida do interior e tirando partido dela, lhe trouxesse o mais precioso dos capitais para o seu desenvolvimento: o capital humano. É a isso que eu chamo política a sério. Mas dá trabalho e exige reflexão e coragem. Não vai a tempo das eleições de 2019.

2 Deixemos então de lado as escolhas que apenas entretêm e que tanto ocuparam os partidos, o Parlamento e os especialistas nestes assuntos esta semana, e vamos àquelas, que, de facto, interessam. A mais importante de todas foi levantada por Mário Centeno a propósito do Programa de Estabilidade para os quatro próximos anos e já aqui escrevi brevemente sobre isso há oito dias.

A questão pode resumir-se, como Centeno fez. E de forma simples e linear, o que só torna a escolha mais fácil: o que fazer com os 800 milhões de euros de saldo que vamos herdar da execução orçamental: aproveitá-los para diminuir a dívida ou gastá-los? Num cenário perfeito, a resposta seria simples: vamos gastá-los e renegociar a dívida, cortando parte do capital ou dos juros. Não digo que não fosse justo, pelo menos em parte e atendendo à composição da dívida, mas o certo é que não está nas nossas mãos consegui-lo e o contexto político europeu está longe de se mostrar propício a tal. Mais vale portanto tratar do assunto sem esperar a generosidade alheia.

O que fazer com os 800 milhões euros de saldo que vamos herdar da execução orçamental: aproveitá-los para diminuir a dívida ou gastá-los?

Na tese dos que defendem que o dinheiro sobrante é para ser gasto, coexistem dois argumentos, um formal e outro substancial. O argumento formal é que o défice previsto para este era de 1,1% e não de 0,7, como agora se prevê — a tal diferença de 800 milhões de euros, já incluindo nova injecção para prejuízos desse ruinoso brinquedo que é o Novo Banco. Logo, cumpra-se o Orçamento. A tese substancial é que não é socialmente aceitável continuar uma política de contenção de despesas além do acordado, quando falta dinheiro para serviços públicos essenciais, designadamente na saúde e na educação. Isto é o que diz o BE, porque o PCP vai mais longe e quer dinheiro para tudo o resto, na sua tradição de que não há limite para a despesa pública e que se os governos não aumentam salários, pensões, subsídios e tudo o resto, é só porque não querem.

A tese oposta, aparentemente partilhada sem estados de alma por António Costa e todo o Governo, é que não sobra dinheiro algum: há sim 800 milhões de euros de dívida a menos para pagar, mais os respectivos juros. E que, se não aproveitarmos esta conjuntura excepcional de crescimento económico, aqui e na Europa, e de juros baixos (a qual em breve se espera que começa a mudar), teremos perdido uma oportunidade, que tão cedo pode não se repetir, de trazer o monstro da dívida pública para patamares que não nos sufoquem a todos. E que nos coloquem em situação de nos deixar mais bem preparados para enfrentar uma crise como a de 2008, que nos obrigou a pedir ajuda externa quando os juros da dívida chegaram aos 10% nos mercados.

A escolha é esta. Há pormenores mal explicados em cada uma das posições: custa-me a perceber, por exemplo, como é que com cada vez menos crianças e menos escolas e depois do imenso investimento na Parque Escolar, ainda falta tanto dinheiro para a educação; assim como me custa a perceber como é que a banca, mesmo depois da Resolução e alegada privatização do BES, continua a ser um saco de dinheiro roubado aos contribuintes cujo fundo ninguém conhece. Mas, independentemente dessas nebulosas, também não consigo entender como é que os partidos que mais gritaram contra os encargos da dívida pública, o BE e o PCP, agora acham que diminuí-la, aproveitando as condições favoráveis, não é uma prioridade da política de finanças públicas. Ou conhecerão uma solução milagrosa?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia 

Enquanto ainda estamos vivos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/04/2018)

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1 Nos dias que correm, é preciso seguir o mundo hora a hora para saber se a terceira guerra mundial já começou. A avaliar pela despreocupação aparente com que os habitantes de Damasco, ouvidos ontem de manhã pela Sky News, esperavam pelos mísseis “lindos e inteligentes” anunciados por Donald Trump, o mundo não está para acabar. Mas nunca se sabe onde esta escalada de estupidez pode conduzir. Porque sustenta Putin este carniceiro de Assad, se qualquer outro fantoche menos sanguinário e mais aceitável para o Ocidente resolveria o problema e lhe serviria perfeitamente para a ocupação estratégica de uma Síria que Trump lhe deixou livre? Porque o negócio feito entre os dois vai-se tornando cada vez mais claro: Hillary era a candidata anti-Putin e por isso este deu uma ajuda decisiva à campanha de Trump, espalhando milhões de fake news estrategicamente distribuídas via Facebook entre os eleitores certos. Em troca, Trump deu-lhe mãos livres no Médio Oriente, onde só lhe interessa Israel e o supermercado de armas da Arábia Saudita. Só que a investigação do FBI à intromissão da Rússia nas eleições americanas, que Trump sempre julgou poder controlar, vai-se apertando cada vez mais, ao ponto de ele já estar a ponderar demitir o procurador especial que nomeou, Robert Mueller. E, nesta fase do processo, em que já não precisa dos serviços de Putin, nada melhor do que um conflito com a Rússia para desviar as atenções do escândalo interno e proclamar-se, afinal, inimigo da Rússia, mesmo que ponha o planeta a ferro e fogo. É louco o suficiente para isso. Tenham medo, tenham muito medo.

2 Se ainda estamos vivos, passemos então a outros assuntos. Lula e o Brasil, por exemplo. Por aqui e por lá, já todos disseram de sua justiça e as posições são claras: a direita acha que a esquerda quer politizar a justiça e a esquerda acha que é a justiça que tomou conta da política e que, aliada à direita e sob ameaça militar, quer afastar de vez qualquer hipótese de a esquerda regressar ao poder. Assim extremados os campos, a discussão nem é sobre justiça nem sobre política: é sobre poder. No rescaldo, já lançou o Brasil num clima de guerra civil, tornou inviável qualquer reflexão sobre a origem profunda do mal brasileiro, e, no limite, pode fazer o país regredir décadas ou até trazer de volta os militares — que, ninguém, se iluda, são iguais ao que eram há cinquenta anos e de todo não se recomendam.

Fiquemos apenas pelas verdades sem contestação séria. Quando Lula chegou ao poder, o Brasil era, talvez, o país mais escandalosamente desigual e corrupto do mundo. Tudo estava à venda e todos se vendiam, desde os polícias que deviam controlar os vendedores de droga das favelas até aos barões da droga, que financiam as escolas de samba, os clubes de futebol e vários congressistas. Como qualquer Presidente, todavia eleito por sufrágio universal, Lula não conseguiria nunca ver a sua agenda política aprovada no Congresso — onde o PT era uma minoria face aos 24 partidos presentes, mais os interesses organizados por ramos de negócio (fazendeiros, vendedores de armas, grandes construtoras, Petrobras, banca, etc.), e ainda as bancadas estaduais — se não seguisse a recomendação de José Dirceu: comprar votos entre os deputados. Foi assim que nasceu o ‘Mensalão’. Nisso, Lula não inovou, apenas se rendeu ao inevitável: todos os Presidentes antes dele fizeram o mesmo, incluindo Fernando Henrique Cardoso, que comprou votos no Congresso para conseguir uma revisão constitucional que lhe permitiu cumprir um segundo mandato, não previsto constitucionalmente. Em contrapartida, segunda verdade inquestionável, Lula arrancou à miséria e ao gueto social mais de 15 milhões de brasileiros, a quem deu pão, casas, escolas, vacinas, luz, assistência médica e um mínimo de dignidade.

Nesta fase do processo, em que já não precisa dos serviços de Putin, nada melhor do que um conflito com a Rússia para desviar as atenções do escândalo interno em que Trump está mergulhado

Mas o pior veio depois, como se, tendo provado do veneno, o PT já não fosse capaz de lhe resistir. O ‘Lava Jato’ é coisa completamente diferente: já não se tratava apenas de comprar votos no Congresso para conseguir governar com o programa aprovado pelo povo, mas de, para assegurar a manutenção do poder, garantir o financiamento do partido através da corrupção financeira, pura e simples. Em abono da verdade, diga-se porém que a Odebrecht, líder destacado do esquema, corrompeu quem quer que estivesse disponível, políticos e partidos — em especial esse maldito PMDB, verdadeiro centro e escola do crime político no Brasil. Quando Lula saiu do Planalto tinha 80% de aprovação popular, hoje tem 40% — a diferença foi todo o prestígio que se volatilizou no ‘Lava Jato’. Há muita, muita gente, que votou nele e no PT, que não lhe perdoa a traição aos ideais de regeneração ética proclamados quando chegou ao poder. Sérgio Moro tentou de todas as formas possíveis conseguir uma delação premiada que envolvesse Lula e Dilma Rousseff no ‘Lava Jato’, mas não conseguiu — foi o seu maior falhanço. Dilma, um dos raríssimos políticos brasileiros contra quem nunca houve uma suspeita criminal, acabou destituída por um Congresso onde um terço dos votantes que a destituíram estavam implicados no ‘Lava Jato’ ou outros crimes de corrupção, a começar pelo presidente do Congresso, o notório bandido Eduardo Cunha, agora na prisão, mancomunado com o vice-presidente Michel Temer, agora na Presidência, apesar de implicado até aos cabelos, e a continuar até no ex-Presidente Collor de Mello, que se demitira anos antes para não ser destituído, por roubo de dinheiros públicos, e que depois de um exílio dourado em Miami, regressara, eleito como senador, para presidir à Comissão de Relações Externas do Senado, e agora também implicado no ‘Lava Jato’. Este notável trio integrou a turba dos que destituíram um Presidente por uma simples irregularidade orçamental, comum a qualquer governo do mundo, numa sessão parlamentar que cobriu de vergonha o Brasil.

Quanto a Lula, Sérgio Moro teve de ir à volta. Em vez da Odebrecht e do ‘Lava Jato’, descobriu outra construtora, a OAS, e um negócio exclusivo que implicasse Lula: a oferta de um triplex na praia em troca de favorecimento num concurso público. Problema nº 1 — Moro não conseguiu apresentar uma única prova: uma escritura, um contrato-promessa, um e-mail, uma escuta, um testemunho, um papel, uma conta bancária, uma só data em que Lula ou a mulher tenham dormido uma noite no dito apartamento. Condenou-o a nove anos de cadeia com base numa única “delação premiada”, que outra coisa não é do que um testemunho comprado — a antecâmara do testemunho arrancado sob tortura. Para aqueles para quem tal é suficiente, chamo a atenção apenas para isto: com a delação premiada, que o nosso Ministério Público suspira por introduzir aqui, ficamos com a certeza apenas de que um criminoso certo é deixado em paz para que um hipotético criminoso mais importante possa ser preso. Problema nº 2: só por grande generosidade se pode entender num Estado de direito que Lula alguma vez tenha sido julgado em primeira instância. De facto, o que aconteceu no Tribunal de Curitiba é que um só magistrado, Sérgio Moro, abriu a investigação do processo, dirigiu a instrução, deduziu a acusação, conduziu sozinho o julgamento (onde foi acusação e juiz) e, no final, decretou a sentença e a pena. Onde aqui seriam necessários cinco magistrados diferentes, garantindo o contraditório, lá, no que chamam primeira instância, bastou um. Enfim, problema jurídico nº 3: o habeas corpus julgado tangencialmente contra Lula pelo Supremo Tribunal Federal, não obstante as longas e doutíssimas, embora confusíssimas, alegações dos condenantes, decidiu contra lei expressa e clara da Constituição brasileira: “Ninguém pode ser preso sem trânsito em julgado da sentença”. Como em qualquer país civilizado.

Politicamente, Lula está morto, o PT está morto. E, se tiverem juízo e algum pudor, deviam agora conformar-se em atravessar o deserto e meditar naquilo que traíram e fizeram de errado e naquilo que o Brasil precisa de mudar, começando por uma reforma urgente do seu sistema político-constitucional. Mas, por favor, não venha a direita invocar a justiça para ganhar nos tribunais o que perdeu nas urnas. Em termos de justiça, a condenação de Lula, assim como a destituição de Dilma não passou de uma fantochada.

3 A mensagem de Mário Centeno não podia ser mais clara: temos agora uma oportunidade única de nos livrarmos do défice e de nos começarmos a livrar do sufocante fardo da dívida e respectivos juros. Antes que a conjuntura externa dê a volta e nos apanhe outra vez desarmados. Queremos aproveitar ou não?

P.S. — Resposta de MST à Celtejo

  1. Como é óbvio, referi-me à multa aplicada à Celtejo e posterior revisão judicial com base em notícias vindas na imprensa e que, essas, não vi a Celtejo contestar.
  2. A Celtejo “exerce a sua actividade no Tejo… de acordo com as melhores práticas” e “é alheia ao fenómeno de poluição manifestado no rio Tejo em janeiro passado” (e cujas conclusões da investigação o Ministério Público de Castelo Branco resolveu surpreendentemente colocar sob segredo)? Deixem-me rir antes que me esqueça.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia