O telefone vermelho

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/03/2025)

Zelensky e os seus amigos europeus desdenharam sempre obter um acordo de paz quando a Ucrânia estava numa posição bem mais favorável e agora estão dependentes das condições ditadas por Putin e da vontade de Trump.


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e uma guerra nuclear entre as duas grandes potências mun­diais terminaria com a destruição mútua de ambas e o extermínio de dois terços da Humanidade, parece evidente que não há outra solução que não o entendimento entre elas visando a renúncia recíproca à utilização de armas nucleares. A isto chamámos durante décadas o “equilíbrio do terror”, que garantiu que por mais ogivas nucleares que Estados Unidos ou União Soviética acrescentassem aos seus arsenais elas não eram para ser usadas, mas apenas para servirem como factor de dissua­são. Foi assim possível, mesmo nos mais tensos momentos da chamada Guerra Fria, chegar a acordos que limitavam o número de ogivas ou de mísseis intercontinentais de cada lado — os tratados SALT I e II e START — e de manter, em última instância, uma via aberta de diálogo directo entre os Presidentes dos dois países: o “telefone vermelho”. E assim vivemos quase 50 anos, no fio da navalha mas em paz, até que Margaret Thatcher pressentiu em Mikhail Gorbatchov a intenção de pôr fim à União Sovié­tica. Seguiu-se aquilo que eu considero o maior erro estratégico do Ocidente: sobre as ruínas da URSS e a liberdade reconquistada pelos seus países satélites, pegar nestes e utilizá-los para expandir a NATO cada vez mais para leste em direcção à Rússia. Hoje, uns garantem-nos que Putin quer voltar a 1991 e reconquistar todos os países aos quais a Rússia então restituiu a independência, ressuscitando sob a sua alçada o antigo Pacto de Varsóvia, enquanto outros vão mais longe e asseguram que ele quer conquistar a Europa inteira: não é invenção, é a doutrina dominante entre os actuais líderes europeus e da União Europeia (UE). Eu acredito antes que ele é, sim, um nostálgico do Império Russo tal como Catarina, a Grande, o delimitou, incluindo nele a Crimeia, a Ucrânia e os demais países vizinhos que têm uma história ou uma população ainda ligada à Rússia. A sua célebre frase, tantas vezes citada, de que “o fim da ­União Soviética foi a maior catástrofe do século XX” é sempre truncada, omitindo a continuação da frase, em que ele justificou a afirmação com o facto de a extinta União Soviética ter abandonado russos à sua sorte nos países de onde se retirou. Talvez seja um bocado isso que ele agora tenta resgatar. Mas isso agora não vem ao caso.

O que interessa agora é perceber qual é a situação actual e como é que, a partir dela, será possível ou não restabelecer com a Rússia relações que afastem o clima de guerra iminente ou prometida em que estamos e, de caminho, conseguir o melhor acordo de paz possível para a Ucrânia — se é que é isso que se pretende. A invasão da Geórgia e da Ucrânia e a anexação da Crimeia contribuíram decisivamente para afastar as partes e fazer renascer o clima de guerra fria, tal como o havia feito a contínua expansão da NATO para as fronteiras da Rússia. Aos poucos, esse clima foi-se agravando, o telefone vermelho deixou de tocar e não só ninguém deu um passo para desanuviar a tensão como até ouvimos Joe Biden chamar “assassino” a Putin, o que certamente não contribuiu para melhorar as coisas. Sem surpresa, assistimos à denúncia ou não renovação dos tratados SALT e START e, para todos os efeitos, foram cortadas todas as pontes e canais de diálogo entre as partes. E assim a guerra da Ucrânia estava aí para durar indefinidamente, não tivesse aparecido entretanto Donald Trump e a sua promessa de fazer acabar com a guerra em 48 horas. De repente, todos os que do lado de cá tinham como única proposta continuar a financiar e armar a Ucrânia “por tanto tempo quanto necessário”, aqueles para quem a simples sugestão de tentar negociações para pôr fim à guerra era uma demonstração de vassalagem a Putin, ensaiaram uma cambalhota total e passaram a reclamar e a exigir ser parte activa nas negocia­ções abertas por Trump. É bom que não nos esqueçamos disto para compreen­são futura do que se vai passar a seguir.

E então, depois de ter obrigado Zelensky a aceitar, a bem ou a mal, o seu projecto de acordo de paz, Trump pegou no telefone vermelho, que já não devia funcionar há anos, e ligou a Putin. Essa tão esperada chamada telefónica deixou bons auspícios quanto à normalização das relações Estados Unidos-Rússia e à retoma dos acordos de limitação de armas nucleares, mas, em relação à guerra da Ucrânia, resultou em quase nada. Putin reduziu o esperado acordo de cessar-fogo a mínimos e, para ir mais além, exigiu o fim do fornecimento de armas a Kiev e um acordo de paz que contemple os pontos que Moscovo quer ver discutidos e a que ele chama “as raízes da guerra”. Trump — que é forte com os fracos e fraco com os fortes — aparentemente bateu em gloriosa retirada, pouco habituado a não ser obedecido e sem que se possa adivinhar que planos tem ele agora para fazer avançar qualquer acordo, se é que tem algum. Um bom acordo faz-se quando se está em boa posição e não quando se está por baixo, em estado de necessidade. Zelensky e os seus amigos europeus desdenharam sempre obter um acordo de paz quando a Ucrânia estava numa posição bem mais favorável e agora estão dependentes das condições ditadas por Putin e da vontade que Trump tenha de as aceitar ou não, da pressa que tiver em pôr fim à guerra de qualquer maneira para depois passar à fase seguinte: cobrar a sua comissão de mediador em riquezas minerais da Ucrânia. Putin pode agora, diferentemente do que sucedia até há uns meses, ditar as suas condições para pôr fim à guerra: está por cima no campo de batalha, sente a Ucrânia exaurida e tira partido da espantosa vaidade de Donald Trump. Enquanto isso, a Europa, ao mesmo tempo que reivindica um lugar à mesa das negociações de paz, continua a querer investir na guerra, como se nada de novo tivesse acontecido. Kaja Kallas, a comissária para a Defesa da UE, numa semana anuncia mais €20 mil milhões em armas para a Ucrânia e na semana seguinte diz que afinal são €40 mil milhões que os países da UE terão de desembolsar, sem explicar como e porquê refez as contas. E, sobretudo, sem querer saber que agora é a Ucrânia que não quer mais continuar em guerra. Pode até dar-se o caso de Zelensky, acossado pela necessidade e por Trump, aceitar a exigência russa de deixar de receber armas ocidentais e teríamos a UE com umas toneladas de armas para oferecer a quem não as quer. Mas também não me admira nada tanto amadorismo bem intencionado: estes são os mesmos dirigentes europeus que andam a arregimentar tropas para mandar para a Ucrânia com a missão de garantir o acordo de paz — sem que haja ainda acordo e sem saber se a Rússia aceitará tropas europeias de países da NATO na Ucrânia. São os mesmos dirigentes que aceitaram sem pestanejar, e igualmente sem quererem ver as contas, o plano de rearmamento europeu no valor de €800 mil milhões, apresentado por Ursula von der ­Leyen. Os mesmos que, para financiar o seu rearmamento, se preparam para aprovar a renúncia aos limites de endividamento dos Estados e o desvio de verbas da coe­são europeia a favor das indústrias de armamento. Os mesmos que ficaram entusiasmados com o programa de rearmamento da Alemanha, que exigiu até uma alteração constitucio­nal sem parar para pensar se será boa ideia o rearmamento da Alemanha, sobretudo quando um partido neonazi, a AfD, tem 20% dos votos dos alemães. Os mesmos, enfim, que só falam de guerra enquanto se tenta alcançar a paz na Europa.

2 Entretanto, o homem que sonha vir a ganhar o Nobel da Paz, Donald Trump, incentiva e apoia o seu amigo Netanyahu, um criminoso com mandado de captura do Tribunal Internacional da Haia, para retomar o plano da solução final na Palestina: matar o maior número possível de palestinianos e empurrar os restantes para fora da sua própria terra.

É extraor­dinário comparar a unanimidade nas sanções ditadas à Rússia pela invasão da Ucrânia com a unanimidade na impunidade para com o genocídio que Israel leva a cabo há mais de um ano.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Agora, abanem a cauda

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/02/2025)

Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.


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Assim como a enxurrada de decretos espalhafatosamente assinados por Trump está a transformar a democracia americana numa espécie de Coreia do Norte vergada ao culto da personalidade de Kim Il-Donald, também a sua ânsia de tornar tudo irreconhecível e irreversível está a acelerar o mundo. Deixemos agora de lado os seus sinistros projectos para a Palestina, onde o seu plano de ‘paz’ se resume a uma limpeza étnica, com a expulsão dos palestinianos da sua terra — um plano saudado por 76% dos israelitas. Fiquemos pela análise daquilo que aparentemente se pode concluir da expedição punitiva que ele enviou à Europa, do seu longo e frutuoso telefonema com Vladimir Putin e do início das conversações sobre a Ucrânia em Riade, reunindo os chefes da diplomacia russa e americana e deixando de fora ucranianos e europeus.

A primeira coisa a constatar é que em todas as questões de política externa em que já tocou — as tarifas ao mundo inteiro, o Canadá, a Gronelândia, a faixa de Gaza ou a Ucrânia — ele avança como um bulldozer, apresentando soluções e pretensões que, apesar de absolutamente insólitas e agressivas, são prudentemente levadas em conta e suavemente contestadas pelas potenciais vítimas de tais ideias. Até o Hamas pia baixinho quando ele se propõe “tomar conta” de Gaza e redesenhar o mapa da Palestina sem palestinianos! É a estratégia da ameaça e da intimidação, de quem nada se importa em ofender amigos ou perder aliados. Na tal expedição punitiva que enviou à Europa no final da semana passada, o exemplo acabado desta política externa, chamemos-lhe assim, foi o discurso insultuoso que o fedelho presumido J. D. Vance dirigiu aos líderes europeus sentados à sua frente e, por extensão, a todos os europeus, tendo suscitado apenas uma tímida reacção do chanceler Scholz, que, por acaso, está de saída. De resto, passando também por Pete Hegseth, secretário da Defesa, e Keith Kellogg, enviado especial para a Ucrânia, a Casa Branca fez questão de deixar bem claro o desprezo a que vota a Europa e os seus líderes. Do ponto de vista americano, nas conversações de paz para a guerra da Ucrânia, não só os ucranianos não fazem falta à partida, como os europeus não têm nada a ver com o assunto: como explicou Kellogg, podem dar sugestões desde que não venham com queixinhas por não terem lugar à mesa. Já sabemos que Trump pode mudar de ideias de um dia para o outro, mas na quarta-feira, quando este texto é escrito, a posição americana parece simples: Trump e Putin decidem os termos do acordo de paz, depois comunicam-no à Ucrânia e a seguir, sim, os americanos convocam a Europa para enviar tropas para a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia para velarem pela sua manutenção, mas sem que os Estados Unidos fiquem vinculados pelo artigo 5º da NATO, indo em auxílio das tropas europeias caso as coisas se compliquem. É pegar ou largar, a “pax donalda”.

Confesso que se isto não fosse trágico, envolvendo o destino de um país e dos seus nacionais, só me dava vontade de rir ao observar o estupor dos líderes europeus e as suas enxovalhantes tentativas de serem levados em conta nas negociações de paz para a Ucrânia. Durante três anos, estes mesmos senhores não só recusaram sugerir, integrar ou promover qualquer negociação de paz, como afirmaram mesmo — eles e a sua imprensa dedicada — que a simples ideia de o fazer era uma traição à Ucrânia e um serviço prestado a Putin. Mesmo quando se tornou evidente que Trump ia ganhar as eleições e que se propunha “acabar com a guerra em 48 horas”, custasse isso o que custasse à Ucrânia, os chamados “líderes” europeus não deram um passo para se anteciparem e posicionarem como actores e interessados no desfecho. Antes pelo contrário, estes “líderes” que agora suplicam um lugar à mesa como criancinhas enxotadas para a cozinha, mantiveram sempre inalterável o seu mantra: apoiar a Ucrânia por tanto tempo quanto necessário. E eles, que agora se atropelam nas promessas de aumentarem as despesas com a defesa, na tentativa de acalmarem o ogre, foram-se autodesarmando, fornecendo a Zelensky tudo o que ele foi sucessivamente pedindo: sistemas antiaéreos, mísseis, carros de combate, aviões — só faltou a bomba nuclear. Se tentarmos encontrar algum pensamento estratégico nesta conduta só pode ser a crença irracional de que a guerra teria de durar até que a Rússia fosse vencida, custasse isso o que custasse à Ucrânia e à Europa.

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Mas fizeram ainda pior do que isso: não só não quiseram promover qualquer acordo de cessar-fogo ou de paz, como o impediram. Podiam tê-lo feito antes de a guerra se desencadear com base nos Acordos Minsk II, ou podiam ter apoiado, logo um mês depois, o cessar-fogo acordado em Ancara, por iniciativa da Turquia e de Israel e com a presença de russos e ucranianos. Porém, sucedeu o contrário: perante a inércia dos restantes, o então primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, pressionou Zelensky a não assinar o acordo, elevando-o à altura de um novo Churchill e prometendo-lhe todo o apoio ocidental para derrotar os russos. A Europa, a NATO e os Estados Unidos de Joe Biden quiseram a Ucrânia a lutar por eles contra a Rússia, apenas com o seu apoio em armas e discursos. E se é inquestionável que o início da tragédia ucraniana se inicia com a invasão de um país soberano por parte de Putin, também o é que os aliados ocidentais procuraram a guerra e não a paz e, enquanto os ucranianos combatiam e morriam, eles faziam discursos empolgantes e mesmo milionários — como as tournées em defesa da Ucrânia a que Boris Johnson se dedicou profissionalmente depois de ter sido forçado a sair de Downing Street. Faziam discursos, deixavam a Europa arruinar-se com a guerra e alimentavam o complexo militar-industrial americano em que Joe Biden se apoiava e as empresas americanas de combustíveis e gás liquefeito de quem se tornaram generosos clientes depois de Biden ter imposto e sabotado o fornecimento de energia russa mais barata à Europa. Imaginar que isto, mais o incitamento à entrada da Ucrânia na NATO — que sabiam que era a linha vermelha que despoletaria a guerra — foi tudo inocente e apenas a vontade de apoiar o herói Zelensky e o seu povo, ou de parar na Ucrânia aquilo que juravam seria uma subsequente invasão russa da Europa, não tem sustentação. Mas foi isto que eles nos venderam durante três anos, com o inquebrantável apoio de uma imprensa que se esqueceu de pensar e questionar e dos líderes de opinião a que ela recorria. E agora, que têm eles para dar à Ucrânia, quando Trump se prepara para lhe impor uma paz que recompensa o invasor e ainda lhes quer surripiar as riquezas minerais? O que têm eles para dar? O esforço para conseguirem um lugar à mesa, ao mesmo tempo que, já em tardio pânico, acabam de perceber que não têm solução para novos tempos em que terão de viver sem a protecção militar dos Estados Unidos. Se Putin quisesse mesmo invadir a Europa, como dizem, agora era o momento certo para o fazer.

Durante três anos, eu andei aqui a escrever que esta era uma miserável geração de líderes europeus, incapazes de pensamento estratégico, incapazes de lerem os sinais do tempo e exibindo uma bravura de quem manda outros combater e morrer pelas nossas crenças.

Hoje, assistindo à humilhação a que a Casa Branca de Trump nos sujeita, vendo as reuniões de emergência desta fraca gente, e, sobretudo, antevendo o preço que os ucranianos ainda terão de pagar pelos nossos erros de falta de visão, só não me rio, de facto, porque tudo isto é trágico. Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia.

Como enganar os tolos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/01/2025)

A votação da nova Lei dos solos na Assembleia da República será um raro momento de verdade ou de máscaras.


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e querem saber como ficará grande parte do país se for para a frente a alteração profunda ao Regulamento Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial, vulgo Lei dos solos, pensem no que era a Ericeira há 20 anos e no que é hoje. Há 20 anos, antes do boom do surf, a Ericeira era uma pequena e agradável vila piscatória que, além do centro histórico, se dispersava suavemente em esparsas casas pelos montes circundantes. Hoje, o tal centro, com o seu Largo do Jogo da Bola, só é descortinável por quem o procurar, esmagado que está por uma avalancha de betão em toda a volta, e pelas encostas dos montes acima cresceu uma floresta de construções de toda a espécie, altura e volumetria, sem nenhuma ordem urbanística ou harmonia arquitectónica, ocupando cimos, vales, curvas de nível, todos os espaços para qualquer lado que se olhe: um pesadelo. Não sei que leis ou regulamentos permitiram tamanho deboche — ou, não o permitindo, como foram tão facilmente contornados. Mas se a alteração à Lei dos solos proposta pelo Governo da AD for por diante, este será, disso não tenho dúvidas, o futuro de todas as outras Ericeiras do país que ainda restam por esmagar. O pretexto é facultar à construção o acesso aos terrenos rústicos, incluindo em zonas de paisagem protegida, linhas de água e reserva agrícola, para, a “custos moderados”, construir habitação “acessível”. Um imenso barrete, desde logo nos seus pressupostos: “custos moderados”, diz a lei, são aqueles que não ultrapassem em mais de 125% o valor médio da habitação do concelho: ou seja, 25% a mais do que os custos especulativos já existentes. E, mesmo assim, tal só se aplicará a 70% das novas construções. Bastava isto para perceber que, mesmo que fosse possível controlar na prática as limitações, tal já seria um excelente negócio oferecido de bandeja à especulação imobiliária, sem qualquer garantia, antes pelo contrário, de que implicaria mais habitação ‘acessível’ à classe média e média-baixa: o Pai Natal já passou.

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Mas o pior de tudo está no modo como isto será feito: por simples deliberação autárquica. Devem estar a brincar connosco, até parece que não sabem como é que o país, nas suas zonas de maior apetência urbanística, como na orla costeira, foi vandalizado por iniciativa autárquica. Apesar da REN, da RAN, do Plano Natura 2000, dos PDM, que tinham de ser aprovados pelo Governo central. Agora, entrega-se tudo às autarquias e dão-se-lhes plenos poderes para fazerem o que quiserem com a paisagem dos seus concelhos. Sem que nunca tenha havido a coragem de fazer aquilo que tantas vezes aqui defendi, que é retirar as receitas prediais do orçamento das autarquias, substituindo-as por dotações do Orçamento do Estado, em função de critérios objectivos e de mérito — única forma de quebrar o círculo vicioso de mais construção: mais receitas; mais rotundas e obras de ostentação; mais votos. E estou a falar apenas da tentação irresistível dos autarcas, por volúpia de mais receitas, por ignorância, por confusão entre qualidade e aquilo a que chamam ‘desenvolvimento’, ficarem agora de mãos livres para acabarem de edificar um Portugal à medida da sua visão. Porque outra coisa são as oportunidades sem-fim que se abrem à corrupção autárquica — largamente documentada e sabida como o centro nevrálgico e magnético da corrupção entre nós. Para esses, este Decreto-Lei do Governo AD é um brinde caído dos céus, é como escancarar a porta do galinheiro à raposa.

Não fiquem, pois, surpreendidos por saber que a lei foi proposta por um Governo da AD (revogando uma lei de um seu Governo anterior), e que, chamada à discussão no Parlamento, verificou-se ter o apoio mal disfarçado do PS. Vêm aí eleições autárquicas e isto é matéria muito sensível para os caciques locais dos dois maiores partidos autárquicos — a que se junta, por razões idênticas, o Chega — que não podem correr o risco de os indisporem. A defesa que PSD e PS fazem da lei é de uma hipocrisia sem pudor, mais do que visando convencer tolos ou distraídos, tentando apaziguar as suas envergonhadas consciências. Mas não façamos confusão: estamos no domínio do que mais interessa na política: a governação de proximidade, o planeamento e preservação paisagística do país e o combate à corrupção onde ela começa e mais danos causa. A votação na Assembleia da República será um raro momento de verdade ou de máscaras.

2 Assim, sem que ninguém possa presumir a sua vontade, José Maria Eça de Queirós, o maior romancista português de sempre, e não apenas romancista, foi pela terceira vez mudado postumamente de morada, do cemitério de Santa Cruz do Douro — onde, como constava da lápide, estava “entre os seus” — para o Panteão Nacional, onde estará entre os ilustres da Pátria. Decisão maioritária de bisnetos e trinetos que, assim para todos os efeitos práticos, presumiram ser essa a vontade dele. Também passei por este processo, tendo votado vencido entre os filhos na decisão de consentir a ida da minha mãe do anónimo cemitério onde estava para o Panteão. Confesso que as minhas dúvidas na matéria são muitas. Desde logo, porque uma coisa são filhos, outra são bisnetos ou trinetos. Uma coisa é a aceitação, e também o orgulho, de ver a Pátria reconhecer os seus melhores, outra coisa é ter alguém que se amou depositado num armazém de ilustres, mais turístico do que patriótico. Longe do conforto da terra chã que se pisou e junto ao frio mármore dos monumentos. Mas, no caso de Eça de Queirós, ele estava efectivamente entre os seus, junto à casa de família da sua mulher, onde, embora, ao que se sabe, só tivesse ido em vida duas vezes, foi o bastante para lhe inspirar a escrita do soberbo “A Cidade e as Serras”, um livro que contém partes imortais do nosso imaginário de leitores. E numa pequena freguesia onde se preserva essa casa, os seus objectos pessoais e memorabilia, e se partilhava o orgulho de ter ali em descanso eterno Eça de Queirós. Estava, pois, desde 1989, onde naturalmente pertencia, como em nenhum outro lugar.

3 Nos primeiros nove meses do ano, a indústria do jogo online facturou €15 mil milhões, tendo 70% de utilizadores jovens. Em contrapartida, pagou €360 milhões de impostos ao Estado: 2,4%. Fui eu que ouvi mal ou alguém se enganou nas contas?

4 Guerra é guerra, e logo no primeiro ano de guerra a Ucrânia sabotou os gasodutos Nordstream I e II, que bombeavam o gás russo a preços acessíveis para a Alemanha e centro da Europa. Os Nordstreams eram uma joint-venture entre empresas estatais e privadas da Alemanha e da Rússia e a sua sabotagem em águas da Dinamarca — com a cumplicidade da NATO e Estados Unidos — foi, para efeitos jurídicos, um acto de pirataria internacional e não apenas uma operação contra interesses do inimigo bélico. Por isso, deu origem a uma comissão de investigação, de que a Rússia foi excluída, e que, dois anos decorridos, obviamente nada concluiu ainda. A Rússia ficou privada de fontes de receita — que, em parte, diversificaria —, mas a Alemanha ficou privada de energia barata, entrando em crise económica que persiste até hoje, e a Europa entrou num processo de inflação que só agora dá mostras de estar controlado. Em contrapartida, os Estados Unidos substituíram a Rússia no fornecimento de GNL (gás liquefeito) à Europa a um preço três vezes superior aos dos russos. Tudo bem, guerra é guerra, dirão. Só que, entretanto, nestes quase três anos decorridos desde o início da guerra, a mesma Ucrânia que havia liquidado os Nordstreams continuou silenciosamente a deixar passar gás russo para a Moldávia, Áustria e Eslováquia através de um terceiro oleoduto que atravessa o seu território. E, pelo direito de passagem, cobrava mil milhões de dólares por ano, afinal ganhando dinheiro com o gás russo que cortara aos seus ‘aliados’ na Europa. Agora, expirado o prazo contratual, a Ucrânia não renovou o acordo, de caminho deixando a Transnístria, a região pró-russa da Moldávia, a seco. A guerra é uma caixinha de surpresas.

5 O futuro dos palestinianos de Gaza, explicou um dos ministros do Governo de Netanyahu, só consente duas alternativas: ou emigram ou ser-lhes-ão cortados todos os meios de subsistência: terras cultiváveis, água, comida, assistência médica. E isto é apenas o primeiro passo, pois que, acrescentou ele, toda a Palestina foi dada por Deus ao povo judeu e os palestinianos não fazem lá nada, ocupantes em terra alheia. Em pleno século XXI, Deus ainda é argumento e instrumento de legitimação do terror. E falávamos nós do terrorismo islâmico em nome de Alá, a maior ameaça à nossa paz e às nossas democracias! Lord Balfour deve estar aos saltos no túmulo, mas talvez seja o único: nesta Europa dos direitos humanos e do respeito pela lei internacional, ninguém mais se incomoda.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia