A indústria do medo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/12/2024)

Agora, e apesar de as despesas militares dos 27 terem aumentado 10% no último ano e pelo nono ano consecutivo, a nova meta é 3% do PIB para cada país. Para tal, esclareceu Rutte, “é preciso fazer sacrifícios”, sobretudo os europeus, cortando nas despesas com saúde, pensões e segurança social, mudando os espíritos para “uma mentalidade de guerra”.


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Em 2024, o planeta aqueceu 1,5 graus, e o Ártico, cujo aquecimento é superior ao da zona continental, aqueceu o dobro. Nos últimos dez anos, a perda de gelo nos polos e sobretudo no Ártico, por efeito do aquecimento global, acelerou de forma repentina, fazendo subir a temperatura dos oceanos 2 graus e diminuindo equivalentemente a massa da criosfera, que reflecte a luz solar e contribui para arrefecer o planeta. Tudo isto é sabido de todos os cientistas e de todos os estudos, como o da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Caminhamos conscientemente, pois, para a destruição do nosso modo de vida — de que algumas imagens premonitórias, como incêndios e inundações devastadoras, nos são servidas regularmente nas televisões.

Reunidos em Bruxelas na semana passada no Conselho Europeu, os líderes da Europa — o continente mais ameaçado pelas alterações climáticas — não gastaram, porém, um minuto que fosse com o assunto. Em lugar disso, um só tema os ocupou: Ucrânia, Ucrânia, Ucrânia; armas, armas, armas. Para que não restassem dúvidas do que ali os trazia, na véspera da reunião do Conselho, o novo secretário-geral da NATO, o holandês Mark Rutte, aproveitou para juntar previamente a cúpula europeia. Como não havia nenhuma cimeira da NATO marcada, ele reuniu num “jantar privado” na sua residência oficial Macron, Scholtz, Meloni, Von der Leyen, António Costa e, claro, Zelensky — que não tem lugar formal à mesa da NATO ou da UE, mas que está em todas as reuniões e determina todas as agendas. Assim, sem disfarce, se tornou clara a íntima confusão entre a NATO e a UE e os interesses e desejos comuns de ambas as organizações. Rutte aproveitou para subir a fasquia das despesas com a defesa dos membros da NATO: afinal, disse ele, os 2% estabelecidos como patamar para cada país só garantirão a segurança do Ocidente nos próximos quatro ou cinco anos.

Agora, e apesar de as despesas militares dos 27 terem aumentado 10% no último ano e pelo nono ano consecutivo, a nova meta é 3% do PIB para cada país. Para tal, esclareceu Rutte, “é preciso fazer sacrifícios”, sobretudo os europeus, cortando nas despesas com saúde, pensões e segurança social, mudando os espíritos para “uma mentalidade de guerra”.

Mas se a ideia do secretário-geral da NATO era apaziguar os maus fígados de Donald Trump antes de 20 de Janeiro, foi insuficiente: a equipa do próximo Presidente americano já fez saber qual o acréscimo com defesa que ele vai exigir aos “aliados” da NATO: 5%. Nada menos do que 5% da riqueza de cada país (para Portugal seriam 13.300 milhões por ano) terá de ser destinada à defesa, em preparação para a guerra.

A tese entre os europeus é a de que a Rússia, uma vez ganha a guerra da Ucrânia, não se deteria nas suas fronteiras — uma tese cujo fundamento não se baseia em nada nem esclarece até onde iria a Rússia, se teria capacidade para tal e um verdadeiro desejo de se lançar numa guerra contra a NATO. Mas uma vez que Putin se viu obrigado a aumentar as despesas com a defesa por força do pântano que encontrou na Ucrânia (ele, que a seguir se lançaria Europa adentro…) tal é suficiente para os arautos da guerra apregoarem a inadiável corrida às armas. Ora, não obstante toda a propaganda, as despesas militares da Rússia representam apenas um sétimo das dos Estados Unidos (126 mil milhões de dólares contra 916 mil milhões). Para quem achar, então, que isto, toda esta histeria bélica, pode ser apenas um exagero inocente, fruto de erros de cálculo ou pânico desencadeado pela invasão russa da Ucrânia, há alguns dados que podem servir de meditação. Como os 100% de crescimento bolsista e os 600 mil milhões de euros de lucros da indústria de armamento europeu no ano passado, com a alemã Rheinmetall, fabricante dos tanques Leopard-2 fornecidos à Ucrânia, à cabeça, com um aumento de 158% nos lucros, bem assim como a capitalização bolsista de 120 mil milhões (mais 26% desde o início da Guerra da Ucrânia) da americana Lockheed Martin, fabricante dos mísseis antitanque Javelin ou dos sistemas de artilharia Himars, igualmente testados na Ucrânia. E todas as demais empresas de armamento dos dois lados do Atlântico.

Depois do jantar de Mark Rutte, veio então o tal primeiro Conselho Europeu presidido por António Costa. O português, caso alguém esperasse diferente, mostrou-se perfeitamente afinado com a narrativa oficial e a única tolerada: é preciso continuar a apoiar a Ucrânia durante todo o tempo que for necessário e eventuais negociações para pôr termo à guerra só quando e como a Ucrânia quiser. Até lá, fornecemos armas e armamo-nos, na espera da invasão russa. Um plano de paz da própria UE é coisa que ninguém pensa nem ninguém acha necessário, pois isso seria fazer o jogo de Putin. De passagem, também se falou da Síria, para exigir ao novo poder acabado de se instalar rápidas eleições e a expulsão dos russos do seu território. Nem uma palavra, porém, sobre a descarada invasão israelita, os seus bombardeamentos contra alvos indefesos e a apropriação da totalidade dos Montes Golã: há invasões más e invasões invisíveis. Porém, nesta espécie de doutrina oficial europeia, há uma coisa que não deixa de me surpreender. Toda a gente fala e toda a gente concorda na necessidade de uma política externa e defesa europeia autónoma e coordenada, apesar de, como se viu no curioso jantar íntimo de Mark Rutte, já estarem todos prontos a agachar-se perante as exigências e ameaças do “democrata” Donald Trump. Ora, a Europa, sem a Inglaterra, deve, creio eu, ter uma política externa e de defesa coordenada entre as restantes grandes potências europeias: Alemanha, França, Espanha, Itália. Porém, quem é que Ursula von der Leyen foi buscar para as pastas destas áreas na sua nova equipa da Comissão Europeia? Como representante da política externa e vice-presidente, a estoniana Kaja Kallas, conhecida por um insanável e compreensível ódio à Rússia; para a política de defesa e segurança, o lituano Andrius Kubilius. Dois representantes de países do Báltico, que, por razões históricas bem legítimas, vivem no permanente medo da Rússia e contam com o resto da Europa e a NATO para os defenderem. É assim deste ponto de partida nacional e pessoal que eles pretendem definir as políticas europeias em matéria diplomática e militar. Kaja Kallas já declarou ter a certeza de que a Rússia, caso não a detenham entretanto, não se deterá nas fronteiras da Ucrânia. E Andrius Kubilius defendeu um “big bang de 500 mil milhões de euros anual” a gastar em defesa pelos europeus (já deve estar ultrapassado…). Mas o que me surpreende é isto: a Europa tem 700 milhões de habitantes, a Estónia 1,3 milhões e a Lituânia 2,8 milhões. Juntos, os comissários da Estónia e Lituânia, que representam pouco mais de 0,5% da população europeia, vão agora ditar a sua política externa e de defesa? Será isto uma coincidência ou antes uma criteriosa escolha segundo o princípio “quanto mais favorável à guerra com a Rússia, mais europeu”? O antecessor de António Costa no Conselho Europeu, Charles Michel, deixou um aviso que ninguém deve ter ouvido ou querido levar a sério: “A III Guerra Mundial é possível. Temos urgentemente de cair em nós.”

E você, meu caro português, já decidiu começar a preocupar-se com o assunto? Já sabe, ou não quer saber, o que pensar de tudo isto? É que chamar bandido a Putin nas caixas de comentários ou condenar a invasão da Ucrânia é muito fácil e aparentemente não custa nada para quem não associa a guerra à inflação ou à paralisia no combate às alterações climáticas.

Mas, entretanto, o gelo do Ártico continua a derreter e o planeta continua a aquecer. Os ucranianos continuam a morrer no campo de batalha e o seu país a ser destruído, mas não há pressa alguma em alcançar a paz porque são eles que morrem e depois a reconstrução da Ucrânia será um excelente negócio para algumas empresas ocidentais, financiado com o dinheiro russo depositado nos bancos ocidentais e entretanto confiscado por decisão informal de um tribunal ad hoc da NATO e União Europeia — como antes aconteceu com a Sérvia, destruída pelos bombardeamentos da NATO, reconstruí­da por empresas americanas. Mas, atenção, porque agora, de crescendo em crescendo, já não basta enviar armas para a Ucrânia “por quanto tempo quanto necessário”: agora somos nós também que temos de entrar “em mentalidade de guerra”. Cortar na saúde, nas pensões, nos direitos sociais, começar a desmantelar o nosso querido modelo social europeu, porque — só não vê quem não quer ver — tudo isto é igual à situação em 1939. Sem tirar nem pôr, com a única diferença de que agora os judeus estão por cima e só praticam o bem e os nazis são os russos. E, com o medo induzido convictamente pelos grandes líderes que temos e alimentado por uma imprensa dócil e alinhada como nunca antes, preparamo-nos para nos curvar perante o génio do mal da Casa Branca. O homem que olha para os estudos sobre o clima, para as imagens do gelo a derreter no Ártico e na Gronelândia e resume tudo a três palavras: “drill, baby drill!”. Nós, tugas, vamos desde já investir em mais dois submarinos para combater os russos (se os marinheiros quiserem embarcar, não se tratando de exercícios), e, apesar da falta de pilotos, vamos investir 5000 milhões em F-35, o último grito dos céus. Mas isso não é nada comparado com o que nos vão exigir: 3%, 3,5%, 5% de toda a riqueza que produzimos neste país a trabalhar, a investir, a pensar no futuro. Mas qual futuro? É a guerra, estúpido! O futuro é investir em acções das empresas de armamento.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Mil e um dias de insensatez

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/11/2024)

E agora, porque a história é tantas vezes irónica, a nossa esperança de podermos ao menos continuar a viver um presente despojado do terror nuclear reside nas mãos de outro americano, não de esquerda nem razoável, mas de extrema-direita e furiosamente perigoso.


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Imagine que Portugal e Marrocos estão em guerra e que a Espanha, oficialmente, não participa nessa guerra. Agora imagine que, continuando oficialmente de fora, a Espanha fornecia a Marrocos mísseis para serem disparados contra território português, fabricados em Espanha, operados ou assistidos por militares espanhóis e guiados até aos alvos por sistemas de localização e orientação espanhóis. Ainda acharia que a Espanha estava fora da guerra? Foi isso que Joe Biden acabou de fazer, autorizando a Ucrânia a utilizar livremente contra território russo os mísseis Atacms que já lhe tinha fornecido e cujo uso estava até aqui limitado ao território da Ucrânia.

A dois meses de abandonar o cargo, sabendo que Trump procederá a uma alteração, porventura radical, da posição dos EUA face à guerra da Ucrânia — e que essa foi, aliás, uma das razões da sua vitória eleitoral —, Biden decidiu declarar guerra à Rússia e, por arrasto, envolver a Europa e a NATO sem os consultar, colocando o mundo na iminência de uma possível terceira guerra mundial, nuclear desta vez. A qual acontecerá ou não conforme a decisão e a frieza do “louco” Vladimir Putin.

A decisão de Biden faz-me lembrar a do Governo de transição de Passos Coelho, privatizando a TAP no seu último dia de governo, contra a vontade conhecida de quem lhe ia suceder. Também Joe Biden aproveitou a fase de transição de poder para tomar uma decisão que sabe contrária à vontade do seu sucessor e à da maio­ria dos americanos. E, significativamente, só o fez agora e não antes de 5 de Novembro para não prejudicar as hipóteses eleitorais de Kamala Harris.

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Poucas horas tinham passado desde que Biden cedera finalmente aos incessantes pedidos de Zelensky para utilizar os ATACMS e já Kiev os começara a disparar contra terras russas, exactamente ao milésimo dia de guerra. Em Moscovo, Putin respondeu conforme avisara há vários meses que faria numa situação destas: alterando a doutrina nuclear russa para passar a considerar que se a Rússia fosse atacada por uma potência não nuclear, mas apoiada por uma potência nuclear, Moscovo considerar-se-ia atacada por ambos — como o declarariam também os EUA, a Inglaterra, a França ou Israel. Sem razão, portanto, para nenhuma surpresa, os nossos sábios dirigentes ocidentais reagiram invertendo despudoradamente a lógica da situação. Em Bruxelas, Josep Borrel declarou que Putin tinha escolhido a data dos mil dias para “nova ameaça nuclear” — como se a decisão dele não fosse consequência do ataque de Kiev. Em Londres e Paris, vendeu-se à opinião pública e à imprensa submissa a versão simplificada de que a única coisa de novo que tinha acontecido era a “retórica irresponsável” de Putin. Ao mesmo tempo que, como sempre seguindo os passos do amigo americano, a Inglaterra já prepara também a autorização para que Kiev utilize os seus Storm Shadow de longo alcance dentro das fronteiras russas, a França prepara o mesmo em relação aos seus SCALP e as pressões vão tornar-se insuportáveis sobre o chanceler Scholz para que os Taurus alemães entrem também na festa. Agora que a “corajosa decisão” de Joe Biden (Macron dixit) comprometeu os Estados Unidos até ao osso, a Europa segue atrás, aliviada e feliz, e que se lixe a tão invocada autonomia da política externa e de defesa europeia. Mas é aqui, na Europa, e não nos Estados Unidos — nos países escandinavos e nos países bálticos — que já se distribuem instruções à população sobre o que fazer em caso de uma guerra nuclear, um pesadelo próximo jamais vivido em quase 50 anos de Guerra Fria, mesmo com parceiros tão sinistros como Estaline ou Brejnev sentados no Kremlin. Ou seja, e tentemos ser factuais: o Presidente dos Estados Unidos, à beira de deixar de o ser, tomou uma decisão que já sabia de antemão que teria esta resposta de Moscovo — e por isso, hesitou tanto em tomá-la. Essa decisão, rapidamente secundada pelas potências nucleares europeias, foi assim assumida com a consciência plena dos riscos imensos que implicava. E o irresponsável é Putin?

Dizem os sábios ocidentais que o mais provável é Putin não passar das ameaças — o que, na lógica dos sábios, equivale a esperar que um “assassino”, como Biden lhe chamou, um “irresponsável”, guarde a pior arma no bolso enquanto está a ser atacado. E reforçam a sua esperança numa paz planetária mantida apesar da provocação final do lado de cá na análise que fazem de que os ATACMS não ajudarão a Ucrânia a ganhar a guerra nem mudarão substancialmente as condições no terreno, apenas ajudarão Zelensky a negociar um acordo de paz com a Rússia em condições menos desvantajosas. Extraordinário argumento, se pensarmos que só após a vitória de Trump e quase mil dias de guerra se ouviu falar de negociações de paz, pois que até então a posição unânime da NATO era a de rejeição de quaisquer negociações e a manutenção do apoio a Kiev “até à vitória” e “por quanto tempo necessário”. Isto mesmo foi dito recentemente por Kaja Kallas, a futura comissária para a Política Externa da UE e, por razões familiares, inimiga fanática de Moscovo: não há nada para negociar, apenas a continuação da guerra até ao último míssil a enviar e até ao último ucraniano vivo — uma posição clara, ao contrário do que preconizou para Israel, onde apesar dos cem mortos por dia em Gaza, a comissária entende que a situação é muito confusa e a UE não tem que se imiscuir. Isto mesmo também era repetido até à exaustão e até ao 5 de Novembro por Zelensky, que levado ao engano pelas sondagens, ainda acreditava na derrota de Trump e andava a vender em todo o lado, não um plano de paz ou uma proposta de negociações, mas um “plano de vitória”, o qual passava justamente pela autorização de usar os mísseis dentro da Rússia. Mas a partir de anteontem, quando o primeiro ATACM atravessou a fronteira para leste, Zelensky e os seus proxis, de novo eufóricos, já falam outra vez da vitória total. Pobres ignorantes, não conhecem a história da Rússia: daqui a uns tempos, depois dos sistemas antiaéreos, dos conselheiros militares, dos tanques, dos aviões e das várias gerações de mísseis, depois dos milhares de milhões de euros já dados à Ucrânia para a continuação da guerra, sem com isso se alcançar a tal vitória final, Zelensky estará a exigir a arma que resta — a bomba nuclear.

Há mais de mil dias, meses antes de a guerra começar, que digo o mesmo: esta guerra era perfeitamente evitável se tivesse havido vontade para isso. A Ucrânia queria a segurança de saber que a Rússia não a invadiria e a Rússia queria garantias de que a Ucrânia não aderiria à NATO, fechando-lhe o cerco pelo sul e podendo, como agora, utilizar o seu território para, com armas da NATO, a atacar. Mil dias depois, ambos os lados perderam: a Ucrânia foi invadida pela Rússia e a Rússia é atacada pela NATO a partir da Ucrânia e está mais cercada do que nunca. Sem falar, claro, das centenas de milhares de mortos de ambos os lados e da devastação da Ucrânia. Tudo isto teria sido facilmente evitado desde o início ou acabado pouco depois se Joe Biden e Boris Johnson não tivessem boicotado os acordos de paz já prestes a serem firmados. Mas, sem conceder na ilegitimidade da invasão russa, eternamente seguirei convencido de que os Estados Unidos e a NATO não só nada fizeram para evitar a guerra como até a desejaram. Mais do que quaisquer manobras militares, a guerra da Ucrânia deu aos Estados Unidos e à NATO a possibilidade única de testar as suas capacidades de equipamento e estratégia militar em cenário real; de perceber as forças ou debilidades militares da Rússia; de a desgastar e enfraquecer na hipótese de um futuro conflito com a China, onde a Rússia seria sua aliada; de ressuscitar uma NATO declarada em estado de “morte cerebral” por Macron, e em nome da defesa dos valores das “democracias liberais” ou agitando o fantasma, criado do nada, da continua­ção da ofensiva militar russa até às praias da Normandia; de possibilitar lucros escabrosos à indústria militar americana; de assentar um golpe fulminante na economia europeia, proibindo-lhe as relações comerciais com a Rússia, e impondo-lhe, a bem ou a mal — nem que fosse pela sabotagem dos gasodutos russos — o corte de fornecimento de energia russa à Europa, substituindo-a, a preços bem mais caros, pelo fornecimento do gás liquefeito americano, a bem da balança comercial americana e da concorrência industrial com a Europa.

E agora, porque a história é tantas vezes irónica, a nossa esperança de podermos ao menos continuar a viver um presente despojado do terror nuclear reside nas mãos de outro americano, não de esquerda nem razoável, mas de extrema-direita e furiosamente perigoso. Esperamos que Donald Trump nos salve da guerra e que depois o bando de delinquentes de que é formado o seu governo nos arraste então para outros abismos, mas menos imediatamente mortais. Como disse Macbeth, “life is a tale told by an idiot”.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

A história do fogo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/10/2024)

Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.


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Quando, em finais de Julho passado, Netanyahu discursou perante o Congresso dos Estados Unidos, o extermínio que decorria em Gaza e as negocia­ções para lhe pôr termo, de que os Estados Unidos eram um dos principais negociadores e Israel supostamente uma das partes interessadas, não lhe mereceram qualquer atenção especial. Aliás, logo uma semana depois o principal negociador do Hamas, Ismail Haniyeh, era assassinado por Israel em Teerão, onde assistia à cerimónia de posse do novo Presidente iraniano, num sinal claro do entendimento que o Governo israelita dava às chamadas negociações de paz. Em Washington, o essencial do discurso de Netanyahu concentrou-se no Irão e na sua declaração, recebida com entusiásticos aplausos, de que, enfrentando o Irão, Israel estava a enfrentar o principal inimigo dos Estados Unidos no Médio Oriente. Nada está a acontecer por acaso e Joe Biden sabe-o bem.

Pouco depois de iniciada a guerra de extermínio em Gaza, Israel já anunciara também que a sua guerra era em quatro frentes: em Gaza, contra o Hamas, no Iémen, contra os tutsis, no Líbano, contra o Hezbollah, e, a seu tempo e inevitavelmente, contra o Irão. Com a ofensiva no Líbano, que numa semana provocou mais de um milhão de deslocados e decapitou a cúpula militar do Hamas, Israel conseguiu duas coisas: desviar as atenções do continuado morticínio em Gaza e provocar o Irão a reagir. Tudo estava previsto, ensaiado de há muito e planea­do com os Estados Unidos, que forneceram as bombas de uma tonelada e as bombas perfuradoras que destruíram o abrigo subterrâneo onde se escondia Nasrallah e agora se apressaram a dizer que não apenas defenderam e defenderão Israel dos simbólicos ataques aéreos iranianos, como também estão empenhados em ajudar Telavive numa “adequada resposta” ao ataque iraniano de terça-feira. Qual resposta? Provavelmente aquilo que Israel deseja há muito e que o ex-PM israelita Naftali Bennett defendeu na CNN americana: um ataque às instalações nucleares e petrolíferas do Irão. Porque, ao contrário de Gaza e dos palestinia­nos, ninguém chorará uma lágrima pelos iranianos ou os seus aliados, incluindo no mundo árabe sunita, a via está aberta para aquilo a que Bennett chamou “uma oportunidade única”. E se alguém, como Guterres, cumprindo o seu dever como secretário-geral da ONU, tenta ainda evitar a catástrofe, Bennett chama-lhe “cobarde” e o MNE israelita “amigo de terroristas”. Porque o terrorismo, já se sabe, está só do outro lado, mesmo que Israel leve a cabo operações de extermínio contra os seus inimigos “terroristas” em território de três países soberanos: Síria, Líbano e Irão. Coisa que não me consta que esteja ao abrigo de qualquer lei ou tratado internacional.

Dizia Netanyahu, dirigindo-se ao povo iraniano, que era preciso libertá-los de “uma minoria de fanáticos religiosos”. É inteiramente verdade. Mas aconselho-vos a verem a série da Netflix “Unorthodox” — se conseguirem, o que eu não consegui, aguentar muitos episódios sobre aquele mundo de fascismo religioso e machismo repulsivo que é o dos judeus ortodoxos. A diferença para os ayatollahs do Irão é que estes estão no poder pela força e aqueles por mandato popular. E se o regime dos aya­tollahs representa tudo o que nós repudiamos, já de Israel dizem-nos que temos de ser aliados porque partilhamos os mesmos valores. Deveras?

A história do fogo
Ilustração Hugo Pinto

2 “Sempre juntos”, como assegurou Marcelo, o Presidente e o PM lá andaram a percorrer algumas das áreas ardidas nos grandes incêndios de Setembro. Prometeram reconstruir habitações, indústrias e agricultura — a agricultura residual que existia. Vêm 500 milhões de Bruxelas para isso, a descontar no PRR, 100 milhões dos quais já adiantados pelo Governo. Os autarcas terão ficado mais tranquilos, as populações talvez mais esperançadas, embora todos saibamos que agora vão começar as burocracias, os impasses, as demoras e as batotas no acesso aos subsídios: vítimas verdadeiras vão desesperar pelo prometido, vítimas falsas vão aproveitar a oportunidade. Mas saúde-se, sem ironia, a rapidez e determinação com que o Governo quer reagir e louve-se, com espanto, a amplitude do saco sem fundo de dinheiro com que o Governo vai calando todas as reivindicações e passando a ideia de estar a resolver “os problemas das pessoas”. Haverá, pois, além do dinheiro para reconstruir o que ardeu, mais dinheiro para aviões, helicópteros, carros de combate, máquinas de arrasto, subsídios aos bombeiros. Infelizmente, não é o dinheiro que resolverá o problema. Nem a feroz perseguição aos incendiários, anunciada pelo primeiro-ministro.

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Na última edição do Expresso, há uma entrevista com Stephen Pyne, apresentado como especialista em história do fogo, onde ele, na esteira de vários outros ao longo dos anos, explica por que razão o interior norte e centro de Portugal arde ciclicamente. Há 34 anos, diz ele, que os governantes portugueses conhecem bem as razões, mas tudo o que fazem é gastar cada vez mais dinheiro na prevenção e no combate aos incêndios sem cuidar do essencial, que é a paisagem inflamável. “É natural”, diz ele, “que os governantes demonstrem que protegem pessoas, vidas e bens. E assim há cada vez mais esforço no combate aos incêndios em aviões, veículos e tripulações, mas não resolve o problema e irá falhar, pois a paisagem continua a crescer nas suas formas inflamáveis”. E isto sucede porque “as pessoas se foram embora, abandonaram o território e já não praticam o tipo de agricultura que havia”. Foi o preço que pagámos por vender a agricultura a Bruxelas nos idos de Cavaco Silva. Sem agricultura, sem pessoas, sem mundo rural, vieram os eucaliptos, solução mágica para preencher o vazio das terras abandonadas. “Os eucaliptos”, explica Pyne, “pio­raram a situação, ao serem plantados em grande escala. Em vez de ter um mosaico, com azulejos pequenos, que era o que tinha o sistema agrícola, e com outras florestas a fazerem parte desses azulejos, plantam-se estas grandes áreas de uma espécie que não pára de crescer. Esta foi a fórmula perfeita para o fogo se espalhar. Quando só temos monocultura, o fogo fica sem travão”. Há 30 anos, também, que eu escrevo o mesmo. Sem ser especialista no assunto, longe de possuir qualquer conhecimento técnico, basta-me ler o que escrevem os que sabem, ver no terreno o que é um eucaliptal, olhar a nossa paisagem ao longo da A1 e das estradas e auto-estradas do interior ou reparar nas reportagens televisivas naquilo que está sempre a arder em pano de fundo: eucaliptos e pinheiros-mansos. Sempre, sempre, repetidamente. Pergunto-me: haverá alguém que ainda não tenha percebido, algum autarca, algum governante? Quantos mais milhares de hectares terão de arder, quantas mais lágrimas de crocodilo terão de chorar, até que um assomo de coragem lhes assalte a consciência?

3 Com António Costa a primeiro-ministro e Siza Vieira a ministro da Economia, a Efacec foi nacionalizada em 2020, por se tratar de “uma empresa estratégica nacional, exportadora, viável e economicamente sustentável, apenas em situação de dificuldade provisória” — além da necessidade de preservação dos seus postos de trabalho. Os mesmos argumentos que eu me recordo de ter escutado ao então CEO da empresa, explicando na TVI que as tais dificuldades não passavam de apertos normais de tesouraria, a serem ultrapassados a curto prazo pela robusta carteira de encomendas da empresa e a longo prazo pelos compradores que já se perfilavam no horizonte. E com estes argumentos o Estado avançou para a nacionalização da posição de 71% detida por Isabel dos Santos, a outrora “Dona Disto Tudo”, caída em desgraça e em deserção física e financeira. Daí para a frente só o Estado, desacompanhado pelos demais accionistas privados, foi cobrindo as sucessivas “dificuldades provisórias”, até se atravessar com 484 milhões. Um quarto dos trabalhadores foram-se embora, com destaque para os principais quadros, e os tais iminentes compradores jamais apareceram, o que levou o Governo a vender a Efacec por 15 milhões e vagas esperanças de reaver algum dinheiro numa even­tual revenda. Mas entretanto comprometido com garantias que podem elevar a conta final até aos 564 milhões. Contas feitas, a manutenção de cada posto de trabalho na Efacec custou aos contribuintes para cima de um milhão de euros. Tudo um desastre, sem fundamento nem justificação, concluiu agora o Tribunal de Contas. Tudo tão previsível, digo eu. Só mesmo os comunistas é que ainda acreditam na bondade da gestão pública com dinheiro dos contribuintes a perder de vista.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia