A má moeda

(In Blog O Jumento, 09/10/2017)
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Nos últimos anos, sempre que olhava para a primeira fila da bancada parlamentar do PSD vinha-me à memória a cara dos que se sentavam ao lado de Sá carneiro nos primeiros tempos do PSD e dava comigo a pensar como este partido se degradou ao longo doa anos. Cavaco herda o partido com a morte de Sá Carneiro e deixa-o sem qualquer capacidade de renovação. Se fosse possível comparar o QI dos parceiros de Sá Carneiro com a equipa de Passos Coelho o resultado seria mais ou menos se comparássemos uma turma universitária com uma do nono ano de escolaridade.
Alguém consegue imaginar um Hugo Soares a dizer baboseiras sobre roubos e furtos, como líder parlamentar do PPD sentado entre Sá Carneiro e Magalhães Mota ou Mota Pinto? Só se fosse numa sessão parlamentar dedicada às escolas das CERCI. Esta pobreza intelectual começa com Cavaco e agravou-se com Santana Lopes, o líder dos santanetes e das santanetes.
Nos dias que correm mete dó olhar para o grupo parlamentar do PSD, se compararmos aquela gente com gente como Magalhães Mota, Sousa Franco, Mota Pinto, Pacheco Pereira, Leonor Beleza e muitos outros, apercebemo-nos de como aquele partido se encontra em decadência. Basta assistir a qualquer debate parlamentar para nos apercebermos que há mais capacidade oratória e gente melhor preparada no grupo parlamentar do BE do que no do PSD.
Se em vez de assistirmos a uma sessão plenária acompanharmos algumas comissões especializadas, então os representantes do PSD chegam a ser deprimentes, como é o caso do Carlos Abreu Amorim. Compare-se por exemplo com as cabeças do PSD na economia onde só existe a Maria Luís Albuquerque, uma licenciada em economia com um curso tirado numa escola modesta. Compare-se o conhecimento e inteligência da Maria Luís com personalidades como Miguel Beleza, Miguel Cadilhe, Braga de Macedo e até mesmo com o modesto Bagão Félix.
O PSD não se consegue renovar. Está entregue ao aparelho, quando ascende ao governo aparece um ou outro jovem promissor, mas mal começam a perceber que o PSD vai deixar o poder desatam a fugir.
Antes de Cavaco Silva deixar a sua miserável marca no PSD alguém conseguiria imaginar um Santana Lopes em líder do PSD? Mas quarenta anos passados desde a fundação do PSD as três principais personalidades deste partido são Passos, Rui Rio e Santana Lopes.
Cavaco tinha razão quando recordou a Lei de Gresham que diz que “a má moeda afasta a boa moeda”. Só se esqueceu de dizer que era ele a má moeda e que depois dele os deputados e líderes do PSD não passam de trocos de má moeda.

Quem quer casar com a carochinha?

(In Blog O Jumento, 07/10/2017)
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Parece que ninguém se oferece para casar com a carochinha, muito rica e bonitinha, tudo aponta para que o Rui Rio faça as vezes de João Ratão. Durante anos andou na sombra para chegar à liderança do PSD sem ter de correr o risco de dar a cara por esse desejo e de preferência sem lutas que o exponham, obrigando-o a dizer o que pensa ou que pensa que pensa.
Se não fosse Pedro Santana Lopes que há muitos anda por aí, não perdendo nenhuma oportunidade para gritar “estou aqui”, o PSD poderia poupar congressos e eleições, até podiam ter dado posse ao novo líder no almoço de Azeitão, que muitos militantes e velhos dirigentes agradeceriam não ter de ir a mais um congresso inútil. Até se poupava o trabalho de apresentar moções, até porque Rui Rio não tem pensamento político, o mais longe que vai nesse domínio é um bom dia ou boa tarde.
Começa a ser evidente que os apoiantes de Passos optaram por estender a passadeira laranja a Rui Rio obrigando-o a ir a jogo no pior momento do PSD. Sem programa, sem projeto e sem grandes apoios das bases Rui Rio vai dirigir o PSD sem ter lugar no parlamento e com um grupo parlamentar com uma maioria esmagadora de apoiantes do ex-líder.
Rui Rio não tem programa, andou anos a fazer oposição a Passos Coelho sem a coragem de o fazer de forma frontal e sempre que lhe foi exigido que se assumisse ia almoçar com Passos Coelho para lhe garantir apoio, acusando a imprensa de inventar posições que não tinha. Rui Rio nunca teve uma visão para o país, esteve sempre limitado ás suas capacidades intelectuais e aos limites do concelho do Porto.
O PSD vai enfrentar um período muito complicado, derrotado num parlamento onde a direita ficou em minoria, derrotado nas autárquicas, derrotado em todas as sondagens e sem uma resposta à política económica do governo, tem agora um líder sem programa, que chega à liderança sem debate, sem um lugar no parlamento, sem imprensa e sem dinheiro.
Rui Rio vai casar com a carochinha e não lhe faltarão padrinhos e damas de honor, reúne uma unanimidade quase cínica, levará como padrinhos Manuela ferreira Leite e Morais Sarmento, terá Rangel e Montenegro como damas de honor, reservando-se para Marques Mendes a tarefa de levar as alianças e com Marcelo a celebrar a eucaristia. Agora já falta saber se o João Ratão cai no caldeirão antes ou depois das próximas eleições.

O país dos enigmas

(In Blog O Jumento, 06/10/2017)
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A vida política portuguesa tem dado lugar a um jogo nacional, o jogo dos enigmas dos discursos presidenciais. é uma espécie de rally paper organizado pela Presidência da República, cada vez que um presidente faz um discurso o país passa a semana seguinte a tentar descobrir, escondidas nas entrelinhas, o que o presidente disse. Estes discursos tipo perguntas de rally paper foram inventados por ramalho Eanes, continuados por Sampaio, levados ao ridículo por Cavaco Silva e parece que retomados por Marcelo Rebelo de Sousa. O único que falou sem papas na língua e poupando os jornalistas, comentadores e líderes partidários a um esforço inteletual adicional foi Mário Soares, que dizia o que tinha a dizer o que era dispensável pois neste país todos sabiam muito bem o que pensava.
É ridículo ver um país à espera de beber da sabedoria do nosso “Confúcio de Belém” que fala ao país a horas e dias certos. Já sabemos a que horas vai falar na mensagem de ano novo ou do 5 de Outubro. todos sabemos que para além destes discursos e o das posses dos governos, o Presidente fala nas comemorações do 25 de Abril e mais nalgumas ocasiões oficiais. O espetáculo chega a ser ridículo e é sempre o mesmo, na semana anterior todos se interrogam sobre o que o Presidente irá dizer, terminado o discurso começa uma semana em que todos tentam perceber o que ele terá querido dizer.
No tempo de Cavaco o país ficava com  prisão de ventre sempre que o homem falava, nunca se percebia o que queria dizer, salvo quando recordava ao país os avisos que tinha feito no passado. Ainda hoje estão por se entender muitas das suas frases enigmáticas, muitos avisos que deixou no ar e apesar de nas suas contas existirem por cá 80 comentadores profissionais, nem mesmo com os seus livros “póstumos” ou com o livro do Fernando Lima, aquele que durante anos dizia aos jornalistas o que Cavaco ia dizer, conseguiremos alguma vez entender.
Se procurarmos nos jornais as notícias sobre o discurso de Marcelo no dia 5 de Outubro, todas estão envolvidas num grande mistério, todos os jornais se esforça de explicar aos parvalhões dos portugueses o que Marcelo tentou dizer e que só jornalistas muito inteligentes perceberam. O Observador titula “O que disse Marcelo nas entrelinhas este 5 de outburo”, o ECO enumera “as três mensagens no 5 de outubro”, o Público traduz e titula “o que disse Marcelo e o que quis dizer”.
Mas o mais divertido do último rally paper presidencial, agora organizado por Marcelo, foi o país ter retido como grande frase a declaração de Marcelo “Não há sucessos eternos nem reveses definitivos”, algo que costumo dizer muitas vezes de outra forma “se a minha avó não tivesse morrido ainda estaria viva” ou que pode ter outra interpretação segundo um dito popular segundo o qual “não há bem que sempre dure ou mal que nunca acabe”.
Os que em vez de aproveitarem a manhã do feriado optaram por se levantar cedo para ouvir Marcelo não terão dado o esforço por perdido, não é todos os dias que um presidente diz uma frase tão enigmática e complexa, digna de ser título de primeira página e ainda hoje de manhã servia para abrir os telejornais. Até ao próximo discurso de Marcelo o país vai tentar perceber o que ele quereria dizer quando declarou que “Não há sucessos eternos nem reveses definitivos”, algo só acessível aos tais 80 comentadores profissionais referidos por Cavaco e mais algumas mentes superiores.
Enfim, neste país perde-se com facilidade a noção do ridículo.