Semanada

(In Blog O Jumento, 15/10/2017)
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O país festejou a acusação a Sócrates, uns porque tiveram matéria para o pendurar mais uma vez, outros porque começavam a ter dúvidas da competência do MP. Mas há os que deverão estar tristes; acabaram-se os segredos da vida pessoal de um ex-primeiro-ministro, resta-nos a esperança de que sejam abertos mais processos.
Há uns anos atrás soube-se de pintinhas em pirilaus, agora das férias, namoradas e ex-esposas de Sócrates, mas há muito por saber. Pagava para que o Marques Mendes tivesse um processo para que o CM nos contasse como é que ele dá uma em pé. Delirava ver o Sol, até mesmo o seu diretor a escrever um livro sobre as se Assunção Cristas compra na Intimissimi ou se ainda recorre ao enxoval do casamento e usa lingerie com rendas de bilros.
A propósito do OE para 2017 Marcelo Rebelo de Sousa manifestou-se preocupado com o eleitoralismo em 2019, o que nos leva a questionar se na próxima comunicação na noite de Natal vai falar das prendas no sapatinho deste ano ou das desgraças de 2019. Talvez Marcelo Rebelo de Sousa não tenha reparado, mas todos os orçamentos são eleitoralistas, se os governos forem honestos e a realidade o permitir, cumprem o que previram nos programas eleitorais adotando medidas orçamentais ao longo da legislatura. Se a Geringonça concluir em 2019 as medidas previstas no acordo e no programa eleitoral do PS faz o que prometeu aos eleitores. Aliás, a Geringonça não estará apenas a cumprir as suas promessas: muito do que Marcelo designa por eleitoralismo estava previsto no programa do PAF para 2019!
A propósito do incêndio de Pedrógão Grande Marcelo falou de “responsabilidade funcional”. Embora não tenha explicado o que é essa coisa de responsabilidade funcional, isto é, o que significa ter responsabilidade porque quem tem funções está vários degraus abaixo na hierarquia, parece que sugere que a ministra seja responsabilizada. Abaixo da ministra há tantos degraus hierárquicos como os que existem entre o comandante supremo das forças armadas e o comandante da base de Tancos. Será que no caso de Tancos também serão assumidas as responsabilidades funcionais?
O país teve dois momentos de grande felicidade nesta semana, dignos de se cantar o hino com grande exaltação nacionalista, desta vez a seleção conseguiu ganhar à Suíça e como se isso não bastasse, até o país tremeu com esse enorme orgasmo nacional que foi o anúncio pelo próprio da candidatura de Pedro Santana Lopes, um homem que todos conhecemos e podemos certificar que não é gay ou coisa parecida. Consta que as fábricas de incubadoras estão a adotar controlos de qualidade mais exigentes enquanto as fábricas de talheres estão a aumentar o stock de facas pois prevê-se um aumento significativo da procura.

Conclusões de um ignorante em direito

(In Blog O Jumento, 14/10/2017)
voyerismo
Confesso-me um ignorante em direito, mas num país em que altos magistrados e administradores bancários tiraram os cursos de direito e de economia saneando professores catedráticos a mando do grande educador do proletariado Arnaldo Matos mais o seu ajudante Saldanha Sanches para depois concluírem as cadeiras com passagens administrativas, para não falar dos cursos à Miguel relvas, acho que tenho o direito a falar de tudo, pelo menos enquanto a geração MRPP que atormenta o país não mudar na sua totalidade de residência para o Alto de São João.
A primeira grande dúvida que tinha em relação ao processo de Sócrates era saber se no momento da prisão preventiva já havia matéria suficiente par deter preventivamente um cidadão deste país, beneficiário dessa Constituição que em matéria de direitos individuais dizem ser uma das mais avançadas do mundo. Além disso, o juiz de instrução a quem cabe defender os direitos dos cidadãos arguidos dos abusos dos investigadores, era esse cidadão exemplar de nome Carlos Alexandre, de quem dizem ser um super juiz.
A acusação fez-me confiar na justiça, há uma acusação de corrupção que certamente fundamenta a prisão preventiva de um ano, Sócrates influenciou o governo venezuelano para contratar uma empresa portuguesa.
Mas agora vivo em grande ansiedade, quem me garante que amanhã não acordamos com Cavaco preso por ter dado benefícios fiscais para atrair a Autoeuropa, ou o Durão Barroso mais o seu compadre que tanto promoveram a diplomacia económica? Quem me garante que amanhã não estarão na ala prisional da PJ todos os que foram presidentes do AICEP ou os ministros que promoveram a internacionalização das empresas portuguesas?
Mas podemos estar descansados, até porque muitos meses depois de Sócrates preso, quando o Vale de Lobo apareceu no processo já haviam mais do que motivos para que Carlos Alexandre despisse as suas vestes de defesa dos valores constitucionais: depois das casas da Venezuela a prisão preventiva de Sócrates era pouco em comparação com o que ele merecia.
Do caso de Vale de Lisboa já muito se disse sobre o negócio, mas se esquecermos a Venezuela, que fornece jurisprudência criminal suficiente para transformar a famosa Praia dos Tomates num Tarrafal Algarvio, promovendo o famoso Gigi a cantina prisional, só anos e muitos meses depois da libertação de Sócrates o MP encontrou matéria para uma primeira acusação,. O caso da PT, fundamento da terceira acusação, só aparece há poucos meses. Ainda bem que ocorreu o caso da Venezuela, senão alguém diria que o MP prende primeiro e investiga depois.
De qualquer das formas fico grato ao Ministério público por me ter dado a conhecer a vida íntima de Sócrates. Agora estou ansioso por saber como faz o Marques Mendes quando tem namoradas altas, quais os palavrões que Cavaco Silva diz à esposa nos seus momentos de intimidade, quem paga os fatos e os Jaguares ao Paulo Portas, se a Assunção Cristas usa fio dental ou cuecas de gola alta, se o Pacheco Pereira declama poesia enquanto dá as suas berlaitadas ou se o Pedro Mota Soares já consegue dar uma em cima de uma Lambreta.
Confesso que depois de saber dos segredos de Sócrates fiquei viciado em voyeurismo e estou mesmo a pensar em exigir ao MP que me trate contra esta adição; depois de andar anos a saber da vidinha íntima de um político já não aguento o sofrimento desde que sofro do síndroma de abstinência. Ou o MP volta a descrever a vida íntima de outros políticos ou continuarei em sofrimento psicológico.

Passos perdeu ou desistiu?

(In Blog O Jumento, 10/10/2017)
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Passos não partiu por causa da derrota do PSD nas eleições autárquicas, mas sim por causa da vitória do PS e da esquerda nessas eleições. Parece a mesma coisa, mas no caso de Passos Coelho não é bem assim.
Passos Coelho bateu-se violentamente contra as chamadas reversões, designadamente aquelas que estavam destruindo os alicerces do seu projeto político. Convencido de que uma crise financeira ou uma crise política conduziria a um segundo resgate, Passos Coelho esperava que isso sucedesse a tempo de recuperar as medidas mais emblemáticas do seu governo: a preparação dos despedimentos em massa no Estado, os cortes dos vencimentos e a proletarização forçada da Função Pública, os cortes nas pensões, e as reformas na legislação laboral que forçassem uma desvalorização dos salários no setor privado.
Centeno trocou-lhe as voltas, graças a um controlo rigoroso da despesa evitou as consequências das armadilhas que Passos e Paulo Núncio montaram para provocar uma quebra de receitas fiscais em 2016. A situação económica europeia fez o resto, apesar de uma política fortemente restritiva a economia cresceu acima do que se esperava. A não ser que Marcelo se arme em líder da oposição e promova uma crise, o governo vai chegar ao fim da legislatura e António Costa estará no próximo governo.
Em vez de um segundo resgate que levaria Passos ao poder e de novo com carta branca para governar como se tivesse os poderes do Pinochet, o país saiu do procedimento do défices excessivo e, de forma surpreendente, a S&P deixou de considerar como lixo a dívida portuguesa. Os alicerces da reformatação económica e social serão totalmente demolidos com o OE de 2018.
Passos perdeu as autárquicas, mas também perdeu a esperança de retomar o governo no ponto em que estava e novamente com uma troika a apoiá-lo na sua experiência económica.
Mesmo que Passos persistisse em liderar o PSD estaria a tentar ser primeiro-ministro numa situação que não era a que desejava, governar apoiado numa intervenção externa, com os amigos do BCE e com Vítor Gaspar no FMI. Passos habituou-se a governar com o medo e com a chantagem, ignorando o Tribunal Constitucional, chamando piegas aos portugueses, contando com um banana em Belém e rebaixando o seu parceiro de coligação como fez com o irrevogável Portas.
Passos esperava eleições antecipadas, esse era o único cenário em que acreditava para ganhar eleições e poder continuar a sua obra. Destruído tudo o que fez e sem esperança de ganhar eleições que não sejam as antecipadas, Passos prefere deixar o PSD entregue a Rio ou a Santana, enquanto que vai em busca de um qualquer Ângelo Correia que lhe dê de comer até à próxima oportunidade.