DESENVOLVER COM BEIJINHOS?

(In Blog,  O Jumento, 21/10/2017)

beijinhos

Marcelo Rebelo de Sousa descobriu que os problemas nacionais se revolvem com abraços e beijinhos, na sua estratégia populista passa a mensagem de que os políticos são todos incompetentes e insensíveis menos ele que com um par de abraços, selfies e beijinhos tudo se resolve. Há pobres porque os políticos são insensíveis, há muitos sem-abrigo porque não há amor, há recessão porque falta um presidente a anunciar indicadores uns dias antes de publicados no INE.

Esta abordagem populista das dificuldades do país cria a ilusão de que não existem problemas de desenvolvimento, todas as consequências do subdesenvolvimento não passam de manifestações de incompetência, de insensibilidade e de falta de espírito missionário. Para Marcelo não há injustiças sociais, modelos económicos que podem gerar pobreza. Para ele não há diferenças entre a política económica de Gaspar e a de Centeno, ambas merecem elogio.

As políticas de desenvolvimento não fazem sentido, a política económica deve obedecer a prioridades determinadas pelo sentimento populista da ocasião, se num mês a prioridade são os sem-abrigo no outro é o crescimento, depois é o pagamento da dívida, agora são as florestas, daqui a três meses o governo deve ir de armas e bagagens atrás de uma qualquer outra prioridade. Se ocorrer um sismo a prioridade será a habitação e os regulamentos da construção civil, se ocorrerem cheias a prioridade deixará de ser os sem-abrigo, o pagamento da dívida, a construção civil ou os incêndios para passar a ser a limpeza das ribeiras e a regularização dos rios.

O rei do Butão,Jigme Singye Wangchuck, inventou a Felicidade Interna Bruta (FIB) ou Gross National Happiness (GNH), o indicador de desenvolvimento passou a ser a perceção de felicidade. Basta ler os pilares desta abordagem (Wikipedia) para nos apercebermos de como o budista Jigme Singye Wangchuck e o católico Marcelo se norteiam pelos mesmos pilares. A abordagem conservadora e religiosa leva à mesma, desvalorização da realidade e dos princípios económicos em favor das ilusões.

Marcelo mede o sucesso do seu mandato em beijinhos, frases de velório, mensagens de dó a velhinhas, ao mesmo tempo que de forma subliminar vai promovendo a destruição da imagem e credibilidade dos políticos e das instituições, ele trata-se de se promover a si próprio aproveitando-se dos sentimentos primários das populações em situações de crise e de tragédia. Como não tem responsabilidades executivas e nunca poderá ser criticado pelas consequências do seu desempenho, ignora que o subdesenvolvimento exige muito mais do que as suas mezinhas populistas e que as prioridades não devem ser definidas em função da sua agenda populista.

Em vez de um país pensado a médio e longo prazo Marcelo quer um país governado segundo metas conjunturais e em função da sua popularidade. Em vez de um governo que aplica um programa aprovado no parlamento pelo qual irá responder, Marcelo deseja um governo que seja um anexo à sua Casa Civil. No fim dos mandatos presidenciais de Marcelo o país terá um elevado Felicidade Interna Bruta (FIB), mas estará tão subdesenvolvido como o encontrou.

Talvez o melhor primeiro-ministro para Marcelo seja mesmo Santana Lopes, Marcelo faz discursos e Santana tira notas, Marcelo dá abraços e Santana trata dos beijinhos, Marcelo trata das velhas enquanto Santana cuida das mais jovens, Marcelo preside onde há incêndios e Santana reúne o conselho de ministros onde ocorrerem cheias, Marcelo atira os foguetes e Santana apanha as canas.

O POPULISMO SEGUNDO MARCELO REBELO DE SOUSA

(In Blog O Jumento, 20/10/2017)

marcelo_beija

De direita ou de esquerda o populismo é a forma fácil de conquistar a simpatia do povo, e normalmente associamos o populismo à extrema-direita assumida e aos seus tiques xenófobos ou racistas. O Ventura achou que ganhava mais votos atacando os ciganos, a extrema-direita alemã ganhou votos criticando o apoio aos refugiados, o Brexit venceu com os ataques aos emigrantes.

Mas há muito mais populismo para além do da extrema-direita; os estratagemas ideológicos da extrema-direita não passam de discursos fáceis para conquistar apoios. Neste sentido há muitas formas de conquistar os eleitores, apelam aos sentimentos de ódio, outros aos bons sentimentos, à comiseração, ao dó, à pena ou, como está muito em voga, aos afetos.

Critica-se, com toda a razão, a forma como Passos Coelho tentou aproveitar-se dos incêndios, mas se fizermos um balanço quem mais ganhou em termos políticos com as tragédias deste verão foi Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo é um político como todos os outros, como político tem os mesmos objetivos que todos os outros. Só que é o político português com mais experiência na utilização da comunicação. É também o político português que sempre usou a manipulação como instrumento privilegiado.

Porque havemos de considerar que Passos foi um oportunista e Marcelo é um idoso cheio de amor para dar aos outros? Porque consideramos que um se mexe por egoísmo e o outro move-se apenas por amor? Porque consideramos que um ambiciona o poder e o outro é um frade da Cartuxa em regime de liberdade?

Veja-se o que sucedeu no dia de ontem, perante a necessidade de adotar medidas urgentes o governo desdobrou-se em reuniões, alguns dos seus ministros terão trabalhado horas a fio, António Costa teve mesmo de se deslocar a Bruxelas para participar num Conselho Europeu. O que fez Marcelo? Foi visitar as zonas devastadas pelo fogo e sugeriu que os deputados deviam estar ali. Alguns jornalistas, num estranho e coincidente coro, sugeriam que Marcelo estava junto do povo, enquanto Costa se escondia no gabinete.

Passar a imagem do presidente que não tem medo do povo por oposição ao primeiro-ministro que por ter sentimentos de culpa tem medo do povo, aproveitando-se da ausência forçada dos que tem de fazer o seu trabalho não é uma forma de populismo, não é um oportunismo bem mais atroz do que as posições desastradas de Passos Coelho? O que é certo é que Marcelo cresce nos likes, Passos está arrumado e Costa teve de enfrentar as tragédias, enquanto Marcelo aproveitou as circunstâncias para consolidar a sua popularidade.

Se Marcelo gosta tanto de estabelecer prioridades, como o fez em relação aos sem-abrigo, ao pagamento da dívida e agora à reconstrução nas zonas devastadas pelos incêndios, se a segurança é um princípio da Constituição que ele cumpre e faz cumprir, por que motivo nestes quase dois anos, enquanto nada de grave sucedeu, ignorou tão grande perigo à vista de todos e nunca definiu uma prioridade para as florestas? Em tantos anos de comentador televisivo nunca reparou nos incêndios, andava assim tão distraído a dar mergulhos?

É a diferença entre o populista e aquele que não o é, uns definem as prioridades ao longo de toda a vida, outros passam uma vida sem um dia de voluntariado e quando chegam a presidentes dedicam-se a dar jantares aos sem-abrigo. Uns definem prioridades prevendo os problemas, outros estabelecem as prioridades a pensar na sua imagem já depois dos problemas serem óbvios. Uns resolvem problemas, outros capitalizam com os problemas.

Esta estratégia dos afetos por parte de Marcelo não será mais uma forma fina de populismo, que visa os mesmos objetivos de todas as formas de populismo, a simpatia e o voto fácil? Os populistas não apresentam soluções, Marcelo não só não as apresenta como as exige aos que estão empenhados em encontrá-las, não faz e aproveita-se do trabalho alheio, passando a mensagem de que tudo o que se faz e alcança se deve a ele e aos seus afetos.


Fonte aqui

O PRESIDENCIALISMO DOS LIKES

(In Blog O Jumento, 19/10/2017)

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As últimas quatro semanas foram úteis para compreender Marcelo Rebelo de Sousa, para entender melhor como ele exerce as funções presidenciais e para clarificar as relações com o governo. O Marcelo Presidente é o Marcelo de sempre, é o Marcelo das brincadeiras do Expresso, o Marcelo dos almoços que não se realizaram, o Marcelo da TVI ou o Marcelo inventor de fatos políticos.

Marcelo conquistou os portugueses com uma estratégia de Facebook, em menos de nada conseguiu um recorde de likes e de amigos, conseguiu likes na esquerda e na direita, na oposição e no governo, nos ricos e nos pobres. Com a estratégia dos beijinhos, lágrimas e selfies Marcelo tornou-se unânime, uma espécie de caudilho (*) das redes sociais. Agora que tem muitos likes e muitos amigos, Marcelo sente que tem mais poderes do que aqueles que a Constituição lhe confere, se é que pela interpretação que fez das regras constitucionais na sua última comunicação ao país não entende que os seus poderes são quase ilimitados.

Marcelo sente que tem mais poderes do que os constitucionais, sente que a sua notoriedade tipo Facebook lhe dá o poder de apoiar ou derrubar governos, de ajudar candidatas autárquicas que por coincidência se cruzam com ele, de escolher as lideranças partidárias. Os poderes presidenciais são neste momento muito maiores do que os que decorrem das regras constitucionais. Dantes podia dissolver o parlamento, agora pode manipular os sentimentos e a opinião dos eleitores com os seus discursos de afetos.

Há uns tempos Marcelo servia o pequeno-almoço, o almoço, o jantar e a ceia aos sem-abrigo, até almoçou com um casal que viveu na rua, comeu empadão de atum, acompanhado de Encosta do Alqueva reserva de 2014 com entradas de presunto e chouriço caseiro da guarda e pudim na sobremesa, tudo devidamente acompanhado pela RTP para que aumentassem os likes. Na época a prioridade do governo era o problema dos sem-abrigo.

Durante meses substituiu-se ao INE e ao ministro das Finanças dando as boas notícias, andava tão animado que chegou a achar que a economia iria ter um crescimento de 3% e ainda achou pouco. Pelo meio, vimos um Presidente fazer um julgamento sumário de um ministro das Finanças, chegando ao ponto de ler os SMS do ministro, poderes que nem o parlamento tem. A notoriedade confere poderes que ninguém se lembraria de escrever na Constituição.  Neste país europeu o Jornal de Negócios e outros titulavam que “Marcelo viu SMS de Centeno e não gostou do que leu” e toda a gente achou este desvio democrático tropical e vergonhoso como algo aceitável.

Esquecidos os sem-abrigo a prioridade passou a ser a dívida, agora as procissões de Marcelo são junto das vítimas dos incêndios e a prioridade no caso de haver folga orçamental passou a ser acorrer ás vítimas dos incêndios, daqui a um ou dois meses Marcelo decide ganhar mais uns likes e a prioridade da folga orçamental será outra. De dia para dia o Presidente usa o poder dos seus likes para presidencializar o regime. Enquanto o governo anda numa roda viva a correr atrás das prioridades que ele define quase semanalmente a comitiva presidencial organiza a agenda para ganhar mais likes para que o Presidente aumente o poder dos seus likes, que cada vez mais se sobrepõe e ignora os poderes constitucionais.

Se a economia vai crescer e Marcelo tem acesso antecipado aos dados anuncia a boa nova e ganha  os likes, como o o ministro das Finanças fosse o seu assessor da Casa Civil para a Economia. Se a S&P tira Portugal do lixo Marcelo ganha os likes. Se algo corre mal na economia Marcelo diz ao governo o que deve fazer e ganha os likes. Se há incêndios ou tragédias Marcelo vai dar abraços e beijinhos e ganha os likes. No Estado há um deve e um haver, o deve são os likes para a presidência pelo que corre bem e pela parte fácil do que corre mal. O Haver é para o governo que serve de saco de boxe quando algo corre mal.

Quantas vezes Marcelo fez voluntariado junto dos sem abrigo antes de ser presidente, quando até tinha uma agenda mais ligeira? Quantos comentários e propostas fez Marcelo nos seus comentários televisivos em matéria de incêndios? Quantas vezes Marcelo usou os seus comentários para fazer previsões económicas? Quantas vezes bebeu Encosta do Alqueva reserva de 2014 com pobres? Até parece que Marcelo enjoou a comida dos jantares de banqueiros para onde era convidado.