DEUS NEM SEMPRE É AMIGO

(In Blog O Jumento, 25/10/2017)

O Jumento divulga aqui a primeira entrevista dada por António Costa quando se deslocou ao local dos incêndios, que não foi transmitida pelas televisões porque estas tinham todos os recursos disponíveis a acompanhar os zigue-zagues de Marcelo rebelo de Sousa.Por isso ninguém soube da forma corajosa e disponível com que enfrentou os acontecimentos e acorreu às vítimas. Fica aqui a entrevista de que os portugueses não tiveram conhecimento por estarem a ver os abraços e beijinhos do Marcelo….


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UMA MULHER CHEIA DE SORTE

(In Blog O Jumento, 24/10/2017)
mulher_lapidada
Quem leu o acórdão do processo da Relação do Porto tem de tirar uma conclusão: a mulher que foi violentamente espancada por dois homens, o marido e outro companheiro, foi uma mulher com sorte; se tivesse nascido nos tempos em que a Bíblia era levada a sério teria sido morta; se fosse apanhada em Raqqa, quando esta era capital do Estado Islâmico, teria sido lapidada até á morte. Mas foi uma mulher cheia de sorte, foi levada à justiça em Portugal e teve o perdão divino, o juiz foi de uma grande compreensão pelo seu comportamento pecaminoso.
Este não é um caso único na justiça portuguesa, de vez em quando somos brindados por pérolas deste género, curiosamente sucedem com alguma frequência nos tribunais superiores. Mas à voz pequena fala-se de casos; recordo-me que nos tempos da Boa Hora havia por lá um juiz que era receado pelos traficantes de droga, sabia-se que se o sorteio os mandasse para aquela vara apanhariam pela medida grossa. O juiz tinha tido um namorado toxicodependente que se tinha suicidado, e desde então o juiz aplicava a justiça pela medida grossa.
Quantos juízes portugueses sobrepõem os seus valores à lei, quantos magistrados conseguiram passar todas as barreiras, desde o Centro de Estudos Judiciários até ao Tribunal da Relação ou até ao Supremo, com os seus valores medievais ou anti constitucionais intactos?
O juiz Neto Moura não nasceu na idade média, estudou na universidade bem depois do 25 de Abril e começou a sua carreira em 1989, está longe de ser o protótipo do velho jarreta, já julgou e condenou muita gente em conformidade com os seus valores anacrónicos, mas tem ainda muitos anos para julgar muitos mais no conforto da Relação e para isso vai ser muito bem pago: são necessários os impostos de umas dezenas de trabalhadores pagos com o salário mínimo para o manter.
Como podemos confiar na justiça de um magistrado que consegue fazer uma carreira e ser promovido, até pelo menos à Relação, somando sentenças em que ignora de forma grosseira os valores constitucionais, elaborando sentenças que destroem a vida de terceiros com base apenas nos seus valores medievais? Não estamos perante uma aberração casual, este juiz já tinha feito a mesma aberração.
O juiz Neto Moura serve de prova de que é possível alguém sem condições éticas chegar a juiz, ser sucessivamente promovido e continuar impune. Se aconteceu com este, nada garante que aconteça com outros ou com muitos outros. Aliás, uma famosa página criada por magistrados no Facebook para comentarem o Caso Marquês mostrou o que vai na cabeça de muitos dos nossos juízes.
Em Portugal qualquer anormal pode ser juiz, pode condenar quem e  como lhe apetecer, ser promovido e continuar a sua carreira indigna nos tribunais superiores, até se jubilar e beneficiar de uma pensão de muitos milhares mais um subsídio de residência vitalício. Se calhar ainda fazem greve em defesa da justiça portuguesa, da separação de poderes e da defesa da Constituição.

QUEM DÁ MAIS OU O PERÓN DE CELORICO

(In Blog O Jumento, 23/10/2017)
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Uma semana depois dos incêndios da semana passada o país vive um leilão. Quem dá mais beijinhos e abraços? Quem dá mais medidas? Quem dá mais dinheiro às vítimas? Quem dá mais vontade de chorar com os discursos oficiais? Quem apoia mais as medidas do governo?
No meio de tudo isto as vítimas são marionetas de ambições pessoais, de jogos partidários, de comentadores de qualidade discutível. Os problemas deixam de ser avaliados de forma racional, as políticas não carecem de reflexão, os dinheiros públicos jorram sem controlo público, as oposições devem deixar do ser em nome do unanimismo. Todos trabalham para a imagem, convém usar gravata preta e ter uma cara de acabou de saber que lhe morreu o pai.
O país vive uma bebedeira provocada pelos incêndios, Marcelo impôs uma metodologia de abordagem dos problemas, vai à frente dar beijos e abraços, chorar lágrimas de crocodilo, conquista o amor do povo, a velhinha chora, ele afaga, a televisão filma, o fotógrafo fotografa, o autarca põe um ar condoído, a jornalista chora, a senhora protesta e pede apoios para já, ele aponta ao governo, se ali não estivesse o protesto não seria filmado, ninguém ouviria a pobre senhora.
Os políticos deixam de ser avaliados pela competência, pela capacidade de refletir, o que dantes implicava preparação deve ser agora decidido na hora, Marcelo ouve o protesto e pede à televisão para transmitir em direto. No telejornal o apelo aparece, o primeiro-ministro vê, chama a televisão e diz que vai resolver o problema. É o governo na hora, ninguém pensa, ninguém equaciona, ninguém faz oposição, anda tudo a toque de caixa, é competente quem chorar mais, quem der mais beijos e abracinhos, quem conseguir levar os outros à lágrima.
O país deixou de ter governo, os governos deixaram de ter programas, o presidente suspende a agenda, o país nada perde porque as agendas presidenciais não passam de um calendário de almoços e jantares, alguns deles bem duvidosos como aquele do Santana Lopes. Sem agenda o presidente anda pelos problemas e subverte a democracia, a partir de agora o poder não emana da maioria parlamentar, não está na ponta da espingarda como diria Mao, agora está na lente da objetiva, na ponta da objetiva, de onde saíam balas saem agora imagens para destruir governos.
Já não é o general que a mando do comandante ordena que se aponte o canhão, agora é o presidente que monta o cenário, o assessor da comunicação que diz aos jornalistas quando devem filmar e estas apontam a câmara no momento adequado para passar a mensagem.
O governo deixa de governar, agora anda a toque de caixa e faz o que o presidente manda em direito, as ovelhas estão sem comer? o governo manda rações, a velhinha perdeu as galinhas? o governo manda um galinheiro novo. Estão a ver, diz o presidente, como eu consigo o que ninguém consegue? Nunca o país viu um santo milagreiro tão eficaz.
O problema é que neste imenso choradinho nacional promovido por Marcelo são os problemas que ele exibe que ficam mal resolvidos e todos os outros são ignorados, se hoje o que está a dar é o Pedrógão, amanhã serão esquecidos os de Pedrógão e passam a ser os de Oliveira do Hospital a estarem na moda. Como já estiveram os sem-abrigo, as agências de rating, o crescimento económico e tudo aquilo que foi útil para usar as televisões.
Este país já não precisa de governos e de Estado, é uma nova anarquia organizada, basta um presidente, uma comitiva de jornalistas e diretores de informação que usem os diretos e manipulem convenientemente a informação. O país mergulhou numa bebedeira populista nunca vista, aos poucos a crisálida da TVI está a transformar-se no Perón de Celorico.