Vade retro, beijoqueiro

(Por Estátua de Sal, 06/01/2025)

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Durante a cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo, uma das agraciadas, a jornalista Marta Vidal, distinguida com a Gazeta de Imprensa pela reportagem “A liberdade, lá em cima: os pássaros de Gaza”, publicada pelo Expresso, defraudou as expectativas de Marcelo a maior aproximação, recusando o ósculo do conhecido beijoqueiro-mor do Reino. Levas um aperto de mão e vais com sorte, porque estamos fartos da tua hipocrisia untuosa – terá ela pensado.

E, para culminar a faena ao poder dos notáveis, tão exuberantemente representado na cerimónia, terminou a jornalista com um discurso de crítica à conivência dos nossos políticos e dos líderes do país com o genocídio que está a ocorrer em Gaza, acusando Marcelo e também o Governo e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa de se manterem “em silêncio” perante “a aniquilação de um povo e de um território” por parte de Israel.

Moedas engoliu em seco, e calou-se. Marcelo ficou amarelado e ainda tentou retorquir, dizendo que Portugal aprovou na ONU todas as resoluções a favor de Gaza.

Sim, triste país sem autonomia para fazer o que é correcto. Manda o Império, manda o lobby sionista, manda Bruxelas e todos se calam.

Citando o Miguel Castelo Branco no seu mural do Facebook:

Pela coragem e desassombro, Marta Vidal redime, mas também envergonha essa classe profissional que cala, colabora e rasga diariamente a carta deontológica do ofício. Mereceu largamente o galardão e esbofeteou publicamente com estrondo e sem luva de pelica a cobardia de bem, a hipocrisia medrosa e o double standard do nosso tempo. Temos jornalista!

Parabens à jornalista pela coragem e pela verticalidade de princípios que evidenciou. Uma bofetada sem luva, às vezes, tem efeitos terapêuticos.

Ver o vídeo da cerimónia aqui mormente a partir do minuto 25 quando ocorre a cena do Vade retro 🙂

Ou em alternativa, para quem tiver conta no X, aqui, já só a partir do minuto 25.

A MAGISTRATURA DA INTERFERÊNCIA

(In Blog O Jumento, 24/01/2018)
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Passados dois anos desde que foi eleito já conhecemos tão bem o Marcelo Presidente como conhecíamos o Marcelo comentador, o Marcelo professor, o Marcelo convidado para jantar, o Marcelo dos almoços com Portas ou o Marcelo jornalista. Sabemos como geriu a liderança do PSD, como ganhou muitos likes, como lançou o roteiro dos funerais e das missas do sétimo dia.
Ao fim de dois anos Marcelo Rebelo de Sousa tornou-se numa espécie de Presidente Facebook, ainda que enquanto na rede social os gostos são convertidos em likes, com Marcelo os likes têm a forma de beijinhos, abracinhos e selfies.
Em dois anos Marcelo já apareceu mais a falar na televisão do que Cavaco Silva durante dois mandatos presidenciais, já fez mais presidências abertas do Mário Soares e foi mais vezes a Tancos do que Ramalho Eanes. Ao fim de dois mandatos presidenciais só alguns portugueses da diáspora não terão ficado com uma selfie ou levado com um cachucho presidencial.
Marcelo afirma-se pelo carisma e dá grande importância aos “afetos” ao ponto de parecer que considera que os muitos likes do povo lhe dão uma legitimidade ainda maior do que o voto e por isso tem poderes acrescidos. Marcelo não fala em nome das suas competências, fala em nome do povo e por isso pode-se meter em tudo, incluindo aquilo em que não é chamado. Se o voto lhe deu o poder da magistratura da influência, os likes parece darem-lhe poderes adicionais, que lhe permitem exercer uma magistratura de interferência, em muitos momentos considera que é presidente do governo.
No plano institucional, quer nas relações com o governo, quer nas relações com o parlamento Marcelo teve um importante papel na normalização do país, ajudou a enterrar o ambiente de stress permanente em que o país estava com o extremismo económico de Passos Coelho. Ao tirar a esperança a Passos Coelho de ajudar a interromper a legislatura com eleições antecipadas, Marcelo ajudou o país a entrar numa fase de recuperação, progresso e tranquilidade que há muito não se via. Graças a Marcelo o país superou uma situação que levaria a um segundo resgate e a mais um ciclo de brutalidade na política económica e, muito provavelmente, a mais um governo da extrema-direita chique de Passos Coelho.
A estabilidade política não se deve a Marcelo mas sim a uma maioria parlamentar que resulta de acordos que estão sendo cumpridos, alguém lhe chamou Geringonça, mas a verdade é que ainda não lhe saltaram peças como sucedeu com a demissão do assustado Vítor Gaspar, a substituição do inimitável sôr Álvaro, nem sequer esteve à beira de gripar, como sucedeu ao governo de Passos com a demissão irrevogável do agora gestor de influências em países de elevados níveis de corrupção.
Mas não foi bonito ver um professor de direito constitucional sugerir que o primeiro-ministro enviasse um diploma para o TC para uma semana depois dizer que sabia que não tinha nada de inconstitucional. Foi dispensável a “ajuda” que deu para livrar o PSD de Passos Coelho ou o almoço com Santana Lopes a meio da corrida para a liderança do seu partido. Ultrapassou todos os limites das suas competências ao pedir a demissão de uma ministra ou a exigir que o governo decidisse numa semana um programa para as florestas e para os combates aos incêndios. Não demonstrou grande competência ao definir a um ritmo quase semanal novas prioridades para o governo, ignorando a separação de poderes, desrespeitando as competências do governo e comportando-se como se o governo fosse uma secretária pessoal.

TV Marcelo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 17/11/2017)

quadros

João Quadros

Estou certo que, em termos de beijos, o nosso Presidente já deve estar no Guinness Book. Marcelo já beijou mais gente numa semana do que o Harvey Weinstein em toda a carreira de produtor.


“Belém informa que Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Hospital São Francisco Xavier depois de falar com ministro da Saúde”. “O Presidente Marcelo passou a noite com os sem-abrigo em Lisboa.” Marcelo está em todo o lado. Já lhe pus a alcunha de Omnipresidente.

Conhecido como o “Presidente dos afectos”, Marcelo aparece onde há tragédia ou infelicidade. Esta semana, quando vi Marcelo ir passar a noite com os sem-abrigo, fiquei a pensar se ele não iria lamentar que aquela caixa de cartão, onde vivia um sem-abrigo, tinha pouca luz para ler.

Como o nosso Presidente dorme pouco, e lhe dá a insónia, lá vai ele durante a noite fazer o bem e, com ele, vai sempre uma equipa de televisão, seja a que horas for. Marcelo ainda não percebeu que as pessoas que trabalham na TV precisam de dormir mais de três horas por dia ou ficam com má cara. O nosso Presidente Marcelo já vai nos 99,99% de popularidade. Os 0,01 são os “cameramen” das televisões.

Atenção, não duvido da bondade de Marcelo e acredito que, para um sem-abrigo, passar a noite com Marcelo é melhor do que passar o lusco-fusco com Cavaco, mas dá a sensação que o Presidente Rebelo de Sousa recebeu milhares de cheques, daqueles de A vida é bela, mas no sentido oposto. Em vez de uma massagem oriental, é “venha experimentar ser mendigo 48 horas”. Não vai andar de balão no Alentejo, mas vai ver um avião despenhado num minimercado. Em vez de uma ida ao Oceanário, vai espreitar doentes com legionella por detrás de um vidro. É triste.

Também estou certo que, em termos de beijos, o nosso Presidente já deve estar no Guinness Book. Marcelo já beijou mais gente numa semana do que o Harvey Weinstein em toda a carreira de produtor.

Para o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, é sempre a aviar, como se fosse na farmácia, mas com beijos de marca (não genéricos). O mesmo para as respostas a jornalistas e pessoas em geral. Já nos velhos tempos na TVI era assim. A Judite sacava de perguntas e ele, pumba, aviava, não um beijo, mas uma resposta rápida, que durava exactamente o mesmo tempo, quer o tema fosse o sentido da vida ou a carreira do Sporting de Braga. Houve tempos em que pensei que o próprio Professor Marcelo escrevia as perguntas da Judite, e das cartas que lhe mandavam, e passava a noite acordado a decorar as respostas. Na altura, o meu sonho era conseguir pôr, lá pelo meio, uma pergunta sobre o tempo de gestação de um rinoceronte. Só para ver se o Professor Marcelo não patinava pela primeira vez. Já agora, fiquem a saber que o tempo de gestação de um rinoceronte são 16 meses se tudo correr bem. Mas, se interromperem a gravidez, aos seis meses podem ter um cágado.

Chego ao final da crónica como uma sugestão. Para o ano, em vez de um dia sem carros, podíamos experimentar um dia sem Marcelo. Fica aqui a ideia.


TOP-5

Afectos

1. A Birmânia é o país mais bondoso do mundo, Portugal o 104.º – mas estamos em primeiro com banqueiros.

2. Vai nascer uma empresa pública para gerir as florestas – Ui, só com a burocracia, e o que vão gastar em papel, não compensa.

3. Leitão Amaro diz que Governo anterior “proibiu” a legionella – aliás, o governo PAF proibiu a legionella no Panteão.

4. Ordem dos Advogados proíbe advogados de comentar processos – excepto os que dormem com jornalistas e falam durante o sono.

5. Isabel dos Santos exonerada da Sonangol – coitada, já me apareceu hoje aqui à porta a vender ovos.