RESSABIADOS

(Virgínia da Silva Veiga, 10/10/2018)

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Há dias, um simples comentário do Facebook equiparava Joana Marques Vidal a Cavaco Silva. Nunca tão poucas palavras disseram tanto.

Joana, em discurso de despedida, em linha de coerência – que lhe reconhecemos a ela e ao ex-governante que a defende -, em lugar de uma postura discreta e de respeito pela sucessora, veio defender que a pessoa a designar para o cargo de PGR devesse ir previamente à AR debitar um programa de intenções, como se o cargo não exigisse um só programa: o estrito cumprimento da lei vigente.

Joana, em estilo ressabiado, convicta de que o que diz possa ainda valer para mandar nos outros, vai sair mas não sem antes deixar uma sombrinha de dúvida sobre a sua sucessora, jeito caváquico de dizer, por outras palavras, que ninguém sabe ao que virá a próxima PGR.

O caso é muito interessante. Sai coerente. Coerente com ideias de fazer da Procuradoria um espalhafato, maculando a imagem dos Procuradores discretos que por aí fazem silenciosa justiça.

Sai convencida de si própria. A pairar na nossa imaginação fica o que seria se tivesse, antes de ser indigitada, ido ao Parlamento dizer que tencionava violar e deixar que violassem o Segredo de Justiça, o segredo dos computadores, criando megaprocessos injulgáveis.

Parte como Cavaco e ao mesmo estilo.

Aguardemos pelo momento de a ver de ar enjoado, em cerimónia onde estejam presentes ela e a sucessora, cujo futuro almejamos equivalente ao de Cavaco e Marcelo: esperemos que a próxima mostre o que é ocupar um cargo em nome do País.

 

DIA DOS SENHORES PROFESSORES

(Virgínia da Silva Veiga, 05/10/2018)

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Agostinho da Silva

A luta dos professores, como a dos agentes da polícia, dos enfermeiros e dos demais funcionário públicos, é justa e séria. A República, que hoje se comemora, é, aliás, e sobretudo a história do Ensino em Portugal, justificando ser também hoje o Dia do Professor.

Devia ser lembrado e lembradas as conquistas, bem difíceis, de um ensino, então para muito poucos, quase todo ele privado e nas mãos de uma específica religião, onde os professores, em autêntico sacerdócio, eram mal pagos, sujeitos a despedimentos e prisões por meras suspeitas de delito de opinião.

Valia a pena lembrar a Lei Cabral que levou Agostinho da Silva a não poder dar aulas por se recusar a assiná-la. A lei, em tempos salazaristas, válida especialmente para professores mas transversal, obrigava todos os que trabalhassem para o Estado a assinar um documento no qual afiançavam não pertencer nem vir a pertencer a qualquer associação não legalmente autorizada. Agostinho recusou-se a assinar. Não pertencia. Isso assinava, disse. Mas o documento obrigava a uma decisão para futuro e isso ele não podia atestar. Não podia atestar mudar de opinião.

Foi proibido de dar aulas. Deu explicações, publicou cadernos e livros através dos quais deu três lições: de dignidade – a primeira delas -, de amor à pedagogia, a sua bandeira de vida, e, finalmente, de ensino. Os cadernos que publicou tinham o propósito declarado de, abrangendo vários temas, preparar quem os lesse para poder atingir todos os níveis de conhecimento. Agostinho, depois preso pela polícia política, acabou exilado no Brasil.

Nunca defendeu os seus próprios interesses. Para ele existiram sempre e só duas bandeiras: Ensino e Portugal, mesmo na mais absoluta pobreza, mesmo afastado do território que amava e que, mais que isso, acreditava ter um desígnio de exemplo para a Humanidade.

Cartazes, pedindo respeito numa cerimónia, empunhados por aqueles a que a ele se não dão – e que mostram não ter -, incomodam. Pessoalmente, incomoda-me quase tanto quanto me tem incomodado ver qualificar toda a justiça como protagonizável por quem não cumpre as leis vigentes, fazendo dela um espectáculo desrespeitoso e deplorável.

Estes comportamentos – arruaceirar cerimónias nacionais, ou distribuir panfletos a turistas com matéria Orçamental do Estado Português –, desqualificam os sectores e revoltam a generalidade da população. Não me queria professora e ser confundida com tais comportamentos que lamento em nome de todos quantos se dão ao respeito e que, também nestes sectores, acredito serem maioria.

Nogueira levou do Presidente da República a maior bofetada de luva branca de que há memória: “agendamos uma audiência” – foi quanto lhe disse Marcelo, nem mais uma sílaba, frase que é, para bom entendedor, dizer que se não justifica não a ter solicitado, estar ali, e vir ali perturbar uma cerimónia oficial. Foi um “dê-se ao respeito” a quem por ele clamava não o tendo.

Os professores – os senhores professores – os que vale a pena mencionar, são respeitados. Não o é quem alinha com arruaceirismos de cenário impróprio, como não são merecedores de respeito aqueles que, sabendo antecipadamente não ir dar aulas, não previnem os pais e as crianças.

É Dia do Professor. Dia para recordar a História do Ensino em Portugal, da sua evolução, das muitas lutas.

Por Portugal, não apenas por uma classe.
Dos professores, um símbolo – Agostinho da Silva.

AMORES

(Virgínia da Silva Veiga, 27/09/2018)

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Ver Cavaco, apoplético, a cuspir perdigotos sobre Marcelo, e Passos, ressuscitado, tiraria qualquer dúvida sobre Joana Marques Vidal dever ou não ser substituída.

Nunca ninguém deu tantas certezas de haver em Portugal uma política na PGR como estes dois.

Não conheço Joana Marques Vidal e, se repararam bem, o que me fez pronunciar contra a renovação do mandato, para lá da concordância com a limitação a seis anos, foi o que fui dizendo e o mais que hoje acrescento: envergonhou a Justiça.

Não apenas na Procuradoria como na Magistratura Judicial ao fazer crer a muitos portugueses que ninguém tem bom senso, não cumpre prazos, e persegue mais do que julga. 

Joana transformou as caras do Correio da Manhã e da SIC na face da nossa Justiça. Sobrepôs órgãos de comunicação social aos Juízes, pior que isso, a torto e a … torto, fez emitir comunicados da PGR, ora inoportunos e persecutórios, ora sem qualificação possível como o que emitiu sobre o caso da Procuradora cujas senhas permitiram centenas de acesso ao Citius. 

Joana não serve a Justiça, acicata ódios, muda regras. Só por isso não gosto dela. 

Nunca alinhei nessa hipótese de ser uma escolha política pró PSD ou CDS como muitos escreveram nas redes sociais. Nunca me viram um “gosto” em tais publicações, menos me viram defender tais ideias.

Achei sempre tratar-se de – vou falar francamente – ligeireza, por vezes a raiar a imbecilidade. Dela, evidentemente.

Têm razão. Tinham razão. Ainda bem que foi substituída.

Cavaco e Passos vieram a lume odres de ódio e é bom que se pergunte porquê, porque têm tanto medo de que outra pessoa ocupe aquele lugar.

Depois de ler Coelho e ouvir Cavaco, vendo-os num agradecimento público que só fortes ligações e profundas paixões alimentam, sou obrigada a dar razão a quem assim entendia: Joana não se limitou a fomentar ódios, também cultivou amores.

Os meus? Só um. A Justiça. Sempre.