Uma Europa de contradições profundas

(Vários in Multipolar TV, 21/09/2025)


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Uma análise dos factos da geopolítica mais relevantes dos últimos dias em vídeo abaixo na Multipolar TV:

O 19.º pacote de sanções à Rússia ameaça implodir a UE. Rússia sobrevoa zona aérea da NATO como aviso aos ataques de drones vindos de território da UE. Uma pequena europa arrasta toda a UE para o confronto? Montenegro vai à China e jornais voltam com o processo Spinunviva. À incapacidade para formar uma frente unida contra o que se passa em Gaza, alguns estados, como Portugal, vêm reconhecer a Palestina como estado de pleno direito. Paliativo? Ansiolítico? A Espanha sobe a parada e diz “onde Israel estiver, eu não vou”. A Polónia fecha fronteira com Bielorrússia, contra interesses de países do centro e sul da EU. França perde África, mas Rússia, China e Coreia constroem centrais nucleares e garantem independência futura de várias nações. Brasil, continua com algumas dificuldades em escolher se vai para sul, se para norte? E a Venezuela, é agora que entra nos BRICS, após o anúncio de uma parceria estratégica com a Rússia.


3,7 mil kg: Venezuela intercepta lancha com cocaína e desmonta plano dos EUA

(Por Angel González, in Diálogos do Sul, 18/09/2025)


Segundo governo Maduro, embarcação partiu da Colômbia para ser interceptada pelos EUA e criar um falso positivo, atribuindo à Venezuela a origem da droga.


O ministro de Relações Interiores, capitão Diosdado Cabello, informou que, na madrugada de segunda-feira (15), as forças policiais e militares da Venezuela capturaram e colocaram sob custódia uma embarcação tipo Go Fast carregada com 3.692 kg de cocaína. O líder afirmou que a lancha procedia da Guajira colombiana e que a bordo viajavam quatro indivíduos que levavam consigo cédulas de identidade venezuelanas.

Segundo Cabello, a Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) tentou montar um falso positivo: as unidades militares estadunidenses no Caribe interceptariam o barco e fariam crer que a droga vinha da Venezuela e se dirigia aos Estados Unidos.

Cabello explicou que o dono da droga apreendida é um homem identificado como Levi Enrique López Batis, que, segundo o depoimento dos detidos na embarcação, “trabalha para a DEA” e está vinculado a Jercio Parra Machado, que opera na Guajira colombiana, e a um indivíduo denominado “aliás Cirilo”, que se encontra em Porto Rico. O barco se dirigia para lá, onde seria capturado pelos estadunidenses ali posicionados, segundo o plano.

No entanto, os mecanismos de inteligência bolivariana detectaram a operação e interceptaram a embarcação ainda em águas venezuelanas.

Manobra militar

A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) iniciou nesta quarta-feira (17) a manobra militar Caribe Soberano 200 no Arquipélago La Orchila, a 160 km ao norte da capital Caracas.

Desde a Ilha La Orchila, espaço de jurisdição militar pertencente ao Território Insular Miranda, o general-chefe Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, explicou que os exercícios Caribe Soberano 200 constituem uma campanha conjunta com todos os componentes da Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela (FANB), por meio terrestre, marítimo e aéreo.

“La Orchila é um espaço que sempre serviu para exercícios aeronavais de todo tipo, e nesta oportunidade vamos realizar um exercício bastante completo que envolve a Força Tarefa Caribe e os grupos de tarefa conjuntos: aeroespacial, forças especiais, inteligência e guerra eletrônica, marítima e, por último, terrestre”, detalhou.

A mobilização, que se estenderá por três dias, inclui também a participação do povo, pois as manobras contemplam patrulhas conjuntas com pescadores venezuelanos, disse Padrino López.

O movimento demonstra o músculo de artilharia com que a Venezuela conta. Os exercícios contemplam a ativação de equipamentos como drones de vigilância armados, tanto submarinos quanto aéreos; sistemas antiaéreos Buk e sistemas de artilharia ZU; além de “um importante deslocamento de navios da Armada Bolivariana para execução de tiro costeiro, desembarque anfíbio e tomada de cabeças de praia”, declarou o representante.

A manobra ocorre em um momento em que os Estados Unidos intensificaram suas ações no Caribe. Segundo Donald Trump, os Estados Unidos teriam realizado mais dois ataques a lanchas com supostos narcotraficantes em menos de 24 horas. Nesse sentido, a ação chavista demonstra a capacidade de reação e de domínio sobre o território que a Venezuela possui. Inclusive, Padrino afirmou que a operação foi ordenada pelo presidente Nicolás Maduro como “resposta às ameaças dos últimos dias”.

Nicolás Maduro: Seguimos abertos ao diálogo

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou nesta segunda-feira (15), durante uma coletiva de imprensa, que o que ocorre entre seu país e os Estados Unidos “não é uma tensão, é uma agressão generalizada: é uma agressão judicial quando nos criminalizam, é uma agressão política com suas declarações ameaçadoras diárias, é uma agressão diplomática e é uma agressão em curso de caráter militar”.

O líder chavista reiterou que os navios de guerra dos Estados Unidos estão “apontando 1.200 mísseis contra a Venezuela”, e que “todo mundo, nos Estados Unidos, na América Latina e no Caribe, sabe que a operação militar dos Estados Unidos no Caribe é para realizar uma mudança de regime na Venezuela”. Acrescentou que o plano é torcer o braço da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+) e se apoderar das maiores reservas de petróleo do mundo.

Maduro revelou que “as comunicações com os Estados Unidos foram rompidas por eles, por suas ameaças de bombas, mortes, chantagens”. “Nós não funcionamos assim — com ameaças e chantagens, nunca haverá nada, e eles sabem disso; passamos de uma etapa de comunicações precárias para comunicações rompidas”, elucidou.

No entanto, segundo o presidente venezuelano, os canais de comunicação não estão “fechados”. Mantém-se um fio de comunicação “mínimo” com John McNamara, embaixador dos EUA na Colômbia e designado para tratar de assuntos sobre a Venezuela. Esse canal funciona basicamente para manter o plano de repatriação de migrantes deportados dos Estados Unidos. “Isso é uma prioridade para nós”, afirmou.

Durante sua coletiva, Maduro também falou sobre o incidente ocorrido na noite da última sexta-feira (12), em águas da zona econômica exclusiva da Venezuela, quando um barco pesqueiro foi interceptado e abordado por 18 fuzileiros navais que desceram do destróier Jason Dunham, parte da frota mantida por Washington no sul do Caribe.

“É uma vergonha para a comunidade internacional e para a honra militar das Forças Armadas dos Estados Unidos. É totalmente ilógico, extravagante, absurdo mandar um navio destróier com 380 profissionais de alto nível para assaltar um barco de pescadores de atum… O que estavam procurando? Quem deu a ordem?”, expressou.

O presidente respondeu às declarações feitas por seu homólogo estadunidense, Donald Trump, de que a Venezuela envia drogas e criminosos ao país do norte. Maduro reiterou ser uma “mentira” tanto essa afirmação quanto a alegação de que a intenção de Washington com seu movimento no Caribe é combater o narcotráfico.

“Se o senhor diz que a Venezuela envia esse veneno para lá, é mentira! A Venezuela não produz nem um hectare de folha de coca, aqui não há laboratórios de produção, e quando os encontramos, nós os destruímos”, assegurou.

O governo bolivariano rejeitou o relatório do Departamento de Estado que inclui a Venezuela numa lista de “principais países de trânsito e produção de drogas”.

Caracas afirmou que Washington faz “uma imaginária e ilegítima autodesignação como juiz e polícia do mundo”. Declarou que todas as afirmações do referido relatório carecem de fundamento e contradizem os dados oficiais de organismos internacionais especializados.

O relatório do Departamento de Estado afirma que Maduro “lidera uma das maiores redes de tráfico de cocaína do mundo” e que Washington continuará buscando levá-lo à justiça, além de atacar “organizações terroristas estrangeiras venezuelanas como o Tren de Aragua”.

O ex-presidente Donald Trump afirmou, por meio de sua rede Truth Social, que forças militares dos EUA no Caribe destruíram uma segunda lancha supostamente carregada com drogas, que teria saído da Venezuela com destino aos Estados Unidos. Na ação, teriam matado três “terroristas do sexo masculino”. Na terça-feira (16), Trump disse a jornalistas que os incidentes desse tipo não foram dois (em 2 e 15 de setembro), mas três, embora não tenha dado mais detalhes.

Rejeição às ameaças

Maduro participou na noite de terça-feira (16) da instalação do Conselho Nacional pela Soberania e a Paz, espaço convocado pela Assembleia Nacional e que reuniu representantes de todos os setores da vida pública para expressar, por meio de um manifesto, o desejo de paz e a rejeição às ameaças dos Estados Unidos.

Estiveram presentes empresários, sindicatos, partidos chavistas e opositores, governo, comunidade científica, intelectuais e artistas, militares e policiais, governadores, prefeitos, igrejas e cultos religiosos, esportistas, juventude e comunas, entre outros.

Maduro: É uma vergonha para os EUA usar um destroier com 380 militares para assaltar um barco de pescadores de atum.

Durante sua fala, Maduro afirmou que se formou, na Venezuela, o maior consenso que poderia haver hoje no país diante da agressão estadunidense.

“Todas as pesquisas mostram que entre 93% e 95% dos venezuelanos rejeitam e repudiam as ameaças militares do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela”, assegurou.

Reiterou que há uma ameaça de guerra no Caribe contra a Venezuela e que a atual conjuntura nacional tem origem em “uma tentativa imperial dos Estados Unidos de se apoderar” das riquezas venezuelanas.

Por fim, sentenciou que o caminho para conter, neutralizar e derrotar plenamente essa ameaça é a união de todos os setores da Venezuela, acima de qualquer diferença.

Fonte aqui


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A tragédia europeia

(Por Joaquim Ventura Leite, in Facebook, 10/09/2025, Revisão da Estátua)


O Projeto Europeu: Destruído em menos de duas décadas por uma sofisticada, mas incompetente e desastrosa coligação política de liberais, socialistas e verdes, a que as restantes forças políticas europeias se submeteram sem oposição convicta ou simplesmente medo face a um vazio ideológico total. 

A Europa está presentemente mergulhada numa paranoia destrutiva, em consequência da sua posição em relação à invasão russa da Ucrânia. Para o público europeu, a narrativa que sustenta ou justifica esta paranoia é a da inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o que exigirá uma despesa maciça na defesa, que obviamente levará a mais concentração de poder político em Bruxelas, e maior destruição da economia e das condições de vida dos europeus. O argumento infantil e perigoso mais recente de Ursula von der Leyen  para justificar esta nova narrativa é o de que a economia russa está a “florescer” (booming!)  por  se ter transformado numa economia de guerra. Agora ela já não diz que a economia russa está em “fanicos” (in tatters, como disse em 2022 ao Parlamento), mas que está a florescer! É uma afirmação que mostra a sua total incompetência e infantilidade num cargo como o que desempenha, não por qualquer mérito seu anterior mas, exclusivamente,  por conveniência de uma coligação política conhecida: liberais, socialistas e verdes. Esta é a coligação que a história registará como a que destruiu o projeto europeu.

Mas vamos à paranoia. A minha tese resulta de um texto longo e ainda não editado para publicação. Contudo, hoje adianto as conclusões absolutamente convictas a que cheguei, apoiadas em factos e não em percepções ou  agendas políticas.

1 – A paranoia europeia nada tem a ver com qualquer hipótese de invasão russa da Europa ocidental.

    Vamos a factos. Em 1968, através de forças do chamado Pacto de Varsóvia, uma resposta da Rússia e dos seus países satélites à NATO, a URSS ocupou a Checoslováquia para pôr termo ao que ficou conhecida como a Primavera de Praga.

    Naquela altura havia dezenas de milhares de soldados soviéticos e tanques em Berlim Oriental. Ocupar Berlim Ocidental era um passo minúsculo para a URSS. A  URSS tinha do seu lado todos os países de leste. E, todavia, a invasão da Checoslováquia não gerou nenhuma histeria e paranoia sobre uma iminente invasão da Europa Ocidental. E vivia-se em plena Guerra Fria. Houve manifestações de indignação  pelo Ocidente, mas ninguém pensou que se estava a caminho de uma invasão generalizada da Europa Ocidental. Porquê então agora essa paranoia?

    Os russos querem progresso, e não mais guerras. Sofreram brutalmente não apenas durante a Segunda Guerra Mundial, mas igualmente porque  depois dela foram submetidos a  restrições severas nas suas condições de vida para que a URSS pudesse manter a sua máquina militar de dissuasão, o Pacto de Varsóvia,  e pudesse ainda apoiar movimentos e guerras contra o Ocidente pelo mundo fora.

    Eu visitei e conheci uma parte dessa URSS e senti essas dificuldades materiais dos soviéticos. O que hoje desejam é poder desfrutar dos seus recursos e viverem bem como no Ocidente. Nada de guerras. Mas, há o Putin, dizem as elites e os seus funcionários! Putin tem a ambição de recuperar o território da antiga URSS. Até hoje, tal como as inúmeras doenças imputadas a Putin, não existem documentos ou intervenções políticas de Putin formulando esse objetivo estratégico. Nem a altos funcionários russos. É, pois, uma conveniente fabricação ocidental, associada ao medo histórico da URSS!

    Na realidade, quem tem medo de quem é o oposto. A Rússia é que tem medo das falsas promessas do Ocidente sobre a não expansão da NATO para Leste. E a Ucrânia é uma questão vital para a Rússia desde que a NATO manifestou vontade de a integrar. Porquê a importância especial da Ucrânia? Porque este foi o corredor das anteriores invasões da Rússia e da URRS, respetivamente por Napoleão e  Hitler. Portanto, se alguém teme alguém, é a Rússia, e ela tem antecedentes históricos suficientes para isso.

    Então, sendo assim, como se explica a paranoia europeia? Haverá outra explicação para ela? Sim, há. E são apenas  desgraças!  

    2 – Expectativas frustradas

    No início do conflito, a expectativa era clara: a Rússia entraria em colapso militar, a economia ficaria destruída sob o peso das sanções e Moscovo ficaria isolada no plano internacional. A Ucrânia, apoiada pelo Ocidente, resistiria heroicamente e, em poucos meses, o equilíbrio europeu voltaria a assentar-se sobre a vitória da ordem liberal.

    Esse ambiente de confiança manifestou-se em várias declarações públicas. Emmanuel Macron chegou a advertir que “o Ocidente deveria evitar uma humilhação de Putin” na solução do conflito. A frase é reveladora: pressupunha que a vitória ocidental estava assegurada e que a única preocupação era gerir a derrota russa de forma a não criar instabilidade.

    Boris Johnson foi ainda mais explícito. Contou ter dito a Putin, por telefone, que a invasão da Ucrânia era um “grave erro de cálculo político”. Mais do que isso, em março/abril de 2022 deslocou-se a Kiev para transmitir a Vlodymyr Zelensky uma mensagem inequívoca: se aceitasse um acordo de paz nos termos então em discussão, o Ocidente retiraria o seu apoio; mas se optasse por continuar a lutar, teria garantido financiamento, armas e logística para alcançar uma vitória total sobre a Rússia. O episódio mostra como a confiança na derrota russa era tamanha que até uma solução negociada foi rejeitada em nome da expectativa de vitória plena.

    Mas não só. Também Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, refletiu esse otimismo inconsciente ao afirmar no Parlamento Europeu que as sanções tinham deixado a indústria russa “de rastos” (in tatters). Foi mais longe, chegando a dizer que Moscovo, sem acesso a semicondutores, estava já a retirar chips de frigoríficos e máquinas de lavar loiça para os colocar em mísseis — uma imagem quase caricatural, que procurava desvalorizar a indústria militar russa e reforçar a narrativa de colapso. Noutra ocasião, sublinhou que a Rússia estaria condenada a paralisar a sua produção petrolífera por falta de válvulas fabricadas no Ocidente.

    Hoje, essas declarações soam infantis e superficiais, porque a realidade mostra ser o oposto: a Rússia não só manteve a sua indústria militar como aumentou a produção; não só não paralisou a exploração energética como reforçou exportações para mercados alternativos.

    Este conjunto de declarações — Macron, Johnson e Ursula — mostra com clareza o clima que dominava as elites ocidentais em 2022: uma confiança arrogante, baseada em avaliações ilusórias da realidade russa. Essa confiança e arrogância propaga-se à sociedade. Aos restantes políticos nacionais, ao comentariado televisivo. E quando essas expectativas não se confirmaram, a desilusão abriu espaço para a angústia da humilhação, que ajuda a alimentar a paranoia que hoje marca a política europeia. Mas não foi apenas a humilhação política sentida hoje pelas elites arrogantes! Algo mais, e também profundo,  frustra ou mesmo assusta esta Europa dominada pelos liberais, socialistas e verdes.

    3 – O simbolismo perturbador da Rússia

    O impacto não é apenas militar ou económico. Moscovo projeta-se como um “Estado-civilização” que recupera símbolos de soberania, religião, família, cultura e identidade conservadora, em contraste aberto com as recentes agendas consideradas “progressistas” da Europa. A Rússia não oferece, nesta altura, um modelo exportável como a URSS pretendeu depois da Segunda Guerra Mundial, mas a sua mera resiliência representa um desafio ao universalismo liberal.

    Para as elites ocidentais, este simbolismo é particularmente perturbador. Uma Rússia que se afirma culturalmente no oposto duma Europa arrogantemente auto promovida como “progressista”,  e que, ao mesmo tempo, não colapsa sob sanções, é percebida como uma ameaça civilizacional — não tanto pela sua força objetiva, mas pelo que revela das fragilidades internas do Ocidente.

    4 – Um mundo em mudança para a multipolaridade.

    A Rússia não colapsou apenas por causa da resiliência da sua economia, do seu renovado poder militar e dum estado politicamente forte e com capacidade estratégica. A Rússia contou com uma mudança estrutural no Mundo, e essa mudança apoia-se também na nova Rússia renascida do colapso da URSS. O pano de fundo onde isto acontece é a transição da ordem global unipolar para uma ordem multipolar. E o que isso trouxe foi que o chamado Sul Global se recusou a alinhar automaticamente com a estratégia ocidental no isolamento da Rússia. Pelo contrário, a Rússia reassumiu um papel internacional crescente em diversas zonas críticas do Mundo como África e Médio Oriente.

    O pesadelo ocidental e europeu não assenta apenas na humilhação pelas expectativas falhadas assentes numa postura arrogante e ridícula, ou no medo das elites perante o conservadorismo perturbador da Rússia. É também a constatação de que, enquanto o Ocidente se entregava a uma deriva destrutiva sob o céu liberal,  o resto do Mundo estava em mudança por uma autonomia e por um progresso não ditado e decidido pelo Ocidente. Perceber. de repente,  que o Ocidente já não dita sozinho as regras, e que os centros de decisão se diversificam, é algo que se tornou insuportável para um Ocidente arrogante.

    5 – Consequências desastrosas irrecuperáveis

    As elites políticas europeias percebem com horror que as consequências do erro estratégico cometido com a guerra na Ucrânia não são apenas catastróficas. São irrecuperáveis.

    E os povos europeus irão reagir a isso ao longo dos próximos tempos, virando as costas à coligação que destruiu um Projeto Europeu muito promissor, que colocaria a Europa como um protagonista central na geopolítica internacional. Hoje a Europa corre o risco de se tornar uma região periférica do Mundo em desenvolvimento. Sem credibilidade e mergulhada em problemas da sua própria génese, a saber:

    A – Uma política energética que está a destruir a economia europeia em nome da salvação do planeta.

    Poucos exemplos ilustram melhor esta arrogância transformada em fraqueza do que o dossier energético. Durante décadas, a Europa construiu a sua competitividade industrial sobre o gás barato vindo da Rússia. Essa dependência era criticada pelos EUA, mas vista como inevitável em Berlim e Bruxelas.

    Com a guerra, tudo mudou. O Nord Stream foi posto fora de serviço, os fluxos de gás russo caíram a pique e a Europa virou-se para o gás natural liquefeito americano — mais caro, mais instável e logisticamente mais difícil. O que era uma vantagem estratégica transformou-se em vulnerabilidade.

    O episódio mais simbólico ocorreu há dias: a Rússia e a China assinaram um memorando para a construção de um novo gasoduto gigante a partir da península de Yamal. O detalhe relevante é que esse gás tinha sido originalmente pensado para abastecer a Europa. Agora seguirá para a China, reforçando o crescimento do maior rival sistémico da União Europeia.

    É um pesadelo pensar na competitividade da Europa sem energia barata e disponível. O peso dos verdes destruiu esse quadro, e agora um outro quadro de desenvolvimento difícil de desenhar é necessário. Mas com liberais, socialistas e verdes essa correção é difícil nesta altura.

    B – Uma politica migratória que está a destruir os alicerces da sociedade europeia em nome não se sabe de quê, talvez de um complexo de culpa, tudo muito defendido pelos liberais, socialistas e verdes.

    C – Uma aventura irresponsável na guerra da Ucrânia, em vez de se ter batido pela paz, reconhecendo as razões de segurança da Rússia.

    Estes foram os desastres que a coligação liberal, socialista e verde, causou à Europa, e que não podem agora ser rapidamente corrigidos, muito menos pelas mesmas forças políticas. O desespero pela desorientação política na UE não podia ser maior do que o atual.

    6 – Uma complicação inesperada

    Num Ocidente que se apresentava monolítico, as fissuras dentro do bloco estão a começar a aparecer.

    A narrativa da unidade ocidental é hoje uma fachada, que esconde fissuras cada vez mais profundas. Os EUA seguem uma agenda de reindustrialização e protecionismo que choca com os interesses exportadores da Europa. Dentro da União Europeia, o Leste diverge do Oeste, o Norte do Sul, e as tensões políticas internas acumulam-se e irão intensificar-se à medida que as crises internas não puderem ser resolvidas pela própria UE.

    O Ocidente já não é o bloco monolítico da Guerra Fria nem o espaço unipolar dos anos 1990. Hoje, enfrenta divisões transatlânticas e internas que o fragilizam ainda mais perante a Rússia e a China.

    Conclusão: A coligação liberal/socialista/verde está perdida e desorientada. A narrativa da guerra contra a Rússia e o aumento do autoritarismo seguem-se de forma óbvia.

    E agora um fecho com chave de chumbo! Quem são os principais coveiros do Projeto Europeu? Emanuel Macron e Olaf Scholz.

    A sua ação política só trouxe fracassos ao Projeto Europeu e aos respetivos países que foram e são centrais para o rumo europeu. 

    Emmanuel Macron: está atascado até ao pescoço na gestão da França. Falhou em,  praticamente, tudo o que a França precisava. A sua aceitação pública não vai além dos 25%. Agora está com uma crise de governo, com dificuldades de aprovar um orçamento que tenta travar a situação financeira deficitária do Estado.

    Tenta manter algum protagonismo internacional à custa da Ucrânia, afirmando volta e meia que a França vai enviar tropas para a Ucrânia, mas acabando por se encolher, uma vez que não tem capacidade militar para ajudar a Ucrânia a defender-se. Começou por dizer que a guerra na Ucrânia não era entre a Rússia e a Ucrânia, mas entre a NATO e a Rússia. Mas depois viu uma oportunidade da Europa derrotar a Rússia. Agora não sabe o que fazer… 

    Olaf Scholz. A sua passagem pelo governo alemão terá sido das mais desprestigiantes para a Alemanha, provavelmente só ultrapassável pelo atual chanceler Frederic Merz, que quer conduzir a Alemanha como se fosse uma empresa de gestão de  ativos financeiros. 

    Com ele os Verdes tiveram a maior influência num governo alemão. Deu aos Verdes duas pastas importantes como a economia e os negócios estrangeiros. O resultado foi simplesmente desastroso na economia e na energia, e desprestigiante para o governo em política externa. Nas últimas eleições pensou que continuava a governar, mas saiu pela porta dos fundos arrastando os sociais-democratas para um resultado medíocre de terceira força política. Uma situação que começa a ser mais frequente na Europa.

    Estes podem ser considerados os  dois principais coveiros recentes do Projeto  Europeu. Com Ursula von der Leyen à frente da Comissão Europeia, fecha-se um trio absolutamente incompetente na condução da Europa nos últimos anos.

    Pode e deve dizer-se que a maioria dos chefes de governo dos restantes países membros da União Europeia são igualmente desta extração, mas é razoável afirmar-se que se os líderes de França e da Alemanha fossem políticos com verdadeira dimensão política e sentido europeu, os restantes líderes seguiriam a França e a Alemanha. 

    Conclusão: A França e a Alemanha falharam onde não podiam ter falhado dadas as suas responsabilidades especiais no Projeto Europeu: na política energética, na imigração, na guerra na Ucrânia e, como cereja no topo do bolo,  na escolha e recondução de Ursula von der Leyen como Presidente da Comissão Europeia,  uma figura política  de segundo ou terceiro  plano,  cuja utilidade foi apenas executar a agenda política da coligação de Liberais/Socialistas/Verdes.

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