(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 03/10/2022)

E não foi preciso esperar muito para Jack Sullivan dissesse que a destruição dos pipelines abre “oportunidades extraordinárias”, pois permite acabar de vez com a “nossa” dependência de energia russa. Este “nossa” diz muito de como vê a europa. E este “nossa”, quando associado ao “Nord Stream” diz muito das intenções e práticas inconfessadas. Enquanto o dólar sobe… descem todas as outras moedas ocidentais e das colónias dos EUA.
E se muito diz do nosso nível de colónia, o que dirá esta afirmação da real autoria das explosões. Se os EUA, que já tinham ameaçado com Biden e Nulland, se Sullivan diz isto, se Condoleezza Rice, em 2014, disse que era altura de criar condições para acabar com a energia russa e sensibilizar os europeus para o fornecimento ser feito pelos EUA, algo que Merkel resistia a fazer por saber que, com essa hipótese, se ia a competitividade alemã baseada em energia barata e de qualidade, e se aos russos bastava fechar a torneira, até porque, a infra-estrutura era sua… Qual é a lógica de dizer que a Rússia voltou a bombardear-se a si própria, destruindo uma das principais vantagens que tinha sobre a EU? Pois… Hoje vale mesmo tudo!
Mas o que torna ainda mais evidente o desespero e o alívio dos EUA – e de Jack Sullivan – pela inutilização – quiçá definitiva – dos NS, foi uma sucessão de eventos que significavam um movimento dialético oposto aos dos interesses dos EUA.
Uns dias antes, na Organização de Cooperação de Xangai, Vladimir Putin veio dizer “se a EU retirar as sanções, temos 55 milhões de metros cúbicos anuais prontos a fluir”, “é só abrir a torneira”.
A par desta posição, que já era conhecida, foram-se multiplicando, em quantidade de eventos e pessoas, as manifestações junto ao terminal do NS2, colocando uma pressão brutal sobre o governo de Scholz. Essa pressão estaria, inclusive, a dar resultados.
Scholz tinha ido à Arábia Saudita tentar resolver o problema de abastecimento energético alemão, mas, no final, o que de adicional conseguiu foi um petroleiro, ao que alguém disse, pago a peso de ouro. Veja-se ao que chegou a Alemanha, a comprar petroleiro a petroleiro como uma qualquer Venezuela, o que diz muito da incompetência e do nível e traição ao povo alemão, pois ao que saiba, a Alemanha não é um país sancionado, embargado ou bloqueado. “Apenas” passou de militarmente ocupado, a colonizado.
Perante este revés, a Alemanha terá, por ordem de Scholz, iniciado conversações ultrassecretas, mediadas pelo príncipe saudita, pelo sultão Erdogan, com o plenipotenciário energético Putin. O homem, de quem os EUA dizem dominar o mercado mundial de energia. Mais uma vez a fazerem a narrativa divergir da realidade. São eles que o domina, Putin apenas tem mais poder do que lhes era aceitável.
Entretanto, o príncipe saudita tem uma conversação muito promissora com Putin, e o Chefe das Forças Armadas Russas recebe uma chamada telefónica do homólogo Ucraniano, em que este último lhe deu os pêsames pelo tiroteio numa escola russa, mantendo entre os dois uma conversa prolongada e amigável (mais de 30 min.).
Eis que, segundo algumas fontes (Pepe Escobar, The Duran e Brian Berletic do The New Atlas), estava aberta uma linha de diálogo, mediada por gente que se dá bem com todas as partes, que poderia levar a uma futura negociação, com a consequente reposição dos fornecimentos energéticos para a Europa.
Zelinsky tinha interesse, pois, aproximando-se o Inverno, a lama e a chuva impedirão o exército Ucraniano de se mobilizar e tudo ficará mais difícil. Havia que negociar para salvar o que restava do país, pelo menos um cessar-fogo ou uma trégua, para poder reconstruir o exército com mais gente tirada das escolas, universidades e locais de trabalho, e os russos dar-lhe-ia tempo para colocar os 300.000 desgraçados que vão para a guerra nas linhas de guerra. E não se confunda isto, com a estratégia de relações públicas em que consistiu a tomada de Liman, conseguida após mais de um mês em que morreram centenas de militares ucranianos, todos os dias, todos os dias! Usando de reservas e uma massa de homens absolutamente desproporcionada, lograram cercar a cidade e os russos, para não ficarem presos, decidiram retirar desta vila de 15.000 habitantes. Com isto, Zelinsky consegue mais um balão de oxigénio e manter abertos os canais de envio de armamento. Os militares russos estão danados com o seu comando, pois acham que não fez tudo ao seu alcance. Pelo menos, é o que se constante, aberta e ardentemente, nos canais russos do Telegram e VK. Para um país governado a ferros… questiona-se e acusa-se demasiado…
Contudo, quando os EUA se dão conta, talvez através dos agentes infiltrados no governo ou no ministério da defesa alemão, destas conversações, tinham de fazer o mesmo que Cortez fez com as suas Caravelas à chegada às américas. Queimou-as todas, como que dizendo aos seus homens, “não vale a pena, têm de se entregar à missão, ninguém volta para trás”!
A plena operacionalidade dos gasodutos mantinha sempre em aberto a possibilidade de diálogo e a possibilidade de retorno à “dependência” energética da Rússia, o que deitaria por terra abaixo a estratégia americana de se tornarem o principal fornecedor de petróleo e gás à Europa, assumindo-se assim como “reguladores” do desenvolvimento industrial europeu. Sempre que a europa crescer um pouquito mais rápido, aumentam o preço da energia e mantêm-se no topo. Os NS eram uma espada de Dâmocles sobre o pescoço americano. E os EUA nunca esperaram por ninguém lhes dizer para fazerem o que tem de ser feito.
É aí que faz sentido a destruição dos gasodutos – como se vê, vital para os interesses dos EUA – e, logo de seguida, a submissão, por Zelinsky, da candidatura à NATO. Foi como que uma última salvação. “Ou me aceitam na NATO” ou “estou feito”. Pois a entrada da Ucrânia na NATO significaria a entrada da NATO diretamente na Ucrânia, sem subterfúgios.
Claro que os EUA querem usar um exército proxy (por procuração), não querem “ser o exército”. Se o objetivo fosse envolver diretamente a NATO, já estava. A Ucrânia só faz sentido enquanto exército contratado para enfraquecer o inimigo. São ucranianos que morrem e até ao último homem ou mulher. Daí que, a resposta de Stoltenberg tenha sido tão rápida que já deveria estar preparada: “agora não é altura de discutir isto”. Claro… Não é preciso, a Ucrânia já está metida de cabeça no conflito, traída por um presidente que ganhou eleições para fazer a paz.
Mas se a Ucrânia tem um governo que aceitou destruí-la em nome de interesses alheios, a Europa também não se pode rir. É estarrecedor ver um país como a Alemanha deixar-se ir desta forma. É triste e revoltante ver uma das maiores potências industriais do mundo deixar-se condicionar e sabotar desta maneira, sem luta, sem orgulho, sem carácter. Diferente não se poderia esperar do cavalo de Troia Anallena Berbock, que disse numa entrevista “apoiarei a Ucrânia, porque prometi e fá-lo-ei mesmo que os meus eleitores estejam contra e se manifestem contra”. E ainda dão lições de democracia!
Entretanto, tudo se encaminha para o que eu escrevi já há um ano ou dois, quando a coisa começou a aquecer e que tinha a ver com o que era a opinião e muitos especialistas para o que vinha aí: uma reindustrialização americana à custa da desindustrialização Europeia. Para os EUA poderem “conter” e “competir” com o crescimento imparável da China, haveria que integrar no PIB americano o maior valor acrescentado europeu que fosse possível. Ou seja, adicionando ao americano, o PIB Europeu, e assim, adiar mais uma década à passagem da China a primeira economia mundial. E como se faz essa adição? Com energia cara e com comprador exclusivo, com armas de luxo, com compras dos melhores activos e deslocalizações, com captação da melhor mão-de-obra e captura dos melhores mercados europeus.
Daqui a uma década, os EUA preveem ter já aniquilado a Rússia e atirar-se então à China. E porque é que eu digo isto? Porque é em 2034 que começam a sair os primeiros submarinos nucleares australianos. Os que estão a ser construídos ao abrigo do AUKUS que visa cercar e “conter” a China. E todos ouvem o “conter” e fazem de conta que é normal um país dizer que tem de conter outro, limitando o seu desenvolvimento.
Uma guerra longa, na Europa, para engordar, industrializar e acumular forças, destruindo o maior adversário militar que têm, para depois atirarem-se à China, enfrentando apenas uma frente de cada vez.
Até lá, vão fazendo o costume, como o que se passou com as tais “esquadras” de João Cotrim de Figueiredo. O porta-voz do partido com a ideologia mais ultrapassada do parlamento – a mais antiga, experimentada e falhada -, disse saber, através de uma ONG… americana, veja-se lá, que a “China comunista”, tinha esquadras ilegais espalhadas pelo mundo para perseguir, raptar, controlar e levar para o seu território emigrantes incómodos para o “regime”.
Nem me vou referir ao facto de os EUA, através das suas ONG’s financiadas pela CIA, acusarem constantemente os outros de fazerem o que eles fazem. Afinal são os EUA que se sabe terem mais de 2000 prisões ilegais, terem muitas em território europeu, raptarem cidadãos da Venezuela, Coreia do Norte, Cuba, Nicarágua e outros, e terem-nos nessas prisões meses e anos a fio enquanto são julgados por leis americanas (isto quando não os levam para Guantanamo), e muitos deles terem passado por Portugal, em voos ilegais da CIA, autorizados por Paulo Portas, que nunca explicou por que razão permitiu tal bárbara violação e direitos humanos e do direito internacional.
Claro que de um porta-voz partidário, de um partido financiado sabe-se lá por quem, cujo móbil na vida é ser um CEO e um rapaz bem-comportado da estrutura liberal, para assim fazer a sua ascensão no quadro imperial, não podemos esperar nem verdade, nem honestidade e muito menos um pedido de desculpas por mentir.
Mas se já era grave este tipo dizer uma coisa destas sem confirmar o que quer que fosse, demonstrando como funciona a propaganda nestes dias, mais grave é um jornal com o Expresso, que se diz uma voz da liberdade – só as árvores que morrem com tal liberdade -, ter ido às três moradas tão pertinentemente assinaladas por JCF e, ao nada encontrar, ficar a dizer: “ah! Mas encontrámos uma associação fantasma”!
Ainda me hão de explicar o que é uma “associação fantasma”: será uma associação fechada sem movimento? Eu conheço muitas; será uma associação sem registo? Mas não se poderiam limitar a dizer: “não encontrámos nada”? Nem eu quereria que chamassem “mentiroso”, “belicista”, “anticomunista primário” a JCF. Não, nada disso! Apenas pedia que um jornal como o Expresso dissesse “Não se confirmam as acusações de JCF”! e “JCF ter-se-á baseado em informações pouco sérias”! Só isto! Também poderia fazer uma reflexão sobre o facto de um deputado da nação usar informação tão pouco válida! Afinal, pagamos-lhe o salário para propagandear as “tangas” da NED, da Freedom House ou da Clinton Foundation?
Ao invés, o Expresso deixou ficar a desconfiança com um “ficou por explicar a associação fantasma”! Mas o problema não eram as esquadras? Eram. Mas há que deixar um lastro que permita, no futuro, dizer “ah! Mas estava lá qualquer coisa”, e assim deixar margem para o condicionamento e a repugnância do ouvinte menos avisado, que dirá “Estes chinocas são mesmo obscuros, veja-se lá que têm uma associação fantasma”! “E era ali que prendiam os opositores ao comunismo”! Só quem não os topasse é que não percebe o sentido!
Eu, como não acredito em fantasmas, procuro sempre pessoas concretas, e não é pela conversa, é pelos atos. “A prática é o critério da verdade” já dizia Lenine, referindo-se à diferença entre o que dizemos querer fazer e o que fazemos, de facto.
Enquanto a Europa se desindustrializa e o nosso futuro coletivo vai sendo ameaçado, assistimos a um engordar do poder de Bruxelas, um poder não eleito, tecnocrático, inatingível e sem escrutínio democrático, ao serviço de poderes obscuros, de que a Pfizer (a Úrsula perdeu o telefone outra vez!), a Uber e os escândalos que as acompanham apenas deixam antever a realidade inevitável. Da censura de órgãos de comunicação, à imposição de comportamentos, limitando a escolha dos países… Com o poder absoluto nasce a autocracia.
Será a EU de Úrsula, esta corrida da Alemanha por um escândalo de corrupção, a entregar de bandeja a indústria europeia de ponta! O movimento, aliás, já começou. Já existem empresas Holandesas, Alemãs e Italianas que planeiam deslocalizar-se de armas e bagagens para… Os EUA! E o que dizem elas? Que o único sítio onde, no futuro, se sentirão seguras é nos próprios EUA. Afinal, nos EUA não estarão preocupadas com a angariação de mercados de que têm de desistir mais tarde, e a energia e matérias-primas, nos EUA, não apenas existem em quantidade, como os EUA sabem suga-las dos outros países como ninguém. A própria TSMC de Taiwan foi “convidada” a mudar-se para a Califórnia, dando aos EUA o 1.º lugar em produção e chips. Ainda não o conseguiram, mas é só abanar um bocado mais a árvore. Com amigos destes…
O facto é que os EUA tentam – e estão a conseguir, a grande velocidade – criar uma situação impossível para as grandes empresas europeias. Se encontram um fornecedor de energia barata, terras raras e produtos primários, logo vêm os EUA dizer: “alto lá, que esses gajos são ditadores e vocês só podem comprar onde eu mando”, e assim controlar preço, fluxo e quantidade. Se encontram um mercado enorme e em crescimento, como a China, logo vêm os EUA dizer “alto lá, que esses gajos são ditadores e temos de desacoplar deles”, mas os EUA continuam por lá. O que sobra? Ir para os EUA e viver, desde logo, com as suas regras. Mas, pelo menos, as regras são estáveis. Na EU estão sempre em mudança, pois, quem as faz, visa, precisamente, dificultar a vida às empresas que cá estão e querem para cá vir.
E enquanto isto acontece aos olhos de todos, uns enchem a barriga de repugnância pelo lobo mau russo, outros alimentam-se de derrotas russas, outros saciam-se de contentamento com deserções russas e outros buscam moinhos de vento, sob a forma de esquadras comunistas ilegais… No final, com exceção dos últimos, a quem nada faltará, todos os outros, mais cedo ou mais tarde acordarão com o estomago a doer… E perguntarão…, mas porquê? E alguém responderá… Porque estavas a dormir!
P.S. Dominando a energia, domina-se o desenvolvimento e crescimento das colónias, daí que o G7, forçado pelos EUA, tenha adotado as “Oil Caps” (tetos de preço no petróleo) à Rússia, mesmo sabendo que, no final, o petróleo vai subir a preços ainda mais brutais, pois a Rússia tem muitos compradores e nunca se submeteria. Pois, mas quem domina a maioria do petróleo é…
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