Os miseráveis

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 18/02/2017)

Autor

                                Clara Ferreira Alves

Os miseráveis ficam sempre melhor dentro das páginas de um romance ou num retrato estético do sofrimento.


Há miseráveis a mais nas nossas ruas. Nas ruas de Londres, Paris, Madrid, Bruxelas… Lisboa. Os miseráveis são normalmente, para alívio da consciência, tratados com romantismo kitsch. Toda a gente sabe de que lado da trincheira está no romance de Vítor Hugo. O título é uma proposta sem escolha. Os vilões de Hugo são destituídos de cinismo ou de maquiavelismo. São grossas caricaturas do que chamamos largamente o mal, vilões que nem conhecem a malícia, formulação menos nefasta. Os bons miseráveis são maltratados pelos maus no mundo maniqueísta do século XIX, que era real e que o avanço civilizacional e as grandes marchas revolucionárias quiseram extinguir. No tecnológico século XXI, se tudo corresse bem no mundo ocidental avançado, nas sociedades laboratoriais do altruísmo, os miseráveis deixariam de existir. Ou existiriam para efeitos de entretenimento das massas, em musicais como o de Andrew Lloyd Webber. Nos anos 80, uma década mais ou menos trágica e mais ou menos otimista, não se podia andar numa rua de uma grande cidade americana sem tropeçar nos miseráveis. Washington ou Filadélfia, sedes do poder, tinham tantos vagabundos no centro da cidade que havia que escolher caminho para não tropeçar nos corpos. No inverno, era o inferno. A década institucionalizou uma guerra dura contra a droga, que como todas as cruzadas missionárias mais não fez do que aumentar as legiões de drogados. Nessas mean streets, aos drogados juntaram-se os loucos que a política de Reagan mandou compulsivamente soltar dos hospitais psiquiátricos, e os pobres e desempregados dos costume mais os veteranos do Vietname que a sociedade americana não absorveu. Na Europa, havia vagabundos, mas a malha do Estado social ajudava a disfarçar a desigualdade e a camuflar a exclusão. Não se tropeçava tanto.

Isto foi antes da invenção da palavra sem-abrigo, uma das criações cosméticas da doutrina politicamente correta. As pessoas não suportam a realidade. Os miseráveis ficam sempre melhor dentro das páginas de um romance ou num retrato estético do sofrimento. Nas décadas seguintes, a América recolheu os sem-abrigo, ou escondeu-os, e tratou de limpar as ruas. Nos anos 90, estas sociedades, a americana e a europeia, acreditavam ter resolvido os maiores problemas sociais, com novas políticas e nova legislação. E prosperidade.

Neste novo século, os miseráveis estão de regresso. As legiões de desempregados aumentaram tanto como a gente que foi cuspida para fora do sistema. Os refugiados e imigrantes estendem-se pelas ruas das capitais. Numa rua de um bairro elegante de Paris vemos famílias inteiras, pai, mãe, filhos pequenos, a dormir nas lajes. O fim da União Soviética atirou para os países ocidentais o refugo do comunismo, as sobras das colónias de Moscovo que desistiram de ter uma vida decente nos seus países e resolveram fugir para este lado da Europa alargada. Legiões de vagabundos montaram uma espécie de empresa de pedincha nas capitais europeias. Estão por todo o lado, numa pose ajoelhada, a cabeça tombada, sem se mexerem na sua destituição. Aumentou o número de países que maltratam os seus nacionais e estes atravessam montanhas e desertos, sofrem humilhações e torturas para chegar à fortaleza Europa. Fogem da guerra e fogem da miséria. A estes juntam-se os miseráveis nacionais, os alcoólicos, loucos, doentes, deformados e inúteis que o sistema, sobrecarregado, resolveu ignorar ou deixar de acudir de forma sistemática. E os velhos. E as mulheres. Em cada cinco sem-abrigo, dois são mulheres. E todos preferem a rua ao horror dos abrigos oficiais, onde a lei não existe e a humanidade ainda menos.

Não existe uma solução ótima para a nova vaga de miseráveis e nómadas com sacos de plástico. A caridade não resolve tudo, e as pessoas passam numa indiferença mais gelada do que a temperatura de fevereiro. Esta gente tornou-se invisível. E muito pouco romântica. Não pedincham porque ninguém lhes atira a moeda que reserva para os músicos do metro. No pires das moedas jazem moedas negras. De vez em quando, numa noite fria, um transeunte baixa-se e pergunta a um destes miseráveis se está bem. As organizações de samaritanos, religiosas e laicas, dão-lhes cobertores e alimentos. O resto das pessoas levanta o pé e segue em frente. Desde quando é que passamos a achar isto normal? Seguir em frente? Tornar invisível uma parte da humanidade? Encontrei à porta de uma igreja de Madrid uma mulher espanhola que me contou uma história tão atroz que me tirou o sono. A desigualdade aumentou tanto nos últimos tempos que se tornou um monstro que nos abocanha a todos. Somos monstruosos. Deixamos que as maiores empresas do mundo se convertam em estados e deixem de pagar impostos. Achamos isto bem. Google, Facebook, Apple e Amazon e afins são os maus da fita, tão maus como as petrolíferas e os manipuladores e poluidores químicos. Somos seus escravos obedientes enquanto os enriquecemos todos os dias. Toda esta riqueza não taxada é uma obscenidade.

FUCK 2016

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 301/12/2016)

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                              Clara Ferreira Alves

David Bowie, Prince e Leonard Cohen deixaram um buraco. Eles providenciaram a banda sonora do nosso filme. Eram desconhecidos de quem éramos íntimos.

Não é costume darmo-nos com estrelas pop ou rock. É uma relação unilateral, elas cantam ou tocam, dão concertos, e mantêm uma vida convenientemente dissipada para manter a ilusão aspiracional dos fãs.

Aspiracional é uma palavra que até há pouco tempo não se usava em português. Aspiracional significa, largamente, e como o nome indica, aspirar a qualquer coisa, um produto, um estilo de vida, ter uma ambição. Aspiracional é bom, dizem os americanos, no mesmo sentido em que Gordon Gekko dizia greed is good. Donald Trump diz que provoca nos eleitores e devotos uma vertigem aspiracional para ‘Tornar a América Grande’. Tal como a rainha Vitória punha as joias para visitar os pobres, Trump chegava aos comícios no seu jato ou no seu “beautiful Sikorsky”, o helicóptero. Ele a aterrar e os devotos a levantarem num voo aspiracional. Aspirando ou não, fomos inspirados pelos músicos da história do rock e da pop que este ano foram ceifados. Toda a gente sabe que 2016 foi um ano mau, um ano para esquecer, um ano fatídico, etc. Fuck 2016, disse John Oliver ao despedir-se, no rescaldo da eleição do imperador da Quinta Avenida. David Bowie, Prince e Leonard Cohen, os meus favoritos, deixaram um buraco. Uma parte das nossas vidas foi vivida com eles. Eles providenciaram a banda sonora do nosso filme. Eram desconhecidos de quem éramos íntimos. Cohen e Prince vi-os em dois concertos memoráveis na Península Ibérica, um em Portugal e um em Espanha. O Cohen que vi já era entrado, não era o poeta rebelde e bonito das caras dos primeiros discos. Andava em tournée porque tinha perdido todo o dinheiro depois de ter passado anos num retiro budista. Enquanto ele meditava, uma contabilista ou manager tinha-se apoderado dos direitos de autor. Sem esta manobra, talvez nunca tivesse visto Cohen ao vivo. A voz do bardo era, mesmo naquela idade, setenta, um hino à melhor poesia e música do século XX. Gosto de Dylan, mas o meu poeta é Cohen. Prince foi entrevisto num daqueles concertos de estádio, com as luzes psicadélicas e a histeria coletiva. Um cenário muito diferente do de Leonard Cohen. Prince era outro génio e um daqueles artistas que escapam a qualquer classificação. O concerto foi uma emoção enfumarada, cheio de riffs e de vocalizos que a assistência cantava a acompanhar. ‘Purple Rain’ deitou o estádio abaixo. Prince tinha qualquer coisa de comovente porque era um corpo de criança engalanado para parecer maior. Uma figura diminuta realçada pelos saltos altos, os fatos espalhafatosos e a composição teatral. Morava nele a vocação do vaudeville.

Bowie foi a perda maior, do ponto de vista pessoal. Era fanática. Sempre fui. Das fases todas, das reinvenções, das cores e cortes de cabelo, das maluqueiras de um homem que era mais do que um cantor ou um músico, era um artista tão dotado de talento e inteligência que dele se podia dizer que era um homem do Renascimento sem cair no exagero. Ao contrário dos outros, vi-o em concerto e vi-o em pessoa, ao vivo e a cores, numa rua do Soho em Nova Iorque, perto da casa onde vivia com a mulher, Iman, e a filha. Costumava ir a uma livraria do bairro, a McNally Jackson, onde também costumo passar tardes a ler e a fazer nada. Posso ir buscar os livros que quiser que ninguém me maça. Posso ler revistas. Os bancos não são confortáveis mas o tempo passa a correr e a comida é razoável. A seita dos livros tem este poiso. Foi à saída da livraria que vi Bowie. Reconheci-o logo. Continuava a ser um homem bonito mas vestia como um professor universitário ou um estudante graduado, com elegância e discrição. Na McNally disseram-me que ninguém se metia com ele, era um cliente, e que as suas maneiras eram impecáveis, um gentleman britânico. Adoravam-no. Comprava muitos livros. E lia muitos livros. Vi-o ir rua fora, uma silhueta magra de chapéu. Ninguém o abordou. Conhecendo a biografia, vê-se como Bowie dominou a arte de envelhecer. Fiquei danada com a sua morte, com aquela doença, a brutalidade, a injustiça da coisa. É sempre injusto.

E agora George Michael. Eu gostava de George Michael, pós-Wham. Era um grande músico com uma grande voz. Gostava sobretudo de uma canção, ‘Freedom’, quando ele faz pouco do circo da indústria pop. Era um atormentado. Foi o único que conheci de perto. Quando ele morava em Hampstead, um amigo meu tinha uma casa, um flat, num prédio ao lado donde se via tudo para o jardim de George Michael. Viam-se os carros dele, ele guiava um Porsche, os amigos dele, as festas dele. As festas eram fellinianas, o que restava da swinging London no fim dos anos 80 passava por lá. Elton John era visita habitual. Um dia, reparando que espreitávamos as festas no jardim, e aproveitávamos para fazer uma festa paralela, com as músicas do George Michael aos berros, incluindo as pirosas, ele resolveu convidar-nos para a festa principal. Enviou-nos um assistente com a mensagem. O dono da casa, um sério e jovem advogado que via a casa invadida por causa do vizinho do lado, ficou envergonhado. O tropel desembarcou chez George Michael. Foi divertido. Muito divertido. Morrer do coração não é mau. Morrer com 53 anos no Natal é péssimo.

Fuck 2016.

SORRI, ESTÁS NA TV

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 22/10/2016)

Autor

                      Clara Ferreira Alves

Se Trump disser uma vez que as eleições estão a ser manipuladas por um grupo de clones numa caverna submarina, a CNN passa dias a discutir a asserção. Mantém a asneira à tona, de modo a que o próprio inventor da asneira se convença e a boutade passe a facto histórico.


Devia haver um imposto por cada asneira produzida em televisão. Na América, sobraria para sustentar todos os pobres e excedentários. A quantidade de asneiras produzidas nas generalistas e nos canais de notícias importantes, a CNN e a Fox News, daria não só para arranjar emprego a todos os eleitores de Trump que o perderam por causa da globalização e da automatização na idade pós-industrial como asseguraria a pensão e o alimento, a saúde e a atividade de todos os desempregados. Daria ainda para resgatar a dívida americana das mãos dos chineses, embora neste caso o dinheiro regresse aos Estados Unidos em consumos patrimoniais e patrocínios institucionais. A universidade de Harvard está cheia de pavilhões novos. Pavilhão do Conhecimento Li Xau Pi, Pavilhão da Inteligência Artificial Ming Ping, e por aí fora.

Escrevo antes do debate, mais exatamente na manhã do dia do debate de Las Vegas, promovido na TV como um combate de boxe entre Mike Tyson e Muhammad Ali, que nunca aconteceu por deficiência cronológica. Há uma excitação no ar. A televisão é o espelho da vida americana e teme-se a apoplexia em direto. Na CNN (americana) emite-se em histeria. Para uma cadeia de televisão com as receitas e audiências em curva descendente, esta eleição é o equivalente da primeira guerra do Golfo. Se a primeira invasão do Iraque elevou a CNN de Turner, esta eleição consolida a CNN da Time-Warner como a mais profusamente gárrula e desnorteada emissora de que há memória. Jon Stewart tem razão, a estupidez da CNN é imbatível. A CNN passou um ano a promover Trump, cada suspiro, cada frase, cada momento, cada esticão, cada beicinho, cada cabelo. Em pânico com o monstro que ajudou a criar, mas temendo a era Hillary e o reinado do princípio no news is good news, a CNN tenta estabelecer uma falsa equivalência entre candidatos, convidando comentadores descerebrados e apanhados na esquina a comentar cada asneira do candidato. Se Trump disser uma vez que as eleições estão a ser manipuladas por um grupo de clones numa caverna submarina, a CNN passa dias a discutir a asserção. Mantém a asneira à tona, de modo a que o próprio inventor da asneira se convença e a boutade passe a facto histórico. O que a CNN faz é legitimar o disparate, expandi-lo até ser reapropriado por outras plataformas, ansiosas por não ficarem de fora. Assim se cria um círculo vicioso de asneiras transformadas em argumentos políticos e pseudodemocráticos. Ao cabo de uns dias de propaganda, a CNN institucionalizou a asneira até conseguir um desmentido de alguém respeitável como o Presidente. Uma asneira de tanto repetida, ampliada pelas matilhas das redes sociais, torna-se uma verdade insofismável. E assim se cativam as audiências. Donald Trump só é explicável por este círculo vicioso e não apenas pelo descontentamento de meia dúzia de renegados da indústria do carvão em West Virginia. A Fox News, privada da cupidez de Roger Ailes, que Rupert Murdoch deixou finalmente cair por causa de uma queixa de assédio sexual, está dividida entre uma nova formulação menos primitiva e mais sofisticada e a versão Tea Party, que tantos milhões deu a ganhar. Diz-se que os filhos de Murdoch, agora à frente do império, nunca apreciaram Ailes ou a sua versão da política de terra queimada. Ailes está a ajudar Trump na campanha, e a Fox News está, como todo o Partido Republicano, em crise espiritual.

Nenhuma destas duas seria suficiente para encher os cofres com o imposto da asneira. As majors, CBS, NBC e ABC, no horário matinal, são as grandes produtoras do disparate. Os programas matinais, que atraem estrelas em decadência como Charlie Rose ou engenheiros políticos reciclados como George Stephanopoulos, são insubstituíveis no seu papel de grande nivelador do povo americano pelo mais baixo denominador comum. Numa estrita repartição entre as funções femininas, as apresentadoras, e as masculinas, os ditos, os programas da manhã gastam o horário em duas espécies de atividades. A cozinha e a dieta, cozer e comer bolinhos, e depois emagrecer, e a moda, os trapinhos, para as mulheres. A entrevista não-confrontacional, em tradução literal, para o homem. Este tipo de entrevista significa que nenhuma pergunta incómoda ou relevante é colocada ao entrevistado. Pelo contrário. A ideia consiste em proporcionar-lhe a oportunidade de se promover de um modo favorável e ao seu produto, um livro, um filme, ou qualquer coisinha que valha a pena e tenha sido negociada com os publicistas que garantem o acesso. Se Hitler fosse ao “Today”, Matt Lauer perguntar-lhe-ia se o interesse pelo extermínio se refletia no seu estilo de vida. “Temos fotografias da ‘Blondi’, a sua cadela. Não é adorável? Já agora, é verdade que não aprecia os judeus?”

A América só é explicável, nos seus aspetos mais cúpidos, por esta estupidez. Nós pensamos que a Netflix, o HBO e Colbert são a América. Não são. A América é mais aquilo do que isto.