FUJAM, VEM AÍ O UPDATE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 17/09/2016)

Autor

                                      Clara Ferreira Alves

Um dia, num ataque de modernização, resolvi digitalizar-me. Um dia igual àquele em que resolvi oferecer os meus vinis. Um dia modernamente estúpido

Vem aí o update. Melhor sair da cidade. Os updates dão-me cabo da vida. E não só os updates. Fiquei sem o meu Gmail. Sem as minhas notas digitais. Engolidas no éter. Tratadas, as minhas laboriosas notas, como um basket of deplorables.

Houve um tempo feliz, há muitos, muitos anos, em que as pessoas falavam com as pessoas e resolviam problemas das pessoas. Uma pessoa tinha um problema e telefonava a outra pessoa que não lhe dizia, se é para o assunto X carregue no 1, se é para o assunto Y carregue no 2, se é para o assunto Z carregue no 3, se é para outros assuntos fique em linha a secar e a escutar música de elevador até falar com um operador.

E se chego a falar com o dito operador, aparece-me um indígena que fala português com mistura de sotaque ucraniano e brasileiro. Nesse tempo feliz, usava-se o papel. O papel é uma pasta de celulose odiada pelo mundo digital. O papel das minhas notas, um caderninho, era leve, digno, fácil de transportar, era até bonitinho (diria o brasileiro) e prático. Com um caderno de notas e um livro de bolso, paperback, paper, podia-se afrontar a fila burocrática, aguentar o consultório médico, suportar a ansiedade do hospital, a senha da loja do cidadão, a espera do aeroporto. Resistia a trocar o caderninho pelo telemóvel. Apesar das tentadoras propostas das utilities da Apple — grave o seu memo, escrevinhe a sua nota, guarde os seus segredos —, achava o papel e a esferográfica insubstituíveis. Um dia, num ataque de modernização, resolvi digitalizar-me. Um dia igual àquele em que resolvi oferecer os meus vinis. Um dia modernamente estúpido. Guardei os caderninhos e passei ao iPhone. A escrever nas Notes. Mantive a agenda de papel, por razões fetichistas, trata-se de uma Smythson, e mandei fora o calendário e o postal ilustrado. Comunico por WhatsApp em vez de recorrer aos correios da Suazilândia ou da Cochinchina.

E, por medida de precaução, fui guardando capítulos de um livro que estava a escrever no Gmail. Havia lá coisa mais segura do que o Gmail da Google? E qual a ideia da letra em caixa alta unida à caixa baixa? Gmail, iPod, iPhone, etc.? Os fabulosos servidores, uma palavra que é todo um programa, guardariam para sempre, ao contrário dos prints, a minha produção literária e o meu arquivo de mensagens. Que diabo, estamos no século XXI, certo? Falta deitar fora os CD. iTunes, certo? (here we go again…). Cada vez que me apetecia escrever, abria as Notes e despejava ideias nesse dispositivo de segurança chamado iPhone tão simples de perder. Um dia, esta crónica seria toda escrita em emojis. A Google é a Google, nada corre mal em Silicon Valley. Os techies são confiáveis. Nunca desisti do paperback, o Bezos pode ir dar uma volta com o Kindle dele. Não vou contribuir para a fortuna de um tipo que está a destruir os direitos de autor.

O tempo foi passando. Dois anos de Notes guardadas no “celular”, como chamaria ao dispositivo o brasileiro do call-center. E um arquivo no Gmail. Seguríssimo. Ainda perguntei, não seria melhor fazer prints da coisa? Prints, estás maluca? Se quiseres, usa um disco duro. Tens isso na Cloud não tens? Tens backup? Sei lá. Nunca fui à Cloud. E se estas coisas são tão avançadas não deveriam ter backup automático? Não é da essência do progresso poupar-nos à redundância? Como diria o Marco Paulo a propósito da internet, se a Cloud me quiser eu estou disponível. Na verdade, comprei a Cloud em plano mensal de armazenamento mas não me ralei em perceber como a controlar. Eu é mais escritas. Mais Dostoievski que Zuckerberg. Resumindo. Um dia destes acordei e tudo tinha levado sumiço. As Notes, primeiro, e depois todo o meu Gmail. Todo. Tudo. Peritos foram convocados para me salvarem. Fez delete? Não. Foi ver o trash? Fui. Manobras foram praticadas de recuperação. Fora de horas, fui ver os chats, os fora (fóruns, diz a malta), fui aos sites. Corri tudo. Tentei tudo. Sei navegar na web melhor que muito tecnocrata. Havia muitíssima gente com o mesmo problema. Uns desgraçados como eu. Descobri muitas coisas. Parece que as minhas Notes estavam apensas ao Gmail e que não estava nada na Cloud. Nadinha. A Cloud é um albergue espanhol. Entretanto, a Apple mandava-me mensagens desesperadas sobre o El Capitán isto e aquilo. Eu quero que o El Capitán… podem preencher. Fui ao site da Google, onde não há pessoas a resolver problemas. Só algoritmos. Mandaram-me preencher um formulário de recuperação. Submit. Submeti. Dois segundos depois recebi uma mensagem automática a explicar quanto lamentavam (quem?) a minha perda, como num velório, e a dizer que aquele e-mail estava perdido para sempre. Se a mensagem é automática, isto deve estar sempre a acontecer. Mais de dois anos de notas perdidas. Todo o e-mail arquivado. O livro estava publicado. Lucky me. E nem uma pessoa me conseguiu explicar o que aconteceu. Um hacker? Talvez um update, disseram. Ah, o update. Bem me parecia.

ALEGRIA DE VIVER

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 19/03/2016)

Autor

                                         Clara Ferreira Alves

Ao Nicolau Breyner, que sabia viver


Há uma razão para não deixar a Alemanha tomar conta da Europa. Chama-se alegria de viver.

Já estiveram dentro de uma estação de caminho de ferro na Alemanha? A famosa Hauptbahnhof? Olharam para a comida? Desceram às catacumbas e encontraram os despojos do brigadismo alemão e os despojos do movimento punk cobertos de piercings, tachas e botas com esporas? Despojos a que se juntam os junkies e os bêbados e vagabundos crepusculares? Ou o nazi errático com a suástica a sair do músculo? Uma hauptbahnhof só é bem apreciada ao anoitecer e nos recantos subterrâneos. Nunca se viu gente mais infeliz do que esta. E basta olhar para a cara da pobre senhora Merkel, acossada pela extrema-direita, para perceber que a felicidade não reina ali. Agora, olhem para a bem mais modesta estação de caminho de ferro de Bolonha. A Stagione Centrale. Nada a assinalar, pessoas com ar decente, viajantes velhos e novos. Gente composta. No modesto bar da estação, Santa Margherita, encontramos uma variedade gastronómica digna do Fauchon em Paris ou do Dean and DeLuca em Nova Iorque. Sem exagero. E muito mais barata. Numa mesa com cadeiras de plástico de design italiano, uma velhota beberica um copo de vinho tinto, um pequeno copo de vinho tinto, com uma sanduíche de presunto de Parma cor de rosa e transparente. Isto é o cúmulo da civilização. O expresso é perfeito, fazendo morrer o Nespresso num segundo. Não se vê um bêbado. Aliás, com tantos vinhos e tão generosamente bons, é raro encontrar-se um bêbado italiano aos uivos nas ruas. Em compensação, sobram os bêbados da Europa do Norte. Uma viagem em Itália chega para perceber que deviam ser os italianos a mandar na Europa. Eu sei, a trapalhada, as berlusconices e tudo mais, mas não são cínicos como os franceses, nem snobs, têm da melhor paisagem e cultura disponíveis, do mais apurado sentido estético, e uma infinita alegria de viver. Têm livrarias e bibliotecas maravilhosas. E a herança do Umberto Eco, o último intelectual europeu bem encarado. Os italianos são um povo feliz. Na Emilia Romagna, de que Bolonha é a capital, os habitantes têm índices de felicidade comparáveis aos do Butão. Agora, experimentem passar um tempinho em Essen ou em Frankfurt e digam se gostaram. A Itália e a Grécia têm apanhado com a crise dos refugiados em cima e têm tido um comportamento exemplar. Não existe uma rua de Florença, Nápoles, Roma, Bolonha, Milão ou Veneza sem a suprema abundância de africanos a vender malas Prada chinesas. Não existe um beco mal-afamado onde não vagueiem migrantes e refugiados das guerras do Médio Oriente, do Afeganistão e Paquistão, do Norte de África. Nos esconsos da estação central de Roma, a Termini, as máfias de contrabandistas resolveram apadrinhar o tráfico humano e usar os refugiados menores como correios de droga e prostitutos. Existe um grupo constituído apenas por egípcios, quase crianças, que os pais enfiaram nas galeras do Mediterrâneo depois de terem gasto todas as poupanças para os entregar aos contrabandistas. Acham que a Europa os salvará.

E nem vale a pena falar dos líbios e dos sírios.

A Polícia italiana vai desbandando mas no dia seguinte eles reaparecem, e o tráfico continua. Dentro da estação, no bar, calmamente, o cidadão italiano bebe o seu expresso ou o seu Chianti e come o seu tramezzino ou cornetto, lê o seu jornal sem um sobressalto. Lá fora, desde os atentados de Paris, carros militares e soldados com metralhadoras vigiam as estações e os monumentos, as praças e as catedrais, e nem por isso a paisagem se deprime. Existem manifestações pela abertura das fronteiras dos Balcãs aos refugiados. Não existem manifestações noturnas de nazis, não existe uma Aurora Dourada ou uma Marine Le Pen. Existe uma extrema-direita sem expressão eleitoral perigosa. A Itália, que não é rica como a Alemanha, tinha todas as razões para ter a sua Frauke Petra. Os seus “patrióticos” Pegidas. Que não se dariam bem com os seus Corleones.

A alegria de viver ajuda muito. Num país onde a beleza é uma coisa natural, a comida é gostosa, o sol brilha, as pessoas têm menos tendência para o azedume. E ninguém, em Itália, acompanha carne com um litro de cerveja ou bebe uma malga de café com leite por cima do peixe. Há que dizê-lo com frontalidade: os alemães são uns tristes. E já que estamos na sociologia de bolso e no empirismo filosófico, com quem preferia beber um belo Barolo? Comer uma massa tartufata? Com a Frau Merkel, ou com a Frau Frauke, ou com Renzi? Um país que deu à luz a Monica Vitti e o Antonioni não se pode comparar com o país que deu à luz o Rainer Werner Fassbinder e a Dietrich. Olhem para as caras.

A Europa está condenada. A tristeza da Alemanha vai continuar a mandar em todos nós e só pode acabar mal. Estamos tristes e acabaremos tristes. E, quem sabe, nas mãos de gente que não gosta de gente estranha. Nem de viver.

LIKE ME NOT

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 16/01/2016)

Autor

                                 Clara Ferreira Alves

O que (Bowie) quis foi escandalizar os bonzos e dizer a toda a gente que se podia ser gay quando a palavra era proibida. Que se podia ser mulher sendo homem, que se podia ser tudo. Num tempo em que não se podia ser nada.

Existe um lugar onde podemos falar com os mortos. Podemos elogiá-los ou escorraçá-los, dizer que gostamos ou desgostamos deles, mostrar a poética ponta do dedo numa elegia. Chama-se Facebook, esse lugar. São outros tempos. No tempo de Ziggy Stardust, para dar nas vistas bastava ser rebelde, renunciar ao bom comportamento dominante e fazer tudo ao contrário da moral vigente. Hoje, toda a gente quer dar nas vistas. E toda a gente está disposta a fazer tudo, incluindo vender-se e vender a família, para dar nas vistas. E ter um like.

Compreende-se que os millennials não entendam muito bem quem foi David Bowie. Alguém que mudou o século XX, os costumes do século, a moral do pós-guerra, cheia das cintas repressivas e dos soutiens rígidos que as feministas queimaram numa fogueira. Tal como o gesto simbólico das feministas, incompreendido e motivo de anedota, os gestos rebeldes de David Bowie foram muito mal vistos. Ele proclamou-se, historicamente, o primeiro bissexual deste planeta, quando a palavra praticamente ainda não tinha nascido. Pavoneou-se com saltos altos e vestidos de mulher quando a masculinidade era definida por um fato de calça vincada e uma gravata. Inventou o glam rock, a maquilhagem masculina e as cores de cabelo sazonais. Inventou o espalhafato dos anos 70 e 80. E agora, quando as invenções foram apropriadas por toda a gente e se democratizaram, regressou ao fato e gravata, um cavalheiro inglês de maneiras impecáveis. E assim morreu. Longe das luzes e do Instagram. Frequentava um café do Soho, em Nova Iorque, onde ninguém o reconhecia.

A música dele era diferente. Só Lennon e Dylan tinham a mesma intuição da originalidade. Ouvimos as versões originais e as versões de homenagem, como a de Kurt Cobain. Sabemos as letras de cor. Corremos quilómetros ‘Under Pressure’ ou quisemos ser heróis por um dia. Nisto somos todos iguais, e a morte dele estabeleceu uma comunidade universal da tristeza e da admiração que começa em Brian Eno, Mick Jagger e Madonna (sem Bowie não haveria Madonna) e acaba num pequeno funcionário do ofício de viver. Está assente, era um génio imprevisível. E um génio improvável. Por baixo da carapaça de lentejoulas vivia um rapaz dos subúrbios de Londres crescido e educado no sistema britânico. Um rapaz com um cabelo horrível e maus dentes. Dos dentes tratou a fase americana. Ficaram perfeitos. E o cabelo? Não pequeno feito foi transformar o cabelo horrível numa diversidade genética de estilos e cores até o corte assentar na franja elegante e de uma tonalidade loira apurada. O cabelo foi vermelho, foi castanho, foi platinado, foi listrado, foi curto e comprido, foi liso e encaracolado, foi arrumado e espetado. O cabelo foi tudo. A quantidade de mulheres, eu incluída, que perceberam que mudar de cabelo e de cor de cabelo era uma forma de controlar o meio e combater a repressão é infinita. Lady Gaga chegou tarde.

Evidentemente, ninguém estava à espera que este homem morresse. Nesta profissão, ou vocação, ou carreira, ou o que lhe quiserem chamar, morre-se antes dos 30 ou chega-se a velho e comem-se hortaliças, deixa-se de fumar e de beber, anda-se de nutricionista e chefe de cozinha ao pescoço. Ou morre-se cedo, como Amy e Kurt, ou como Lennon, ou morre-se tarde. Com exceção de Keith Richards — esse tem uma dispensa dada pelo diabo. E não se morre de cancro. Não se têm ataques cardíacos. A matilha dos tabloides anda pregada nisto, os “segredos da saúde de David Bowie”. Cambada. Ou a justificar a doença com os “excessos de juventude”, numa pregação moralista que serve aos imbecis. Ora, o homem podia ser um génio mas era mortal, como todos nós. David Bowie teve sempre a suprema inteligência de perceber as limitações dele e as da sua audiência. Não foi apenas um músico, foi um revolucionário e foi um poeta. Era alguém que lia e estudava. Que aprendia. Nenhuma referência nele é descabida ou escolhida à toa. ‘Lazarus’ decidiu o modo como partiria. Levou a família a ver a casa e as ruas da infância, despediu-se de Londres, despediu-se da vida. Compôs a derradeira valsa. Enviou mensagens aos amigos. Cavalheiro até ao fim. Por aí há quem continue agarrado à célebre frase “sou gay”. Nunca acreditei que David Bowie fosse gay, apesar da promiscuidade de género em que ele confessou ter sido feliz, e nada na biografia o indica. O que quis foi escandalizar os bonzos e dizer a toda a gente que se podia ser gay quando a palavra era proibida. Que se podia ser mulher sendo homem, que se podia ser tudo. Num tempo em que não se podia ser nada. Era esse o meu Bowie. O que ousava. O que provocava. O que vinha da galáxia e aterrava num oceano de proibições. Esse Bowie estava-se nas tintas para o like. Take a walk on the wild side. Hoje impera a cultura do like, a likability, como escreveu Bret Easton Ellis. Todos somos obrigados a que gostem de nós.