LIKE ME NOT

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 16/01/2016)

Autor

                                 Clara Ferreira Alves

O que (Bowie) quis foi escandalizar os bonzos e dizer a toda a gente que se podia ser gay quando a palavra era proibida. Que se podia ser mulher sendo homem, que se podia ser tudo. Num tempo em que não se podia ser nada.

Existe um lugar onde podemos falar com os mortos. Podemos elogiá-los ou escorraçá-los, dizer que gostamos ou desgostamos deles, mostrar a poética ponta do dedo numa elegia. Chama-se Facebook, esse lugar. São outros tempos. No tempo de Ziggy Stardust, para dar nas vistas bastava ser rebelde, renunciar ao bom comportamento dominante e fazer tudo ao contrário da moral vigente. Hoje, toda a gente quer dar nas vistas. E toda a gente está disposta a fazer tudo, incluindo vender-se e vender a família, para dar nas vistas. E ter um like.

Compreende-se que os millennials não entendam muito bem quem foi David Bowie. Alguém que mudou o século XX, os costumes do século, a moral do pós-guerra, cheia das cintas repressivas e dos soutiens rígidos que as feministas queimaram numa fogueira. Tal como o gesto simbólico das feministas, incompreendido e motivo de anedota, os gestos rebeldes de David Bowie foram muito mal vistos. Ele proclamou-se, historicamente, o primeiro bissexual deste planeta, quando a palavra praticamente ainda não tinha nascido. Pavoneou-se com saltos altos e vestidos de mulher quando a masculinidade era definida por um fato de calça vincada e uma gravata. Inventou o glam rock, a maquilhagem masculina e as cores de cabelo sazonais. Inventou o espalhafato dos anos 70 e 80. E agora, quando as invenções foram apropriadas por toda a gente e se democratizaram, regressou ao fato e gravata, um cavalheiro inglês de maneiras impecáveis. E assim morreu. Longe das luzes e do Instagram. Frequentava um café do Soho, em Nova Iorque, onde ninguém o reconhecia.

A música dele era diferente. Só Lennon e Dylan tinham a mesma intuição da originalidade. Ouvimos as versões originais e as versões de homenagem, como a de Kurt Cobain. Sabemos as letras de cor. Corremos quilómetros ‘Under Pressure’ ou quisemos ser heróis por um dia. Nisto somos todos iguais, e a morte dele estabeleceu uma comunidade universal da tristeza e da admiração que começa em Brian Eno, Mick Jagger e Madonna (sem Bowie não haveria Madonna) e acaba num pequeno funcionário do ofício de viver. Está assente, era um génio imprevisível. E um génio improvável. Por baixo da carapaça de lentejoulas vivia um rapaz dos subúrbios de Londres crescido e educado no sistema britânico. Um rapaz com um cabelo horrível e maus dentes. Dos dentes tratou a fase americana. Ficaram perfeitos. E o cabelo? Não pequeno feito foi transformar o cabelo horrível numa diversidade genética de estilos e cores até o corte assentar na franja elegante e de uma tonalidade loira apurada. O cabelo foi vermelho, foi castanho, foi platinado, foi listrado, foi curto e comprido, foi liso e encaracolado, foi arrumado e espetado. O cabelo foi tudo. A quantidade de mulheres, eu incluída, que perceberam que mudar de cabelo e de cor de cabelo era uma forma de controlar o meio e combater a repressão é infinita. Lady Gaga chegou tarde.

Evidentemente, ninguém estava à espera que este homem morresse. Nesta profissão, ou vocação, ou carreira, ou o que lhe quiserem chamar, morre-se antes dos 30 ou chega-se a velho e comem-se hortaliças, deixa-se de fumar e de beber, anda-se de nutricionista e chefe de cozinha ao pescoço. Ou morre-se cedo, como Amy e Kurt, ou como Lennon, ou morre-se tarde. Com exceção de Keith Richards — esse tem uma dispensa dada pelo diabo. E não se morre de cancro. Não se têm ataques cardíacos. A matilha dos tabloides anda pregada nisto, os “segredos da saúde de David Bowie”. Cambada. Ou a justificar a doença com os “excessos de juventude”, numa pregação moralista que serve aos imbecis. Ora, o homem podia ser um génio mas era mortal, como todos nós. David Bowie teve sempre a suprema inteligência de perceber as limitações dele e as da sua audiência. Não foi apenas um músico, foi um revolucionário e foi um poeta. Era alguém que lia e estudava. Que aprendia. Nenhuma referência nele é descabida ou escolhida à toa. ‘Lazarus’ decidiu o modo como partiria. Levou a família a ver a casa e as ruas da infância, despediu-se de Londres, despediu-se da vida. Compôs a derradeira valsa. Enviou mensagens aos amigos. Cavalheiro até ao fim. Por aí há quem continue agarrado à célebre frase “sou gay”. Nunca acreditei que David Bowie fosse gay, apesar da promiscuidade de género em que ele confessou ter sido feliz, e nada na biografia o indica. O que quis foi escandalizar os bonzos e dizer a toda a gente que se podia ser gay quando a palavra era proibida. Que se podia ser mulher sendo homem, que se podia ser tudo. Num tempo em que não se podia ser nada. Era esse o meu Bowie. O que ousava. O que provocava. O que vinha da galáxia e aterrava num oceano de proibições. Esse Bowie estava-se nas tintas para o like. Take a walk on the wild side. Hoje impera a cultura do like, a likability, como escreveu Bret Easton Ellis. Todos somos obrigados a que gostem de nós.

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