ALEGRIA DE VIVER

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 19/03/2016)

Autor

                                         Clara Ferreira Alves

Ao Nicolau Breyner, que sabia viver


Há uma razão para não deixar a Alemanha tomar conta da Europa. Chama-se alegria de viver.

Já estiveram dentro de uma estação de caminho de ferro na Alemanha? A famosa Hauptbahnhof? Olharam para a comida? Desceram às catacumbas e encontraram os despojos do brigadismo alemão e os despojos do movimento punk cobertos de piercings, tachas e botas com esporas? Despojos a que se juntam os junkies e os bêbados e vagabundos crepusculares? Ou o nazi errático com a suástica a sair do músculo? Uma hauptbahnhof só é bem apreciada ao anoitecer e nos recantos subterrâneos. Nunca se viu gente mais infeliz do que esta. E basta olhar para a cara da pobre senhora Merkel, acossada pela extrema-direita, para perceber que a felicidade não reina ali. Agora, olhem para a bem mais modesta estação de caminho de ferro de Bolonha. A Stagione Centrale. Nada a assinalar, pessoas com ar decente, viajantes velhos e novos. Gente composta. No modesto bar da estação, Santa Margherita, encontramos uma variedade gastronómica digna do Fauchon em Paris ou do Dean and DeLuca em Nova Iorque. Sem exagero. E muito mais barata. Numa mesa com cadeiras de plástico de design italiano, uma velhota beberica um copo de vinho tinto, um pequeno copo de vinho tinto, com uma sanduíche de presunto de Parma cor de rosa e transparente. Isto é o cúmulo da civilização. O expresso é perfeito, fazendo morrer o Nespresso num segundo. Não se vê um bêbado. Aliás, com tantos vinhos e tão generosamente bons, é raro encontrar-se um bêbado italiano aos uivos nas ruas. Em compensação, sobram os bêbados da Europa do Norte. Uma viagem em Itália chega para perceber que deviam ser os italianos a mandar na Europa. Eu sei, a trapalhada, as berlusconices e tudo mais, mas não são cínicos como os franceses, nem snobs, têm da melhor paisagem e cultura disponíveis, do mais apurado sentido estético, e uma infinita alegria de viver. Têm livrarias e bibliotecas maravilhosas. E a herança do Umberto Eco, o último intelectual europeu bem encarado. Os italianos são um povo feliz. Na Emilia Romagna, de que Bolonha é a capital, os habitantes têm índices de felicidade comparáveis aos do Butão. Agora, experimentem passar um tempinho em Essen ou em Frankfurt e digam se gostaram. A Itália e a Grécia têm apanhado com a crise dos refugiados em cima e têm tido um comportamento exemplar. Não existe uma rua de Florença, Nápoles, Roma, Bolonha, Milão ou Veneza sem a suprema abundância de africanos a vender malas Prada chinesas. Não existe um beco mal-afamado onde não vagueiem migrantes e refugiados das guerras do Médio Oriente, do Afeganistão e Paquistão, do Norte de África. Nos esconsos da estação central de Roma, a Termini, as máfias de contrabandistas resolveram apadrinhar o tráfico humano e usar os refugiados menores como correios de droga e prostitutos. Existe um grupo constituído apenas por egípcios, quase crianças, que os pais enfiaram nas galeras do Mediterrâneo depois de terem gasto todas as poupanças para os entregar aos contrabandistas. Acham que a Europa os salvará.

E nem vale a pena falar dos líbios e dos sírios.

A Polícia italiana vai desbandando mas no dia seguinte eles reaparecem, e o tráfico continua. Dentro da estação, no bar, calmamente, o cidadão italiano bebe o seu expresso ou o seu Chianti e come o seu tramezzino ou cornetto, lê o seu jornal sem um sobressalto. Lá fora, desde os atentados de Paris, carros militares e soldados com metralhadoras vigiam as estações e os monumentos, as praças e as catedrais, e nem por isso a paisagem se deprime. Existem manifestações pela abertura das fronteiras dos Balcãs aos refugiados. Não existem manifestações noturnas de nazis, não existe uma Aurora Dourada ou uma Marine Le Pen. Existe uma extrema-direita sem expressão eleitoral perigosa. A Itália, que não é rica como a Alemanha, tinha todas as razões para ter a sua Frauke Petra. Os seus “patrióticos” Pegidas. Que não se dariam bem com os seus Corleones.

A alegria de viver ajuda muito. Num país onde a beleza é uma coisa natural, a comida é gostosa, o sol brilha, as pessoas têm menos tendência para o azedume. E ninguém, em Itália, acompanha carne com um litro de cerveja ou bebe uma malga de café com leite por cima do peixe. Há que dizê-lo com frontalidade: os alemães são uns tristes. E já que estamos na sociologia de bolso e no empirismo filosófico, com quem preferia beber um belo Barolo? Comer uma massa tartufata? Com a Frau Merkel, ou com a Frau Frauke, ou com Renzi? Um país que deu à luz a Monica Vitti e o Antonioni não se pode comparar com o país que deu à luz o Rainer Werner Fassbinder e a Dietrich. Olhem para as caras.

A Europa está condenada. A tristeza da Alemanha vai continuar a mandar em todos nós e só pode acabar mal. Estamos tristes e acabaremos tristes. E, quem sabe, nas mãos de gente que não gosta de gente estranha. Nem de viver.

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13 pensamentos sobre “ALEGRIA DE VIVER

  1. Os Franceses são talvez cínicos, mas a Senhora é uma pedante de primeira que só sabe falar do tempo que passa de aeroportos em estações do mundo inteiro e de hotéis de luxo em residências especiais, onde encontra o “gratin” da sociedade… viu tudo… conhece tudo… é uma chata!

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    • Ó minha senhora, vossemecê só está a revelar a sua grandessíssima ignorância. Aquilo que escreveu é de uma atrevimento que só merece o desprezo. Vê-se logo que não conhece a autora, não a ouve nos documentários em que intervém, nem faz a mínima ideia sobre o que escreve e onde escreve.
      Em suma, devia remeter-se ao silêncio ao invés de proferir bojardas.
      Sabe?!… Ser-se inteligente, não calha a todos; mas deixe lá, não se pode ter tudo: vá-se “cultivando”!… 🙂

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  2. Excelente crónica dedicada ao nosso mui querido e saudoso Nicolau Breyner, que nas suas palavras, “aproveitou bem vida”, coisa mui estranha: “aproveitar bem a vida”, para essa gentinha misantrópica da Alemanha que não conhece a cor do sorriso, da alegria, da benevolência, de solidariedade… enfim, uma cambada de infelizes, isso sim!

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    • Bem a nível pessoal, não aproveito bem a vida, porque estou a trabalhar e a pagar contas do alheio. Acontece a quem vive sem dívidas, agora quem tem estômago para viver endividado, a vida é esplendorosa.

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      • What?… Acaso “trabalhar e pagar contas do alheio” é argumento justificativo para não aproveitar bem a vida? Nessa óptica, os sedentários que não mexem uma palha, os subsidiodependentes que obtêm tudo de mão beijada, e já agora os corruptos que gamam a torto e a direito, sem olhar a meios, é que aproveitam bem a vida.
        Amigo, “aproveitar bem a vida” é um conceito que só depende de si, mais concretamente, da forma como o visiona, porque repare, eu posso não ter um tostão e tampouco onde cair morta, todavia, posso ser uma pessoa bem-disposta, afável, feliz com pequenos nadas, ou não? E, nessa óptica, pode acreditar, “aproveito bem a vida”!
        Beijinhos. 🙂

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  3. Clara Ferreira Alves revela um racismo mal fundamentado e incoerente, aliado a ideias quadradas e pré-concebidas em relação às pessoas de um país que claramente não conhece. À semelhança do seu artigo de opinião, como seria se escrevessem um artigo de opinião descrevendo os portugueses à imagem da amostra que se encontra regularmente na estação de Santa Apolónia, ou até Campanhã? ou então, à imagem dos seus dirigentes políticos?
    Entristece-me que o Expresso publique puras mensagens de ódio como esta.

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    • Ora aqui está uma excelente oportunidade para a cara Amália Nogueira expressar-se mediante um artigo de opinião inédito, de alto gabarito, extraordinariamente bem fundamentado por via do seu hipotético saber, conhecimento e experiência.
      Fica o desafio que, expectantes, ficamos à espera….
      Boa inspiração, criatividade, coerência de ideias e fundamentos! 🙂

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  4. Brava S.ra Clara Ferreira Alves, you might think of translating in German your opinion expressed in this article, I’m very curious about how the Germans would react to such a crunchy analysis that I fully second.
    Com os melhores cumprimentos.

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