Ne me quitte pas – Jacques Brel

(Paulo Marques, in Facebook, 28/05/2025)


(Nem só de política vive o homem e, por isso mesmo, hoje a Estátua resolveu virar a agulha para a música, para uma canção e histórias de outros tempos que – e digo-o com alguma mágoa e nostalgia -, eram bem melhores e esperançosos do que aqueles que estamos a viver. E uma lágrima escapou-me, rebelde e fugidia.

Estátua de Sal, 31/05/2025)


Já passaram mais de 60 anos. Foi em setembro de 1959 que, então com 30 anos de vida e já uns seis de carreira nos discos, o belga Jacques Brel (1929 – 1978) escreveu, compôs e cantou uma canção que se tornaria um dos seus mais aclamados êxitos: “Ne Me Quitte Pas”.

Ao longo dos anos, a magnífica e imortal canção foi interpretada por inúmeras vozes entre as quais as de Edith Piaf, Nina Simone, Barbara, Juliette Gréco, Sylvie Martin, Scott Walker, Sting, Ray Charles, Marc Almond, Maysa ou Simone de Oliveira.

O historiador António Araújo, traçou-lhe um breve, mas incisivo, esboço biográfico (Diário de Notícias, 14/10/2018):

Je vous ne quitterai pas. Estas terão sido das últimas palavras de Jacques Brel, segundo Oliver Todd, o seu mais credenciado biógrafo. Disse-as à enfermeira-chefe da clínica de Bobigny, arredores de Paris, poucas horas antes de morrer, eram três da madrugada de 9 de Outubro de 1978. Faleceu Brel de uma embolia motivada por um cancro do pulmão, resultado de anos e anos de fumo inveterado, aos quatro maços por noite.

Não causa espanto o facto de o cantor – ou marchand de chansons, como se definia – ter usado aquelas palavras na agonia derradeira, nos breves instantes em que lhe tiravam a máscara de oxigénio afivelada no rosto arfante. Ne me quitte pas foi o maior êxito da sua carreira, a canção pela qual será sempre lembrado. Compô-la em conjunto com o seu pianista, Gérard Jouannest, ainda que este nunca tenha recebido os devidos créditos por isso. A canção foi registada em Setembro de 1959 com o nome de Jacques Brel como autor exclusivo, música e letra. Os especialistas dizem sentir nos versos influências de Dostoiveski e de García Lorca e, na música, da Rapsódia Húngara n.º 6, de Liszt.

Brel sempre negou que a canção tivesse um carácter autobiográfico, afirmando mesmo que ela não era sequer uma canção de amor, antes um hino à cobardia moral dos homens, contando a história de um fraco que desperdiçara a sua vida. Misógino empedernido, acrescentou que o facto de as mulheres encararem Ne me quitte pas como uma canção de amor era algo que, apesar de falso, as reconfortava no seu eterno romantismo.

Aqui, as coisas complicam-se. É que a atriz e cançonetista, Suzanne Gabriello, asseverou, vezes sem conta, que a música era mesmo uma canção de amor, nascida da ligação que Brel com ela manteve durante vários anos. O cantor casara novo, aos 21 anos, com Thérèse Michielsen, Miche, sendo pai pouco depois. Na altura confidenciou a um familiar próximo, talvez em jeito de blague, que sonhava ter dez filhos. Mas era um marido que pouco ou nada ajudava em casa, que jamais lavou um biberão ou mudou uma fralda, noctívago que passava as manhãs na cama a dormir, nunca tendo levado as crianças à escola.

Em 1953, nasceu France, a segunda filha, que mais tarde criará e dirigirá a fundação com o nome do pai. Jacques deixara de trabalhar na empresa da família poucos dias antes do nascimento de France para tentar a sua sorte em Paris como cantor profissional.

 Passando dificuldades, vivendo num hotel miserável de Pigalle, pede à mulher que volte a trabalhar. Miche torna-se dactilógrafa de teses universitárias. Brel entra então no mundo da canção sob o patrocínio de Jacques Canetti, irmão do Nobel da Literatura, diretor artístico da Philips e proprietário do teatro Les Trois Baudets, onde o jovem belga actuava todas as noites. Os primórdios não foram auspiciosos: Canetti chegara a perguntar-lhe se pensava abraçar uma carreira artística com uma aparência física daquelas e, nas páginas do France-Soir, um crítico mais agreste lembrou-lhe, com maldosa ironia, que existiam comboios de regresso a Bruxelas.

A sua primeira aparição no Olympia, em Julho de 1954, raiou o desastre. É por essa altura que conhece Suzanne Gabriello, cantora e filha de cantores, Zizou de seu petit nom. É ela que consegue vencer a resistência inicial de Bruno Coquatrix, director todo-poderoso do Olympia, que detestava Brel e o seu estilo. Aos poucos, o belga com dentes de cavalo revela-se um estrondo em palco, com atuações trepidantes que o faziam perder vários quilos em cada performance. Aprendera com Montand que, além do timbre da voz e da melodia, das letras que falavam de amores tristes e condenados, para cativar uma plateia era essencial a presença física, a expressão da dor estampada no rosto e o condizente movimento corporal.

Com a mulher e as duas filhas em Bruxelas, tem agora tempo e espaço para o seu romance clandestino com Zizou, cujo pai, indignado com aqueles amores extraconjugais, chega a telefonar a Miche, a legítima, ameaçando-a que iria fazer com que tirassem ao marido a carta de trabalho de cançonetista em França.

 Esta não era a primeira aventura romântica de Brel, mas foi certamente das mais profundas e duradouras da sua vida (e, já agora, das mais proveitosas para a sua trajetória artística). Jacques chega a dizer a Zizou que se ia divorciar de Miche, mas o apego às filhas, a doença do pai e, convém dizê-lo, o seu profundo conservadorismo em matéria de costumes acabam por dissuadi-lo.

Filho da burguesia de Bruxelas, nascido numa família francófona e católica de industriais, antigo escutista, soldado que ia para o quartel num Studebaker guiado pelo motorista do pai, Jacques Romain Georges Brel só no final da vida se libertaria de uma visão retrógrada do mundo, machista e homofóbica, onde cabia aos homens ganhar o sustento do lar e às mulheres cuidar da casa e das crianças.

 Nunca se separou de Miche, mesmo quando decidiu viver com Maddly Bamy nos confins do Pacífico Sul, onde está sepultado a poucos metros da campa de Gauguin. Com Zizou manteve uma relação de cinco anos, feita de avanços e recuos, de encontros furtivos num apartamento alugado na Place de Clichy, de separações tempestuosas e reencontros fatais nos cabarés de Montmartre.

De permeio, nasce Isabelle, a terceira filha. Zizou sabe por acaso desse nascimento e rompe com Brel da maneira habitual, definitivamente provisória. Diz-lhe, magoadíssima, que esperava que Isabelle nunca viesse a saber até que ponto o seu pai era um frouxo. Nem isso, porém, terminaria a relação, que apenas em 1961 cessa definitivamente, ao que parece por iniciativa de Zizou, que só então fica a saber que Jacques já arranjara entretanto um novo amor, Sophie. Voltarão a encontrar-se fugazmente em 1966, e passam a noite juntos na véspera da despedida do cantor do Olympia e dos palcos, quando Brel trocou a música por uma malsucedida experiência no cinema, como ator e realizador. E, por uma trágica coincidência do destino, ambos morreram de cancro, ele em 1978, ela em 1992.

Ficou, de tudo isto, Ne me quitte pas, que Zizou garante ter sido escrita para si, em jeito de súplica num tempo de rutura. Brel negou a pés juntos, mas o certo é que basta ler a letra ou ouvir a música para perceber que ela é, obviamente, uma canção de amor. Brel ficou com uma Sophie efémera, Zizou com uma música eterna, inesquecível. Caso para dizer: “estamos quites, pá”.

O que não se sabia, pois ela sempre foi mais discreta do que ele, é que, enquanto namorava com o autor de Ne me quitte pas, Zizou teve outra paixão consumada, com o humorista e artista de music-hall Guy Bedos. Nas suas memórias, Bedos fala dessa relação ardente, mas nunca revela quem era a protagonista, cujo nome só foi conhecido num programa televisivo de 2015. Suzanne Gabriello, dita Zizou, que muitos tomavam pela amante abandonada e enganada, tinha afinal uma vida sentimental muito mais rica do que todos julgávamos, Brel incluído. Mesmo caso para dizer: : “estamos quites, pá”.


E para quem quiser recordar aqui fica 🙂 :


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De Caracas a Paris e Puccini, os palhaços incultos de Zelensky estão em retirada

(Declan Hayes in Strategic Culture Foundation, 06/08/2024, trad. Estátua de Sal)

(Publico este texto em homenagem a todos os melómanos que seguem ou visitam este blog. Se dúvidas houvesse sobre quem está do lado do Bem e da Humanidade na guerra global infrene que está em curso no Mundo e onde lugares vários – como a Ucrânia, Gaza, Venuzuela – são a ponta do iceberg, a leitura deste texto dissipá-las-ia. Sim, quem usa a beleza da música como instrumento bélico de confronto, transformando notas melodiosas em obuses, só pode ser um escroque, pior que os animais mais mortíferos: até as serpentes se vergam aos sons encantatórios da flauta.

Estátua de Sal, 10/08/2024)


A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e a NATO e seus companheiros de viagem do norte de Londres infligiram sofrimentos incalculáveis ​​a todos os venezuelanos porque querem roubar o petróleo da Venezuela.


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Embora a soprano russa Anna Netrebko encabece agora a lista de alvos de assassinato do Myrotvorets, antes de fazer qualquer comentário informado sobre o caso dela, ou do de um grupo de venezuelanos e bielorrussos que também se encontraram na mira da NATO, precisamos primeiro de nos familiarizarmos com os detalhes da sociedade venezuelana, russa e bielorrussa, bem como, é claro, percebermos como a ópera e os mundos relacionados funcionam.

Netrebko é uma cossaca de Kuban que fez o seu caminho de humilde zeladora até superestrela operática internacional, o que foi bom para ela e, suficientemente bom para, nesse papel de superestrela global, se encontrar com o presidente russo Putin, em várias ocasiões. Para qualquer fantoche da NATO, que acha que qualquer reunião desse tipo é suspeita, tudo o que eles precisam de fazer é olhar para as Olimpíadas de Paris, onde políticos de todos os tipos estão bajulando os seus atletas na esperança de que um pouco do seu brilho possa passar para os seus narizes bajuladores.

Embora Netrebko tenha declarado que teria preferido que a guerra ucraniana não tivesse ocorrido, também é conhecido o facto de ela ter declarado, que as coisas são o que são e passaram-se assim, e que outras forças, que não ela, devem concluí-la. Apesar de elementos da Duma russa, bem como os malucos nazis com assento no Parlamento ucraniano, a terem denunciado, e apesar de o Parlamento Europeu fascista da NATO a ter sancionado, Netrebko descreveu, com toda a razão, como “merdas humanas” os representantes da NATO que a obrigam a expressar a sua posição política.

Eu não argumentarei contra a posição dela, tal como não o farão, imagino eu, Ivan Litvinovich e Viyaleta Bardzilouskaya, os dois atletas bielorrussos que, respetivamente, ganharam medalhas de ouro e prata nas Olimpíadas e que, assim, envergonharam os “merdas humanas” da Ucrânia de baixo desempenho, que tentaram desumanizá-los e aos seus compatriotas bielorrussos.

Embora Netrebko também só queira fazer o seu trabalho operático, porque Netrebko não apela ao assassínio de civis russos, a NATO, como diria a máfia, quer que ela desapareça.

Norman Lebrecht, o idiota da NATO para estes assuntos, chamou a nossa atenção para o facto de que Netrebko foi contratada para estrear uma nova produção da Tosca em janeiro do ano que vem na cidade eterna de Roma e, para piorar a situação da NATO, que “a soprano russa meio proibida” também deve apresentar-se na Flórida em fevereiro de 2025.

Embora os nazis ucranianos estejam a ter um ataque de nervos  com tudo isso, o facto é que Netrebko tem o show de Puccini na Tosca realmente garantido. Como o show em Roma é para celebrar o 125º aniversário da primeira apresentação de Tosca, seria impensável para qualquer um, exceto para os nazis da Ucrânia e seus companheiros de viagem do norte de Londres, alimentar sequer a ideia de que o espetáculo se poderá realizar sem Netrebko no centro do palco.

A ópera, mais ainda do que todas as outras artes semelhantes, funciona com base na máxima comprovada de que Callas, Cabellé, Caruso, Corelli, Netrebko e Pavarotti ficam com as luzes da ribalta e os restantes ficam com os amendoins que sobram. Sem Netrebko, não se pode ter Puccini. É simples!

Se tudo isso é, para si, difícil de entender, pense no facto de como os chineses recentemente se revoltaram  porque Messi não jogou num encontro amistoso contra eles. Mas Messi é um jogador de futebol, não é um urso de circo, que está ali para fazer truques e acrobacias, mesmo que os chineses, que pagaram fortunas para o ver, pensassem o contrário. Assim como os chineses foram ver Messi, os italianos, os figurões do Vaticano e o corpo diplomático de Roma vão ver a cossaca de Kuban, Anna Netrebko. É tão simples como isso.

E, tal como acontece com os cossacos de Kuban, também acontece com os venezuelanos, que também não são macacos de teatro, ao contrário do que pretendem esses mesmos charlatães da NATO.

O caso em questão é o do maestro e violinista venezuelano Gustavo Adolfo Dudamel Ramírez, de 43 anos, que atualmente é o diretor musical da Orquestra Sinfónica Simón Bolívar e da Filarmónica de Los Angeles, e que está programado que será nomeado Diretor Musical e Artístico da Filarmónica de Nova Iorque em 2026.

Para ver o quão envolvido está Dudamel na música da Venezuela e não só, refira-se que o seu pai é trombonista e professor de canto de renome, e que o próprio Dudamel começou o seu envolvimento contínuo com El Sistema, o famoso programa de ação social musical venezuelano, aos cinco anos de idade.

Tendo em conta que a Venezuela é uma sociedade dividida que está firmemente na mira da NATO e que Dudamel viveu, falou e respirou música toda a sua vida, o seu envolvimento contínuo com El Sistema, que também está firmemente na mira da NATO, embora relevante para este artigo, não é de todo surpreendente. Nem o facto de Dudamel ter manifestado a sua indignação quando outros músicos foram apanhados pela violência na Venezuela. Dudamel tem sido repetidamente referido como desejando que a violência acabe e que a música que o El Sistema encoraja cresça, e é bom que assim seja.

Uma rápida busca no site da NATO mostra que ela não concorda nada com isso. Um artigo recente queixa-se,  que a Fundação Glenn Gould lhe atribuiu o seu prémio anual, apesar de estes apologistas da NATO argumentarem erradamente que Dudamel é “o enviado de um regime militarista notório que acabou de roubar uma eleição”, sendo demasiado estúpidos para compreender o comunicado de imprensa da Fundação. O comunicado afirmava claramente que “a apresentação coincide com a Semana Mundial da Orquestra (WOW!) do Carnegie Hall, uma celebração de extraordinários conjuntos de jovens de todo o mundo. Nesse dia, Dudamel dirigirá a orquestra Sinfónica Nacional Infantil da Venezuela”, com a qual Dudamel tem décadas de envolvimento, tal como tem com El Sistema.

Tal como Gabriela Montero, que parece ter passado para o lado negro da Venezuela. Aqui está o igualmente escorregadio Norman Lebrecht  a elogiar a Orquestra do Minnesota por ter feito o upload do concerto [venezuelano] “decididamente político de Gabriela Montero, que supostamente denuncia aqueles que ‘mantêm o nosso continente refém da tirania'”. Apesar de Montero e o seu marido, nascido na Irlanda, terem sido fundamentais para manter a Irlanda refém, ao impingirem apologistas venezuelanos indesejados da NATO, essa traição sistemática em nada ajuda as pessoas cumpridoras da lei da Venezuela, nem todas as que não podem fugir, como cobras na noite, para a Irlanda.

Mas, embora pudéssemos falar da música venezuelana com mais autoridade numa hora do que os representantes da NATO conseguiram numa década, a verdade é que a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e a NATO e os seus companheiros de viagem do Norte de Londres infligiram sofrimentos indescritíveis a todos os venezuelanos porque querem roubar o seu petróleo. Os atletas bielorrussos são agora obrigados a demonstrar a mesma coragem perante a adversidade que os seus antepassados demonstraram quando Hitler fez da sua pátria o centro daquilo a que os bielorrussos chamam a Grande Guerra Patriótica, e tudo isto porque a NATO, tal como os nazis antes deles, quer usar a Bielorrússia como porta de entrada para despojar a Rússia.

E, quanto a Anna Netrebko, aqui está ela no (acusticamente divino) La Scala cantando a Tosca de Puccini, como só uma cossaca de Kuban abençoada, como ela, pode. Não é para todos, é verdade, mas também não o são as vastas riquezas da Venezuela e da Rússia, que, no caso da Rússia, são defendidas por mais de três milhões de soldados ativos e na reserva – nenhum dos quais consegue atingir as notas altas como Netrebko -, mas todos eles, como os seus milhões de aliados nas forças armadas da Venezuela, Irão e China, conseguem disparar muito mais corretamente do que ela ou Gabriela Montero.

Fonte aqui


Fados de rara beleza

(António Costa, in Diário de Notícias, 02/01/2021)

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Tive a felicidade de a nossa última conversa ter sido uma conversa feliz. Na véspera de Natal, ele estava animado e confortou-me na solidão do meu confinamento profilático. Depois de meses de problemas de saúde senti-o aliviado. Só teria à mesa da consoada o Gil, mas no dia seguinte viriam à vez a Cila, o Becas, as netas e os netos. Em janeiro tinha novo disco na calha e finalmente podíamos voltar ao Poleiro para jantar com a Fernanda e a Maria Judite, pôr a conversa em dia, muito atrasada por sucessivos adiamentos que achaques diversos ou imprevistos de agenda foram impondo. Que bom, finalmente iríamos matar a saudade partilhada da conversa adiada. A morte foi outra e a saudade viverá para sempre. Mas gosto de nos termos despedido felizes.

Nos últimos 12 anos tive a felicidade de conhecer, trabalhar e privar com o Carlos do Carmo. Honrou-me, aceitando ser meu mandatário às candidaturas à CML em 2009 e 2013. E foi um mandatário sempre presente e exigente. Guardava os folhetos de campanha e regularmente vinha pedir contas, tomando nota do que estava cumprido, do estado de execução do que estava em marcha, assinalando o que faltava cumprir. Quando deixei a câmara pude sempre continuar a contar com o seu apoio, talvez nem sempre político, mas sempre pessoal e com muita ternura. Liberto das responsabilidades de mandatário, não se sentia obrigado à exigência, mas livre para expressar a amizade incondicional.

Conhecêramo-nos na preparação da candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, eu presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ele coembaixador da candidatura com a Mariza. Para o Carlos do Carmo a candidatura era muito mais do que o reconhecimento internacional da canção de Lisboa. Era um elemento central de uma estratégia para assegurar a perenidade do fado, tema que o obcecava. O Museu do Fado, a nova história da autoria do Rui Vieira Nery, as lições que deixava ao seu público – “Alto! O fado não se acompanha com palminhas” – encadeavam-se na ideia muita clara de que o fado precisava de ter bases muito sólidas para poder suportar a indispensável inovação e o rejuvenescimento de intérpretes e públicos sem deixar de ser o que é, fado.

Como costumava recordar, teve a oportunidade de conhecer e aprender com todos os que fizeram a história do fado no século XX e sentia-se investido na responsabilidade de assegurar a transmissão desse saber, bem sabendo que a atualidade do fado foi sempre encontrada nesse delicado equilíbrio entre a intemporalidade do clássico e o arrojo da inovação, que nunca hesitou em ousar. À viola e à guitarra, juntou o contrabaixo, a orquestra sinfónica ou o piano, com o grande António Vitorino de Almeida, e mais recentemente com o Bernardo Sassetti ou a Maria João Pires. E sobretudo o ânimo com que acarinhou as novas gerações de fadistas a quem rendeu homenagem, como que passando o testemunho, no notável disco de duetos que editou em 2013. E os novos poetas e poetisas que incessantemente procurava e queria trazer para o fado, enriquecendo o reportório fadista. Este era um tema que o apoquentava, triste em ouvir alguém da nova geração perpetuar um velho fado marialva, desgostoso quando os via a resvalar para a canção ligeira. Fado é fado e só tem futuro se for fado novo que renove públicos a cada geração.

Foi assim comigo. Devo ao Carlos do Carmo o meu encontro com o fado e muito antes de o ter conhecido pessoalmente. Como por certo aconteceu com muitos jovens da minha geração, o fado era um lamúrio triste que só se ouvia no rádio em casa dos avós. Lá por casa, o fado era mesmo música execrada, proibida, símbolo do regime. A música chegou primeiro, no extraordinário instrumental Fado Bailado no sopro do Rão Kyao, que me despertou a curiosidade. Mas foi com o álbum Um Homem na Cidade, ou fados como Lisboa Menina e Moça ou Estrela da Tarde, que me encontrei com o fado-canção e fui redescobrindo as Canoas do TejoBairro AltoPor Morrer Uma AndorinhaDuas Gotas de Orvalho

Devemos a Carlos do Carmo, Ary dos Santos, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, entre outros, a libertação do fado da simbologia do Estado Novo, abrindo as portas para a sua renovação no Portugal democrático e europeu que Abril abriu. Carlos do Carmo foi o rosto e a voz do fado novo, que nos trouxe até aqui… E mais além.

Claro, foi também um notável intérprete, como o demonstrou sempre que saiu do fado para cantar Jacques Brel ou Frank Sinatra, os seus grandes ídolos. Intérpretes há e haverá muitos. Mas quem tenha resgatado o fado à ditadura, o tenha renovado na democracia, trabalhado militantemente para a sua consagração internacional, a consolidação de um corpus histórico, ousado incessantemente inovar, acarinhado denodadamente novas gerações, semeado futuro para o fado… Aí ninguém iguala o Carlos do Carmo.

A tudo se dedicou com coração. Agora o coração parou. E só do coração ele podia morrer, porque viveu sempre do coração. Deixa-nos tristeza e saudade, mas sobretudo o que perdurará muito para além do sentimento de hoje e de quem hoje o sente…”fados de rara beleza”.

Primeiro-ministro de Portugal