FUCK 2016

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 301/12/2016)

Autor

                              Clara Ferreira Alves

David Bowie, Prince e Leonard Cohen deixaram um buraco. Eles providenciaram a banda sonora do nosso filme. Eram desconhecidos de quem éramos íntimos.

Não é costume darmo-nos com estrelas pop ou rock. É uma relação unilateral, elas cantam ou tocam, dão concertos, e mantêm uma vida convenientemente dissipada para manter a ilusão aspiracional dos fãs.

Aspiracional é uma palavra que até há pouco tempo não se usava em português. Aspiracional significa, largamente, e como o nome indica, aspirar a qualquer coisa, um produto, um estilo de vida, ter uma ambição. Aspiracional é bom, dizem os americanos, no mesmo sentido em que Gordon Gekko dizia greed is good. Donald Trump diz que provoca nos eleitores e devotos uma vertigem aspiracional para ‘Tornar a América Grande’. Tal como a rainha Vitória punha as joias para visitar os pobres, Trump chegava aos comícios no seu jato ou no seu “beautiful Sikorsky”, o helicóptero. Ele a aterrar e os devotos a levantarem num voo aspiracional. Aspirando ou não, fomos inspirados pelos músicos da história do rock e da pop que este ano foram ceifados. Toda a gente sabe que 2016 foi um ano mau, um ano para esquecer, um ano fatídico, etc. Fuck 2016, disse John Oliver ao despedir-se, no rescaldo da eleição do imperador da Quinta Avenida. David Bowie, Prince e Leonard Cohen, os meus favoritos, deixaram um buraco. Uma parte das nossas vidas foi vivida com eles. Eles providenciaram a banda sonora do nosso filme. Eram desconhecidos de quem éramos íntimos. Cohen e Prince vi-os em dois concertos memoráveis na Península Ibérica, um em Portugal e um em Espanha. O Cohen que vi já era entrado, não era o poeta rebelde e bonito das caras dos primeiros discos. Andava em tournée porque tinha perdido todo o dinheiro depois de ter passado anos num retiro budista. Enquanto ele meditava, uma contabilista ou manager tinha-se apoderado dos direitos de autor. Sem esta manobra, talvez nunca tivesse visto Cohen ao vivo. A voz do bardo era, mesmo naquela idade, setenta, um hino à melhor poesia e música do século XX. Gosto de Dylan, mas o meu poeta é Cohen. Prince foi entrevisto num daqueles concertos de estádio, com as luzes psicadélicas e a histeria coletiva. Um cenário muito diferente do de Leonard Cohen. Prince era outro génio e um daqueles artistas que escapam a qualquer classificação. O concerto foi uma emoção enfumarada, cheio de riffs e de vocalizos que a assistência cantava a acompanhar. ‘Purple Rain’ deitou o estádio abaixo. Prince tinha qualquer coisa de comovente porque era um corpo de criança engalanado para parecer maior. Uma figura diminuta realçada pelos saltos altos, os fatos espalhafatosos e a composição teatral. Morava nele a vocação do vaudeville.

Bowie foi a perda maior, do ponto de vista pessoal. Era fanática. Sempre fui. Das fases todas, das reinvenções, das cores e cortes de cabelo, das maluqueiras de um homem que era mais do que um cantor ou um músico, era um artista tão dotado de talento e inteligência que dele se podia dizer que era um homem do Renascimento sem cair no exagero. Ao contrário dos outros, vi-o em concerto e vi-o em pessoa, ao vivo e a cores, numa rua do Soho em Nova Iorque, perto da casa onde vivia com a mulher, Iman, e a filha. Costumava ir a uma livraria do bairro, a McNally Jackson, onde também costumo passar tardes a ler e a fazer nada. Posso ir buscar os livros que quiser que ninguém me maça. Posso ler revistas. Os bancos não são confortáveis mas o tempo passa a correr e a comida é razoável. A seita dos livros tem este poiso. Foi à saída da livraria que vi Bowie. Reconheci-o logo. Continuava a ser um homem bonito mas vestia como um professor universitário ou um estudante graduado, com elegância e discrição. Na McNally disseram-me que ninguém se metia com ele, era um cliente, e que as suas maneiras eram impecáveis, um gentleman britânico. Adoravam-no. Comprava muitos livros. E lia muitos livros. Vi-o ir rua fora, uma silhueta magra de chapéu. Ninguém o abordou. Conhecendo a biografia, vê-se como Bowie dominou a arte de envelhecer. Fiquei danada com a sua morte, com aquela doença, a brutalidade, a injustiça da coisa. É sempre injusto.

E agora George Michael. Eu gostava de George Michael, pós-Wham. Era um grande músico com uma grande voz. Gostava sobretudo de uma canção, ‘Freedom’, quando ele faz pouco do circo da indústria pop. Era um atormentado. Foi o único que conheci de perto. Quando ele morava em Hampstead, um amigo meu tinha uma casa, um flat, num prédio ao lado donde se via tudo para o jardim de George Michael. Viam-se os carros dele, ele guiava um Porsche, os amigos dele, as festas dele. As festas eram fellinianas, o que restava da swinging London no fim dos anos 80 passava por lá. Elton John era visita habitual. Um dia, reparando que espreitávamos as festas no jardim, e aproveitávamos para fazer uma festa paralela, com as músicas do George Michael aos berros, incluindo as pirosas, ele resolveu convidar-nos para a festa principal. Enviou-nos um assistente com a mensagem. O dono da casa, um sério e jovem advogado que via a casa invadida por causa do vizinho do lado, ficou envergonhado. O tropel desembarcou chez George Michael. Foi divertido. Muito divertido. Morrer do coração não é mau. Morrer com 53 anos no Natal é péssimo.

Fuck 2016.

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