Em permanente fuga para a frente

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/09/2025)


São sobejamente conhecidos os esforços de Kiev para envolver militarmente a NATO em território ucraniano, para fazer aquilo que a Ucrânia se tem mostrado incapaz. Isto é, recuperar o território ocupado pela Rússia e evitar o descalabro militar.


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A irresponsável histeria a que se tem assistido nas chancelarias europeias decorrente dos 19 drones que aterraram em território polaco, no dia 10 de setembro, apresentada na forma de um ataque russo a território da NATO, merece uma análise informada, para se perceber exatamente o que aconteceu e esvaziar a argumentação de quem anda paranoicamente a empurrar a Europa para uma confrontação militar direta com a Rússia. De assinalar que não é a primeira vez que somos confrontados com este tipo de acontecimentos. Não seria a primeira operação ucraniana de falsa bandeira. Falamos, por exemplo, dos misseis S-300 ucranianos que caíram na Polónia, apresentados inicialmente como sendo um ataque russo.

Indo aos acontecimentos: (1) Os drones que aterraram em território polaco eram da família Gerânio e Gerbera, com um alcance máximo de 700 km e 600 km, respetivamente, e não transportavam carga explosiva; (2) a aterragem ocorreu em locais que distam até 300 km da fronteira oeste da Ucrânia com a Polónia, muito para lá do seu alcance máximo; (3) muitos deles foram reparados recorrendo inclusivamente a fita cola, indicando claramente a sua reutilização; (4) Para amplificar a dimensão da “tragédia” a comunicação social polaca publicou imagens de edifícios destruídos há dois meses por uma tempestade, atribuindo esses danos ao impacto dos drones; (5) Houve uma coincidência temporal entre a aterragem de drones de fabrico russo em território polaco e um ataque russo com drones e misseis à região oeste da Ucrânia.

Passemos então à análise. Medindo 700 km para leste, a partir do local de aterragem desses drones, encontramos território ucraniano controlado apenas por forças ucranianas. As forças russas mais próximas localizam-se a mais de 150 km de distância, para este. Teoricamente seria possível terem sido lançados de território bielorusso, mas isso é altamente improvável. Não aconteceu no passado, não se vislumbra uma razão lógica para ter acontecido agora. Perante este facto, os defensores da autoria russa, para sustentar o alcance superior ao alcance máximo, argumentam, sem o conseguir provar, terem sido adicionados depósitos de combustível suplementares aos aparelhos. Não há imagens de drones com os ditos depósitos. É um argumento de última hora falso a que recorreram à posteriori, para justificar uma “insuficiência” argumentativa que não tinham previsto.

Não foram utilizados “nesta operação” drones russos com carga explosiva porque esses explodem no momento do impacto, não sendo possível aos ucranianos recuperá-los, o mesmo não sucede com os drones de engodo e de reconhecimento, que nalguns casos não se desintegram e, ficando relativamente intactos quando atingem o solo, podem ser recuperados e reutilizados posteriormente.

O facto da Bielorrússia ter alertado as autoridades polacas para drones desgovernados que sobrevoavam o seu espaço aéreo, que poderiam aterrar na Polónia ou na Lituânia tem sido convenientemente desvalorizado. Esse aviso permitiu a Varsóvia responder prontamente e intersetar quatro dos 19 drones. O sempre oportuno e certeiro secretário-geral da NATO Mark Rutte não perdeu a oportunidade para afirmar que “na noite passada [10 de setembro] ficou demonstrado que somos capazes de defender o território da NATO e o seu espaço aéreo.”

A Bielorrússia afirmou ainda ter abatido alguns drones durante essa noite e ter desviado outros da sua rota por ações de guerra eletrónica. Esses drones foram lançados pela Ucrânia contra território russo tendo alguns deles sobrevoado o espaço aéreo bielorrusso. Não são os mesmos que penetraram na Polónia.

Também não foi divulgado pela comunicação social europeia o facto de a Polónia ter inclusivamente informado Minsk sobre a aproximação ao seu território de veículos aéreos não identificados provenientes da Ucrânia. Entretanto, Varsóvia recusou o convite de Moscovo para uma averiguação conjunta do incidente que permitisse estabelecer os factos. Antes de se dar o passo seguinte teria feito sentido falar primeiro com os russos para esclarecer a situação. Não se entende a falta de vontade do Governo polaco em clarificar o incidente. Talvez por não ser capaz de apresentar provas conclusivas. O facto de drones russos terem penetrado o espaço aéreo polaco não prova que se encontravam sob controlo direto russo.

Apesar da difícil sustentação da tese da agressão – a Rússia atacou a Polónia com drones sem carga explosiva, sem orientação para alvos específicos, Varsóvia foi notificada pela Bielorrússia da existência de drones desgovernados que podiam aterrar em território polaco – as reações de elevada estridência não se fizeram esperar. O presidente do Partido Popular Europeu, Manfred Weber, disse que “o ataque da Rússia não foi dirigido contra a Polónia, mas contra a UE: O ataque não é apenas contra a Polónia — a Rússia tem como alvo o nosso modo de vida, nomeadamente a liberdade, a democracia e o Estado de direito.” Numa escalada verbal absurda, o ministro dos negócios estrangeiros português vociferou a necessidade de “dar uma resposta dura à Rússia” sem elaborar o que poderia ser essa resposta e quem a iria dar.

O presidente Volodymyr Zelensky considerou a incursão dos drones russos um “ataque deliberado” de Moscovo à Polónia, o primeiro-ministro polaco Donald Tusk classificou-a uma “provocação em larga escala”. Como se isto não bastasse, a Polónia convocou reservistas em modo acelerado e projetou 40 mil soldados para a fronteira com a Bielorrússia, com quem fechou as fronteiras por tempo indeterminado. O presidente polaco Karol Nawrocki assinou uma resolução permitindo a projeção de forças da NATO em solo polaco.

O frenesim e a excitação polaca fizeram com que Varsóvia pedisse uma reunião de emergência do North Atlantic Council, invocando o Art.º 4.º, do Tratado do Atlântico Norte. Não obstante a paranoia instalada invocou-se o Art.º 4 e não o Art.º 5.º. A Aliança deliberou o reforço urgente do seu flanco leste, como se uma invasão russa estivesse iminente, o que se consumou através do lançamento da operação Eastern Sentry. Para além disso, Varsóvia convocou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e propôs à Assembleia-Geral uma declaração conjunta que acabou assinada por apenas 46 dos 193 estados-membros.

São sobejamente conhecidos os esforços de Kiev para envolver militarmente a NATO em território ucraniano, para fazer aquilo que a Ucrânia se tem mostrado incapaz. Isto é, recuperar o território ocupado pela Rússia e evitar o descalabro militar. Na sequência da reunião de Paris (4 de setembro), liderada pelo presidente francês Emmanuel Macron e pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, essa necessidade tornou-se mais premente devido ao distanciamento de Trump das posições europeias em matéria de garantias de segurança.

Se Zelensky pretendia arrastar os EUA para o confronto militar com a Rússia, então esse objetivo não foi conseguido, pelo menos por agora. Trump não ficou inicialmente convencido: “Pode ter sido um erro”, ripostou o presidente norte-americano, que terá posteriormente alterado o seu entendimento. Por algum motivo, Trump telefonou ao presidente polaco Karol Nawrocki, que se manteve cautelosamente silencioso, argumentando com a ausência de informação, e não ao primeiro-ministro polaco Tusk. Na mesma linha de Trump reagiu o SACEUR, que não achou graça ao empolamento dos acontecimentos feito por Varsóvia. Numa sondagem feita na Polónia, 38% dos inquiridos atribuíram a responsabilidade pelo lançamento dos drones à Ucrânia e apenas 36% à Rússia. A própria população polaca parece não estar muito convencida com a versão ucraniana que o seu governo está a promover.

Zelensky cavalgou a onda e utilizou a oportunidade para pedir mais armas e mais dinheiro e, simultaneamente, exigir que a Europa se envolva mais profundamente no conflito estabelecendo uma zona de interdição aérea a oeste e no centro da Ucrânia, em que a NATO teria a missão de abater aeronaves e misseis russos em território ucraniano. Razão tinha o antigo presidente polaco Andrzej Duda quando reconheceu publicamente que os ucranianos queriam envolver a Polónia numa guerra com a Rússia.

Embora Zelensky não tenha conseguido o que pretendia, é indiscutível que deu um passo significativo nessa direção, dando gás àqueles que de um e do outro lado do Atlântico propagam diariamente o papão da invasão russa, contribuindo para reforçar a posição dos falcões belicistas. Uma ação mais determinada de Washington, como a de Joe Biden aquando da crise dos S-300, mandando calar Zelensky e os polacos, teria evitado alimentar esta expetativa.

Agora que os EUA transferiram para a alçada de Londres o controlo da guerra na Ucrânia, tendo sido criado em Kiev o quartel-general das forças multinacionais da Ucrânia (MNF-U), comandado por um major general britânico, e os britânicos terem assumido a responsabilidade por todas as operações militares de Kiev, tanto dentro da Ucrânia como da Rússia, esta operação muito ao estilo britânico era seguramente do seu conhecimento.

Não deixa de ser bizarra a força que esta narrativa assumiu e o número de aderentes que a abraçaram, sobretudo de quem se exige mais maturidade e experiência, quando não restam dúvidas sobre o que pretende Kiev. Como é possível embarcar-se na tese idiota de que a Rússia iria beneficiar do ataque a um país da NATO e escalar a crise para tirar dividendos políticos?!

Agora, Trump optou por brincar com o fogo. Em vez de condenar veementemente o comportamento de Zelensky e dos europeus eliminando o problema à nascença, como fez o seu antecessor, permitiu a sua continuação: a Roménia (13 de setembro) e a Polónia (15 de setembro) foram alvos de novos ataques. Está para ver quando irão acabar.

O presidente norte-americano optou por tirar partido da situação e chantagear os europeus sugerindo-lhes que deixassem de comprar petróleo russo, passassem a comprar o norte-americano, e aplicassem tarifas de 100% sobre as importações oriundas da China e da Índia, como se esta fosse a resposta adequada à gravidade do momento que se está a viver.

O incidente causado pelos drones russos em território polaco não pode nem deve ser visto isoladamente. Vem na sequência de muitos outros, como a pretensa interferência russa no GPS do avião em que seguia a presidente da Comissão Europeia, numa visita à Bulgária. Não bastava o comentador da Fox Jesse Watters apelar ao “bombardeamento do gasoduto Sibéria 2 [com origem em Yamal, no norte da Rússia, e com destino à China, depois de cruzar a Mongólia] como fizemos [EUA] com o Nordstream,” vem agora o The Nork Times admitir que alguns países europeus não identificados, próximos da Rússia, estão a tomar medidas secretas de retaliação contra a Rússia. Alguns poderão mesmo facilitar ataques ucranianos, como os ataques terroristas a que temos assistido recentemente. Tem havido especulação sobre a origem dos recentes ataques de drones a bases e refinarias russas no extremo norte (Murmansk e S. Petersburgo), suspeitando-se que Ucrânia esteja a utilizar os países bálticos para lançar ataques contra a Rússia.

Aliados com os setores norte-americanos mais belicistas, contra o interesse dos povos que representam, os dirigentes europeus caminham como sonâmbulos para o abismo presos à sua autoilusão, incapazes de perceberem o beco sem saída em que se meteram e para onde nos estão a levar com a obsessão ucraniana. A profundidade do seu envolvimento nesta guerra impede-os de dar uma volta de 180 graus e recuar. Para salvarem a face, preferem fazer uma fuga para a frente, mesmo que isso envolva uma guerra em larga escala.

A possibilidade de uma confrontação na Europa aumenta diariamente, deixando agora de ser apenas retórica. Entretanto, políticos e comentadores néscios continuam a achar que a Europa vai conseguir vencer militarmente a maior potência nuclear do mundo no seu território. Livrem-nos desta gente, que dos russos livramo-nos nós.

A coligação dos indispostos

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 11/09/2025)


Macron queria que os EUA se comprometessem, mas, do “outro lado da linha”, não só não veio qualquer comprometimento, como Macron ouviu o que não esperava. Os EUA não colocarão forças terrestres na Europa, nem funcionarão como backstop das forças europeias.


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No dia 4 de setembro teve lugar em Paris mais uma reunião do grupo de países que integra aquela coligação, liderada pelo presidente francês Emmanuel Macron e pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, para ultimar os trâmites de uma força europeia conjunta (terrestre, aérea e marítima) e combinada a ser projetada para a Ucrânia. O enviado norte-americano Steve Witkoff também esteve presente no encontro, mas por apenas 20 minutos. O evento parece, pois, não ter corrido muito bem aos seus promotores.

Tudo se azedou quando Macron telefonou ao presidente norte-americano Donald Trump a dar-lhe conta das conclusões de mais este conclave. Uma vez acordados os preparativos, faltava agora o comprometimento de Trump em lhe dar apoio. Segundo Trump, na sequência da conferência do Alasca, Putin não se oporia à colocação de uma força internacional em território ucraniano no âmbito das tão faladas garantias de segurança.

Macron queria que os EUA se comprometessem, mas, do “outro lado da linha”, não só não veio qualquer comprometimento, como Macron ouviu o que não esperava. Os EUA não colocarão forças terrestres na Europa, nem funcionarão como backstop das forças europeias. Trump relembrou Macron, que se pretende apoio americano, os europeus terão primeiro de colaborar nas sanções à Rússia e começar por deixar de comprar petróleo russo à Índia. “Porque é que a Europa não sanciona a India?” Questionou Trump.

Washington também quer que a Europa se comprometa. “Eu [Trump] quero que vocês cortem o comércio com a China e com a India,” insistindo na ameaça furada das sanções secundárias, enquanto instava os europeus a comprarem americano. O que inevitavelmente terá de acontecer, uma vez que a extração de gás dos campos de Yamal, que abastecia a europa, foi desviada para o fornecimento à China. Não bastava a política de tarifas, os europeus têm agora menos alternativas em matéria de segurança energética, agravando a sua dependência dos EUA.

Os EUA não dão garantias de segurança, mas vendem armas. O Congresso prepara uma proposta de criação de um fundo para o qual os europeus contribuirão com dinheiro para repor o equipamento militar enviado para a Ucrânia. Por outras palavras, o apoio norte-americano à Ucrânia continua, mas com dinheiro europeu, como tinha anunciado Trump.

Com a Rússia a ganhar a guerra, sem conseguir o tão desejado comprometimento de Trump e com os EUA a distanciarem-se da Europa, Macron e os seus acólitos começam a entrar em pânico. Nem Moscovo nem Washington os ouvem. Uma vez excluídos do processo negocial, querem à tripa forra ter algum protagonismozinho, agarrando-se desesperadamente às garantias de segurança, apesar de ainda não se visualizar quando e como terminará o conflito. Zelensky, que também esteve presente na reunião, percebeu a charada à volta da discussão das garantias de segurança e perdeu a paciência com Macron.

Nas suas contradições, Zelensky abandonou o objetivo de expulsar os russos do território ucraniano, optando por somente congelar as hostilidades na linha de confrontação. Afinal “para nós, a sobrevivência é a vitória”. Segundo ele “O objetivo de Putin é ocupar a Ucrânia…, é claro, quer ocupar-nos completamente. Para ele, isso é uma vitória. E enquanto ele [Putin] não conseguir fazer isso, a vitória está do nosso lado [ucraniano].” Talvez isto justifique que, apesar de estar frustrado com os europeus, não seja ainda tempo de fazer cedências, pois pode ainda ganhar.

Os indispostos parecem não ter percebido duas coisas fulcrais: (1) Não vai haver cessar-fogo, nem a Rússia vai permitir a presença de forças internacionais na Ucrânia – Moscovo deixou claro o seu veto à colocação de quaisquer forças europeias em território ucraniano, que serão consideradas alvos legítimos; (2) Os líderes europeus já não podem contar com os Estados Unidos, como garantia da sua segurança.

A surdez de Macron tem-se acentuado. Ainda assim, convém lembrá-lo, bem como aos seus compagnons de route, que a guerra na Ucrânia começou exatamente para evitar a colocação de forças estrangeiras em território ucraniano. Parece não ser difícil de descortinar que, ao estar agora numa situação vantajosa, Moscovo nunca o permitiria. A ideia peregrina de enviar forças após o cessar-fogo, a ser exequível, não estimula Putin a assiná-lo. Ainda por cima, quando Trump já concordou que o cessar-fogo, que depende dos russos, não é o caminho a seguir.

A força militar europeia

Desconhecem-se os contornos exatos dessa força: missão, composição e local onde poderá vir a ser colocada. Sendo improvável a sua colocação na linha da frente, talvez fique numa zona de retaguarda. Tudo indica não se tratar de uma força de “peacekeeping” ligeiramente armada com a missão de patrulhar a linha de contacto. Também não seria uma força neutra de manutenção da paz e interposição – pelo contrário, seria uma força de dissuasão com capacidade ofensiva. Adicionalmente, essa força forneceria também logística, conhecimentos especializados em armamento e formação — embora talvez tivessem mais a aprender do que a ensinar — para ajudar a reconstruir as forças terrestres da Ucrânia, após um acordo de paz.

Os anunciados 25 países disponíveis para participar na força parecem insuficientes. O Reino Unido fez saber as suas limitações em forças terrestres. Estaria disponível para colaborar com aviação e navios, começando já a salivar com a possível presença de fragatas britânicas no Mar Negro.

A Polónia e a Itália já disseram que não participariam. A Alemanha, também não, apesar daquilo que gostaria o Chanceler Merz. Talvez o Luxemburgo, a Bélgica, os países Bálticos e outros estarão disponíveis para participar. A Roménia exclui o envio de tropas para a Ucrânia, mas o país está preparado para oferecer a sua infraestrutura militar — incluindo bases aéreas operadas pela NATO — para uso das forças aliadas. Todos esses planos, no entanto, enfrentam uma dura realidade: a Europa não pode montar uma tal operação sem o poder aéreo dos EUA no Mar Negro.

Está igualmente por saber qual seria a cobertura legal dessa força e o papel do Conselho de Segurança na sua autorização. Muito haverá ainda por clarificar. Entretanto, o “Le Monde” adiantou a possibilidade de serem colocadas forças na Ucrânia ainda “antes da assinatura de um cessar-fogo não depois, a fim de ‘pressionar’ Putin a aceitar essa trégua.” Fontes não certificadas referem que forças francesas poderão estar secretamente em deslocamento para território ucraniano, à semelhança daquilo que Moscovo acusa Merz de estar a fazer com mísseis.

Os dirigentes europeus sentem que os russos estão a vencer e os americanos a afastar-se. Estão desesperados e começam a entrar em pânico, depois de terem passado três anos a vender ilusões às suas populações. Afinal a Rússia já não está todas as semanas à beira do abismo. Agora, o objetivo é fazer com que soçobre antes da Ucrânia implodir. Não só a perceção da realidade se torna cada vez mais evidente, como escasseiam ideias claras sobre o modo de evitar uma catástrofe geoestratégica. Charadas sem sentido, como esta da força internacional, provam o argumento deste texto.

As cimeiras de Anchorage e de Washington

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/08/2025)


Zelensky e os europeus, que há um ano se preparavam afanosamente para organizar uma conferência de paz na Suíça, sem a presença da Federação Russa, desesperaram agora por um convite para se sentarem à mesa das negociações, apesar de se desconhecer qualquer proposta de paz da sua parte.


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Os últimos desenvolvimentos políticos relacionados com a guerra na Ucrânia estão a ser marcados pela cimeira entre os presidentes Donald Trump e Vladimir Putin (15 de agosto), em Anchorage, no Alasca, e pelas reuniões, em Washington, entre os presidentes Trump, Volodimyr Zelensky e vários dirigentes europeus, a pedido destes. Apesar da interligação entre os eventos – os segundos decorrem do primeiro – merecem ser analisados separadamente.

O ambiente ao redor da cimeira no Alasca contrasta com o dos tempos de Obama e de Biden. Assistimos às duas maiores potências nucleares do mundo a tentarem estabelecer um clima de confiança mútua. A Rússia foi reconhecida como um par pelos EUA, abrindo as portas a um novo ciclo de diálogo e de normalização das relações diplomáticas entre os EUA e a Rússia baseado em reuniões de alto nível, em que Putin foi recebido como um igual.

O Alasca poderá ter sido o início de uma nova abordagem ao debate sobre a “indivisibilidade da segurança”. Para desgosto dos europeus, Trump não alinhou na política de ostracização de Moscovo alimentada pelo seu antecessor. Não por preconceito, mas por necessidade.

Percebeu que a estratégia da Administração anterior se tinha tornado insustentável. Não só não conduziu à tão almejada derrota estratégica da Rússia, como está longe de o conseguir, sonho que os alucinados dirigentes europeus ainda alimentam, depois de 18 ineficazes pacotes de sanções. É do interesse da América obter uma solução para o conflito. Neste cálculo, Trump sabe, embora não o diga, que os EUA não dispõem da capacidade e dos recursos que tiveram no passado. Por isso, a América tem de voltar a ser grande outra vez, porque deixou de o ser, por enquanto. Trump está ciente de que não é tão poderoso quanto alardeia publicamente.

Seria ingenuidade concluir que os EUA abandonaram o projeto da primazia global. Como alguém afirmou, “o sistema funciona, leia-se o estado profundo, independentemente de quem está na Casa Branca”. Permanece no ar até que ponto esse projeto foi abandonado depois dos recentes acontecimentos no Cáucaso do Sul, e da assinatura de um acordo de princípios, relativamente ao futuro das relações entre a Arménia e o Azerbaijão, mediado por Trump.

Trump sabia que a ameaça de tarifas contra a Rússia e os países com que Moscovo mantém relações comerciais, utilizada para calar os neocons republicanos, não era exequível. A marcação da cimeira no Alasca foi uma fuga para a frente inteligente, furtando-se a uma derrota humilhante. Trump sabia que Moscovo ia fazer ouvidos de mercador às ameaças, como o fez. Putin encontrava-se numa situação favorável.

Estão ainda por conhecer os assuntos discutidos na cimeira. A guerra na Ucrânia foi apenas um deles. Não se sabe qual foi o empenho de Trump na renegociação do Novo Tratado START e de outras ações no âmbito do controlo do armamento nuclear, ou a resposta à recente colocação de armas nucleares na Europa, em particular no Reino Unido, de onde tinham sido retiradas há 15 anos.

Ainda não foram ultrapassados os vários irritantes que têm vindo a inquinar as relações entre as duas potências, como seja a já acordada restituição do imobiliário russo arrestado pela Administração Biden. E também o desnecessário e inconveniente anúncio do general Christopher Donahue, comandante do Exército dos EUA na Europa e África, da existência de um plano da NATO para tomar rapidamente o exclave russo de Kaliningrado, no momento em que se encontram em curso iniciativas diplomáticas desanuviadoras das relações políticas entre as duas maiores potências nucleares do planeta.

Da cimeira ressaltou uma clarificação da posição de Trump quanto ao futuro do conflito: o acordo de paz deve preceder o cessar-fogo; aceitação das linhas vermelhas russas, em particular, aquelas com implicações securitárias. Em função disso, Trump colocou em Zelensky o ónus da paz, caso não ceda às condições russas. A ideia continua válida mesmo depois da reunião de Trump com Zelensky, na Casa Branca (18 de agosto). Trump abandonou o plano do general Keith Kellogg e as ameaças de sanções a Moscovo.

Alguns analistas desvalorizam a importância da cimeira devido à ausência de um acordo formal, fazendo vista grossa às declarações de Trump relativamente à adesão da Ucrânia à NATO, ao abandono das ilusões que Kiev ainda mantém relativamente à recuperação da Crimeia e de outros territórios do Donbass, em linha com os objetivos de Moscovo, que não podem, de modo algum, ser desconsideradas. Ganharam ainda maior relevância quando foram repetidas uma semana mais tarde em Washington, a Zelensky e aos dirigentes europeus que o acompanharam, aparentando Trump seriedade nas suas convicções.

Depois de uma reunião dos embaixadores dos 27 países da União Europeia (UE), no início da manhã de 16 de agosto, a UE não foi capaz de adotar prontamente uma declaração conjunta sobre a cimeira. Em vez disso, os líderes de cinco dos 27 Estados-membros da UE e do Reino Unido – emitiram uma declaração, que a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen publicou no X, em que reiterava o discurso conhecido de Bruxelas sem apresentar uma proposta de paz.

A cimeira veio igualmente evidenciar o caminho da justiça penal internacional para a irrelevância. Está a perder eficácia como ferramenta de manobra política para penalizar líderes não alinhados com as políticas do Ocidente. Apesar de a Rússia e dos EUA não serem signatários do Acordo de Roma, não deixa de ser significativo o facto de mais um líder indiciado com um mandado de captura do TPI ser recebido com honras de estado e passadeira vermelha.

As reuniões na Casa Branca

Zelensky e os europeus, que há um ano se preparavam afanosamente para organizar uma conferência de paz na Suíça, sem a presença da Federação Russa, desesperaram agora por um convite para se sentarem à mesa das negociações, apesar de se desconhecer qualquer proposta de paz da sua parte, como acima referido, mesmo que essa aventura pudesse envolver desconsiderações.

O modo como foram recebidos contrasta com a receção dada a Putin. Trump não cumprimentou pessoalmente nenhum dos dirigentes europeus quando chegaram à Casa Branca. Não satisfeitos com o tratamento que receberam em Pequim, submeteram-se voluntariamente a um novo enxovalho. Foram propositadamente recebidos por um membro do staff para lhes mostrar o seu papel subalterno na presente reestruturação em curso da ordem mundial.

Não se registaram progressos tangíveis na reunião de Trump com Zelensky na Casa Branca e nas que se seguiram com a presença dos dirigentes europeus. A conversa de Trump com os seus homólogos, ao vivo e a cores para o mundo assistir, assumiu aspetos verdadeiramente bizarros e patéticos. Enquanto os dirigentes europeus regurgitavam as “lines” acordadas nas reuniões preparatórias com Zelensky, dias antes na Europa, Trump ia-os contradizendo. O chanceler alemão Friedrich Merz falava na necessidade de um cessar-fogo e Trump contrariava-o dizendo que se devia avançar de imediato para um acordo de paz, como condição para negociações futuras. Enquanto a presidente da Comissão Europeia Ursula Von Der Leyen mostrava preocupação com as crianças ucranianas, Trump informava-a que que não estavam ali para discutir esse assunto.

Atingiu-se o clímax com as intervenções do presidente francês Emmanuel Macron e do presidente finlandês Alexander Stubb. O primeiro obcecado por umas inexequíveis garantias de segurança, advogava a presença de “forças de dissuasão” em território ucraniano, reiteradamente vetadas pela Rússia. Como disse o presidente do Conselho Europeu Antonio Costa seria algo “similar ao Art.º 5.º da NATO” conjuntamente com os EUA a continuar o fornecimento de armamento a Kiev e a treinar as forças armadas ucranianas.” A parte americana esclareceu, uma vez mais, que não fornecerá armas nem dinheiro à Ucrânia. “Agora vendemos-lhe armas, e os países europeus pagam-nas.” Segundo a porta-voz da Casa Branca, “os EUA não enviarão tropas para a Ucrânia como parte das garantias de segurança concedidas ao país.”

Para não ficar atrás dos seus homólogos, contradizendo tudo o que tem vindo a dizer antes e depois da reunião, provavelmente sem ter a noção do alcance das suas palavras, e com base na longa experiência de relações da Finlândia com a Rússia, Stubb aconselhou a Ucrânia a seguir o exemplo da Finlândia. Sem o vocalizar, estava a sugerir que a Ucrânia, à semelhança da Finlândia, declarasse neutralidade e cedesse territórios, como teve de fazer em 1944 relativamente à URSS, depois de ter combatido durante a segunda guerra mundial ao lado das forças hitlerianas.

Como observou o Washington Post, “a reunião de várias horas não eliminou as evidentes divergências entre os líderes europeus e Trump, que afirmou estar Putin pronto para a paz e exigiu a Kiev amplas e dolorosas concessões para acabar com a guerra”. A Ucrânia e os seus apoiantes europeus não moveram um milímetro da sua posição inicial, demonstrando claramente os limites da influência de Trump.

Numa conferência de imprensa, imediatamente após as reuniões com os seus homólogos, defronte da Casa Branca, Zelensky admitiu deixar cair a ideia do cessar-fogo. Terá sido a única evolução tangível. Foi intransigente no restante, nomeadamente em relação à cedência dos territórios.

Trump quer realizar uma reunião com Putin e Zelensky, em 22 de agosto, mas Putin deixou bem claro que só se reunirá com Zelensky depois de os detalhes da rendição ucraniana terem sido acordados, o que está longe de acontecer. As condições não se encontram ainda maduras para que tal possa acontecer. Trump está erradamente convencido de que basta reunir Putin e Zelensky para se chegar a um acordo,

Moscovo referiu a possibilidade de estudar a proposta de reunião para que, jogando com a ambiguidade estratégica, confira espaço de manobra a Trump para «trabalhar» com os europeus e Zelensky.

Portanto, a guerra continuará até à exaustão de uma ou das duas partes. Entretanto, a propaganda continua com os mesmos argumentos de há três anos. A economia da Rússia está em dificuldades, a vitória é possível porque a economia russa está numa situação desesperada, à beira do colapso; as forças armadas russas não conseguem derrotar os soldados ucranianos, os soldados russos morrem diariamente aos milhares, e a situação militar encontra-se num impasse, etc. Os propagandistas só devem conseguir dormir mais relaxados depois de regurgitarem as suas verdades. Entretanto, os combates ucranianos continuarão até ao último ucraniano. Por fugas de informação provenientes do lado ucraniano, já terão perecido, segundo fontes ucranianas, cerca de 1,7 milhões de ucranianos. Excluem-se deste valor mercenários e amputados.