O Major-general Carlos Branco vai voltar à televisão

(Major-General Carlos Branco, in MultipolarTV, 20/08/2025)


Sim, é verdade. O Major-general Carlos Branco vai regressar ao comentário na televisivo dos conflitos em curso na atualidade e da sua envolvência geopolítica. Isto mesmo foi avançado pelo próprio na sua intervenção de ontem no canal MultipolarTV do Youtube que abaixo publicamos. Será um programa semanal de análise de que ainda estão a ser negociados detalhes, mas o formato deverá inibir as provocações dos Bellos Moraes e quejandos, como ocorreram recentemente. Porque está ainda em negociações Carlos Branco coibiu-se de nomear qual o canal de TV onde reatará as suas análises, mas a Estátua já teve um lamiré de que será um regresso à CNN.

Mas vejam o vídeo abaixo com o comentário do Major-general Carlos Branco à atualidade geopolítica e, se gostarem e assim o entenderem, subscrevam o canal MultipolarTV no Youtube.

Estátua de Sal, 21/08/2025)


O Mundo em Perspectiva – Major-general Carlos Branco

Os títeres

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/08/2025)


Para os títeres, a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de Direitos Humanos estão equivocados e ao serviço do Hamas por considerarem os acontecimentos em Gaza um genocídio.


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Apesar de desfeito, segundo Telavive, o Hamas ainda tem uma réstia de fulgor e ainda nos consegue ludibriar. Afinal não há fome em Gaza. As imagens de crianças subnutridas não são verdadeiras. São fabricadas, manipuladas e editadas pelo Hamas para impressionar as opiniões públicas. A fome em Gaza é uma narrativa fabricada, o que vemos são imagens produzidas e editadas pelo Hamas. Segundo o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) as horrendas imagens de crianças famintas inserem-se numa campanha de falsidades destinada a moldar perceções. Como alguém disse, trata-se da “pornografia da fome”.

Bem vistas as coisas, até talvez possa haver alguma fome em Gaza, mas o responsável é o Hamas, conivente com as agências da ONU que trabalham em Gaza; seguramente que essa responsabilidade não pode ser atribuída ao Governo israelita nem às irrepreensíveis FDI.

É um Hamas masoquista que destrói árvores, polui as águas costeiras e infiltra poluentes nas fontes de água subterrânea. É um desbaratado Hamas que impede os camiões carregados de alimentos, estacionados em Israel e no Egipto, de entrar na Faixa de Gaza, é quem dispara sobre as ambulâncias do Crescente Vermelho e sobre os palestinianos que aguardam na fila por uma malga de sopa.

Também não há mortos civis em Gaza. O número de mortos é fabricado pelo Hamas. As FDI são uma força moral, nunca matariam civis nem cometeriam crimes hediondos. Nada disso. Andamos todos a ser trapaceados pelo Hamas. Afinal o projeto da Riviera de Gaza e a expulsão dos palestinianos de Gaza não passou de um equívoco semântico, uma graçola. Percebemos todos mal. Não se tratava, de modo algum, de limpeza étnica. Só mentes sediciosas poderiam cogitar tal conspiração.

São precisas pessoas muito especiais, desprovidas de ética, para propalar estas “verdades”. É preciso “estômago” para dizer que não há fome em Gaza. Falamos de gente que vendeu a alma ao Diabo e se colocou ao serviço de um projeto demoníaco. Depois do Holocausto, esta é seguramente a maior atrocidade dos séculos XX e XXI, mais perversa do que os crimes em série de Pol Pot, no Camboja, ou a perseguição mortal aos Rohingya, em Myanmar, desta feita em direto nas televisões e sem defensores convictos nas lideranças ocidentais.

Referimo-nos a pessoas que branqueiam conscientemente a matança mais abjeta do planeta e que lançam fumo para manter os incautos na dúvida; gente desprovida de consciência que escamoteia os factos. Não deixa de nos surpreender – 80 anos após a assinatura da Carta das Nações Unidas – a ocorrência desta barbárie e, apesar da informação disponível, existirem pessoas a colocarem-se despudoradamente ao serviço dos responsáveis pelos acontecimentos em Gaza.

Os manipuladores precisam dos títeres para fazerem o trabalho sujo, pessoas desprezíveis que se prestam a tal. Negam todas as evidências. Como alguém escreveu magistralmente, se tivessem vivido em 1943, “estes comentadores até poderiam dizer que Birkenau era um campo de férias e que os vapores do gás provinham de banhos turcos.” Um dia destes dirão que as imagens de Gaza destruída são uma construção da Inteligência Artificial, ou mesmo uma instalação, e os emaciados palestinianos não passam de atores contratados. Quem desmonte estas alucinações é apelidado por eles de antissemita. A palavra sionismo foi apagada dos seus dicionários.

Ironicamente, os defensores da “verdade” não permitem que ela seja mostrada. O correspondente da BBC para o Médio Oriente sabe do que falo quando o impediram de filmar a partir do avião militar em que voava. “Israel não permitirá que repórteres como eu entrem em Gaza para relatar a história, eles não querem que a vejamos, ou que a filmemos, de qualquer forma, mesmo do céu.” Muito haveria a dizer sobre isto.

Como o Hamas rouba a ajuda humanitária contornando o sistema montado pela ONU, foi preciso Telavive substituí-lo por uma empresa privatizada norte-americana (GHF) protegida por contratados armados. Tudo isto, sem haver, segundo militares israelitas evidências de que o Hamas roube sistematicamente a ajuda da ONU, em Gaza, e confirmarem a eficácia do sistema da ONU que resiste à interferência do Hamas.

O antigo funcionário da GHF Anthony Aguilar corroborou as alegações da ONU de que Israel mata deliberadamente civis, incluindo crianças, que esperavam por comida e água nos postos de assistência, na faixa de Gaza, contrariando as lucubrações negacionistas de que os palestinianos não são mortos nos centros do GHF pelos elementos das FDI nem do GHF, mas pelo Hamas. O GHF apoiado pelos EUA para substituir as agências da ONU tem muito menos locais de distribuição de alimentos e tem sido letal para os civis, tendo matado mais de 1.300 pessoas que tentavam aceder à comida.

Os factos alternativos amplificados pelos títeres são desmontados e levadas ao tapete pelos israelitas que ainda têm algum assumo de decência. O ex-primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, num assombro de humanidade, considerou ilegal a guerra em Gaza e declarou que “já matamos e destruímos o suficiente em Gaza.” Estas ações podem ser consideradas crimes de guerra e são motivadas pelos interesses pessoais e políticos de Netanyahu. Os grupos israelitas de Direitos Humanos B’Tselem e Physicians for Human Rights Israel rotularam a guerra de Israel em Gaza como genocídio.

O branqueamento do genocídio abraçado pelos títeres é uma falha moral hedionda. Gaza está arrasada, sem infraestruturas, as pessoas estão a morrer diariamente aos magotes, e a culpa não é do Hamas. Para estas pessoas, a limpeza étnica e o genocídio não são a barbárie, mas sim a civilização. Haverá algum país, para além de Israel, que defenda matar os seus próprios cidadãos para não serem feitos prisioneiros (protocolo Hannibal), que terá sido implementado nos trágicos acontecimentos de 7 de outubro? Para estes seres, é um ato civilizacional as alusões de Netanyahu à condição sub-humana dos palestinianos, e à completa destruição de todos os amalequitas – incluindo bebés, bens, animais – tudo, aplicado ao Hamas e aos palestinianos.

A linguagem “politicamente correta” dos ministros israelitas extremistas Smotrich e Ben-Gvir, em matéria de limpeza étnica na Faixa de Gaza, levou a Holanda a declará-los persona non grata. Só a tremenda condenação internacional fez com que Netanyahu aprovasse timidamente o aumento da ajuda humanitária a Gaza, apesar da oposição do partido sionista religioso de Bezalel Smotrich, que defende abertamente a fome como arma de guerra. Não foi de livre vontade que Netanyahu o fez.

Para os títeres, a Amnistia Internacionala Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de Direitos Humanos estão equivocados e ao serviço do Hamas por considerarem os acontecimentos em Gaza um genocídio. Provavelmente, concordam que bombardear e fazer passar à fome até à submissão, matando, mutilando e deslocando a população é um adequado “incentivo à emigração”. Não é a barbárie a sobrepor-se à civilização. A negação sem incómodo ou perturbação moralmente inaceitável do que está a ocorrer em Gaza indica que não são seres saudáveis. As narrativas mirabolantes que constroem e inventam para sustentar as suas teses, assumem contornos de uma grave psicopatia.

Os indigentes

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 31/07/2025)


A Europa é chefiada por indigentes e Trump perdeu-lhes o respeito, se é que alguma vez o teve. Além de despedaçar a Europa, Trump mostra o seu desprezo pelo projeto europeu que poderia vir a desafiar o poder norte-americano.


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Há uns tempos escrevi um texto sobre as vulnerabilidades estratégicas da União Europeia (UE) e como elas condicionam a sua autonomia. Parece que os dirigentes europeus ainda não as interiorizaram. Para que a UE possa sobreviver e tenha margem de manobra política, faz sentido que os seus dirigentes em Bruxelas identifiquem essas vulnerabilidades e o impacto que possam provocar no seu relacionamento com as grandes potências ou blocos comerciais.

Em tempos sugeri que, para nosso bem, a União deveria funcionar como um mediador das divergências geopolíticas entre os EUA e a Rússia e entre os EUA e a China. Isso poderá ser agora demasiado tarde. Tal opção permitiria à Europa afirmar-se como um ator relevante na cena internacional, em vez de se eternizar no papel de deputy sheriff, esvaziando de sentido as suas pretensões de autonomia estratégica por que tanto tem pugnado.

A inabilidade diplomática de Bruxelas levou aos deploráveis espetáculos que começaram em Pequim e se prolongaram na Escócia. Pequim e Washington não respeitam a União Europeia. Em Pequim, Ursula von der Leyen, António Costa e Kaja Kallas foram transportados do avião em que chegaram por um autocarro do aeroporto, como se fossem passageiros de uma companhia aérea económica. Na Escócia, von der Leyen foi recebida no clube de golfe de Donald Trump, e teve de esperar que este terminasse o “último buraco”.

O comportamento destes inefáveis dirigentes recorda-me aqueles que tiveram de recorrer aos fundos europeus e ao alojamento local para manter a mansão de família, mas que ainda procuram impressionar quem os ouve recorrendo insistentemente a um passado que já não existe.

A reunião em Pequim, no dia 24 de julho, com o objetivo de marcar os 50 anos do estabelecimento de relações bilaterais entre a União e a China, saldou-se por um tremendo fiasco. Os pigmeus foram explicar a Pequim como se devia comportar com a Rússia. Não perceberam que a sua vulnerabilidade estratégica não aconselha a falar com voz grossa, e que o atual estado de coisas é, em grande parte, o resultado dos indigentes terem elevado a Ucrânia ao estatuto de principal prioridade da política externa da UE: um estado não-membro tornou-se o principal fator determinante de todas as decisões e respetivas consequências relativamente aos 27 Estados-membros. A cimeira que deveria originalmente ter tido lugar em Bruxelas e durar dois dias reduziu-se a um só, terminando em nada.

Ainda atordoados com o que lhes tinha acontecido em Pequim, foram confrontados, na Escócia, com a segunda humilhação em três dias. Esta continuaria quando cederam em toda a linha às imposições de Trump. Von der Leyen aceitou tudo o que lhe foi imposto. Os EUA estabeleceram uma tarifa única de importação de 15% para a maioria dos produtos da UE, e de tarifa de 0% para alguns produtos estratégicos. Neste pacote de 15% incluem-se os automóveis, o principal motor da indústria alemã e da economia europeia. As tarifas aduaneiras sobre o aço e o alumínio europeus permaneceram em 50%, embora esteja em discussão a possibilidade de se avançar para um sistema baseado em quotas (volume) de exportações, depreende-se.

Simultaneamente, a União comprometeu-se a investir US$ 600 mil milhões nos EUA, a comprar US$ 750 mil milhões de energia norte-americana nos próximos três anos e a aumentar as aquisições de equipamento militar americano. No final von der Leyen descreveu o tratado como um grande sucesso: “Foi difícil para nós. Mas agora conseguimos”, ficando por esclarecer o que foi que conseguiu.

Disse sem se rir, que “as compras de produtos energéticos dos EUA diversificarão as nossas fontes de abastecimento e contribuirão para a segurança energética da Europa. Substituiremos o gás e o petróleo russos por compras consideráveis de gás, petróleo e combustíveis nucleares dos EUA”. O facto de serem significativamente mais caras do que as russas não a incomoda. Terá aderido à tese do então secretário da energia Rick Perry quando este afirmou, em 2019, a superioridade do gás natural norte-americano por ser o gás da liberdade.

Em troca de todas as concessões feitas, a UE não recebeu qualquer contrapartida. Foi um jogo de soma zero. Recorrendo à terminologia de Carlo Cipolla, na sua “Teoria Geral da Estupidez”, os EUA fizeram o papel de “maus” e os dignitários europeus o de “ingénuos”. Segundo alguns especialistas, a UE sofrerá um prejuízo líquido de cerca de 1,4 triliões de dólares sem receber garantias ou benefícios. Depois desta “grande vitória” europeia – conseguiram uma tarifa de 15% em vez dos iniciais 30% -, Trump veio vangloriar-se deste ser o “maior acordo de sempre”, melhor do que os celebrados com o Japão e com o Reino Unido.

Os EUA obtêm receitas significativas pela importação de bens da UE e podem ganhar ainda mais, pois o acordo deixa a porta aberta para Washington aumentar as tarifas se a Europa não cumprir com as compras com que se comprometeu. E, como veremos, muito provavelmente assim será.

A Reuters e a Bloomberg consideram irrealista a possibilidade de Washington exportar energia para a UE no valor de US$750 mil milhões. “A promessa da UE importar US$250 mil milhões de dólares de energia dos EUA [anualmente] é um disparate”, escreve a Reuters. De acordo com os seus dados, os produtores americanos não serão capazes de satisfazer esse nível de importação. O valor total das importações de petróleo bruto da União a partir dos EUA, gás e carvão de coque, em 2024, foi de apenas US$64,55 mil milhões, o que representa 26% dos prometidos US$250 mil milhões, com que a UE se comprometeu a gastar anualmente. Isto significa que a UE não os conseguirá atingir.

Perante tremenda capitulação, as reações nalguns países da União não se fizeram esperar. “É um dia negro quando uma aliança de povos livres, unidos para afirmar os seus valores e defender os seus interesses, se resigna à submissão”, escreveu no X o primeiro-ministro francês centrista François Bayrou. Na manhã de 28 de julho, Viktor Orbán comentava no seu podcast que “não foi um acordo que o Presidente Donald Trump fez com Ursula von der Leyen. Foi o Donald Trump a comer a Ursula von der Leyen ao pequeno-almoço”.

Pelo seu lado, o chanceler alemão Friedrich Merz afirmou não estar satisfeito com o resultado do acordo e reconheceu que a economia alemã iria sofrer danos “significativos”, mas de modo condescendente, afirmou que “simplesmente não era possível fazer mais”. Com a aquisição de equipamento militar aos EUA, o sonho da reindustrialização alemã à custa da revitalização da indústria do armamento poderá estar comprometido.

Os problemas começaram a alastrar, com a agenda verde europeia a entrar em colapso. Segundo o Welt, o Qatar, um dos principais fornecedores de gás natural liquefeito (GNL) da UE, poderá vir a suspender as exportações de GNL para a Europa, a menos que o bloco flexibilize as principais regulamentações climáticas previstas na sua Diretiva da Cadeia de Abastecimento. O Ministro da Energia do Qatar Saad Sherida Al-Kaabi disse ” que as empresas [do Qatar] não devem ser forçadas a escolher entre cumprir as políticas climáticas e as regulamentações da UE”. Parece não serem apenas os chineses a estar cansados das lições e do “paternalismo” da UE.

Estes desenlaces só vêm provar a justeza daquilo que dizemos há anos. A Europa é chefiada por indigentes e Trump perdeu-lhes o respeito, se é que alguma vez o teve. Trump está a conseguir despedaçar a Europa e a mostrar o seu desprezo pelo projeto europeu que poderia vir a desafiar o poder norte-americano.

O acontecimento da Escócia foi uma tremenda vitória político-económica dos EUA e uma clara derrota da UE. Por outras palavras, um embaraço. Trump está a tentar fazer com o Brasil algo semelhante, mas sem sucesso. O Brasil tem uma margem de manobra que a Europa não dispõe. O Brasil tem parceiros, tem opções.

A exímia diplomacia europeia conduziu-nos para um beco sem saída onde não temos aliados. Para onde é que se vai a UE virar? Seguramente que não será para o sul global. Bruxelas tem medo da sua própria sombra. Ao não ter ensaiado uma retaliação conjunta com a China aos EUA cavou a sua própria sepultura. Fraqueza só traz mais exploração.

Depois de impor aos aliados 5% dos orçamentos nacionais em gastos com a Defesa, na Cimeira da NATO, em Haia, e agora este “acordo comercial”, ainda há quem continue a achar que Trump é errático, inconstante, e que não sabe o que quer. Entretanto, campeiam os comentadores mansos e fofinhos, ou se preferirmos, cobardes, a defenderem a TINA (“There Is No Alternative”) e a darem cobertura à humilhação. Talvez se deva aplicar aqui o que rei D. Juan Carlos disse ao presidente venezuelano Hugo Chávez numa cimeira latino-americana. Parece estarmos condenados ao século da humilhação da Europa.