Não é a democracia, é o petróleo!

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 12/02/2026)


A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão. A mudança tem de vir de dentro.


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O ataque israelo-americano, em junho de 2025, ao Irão e as recentes ameaças norte-americanas de decapitar o regime iraniano, não passam de mais um capítulo de uma longa série de peripécias iniciadas, em 1979, quando o Xá Reza Pahlavi foi deposto pela revolução islâmica, e instaurado o regime dos aiatolas.

As autoridades norte-americanas têm disfarçado os motivos dos seus intentos. Oficialmente, as suas ações são beneméritas e visam promover a democracia, a libertação dos iranianos de um poder opressor e maléfico e, assim, altruisticamente, trazerem-lhes a paz e o progresso. Têm contado nesta campanha messiânica com o apoio de múltiplas caixas de ressonância na Comunicação Social, que, de uma forma mais ou menos voluntária, se tem prestado a difundir e a amplificar o logro.

O regime iraniano sofre de vários problemas, sobejamente conhecidos, cuja resolução terá de ser encontrada pelos próprios iranianos, não por Washington, Telavive ou por qualquer outra entidade estrangeira. Afegãos, iraquianos, líbios e sírios, entre outros, sabem do que falo.

A cruzada, acicatada por Telavive, não visa libertar o povo iraniano do jugo opressor dos aiatolas. O objetivo é bem mais pragmático: colocar no poder alguém manipulável que facilite a Washington e a Telavive a concretização dos seus desígnios estratégicos e económicos.

O problema deixaria de estar no regime, se os recursos minerais do país fossem privatizados e entregues à exploração de companhias norte-americanas. Washington viverá muito bem com isso, como viveu no tempo do Xá, de cuja polícia política os mais velhos ainda se recordam e têm bem presente.

Os aiatolas cometeram o “erro” de nacionalizar as empresas petrolíferas estrangeiras que operam no Irão. Deviam ter aprendido com Mohammed Mossadeq, o primeiro-ministro iraniano eleito democraticamente e deposto, em 1953, por um golpe de estado patrocinado pelo MI6 e pela CIA, por ter cometido o “horrível crime” de privatizar as empresas petrolíferas estrangeiras.

Não terá sido a incomodidade com o regime político em Bagdade que levou Washington a financiar a guerra de oito anos, de Sadam Hussein contra o Irão, e a fornecer-lhe armas químicas. Como não terá sido, também, a incomodidade com o regime dos aiatolas que levou elementos próximos da Administração do presidente Ronald Reagan a vender-lhes – secretamente – equipamento militar para financiar os “Contra”, na Nicarágua.

Como também não terá sido o desconforto com o regime que levou os EUA a colaborar intensamente, e com grande proximidade, com Teerão para derrubar os Talibã, em 2001. Como também não houve embaraço e falta de pruridos por parte do presidente George Bush para classificar Teerão, em 29 de janeiro de 2002, como pertencendo ao “Eixo do Mal”, e passados alguns meses lhe pedir novamente ajuda no planeamento da operação militar que levou ao derrube de Saddam Hussein, em 2003, o mesmo que tinha ajudado na década de oitenta do século XX contra o Irão. Apesar de receosa – presença de contingentes norte-americanos significativos nas suas fronteiras Oeste e Leste – Teerão lá teve de ceder, temendo uma retaliação pela sua “ousada” desobediência.

Camuflar as suas verdadeiras intenções com o programa nuclear não passa de engodo para tolos. O Irão cumpria rigorosamente o acordado no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), conhecido como “acordo nuclear iraniano”, em 2015, quando os EUA o abandonaram unilateralmente, em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, o que mostrou a Teerão que o cumprimento integral do Plano e a cooperação sem precedentes com a Agência Internacional de Energia Atómica, não eram suficientes para garantir a sua segurança.

Particularmente exasperante é o facto de existirem soluções para o “problema nuclear” iraniano e todos saberem quais são: a empresa nuclear estatal da Rússia, Rosatom, mostrou disponibilidade para assumir a gestão e a supervisão do enriquecimento limitado de urânio iraniano destinado a fins não militares, no Irão, assegurando que o enriquecimento permanece dentro dos limites (3,6%); ou, a criação de um consórcio de enriquecimento de urânio que envolva o Irão, a Turquia, o Egito, a Arábia Saudita, os Estados árabes do Golfo Pérsico e as principais potências globais. Este segundo modelo tem ainda a vantagem de permitir ultrapassar as preocupações existentes quanto à proliferação nuclear na região, salvaguardando ao mesmo tempo o acesso igualitário à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Nenhuma destas soluções, ou quaisquer outras, interessa a Washington, uma vez que não pretende resolver o “problema”. A sua resolução esvaziar-lhe-ia o pretexto para a ação militar, que Telavive tanto anseia.

E agora?

Têm sido muitas as iniciativas diplomáticas, em particular as regionais, para convencer Trump a não se envolver numa guerra com o Irão. Excluem-se deste leque as de sinal contrário, promovidas por Israel e pelo bloco sionista em Washington, instalado na Administração e no establishment político norte-americano.

Para conversar com Teerão, Washington apresentou três exigências fundamentais. O Irão tinha de abandonar o seu programa nuclear, reduzir as suas forças de mísseis (em alcance e em número) e deixar de apoiar os seus proxies, um ultimato frontalmente rejeitado. Contrariando Washington, Teerão resistiu às ameaças norte-americanas e mostrou-se disponível para falar apenas sobre um ponto: o programa nuclear, o enriquecimento de urânio e o potencial levantamento de sanções. Os EUA cederam na agenda e delegações dos dois países encontraram-se em Omã, sob mediação do ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, no dia 6 de fevereiro, em Mascate. Acordaram em continuar a negociar, o que significa ausência de progressos. A inclusão do programa nuclear na agenda da reunião vem comprovar a farsa que foi o ataque às instalações nucleares iranianas em Fordow. Ao contrário do alardeado por Trump, o programa nuclear iraniano não foi “completa e totalmente destruído”. A ter sido, não faria sentido considerá-lo agora um tema a negociar.

À última hora, os EUA introduziram na agenda a interrupção do fornecimento de petróleo à China. Algumas horas após o fim da reunião, Trump assinou uma ordem executiva em que os Estados Unidos imporiam tarifas de 25% a qualquer país que fizesse negócios com o Irão. É difícil ver como é que vão impor essa decisão à China ou à Índia.

Trump encontra-se sob uma enorme pressão política. Paradoxalmente, o Irão encontra-se numa posição vantajosa à mesa das negociações. As hipóteses de uma vitória militar norte-americana sobre o Irão não são risonhas. Relembramos a “vitória” de Washington contra os Houtis, do Iémen, em março-maio de 2025. Acabariam por retirar após sete semanas de bombardeamentos, a perda de três caças F-18, de sete drones MQ-9 Reaper, e o porta-aviões Eisenhower danificado.

Assistimos, entretanto, a uma alteração significativa do discurso de Teerão relativamente a um novo ataque dos Estados Unidos. O Irão parece não se sentir ameaçado. Desta vez, a resposta não será simbólica; será imediata, total e sem precedentes, dando crédito às autoridades iranianas. A resposta concentrar-se-á em Israel, visando o coração de Telavive, de modo a quebrar a sua capacidade de dissuasão e a expor a ilusão de invulnerabilidade do território israelita, já afetada na guerra de junho de 2025, apesar das tentativas para o encobrir.

Um ataque norte-americano “limitado” tornou-se uma ilusão. Teerão sabe que os EUA aguentam um combate intenso, mas que terá de ser de curta duração. Correm riscos elevados numa guerra de atrição prolongada. Ao que se acrescenta o facto de os Estados Unidos não poderem usar os aliados regionais como plataforma de lançamento para atacar o Irão, por aqueles terem proibido as aeronaves norte-americanas de sobrevoarem o seu espaço aéreo.

Não se está a menosprezar o brutal poder de fogo e capacidade militar norte-americana, mas tão somente a interrogar se será suficiente para incapacitar uma grande potência militar como o Irão e evitar retaliações. Sem esquecer que a televisão iraniana mostrou um vídeo com o sobrevoo do porta-aviões Abraham Lincoln por um drone iraniano. Sem omitir a não desprezível capacidade iraniana em mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos, capazes de atingir bases americanas no Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e locais na Jordânia e Omã, assim como derrubar os navios e o porta-aviões norte-americano.

Nos últimos seis meses, o Irão tem-se preparado intensamente para esta guerra que está para acontecer, tendo conseguido restaurar a produção em larga escala de mísseis, as infraestruturas subterrâneas foram aumentadas e há rumores de terem sido testados novos mísseis e armas. A decisão de Trump em atacar deverá também levar em conta o recente pacto estratégico assinado entre o Irão, a China e a Rússia, e o facto de Pequim ter deslocado para o Irão radares com capacidade para identificar aeronaves furtivas, como os F-35 e os B-2. Os EUA terão de enfrentar a tecnologia chinesa, o que aumenta significativamente o risco da aventura militar e as consequências catastróficas de um desaire.

Perante todos estes desafios interrogamo-nos qual a margem de manobra para Trump voltar para trás. Segundo um parlamentar iraniano, antes das negociações em Abu Dhabi, Trump teria enviado, através de um país intermediário, uma mensagem ao Irão propondo uma fórmula semelhante à de junho de 2025: “Deixem-me atingir 2 locais no Irão – vocês respondem, e depois acaba tudo.” Parece que os iranianos desta vez não estarão pelos ajustes.

Contrariando tudo o que parece razoável e incorrendo num erro grave de análise, assistimos a uma notável corrente de comentários em apoio da escalada militar, considerando-a o meio capaz de acelerar o colapso do regime e de provocar a sua implosão. O Irão está longe de ser a Líbia ou a Venezuela. A experiência de junho de 2025 e janeiro de 2026 já devia ter levado a perceber a ausência de sentido de uma intervenção militar estrangeira para provocar uma mudança de regime no Irão.

A mudança no Irão tem de vir de dentro. É sabido que nem americanos nem israelitas têm alternativas no terreno para colocar no poder. Não apareceu até agora nenhum Gorbachev no Irão. O pretendente ao trono Reza Pahlavi, cuja filha se casou com um judeu, não passa de um fantoche. Nem Washington lhe reconhece utilidade. Ainda é tempo para Trump reconsiderar e evitar males maiores, para ele e para todos nós.

Estamos tramados

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/10/2025)


A histeria sobre a ameaça russa à Europa permite à burocracia europeia destinar mais fundos à defesa e, em última análise, desenvolver uma narrativa que pode conduzir a um ponto sem retorno.


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São imensos os casos na história de operações de falsa bandeira para justificar guerras. Ficaram célebres o afundamento do Maine (1898), o incêndio do Reichstag (1933), o incêndio da baía de Tonquim (1964), o bombardeamento do Mercado de Sarajevo (1995), o dito massacre de Račak (1999), entre outros. Eric Frattini escreveu em 2017 um livro sobre o tema com o título “Manipulação da Verdade”. Com estas operações procura-se culpar o adversário de algo inaceitável e ter assim um pretexto para o atacar preparando, simultaneamente, a opinião pública para apoiar a guerra. É, portanto, uma prática antiquíssima e frequente. Quando posteriormente se prova a falsidade dos factos é tarde, porque os efeitos pretendidos já foram atingidos. É impossível reverter a história.

O clima de insegurança que se vive na Europa provocado pelos alegados drones russos tem contornos que se assemelham aos de operações de falsa bandeira. Fazia sentido tentar confrontar diplomaticamente os russos com provas, o que infelizmente não tem acontecido. No seguimento dos 19 drones (19 setembro) que entraram e caíram ou foram abatidos em território polaco, Moscovo disponibilizou-se para falar com Varsóvia sobre essas ocorrências, mas as autoridades polacas recusaram fazê-lo, sem explicarem o motivo da recusa. O mesmo se aplica às aeronaves russas que terão violado o espaço aéreo da Estónia. As provas são exíguas ou mesmo inexistentes.

Num outro acontecimento, a Polónia prendeu um provocador responsável pelo lançamento de um drone sobre edifícios governamentais, que por coincidência era ucraniano. Entretanto, prosseguiram as “violações do espaço aéreo” em várias capitais europeias provocadas por drones. Os aeroportos em Copenhague, Oslo e Munique foram fechados ao tráfego aéreo durante várias horas. A Noruega, Dinamarca, Suécia e Alemanha relataram a entrada de “drones não identificados” no seu espaço aéreo. Apesar do frenesim acusatório apontar para a Rússia, a Noruega acabou por prender três alemães por lançarem um drone numa área restrita perto do aeroporto.

A Roménia suspendeu temporariamente as operações no Aeroporto de Bucareste por causa de um drone civil próximo da pista (13 setembro). Posteriormente, foi suspenso o tráfego aéreo no aeroporto de Vilnius devido ao aparecimento de…balões de ar quente não identificados (5 de outubro).

Falamos de situações bizarras que, estranhamente, as autoridades não conseguem explicar. Nem a polícia nem os serviços de inteligência alemães conseguiram determinar o local de onde os drones foram lançados. À falta de melhor explicação, levanta-se a suspeita de drones russos lançados a partir de petroleiros da frota fantasma russa. Estas explicações infantis fazem lembrar a responsabilidade russa pelo apagão na península ibérica inicialmente aventada. A ameaça russa serve para tudo, incluindo para tapar a incompetência. Apesar de não poderem ser levadas a sério, a Alemanha, a França e a Suécia enviaram reforços para a Dinamarca, os quais integravam a fragata Hamburg, da Marinha Alemã, e implementaram várias medidas contra drones.

Como se isso não bastasse, o sempre prestável e lesto presidente francês ordenou um assalto a um dos navios suspeitos, que navegava ao largo da costa francesa, em águas internacionais, para encontrar provas do seu envolvimento no lançamento dos drones que teriam supostamente sobrevoado o aeroporto de Copenhaga, em 30 de setembro. Esse ato de pirataria patrocinado pelo governo francês não deu em nada e o presidente francês Emmanuel Macron meteu a viola no saco. O navio retomou discretamente viagem. Owen Matthews, no Spectator, considerou o ataque aos petroleiros da “frota fantasma” um puro ato de teatro. O ensejo de fazer concorrência aos somalis terá ficado por ali. Ted Snider mostrou no The American Conservative estar convencido de que o espetáculo da “ameaça dos drones” terá sido encenado por Kiev para obter mísseis Tomahawk.

Essa demonstração de coragem e tenacidade bélica terá, porventura, sido utilizada por Macron para desviar a atenção da população francesa dos graves problemas internos, que não consegue resolver. Ao nomear quatro primeiros-ministros em menos de um ano, Macron conseguiu bater o recorde que pertencia aos governantes portugueses da 1ª República. Quem também sabia bem como desviar a atenção do povo para ameaças externas era o presidente argentino Leopoldo Galtieri, pois quando apertado em casa pelas suas políticas calamitosas, provocou uma guerra contra o Reino Unido (1982) por causa da soberania das ilhas Malvinas, com resultados desastrosos para a Argentina. Macron parece querer seguir-lhe o exemplo.

Após uma série de alegadas violações russas do espaço aéreo europeu, os líderes da União Europeia reuniram-se em Copenhaga (7.ª Cimeira da Comunidade Política da Europa) para acordar sobre o que fazer para proteger o continente de futuras agressões de Moscovo. Juntou-se ao “porco espinho de aço”, uma outra ideia maravilhosa: construir um “muro de drones”, que na prática significa alocar milhares de milhões de euros para implantar um sistema de monitorização e defesa contra drones ao longo das fronteiras com a Ucrânia, a Bielorrússia e o enclave de Kaliningrado. Os governos alemão, italiano e grego não estiveram pelos ajustes e desaprovaram publicamente o projeto, criticando o financiamento dessa ideia estapafúrdia com fundos europeus. Entretanto, voltou a ser novamente ventilada a tão almejada possibilidade de instalar uma zona de interdição aérea em território ucraniano.

Estes incidentes têm justificado uma feroz narrativa russófoba por parte das chancelarias europeias, apelando à inevitabilidade da guerra. Provavelmente depois de ter ingerido uma dose considerável de Red Bull, o chefe do Estado-Maior do Exército francês General Pierre Schill falou da guerra contra a Rússia “já”. “O Exército francês tem de estar pronto esta noite” para enfrentar os desafios de uma guerra de alta intensidade.

Os preparativos da Europa para uma guerra contra a Rússia são mais do que evidentes e públicos. Na sequência da dita cimeira, em Copenhaga, o presidente da Sérvia Aleksandar Vucic declarou que os países da NATO se estão a preparar seriamente para a guerra. Numa entrevista ao “The Guardian”, o presidente finlandês Alexander Stubb admitiu abertamente que as chamadas “garantias de segurança” da UE para Kiev significavam que os países europeus signatários devem estar preparados para lutar diretamente contra a Rússia.

O deputado do Bundestag Roderich Kizevetter veio dizer que foram registados sobre a Alemanha, nos primeiros oito meses deste ano, mais de 500 voos de drones provenientes de navios russos sobre infraestruturas alemãs de importância crítica. “Estamos a lidar com atos de sabotagem. Portanto, não acredito que não seremos arrastados para esta guerra. A Rússia quer envolver-nos, e devemos ser capazes de nos defender e apoiar a Ucrânia.”

Entretanto, o general britânico Sir Richard Shirreff — antigo segundo-Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa — partilhou os seus receios num alarmante artigo publicado pelo Daily Mail, onde explicou como a Rússia, a pedido de Pequim, poderia atacar a NATO num futuro próximo, assim que a China decidisse invadir Taiwan “para distrair o Ocidente”. Shirreff foi ao ponto de indicar a data do ataque da Rússia à NATO (3 de novembro de 2025, pelas 14h GMT+3). Poderíamos dar muitos outros exemplos da irracionalidade que se instalou na cabeça de muitos líderes europeus.

Independentemente do que possa realmente ser, qualquer referência a drones no espaço europeu é de imediato considerada um ato de sabotagem russo, sem ser necessária qualquer investigação ou prova. Com base nisso, certos dirigentes europeus sustentam a narrativa de uma ameaça permanente à segurança europeia. O que não conseguem explicar é a racionalidade de um ataque da Rússia à NATO. Para quê? Cui bono? Será que acreditam no que estão a dizer? Não deixa de ser curioso ninguém na Comunicação Social achar estranho e/ou interrogar-se sobre esta súbita inflação de drones, que contribui para instalar o pânico nas opiniões públicas.

Uma população com medo faz menos perguntas sobre o destino dos seus impostos e é mais facilmente manipulada. O temor dá jeito aos líderes.

Na Dinamarca, estão a transformar a ameaça fantasma dos drones numa emergência pública da forma mais escandalosa que se possa imaginar. A histeria sobre a ameaça russa à Europa permite à burocracia europeia destinar mais fundos à defesa e, em última análise, desenvolver uma narrativa que pode conduzir a um ponto sem retorno. O problema é este e está agravado por uma opinião pública anestesiada, que perdeu a capacidade de questionar e de se opor aos desmandos dos poderes. Daqui não pode vir nada de bom.

Trump a gozar com quem trabalha

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 27/09/2025)


É com uma ironia mordaz que Trump se afasta da guerra na Ucrânia e transfere “a pasta” para os europeus. Mentes ingénuas esperavam outro desfecho julgando que Trump não se lembraria da forma como foi tratado pelos europeus durante a campanha eleitoral norte-americana e de que lado da barricada estiveram.


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Trump fez furor na Assembleia-Geral da ONU. Qual um Jedi, com o sabre de luz em riste pronto a desferir golpes contra qualquer força do mal ou ideia malévola que se atravessasse no seu caminho (migração, alterações climáticas, transição verde, Tribunal Penal Internacional, etc.). No seguimento desta performance e de um encontro de sete minutos com Zelensky, Trump publicou na sua rede social um post que deixou muita gente em transe, dando a sensação de uma mudança súbita de posição sobre a guerra na Ucrânia, passando a apoiar incondicionalmente e sem reservas a causa de Kiev.

Trump teria adotado a narrativa de Zelensky, a dos dirigentes europeus e do seu enviado especial Keith Kellogg. Trump teria abraçado os objetivos maximalistas de Zelensky. Mas será mesmo assim? uma leitura cuidadosa nas entrelinhas do post mostra-nos sinais claros de algo muito diferente.

“Penso [Trump] que a Ucrânia, com o apoio da União Europeia, está em posição de lutar e reconquistar toda a Ucrânia na sua forma original. Com tempo, paciência e o apoio financeiro da Europa e, em particular, da NATO, as fronteiras originais de onde esta guerra começou são uma opção muito viável. Por que não?”

E acrescentou, “A Rússia tem lutado sem rumo há três anos e meio uma guerra que deveria ter levado menos de uma semana para ser vencida por uma potência militar real… Na verdade, parece um «tigre de papel». Quando as pessoas que vivem em Moscovo e em todas as grandes cidades, vilas e distritos da Rússia descobrirem o que realmente se passa com esta guerra… onde a maior parte do seu dinheiro está a ser gasto na luta contra a Ucrânia… que será capaz de recuperar o seu país na sua forma original e, quem sabe, talvez ir além disso! Putin e a Rússia estão em GRANDES dificuldades económicas, e este é o momento para a Ucrânia agir.”

Como dizem os anglo-saxónicos, last but not the least. O melhor estava para vir. Trump terminou o post desejando o melhor para ambos os países. “Continuaremos a fornecer armas à NATO para que a NATO faça o que quiser com elas. Boa sorte a todos!”

Por outras palavras, sendo os russos uns inúteis, estarem a combater há três anos e meio sem objetivo, com a economia à beira do colapso e filas sem fim para comprar gasolina por toda a Rússia, deverá ser fácil para a Ucrânia ganhar a guerra. Perante o estado calamitoso do tigre de papel russo, a Ucrânia vai ser capaz de prevalecer sem a ajuda norte-americana.

Como a UE está a fornecer à Ucrânia a ajuda de que esta necessita e como a Ucrânia, segundo Trump, tem um grande espírito de luta, vai ser capaz de reconquistar o seu país. Ou seja, se Kiev continuar a atacar a vitória será sua, nem precisará de parar nas fronteiras de 2014, podendo marchar até Moscovo, se assim o desejar. Será difícil ler as palavras de Trump sem entrever uma grande dose de ironia e sarcasmo. Há mais quem faça uma interpretação muito semelhante das suas palavras.

O correspondente-chefe do The Telegraph nos EUA Rob Crilly afirmou que Trump está a lavar as mãos da guerra na Ucrânia. “O que à primeira vista parece uma reviravolta impressionante pode, na verdade, ser uma má notícia para Volodymyr Zelensky.” Depois de perceber que não vai conseguir acabar com a guerra nem convencer Zelensky da posição de extrema vulnerabilidade em que se encontra, Trump está a informar o mundo de que os Estados Unidos se vão afastar do conflito, como tinha vindo a sugerir.

Trump não prometeu apoios adicionais à Ucrânia nem intensificou as ações sancionatórias e punitivas à Rússia. Ao invés, está a passar a responsabilidade pela resolução do conflito para a Europa e para a NATO, leia-se, para o pilar europeu da NATO, uma vez que os EUA também dela fazem parte. O seu objetivo, esse inequívoco, é o de continuar a vender armas aos europeus para continuarem a apoiar o esforço de guerra ucraniano.

O editor de defesa e segurança do Guardian Dan Sabbagh publicou um artigo em que, no fundamental, reiterou as mesmas ideias. A mudança de tom de Trump é valiosa para a Ucrânia, mas é preciso mais do que palavras. Segundo Sabbagh, para além de Trump não se mostrar muito convicto da sua implementação, o endurecimento das sanções económicas não irá ajudar a Ucrânia a vencer a guerra.

Ao condicionar as sanções à Rússia pela imposição prévia de sanções pelos europeus – que ele sabe serem irrealizáveis – como sejam a interrupção de todas as importações de petróleo e gás russo e sanções secundárias a outros países que comprem petróleo a Moscovo, como a China e a Índia, Trump está a fazer bluff. Está ciente de que os europeus não têm capacidade para lhes impor tarifas de 100%. Apostou que não o iriam fazer e acertou.

Sabbagh vai ainda mais longe e diz que um fornecimento mais concertado de armas dos EUA certamente ajudaria a Ucrânia, mas não a ajudaria a vencer a guerra. Sublinha ainda que a “necessidade mais premente da Ucrânia é melhorar a sua defesa aérea. Mas não é isso que Trump lhe está a oferecer. É conhecido o nível em que se encontram os arsenais norte-americanos. Em contrapartida, Trump aconselhou a Ucrânia a ter paciência. Afinal, “com tempo, paciência e o apoio financeiro da Europa acabará por prevalecer.”

Estando Kiev a ganhar a guerra e Moscovo a perdê-la, como avançado pela narrativa da Ucrânia e dos países europeus, então porque é que Kiev e a Europa precisam dos Estados Unidos e Washington precisa de se envolver em negociações para encontrar um fim para a guerra? Estes raciocínios terão estado presentes na mente de Trump quando sugeriu aos ucranianos, no seu post, para seguirem em frente, se acham que vão ganhar a guerra.

Aliás, não será difícil, uma vez que a economia russa está esfrangalhada e os russos fazem fila nos postos de gasolina. É isso que Kellogg, Starmer, Macron e Merz têm vindo reiteradamente a dizer. Então por que não deixar a Ucrânia ganhar e prescindir dos americanos? Não sendo mais precisos, podem ir embora ou, como escreveu Crilly no The Telegraph, Trump está a lavar as mãos da guerra da Ucrânia. No fundo, Trump está a dizer basta! Vou-me embora.

Zelensky saiu da reunião com Trump em Nova Iorque dizendo que Trump forneceria garantias de segurança após o fim da guerra. Não percebeu o que lhe foi dito. Trump continua a não lhe dar garantias de segurança. Afinal, se a Ucrânia vai ganhar a guerra, qual é a necessidade de garantias de segurança e de forças de manutenção da paz, ou seja do que forem? Se a Ucrânia está a ganhar e tem tudo sob controlo não há necessidade de perder tempo a falar de forças de paz. Por que estamos a discutir medidas de apoio e forças de manutenção da paz quando está bastante claro que a Ucrânia, por si só, com a ajuda da NATO e da UE, vai vencer a guerra? muito provavelmente, Trump terá pensado nisto enquanto batia com as pontas dos dedos no teclado.

Perante estes desenvolvimentos lógicos, Trump dever-se-á ter interrogado sobre o motivo do frenesim em redor das garantias de segurança. Provavelmente nem as sanções e as tarifas contra a China serão necessárias porque a economia da Rússia já está em colapso. Sem que isto obstaculize a Ucrânia de continuar a receber armas dos EUA, pagas pelos europeus, algo que estes podem continuar a fazer indefinidamente.

Tudo o que Kiev precisa de fazer é continuar a lutar até vencer. Embora Trump não o diga de modo explícito, parece demasiado evidente que a Ucrânia terá de lutar por si mesmo, sem as garantias de segurança proporcionadas pelos EUA, sem o apoio financeiro e as armas oferecidas pelos norte-americanos.

Portanto, se a Ucrânia está a ganhar a guerra e a Rússia está a perdê-la, podemos imaginar Trump a perguntar-se: porque será que a Ucrânia e a Europa precisam dos Estados Unidos? Porque precisa Washington de se envolver nas negociações para encontrar um fim para a guerra?

É com uma ironia mordaz que Trump se afasta da guerra na Ucrânia e transfere “a pasta” para os europeus. A notícia que prometeu dar há umas semanas foi agora transmitida através deste post. Mentes ingénuas esperavam outro desfecho julgando que Trump não se lembraria da forma como foi tratado pelos europeus durante a campanha eleitoral norte-americana e de que lado da barricada estiveram.

A ingenuidade quanto à possibilidade de outro desfecho, não deixa de ser tremendamente irresponsável. A esperança de que pudesse ser de outra maneira foi alimentada por incapazes, apesar de serem conhecidas as declarações, por exemplo, do Secretário de Estado Marco Rubio, que tem vindo a dizer serem indesejáveis novas sanções contra a Rússia, porque se os Estados Unidos seguirem esse caminho queimarão, de uma vez por todas, as pontes com Moscovo e isso comprometerá todas as iniciativas para uma resolução negociada.

A humilhação continuou quando os países europeus e a Ucrânia propuseram no Conselho de Segurança uma Resolução a criticar a Rússia, em que se reiterava a integridade territorial da Ucrânia, independência, soberania e em que se apelava à cessação imediata das hostilidades. Os EUA romperam com os seus aliados ocidentais e votaram contra.

Regressando a um tema desenvolvido em artigos anteriores. Qual será a reação dos povos quando ficar claro que a Ucrânia não está a ganhar e que a Rússia afinal não está tão debilitada como os dirigentes europeus andaram a apregoar e lhes tentaram fazer crer? Não deixa de ser estúpida a insistência nessa line to take estafada, repetida ad nauseam, quando está mais do que comprovada a sua falsidade. Num exercício de cinismo, Pjotr Sauer num artigo recente no Guardian, sem perceber o sarcasmo do post, vem questionar a justeza da afirmação de Trump quando este afirmou encontrar-se a economia russa à beira do colapso.

Segundo ele, afinal a “guerra trouxe um boom para algumas pessoas [na Rússia] no início [da guerra]”. A admissão da manipulação (des)informativa levada a cabo por alguma comunicação social ocorre lentamente, infelizmente através de deslizes, e não de modo deliberado. Não só se coloca agora apenas a questão de saber quanto tempo vai ser necessário para os europeus perceberem o buraco em que nos encontramos, mas também qual será a solução. Quanto mais tarde isso acontecer, pior.