As divisões nas elites ucranianas

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 11/01/2024)

A incapacidade de o governo preservar a unidade e a coesão entre os líderes militares e civis será fatal para a Ucrânia. Atenta a estes desenvolvimentos, Moscovo prepara-se para tirar vantagens.


O prolongamento da campanha militar e o insucesso da ofensiva ucraniana no verão de 2023, ao deixar claro a incapacidade de Kiev desalojar as forças russas do seu território, provocou tensões no establishment ucraniano sobre a forma como se passou a olhar para o futuro. Para isso, terá também contribuído a considerável redução do apoio ocidental ao esforço militar do país. Duas visões sobre os caminhos a seguir entraram em choque. Uma abraçada por largos segmentos das chefias militares, encabeçados pelo general Valerii Zaluzhnyi, outra pelo presidente Volodymyr Zelensky.

As clivagens e o progressivo distanciamento entre o presidente e o chefe militar tornaram-se públicas quando Zaluzhnyi quebrou um tabu e publicou, em novembro de 2023, um longo artigo no “Economist” em que admitia que a guerra se encontrava num impasse difícil de ultrapassar. Ao constatar a impossibilidade de uma vitória militar ucraniana, contrariava frontalmente o discurso de Zelensky e a sua crença na recuperação total e completa de todos os territórios ocupados pelas forças russas. Zelensky fez questão de se demarcar publicamente da posição de Zaluzhnyi dizendo que a vitória não só era possível, mas que, apesar dos escolhos, estaria ali ao virar da esquina.

A partir daí as divergências agudizaram-se. Uma deputada do partido de Zelensky veio acusar Zaluzhnyi de ser o responsável pelo insucesso da campanha militar do verão, sendo necessária a sua substituição. Avançava o início de 2024 como o momento mais adequado para o fazer. Zelensky sugeriu a Zaluzhnyi que se demitisse, mas este declarou que não renunciaria ao cargo. As desconfianças mútuas agravam-se diariamente. Ficava no ar sensação de que existiam dois tipos de forças armadas: as “boas” comandadas pelo general Oleksander Syrsky, o potencial substituto de Zaluzhny, e as “más” por Zaluzhny.

Os incidentes tornaram-se frequentes e públicos. Zelensky passou a dar ordens diretamente a alguns comandantes militares sem passar por Zaluzhny. Entretanto, este descobriu que estava a ser escutado. Durante uma inspeção de rotina a um dos seus gabinetes, feita pelos Serviços de Segurança ucranianos, foram encontrados dispositivos de escuta. A isto, juntou-se a morte do major Gennady Chastyakov, um colaborador próximo de Zaluzhnyi, no dia do seu aniversário, em sua casa, quando “um dispositivo explosivo desconhecido detonou um dos seus presentes,” fazendo em tudo lembrar o assassinato do blogger russo pró-kremlin Vladen Tatarsky organizado pelos serviços de segurança da Ucrânia (SBU).

As discordâncias alargavam-se à estratégia militar a adotar. Após o insucesso da ofensiva do verão, Zaluzhny era da opinião que as forças ucranianas deviam assumir uma postura defensiva que lhes permitisse ganhar tempo, economizar meios e, na retaguarda, prepararem embates futuros.

Sobre o futuro de Avdeevka, uma cidade alguns quilómetros a noroeste de Donetsk, onde as forças russas e ucranianas travam duros combates, enquanto Zelensky diz que a cidade tem de ser defendida a todo o custo, Zaluzhnyi prognostica a sua queda, mais tarde ou mais cedo, alertando para a necessidade de se organizar uma defesa a oeste e em melhores condições, em conformidade com a estratégia que Zelensky o impedia de implementar.

Uma situação igualmente embaraçosa colocou-se relativamente à queda de Marinka em mãos russas. Presidente e chefe militar diziam o oposto. Enquanto Zelensky negava a queda da cidade, Zaluzhnyi contradizia-o. Entretanto, vários generais começaram a tornar pública as suas opiniões sobre a situação militar e as dificuldades com que se debatem as forças ucranianas, apontando várias deficiências (falta de armamento, munições, problemas logísticos, etc.), contrariando a narrativa das boas notícias promovida por Kiev para manter o moral elevado.

O conflito entre ambos evoluiu e tornou-se vincadamente político. Numa possível corrida presidencial, sondagens efetuadas no final de 2023 indicavam Zelensky e Zaluzhnyi lado a lado. A realizarem-se eleições em março de 2024, a vitória de Zelensky não está garantida. Não será de estranhar que, depois de muitas hesitações, Zelensky as tenha cancelado.

Um dos últimos pomos de confrontação é a lei da mobilização, em discussão no parlamento, de que ambos se procuram demarcar dada a sua impopularidade. Uma lei controversa que, entre outros assuntos, alarga o limite de prestação do serviço militar, e prevê o repatriamento dos ucranianos que se encontrem fora do país. A deputada Maryana Bezuhla justificou a sua necessidade dizendo inadvertidamente que os ucranianos perdiam mensalmente em combate pelo menos 20 mil soldados, sendo necessário colmatar as perdas causadas pela estratégia de atrição russa através de uma “mobilização assertiva.”

A discussão da mobilização provocou uma intervenção de Zaluzhnyi no parlamento dizendo que não tem soldados. E que se não lhe derem soldados, os deputados têm de se alistar e irem combater para a linha da frente, algo que não caiu bem.

Numa reunião da comissão parlamentar de Segurança Nacional, Defesa e Inteligência para discutir a lei da mobilização, que contou com a participação do general Zaluzhnyi e do ministro da defesa Rustem Umerov, o secretário da comissão Roman Kostenko disse que o “presidente Zelensky deve compreender que não voltará a ser presidente… deve perceber que está politicamente morto. E que deve agora tomar decisões que visem a preservação do Estado, e não as que ele pensa úteis para o reeleger”.

O tema dos choques entre os diferentes grupos não se esgota aqui. Poderíamos acrescentar as quezílias entre Zelensky e o antigo presidente ucraniano Petro Poroschenko impedindo-o de sair do país, os dislates do seu antigo acólito Oleksiy Arestovych, e a deterioração das relações com o seu antigo patrocinador, o oligarca Igor Kolomoisky responsável pelo financiamento da campanha eleitoral que levou Zelensky ao poder. Estas divisões tendem a agravar-se com a diminuição do apoio ocidental. Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.

A posição de Kostenko sobre Zelensky, atrás referida, acaba por refletir o que começa a ser o pensamento dominante entre os patrocinadores internacionais da causa ucraniana, muito em particular da Casa Branca: Zelensky tornou-se um passivo. Quando já se tornou óbvia a necessidade de congelar o conflito, dada a situação desvantajosa em que Kiev se encontra, Zelensky insiste numa fórmula irrealista em que só ele e o grupo que lhe está próximo acredita. Até os mais convictos defensores da vitória ucraniana vêm agora contorcer-se e dar o dito por não dito.

Ciente da evolução dos acontecimentos e da evolução das “vontades,” veio à liça a ex-primeiro ministra Iullia Timoshenko, ex-presidiária condenada por crimes de corrupção, um peso pesado da política ucraniana, criticar a proposta de plano de mobilização classificando-a de inconstitucional e propor um plano B. Sem ser muito explícita sobre o conteúdo dessa proposta, vem posicionar-se como uma putativa interlocutora de Washington e de Moscovo numa eventual mudança de regime em Kiev, mostrando oportunisticamente a sua compreensão para com a solução política que Zelensky teima em não aceitar.

A Ucrânia encontra-se sob grande pressão para negociar com Moscovo. Disso deram recentemente nota o “Politico” e o “New York Times” (NYT). O primeiro, referindo a discreta mudança da estratégia da Administração Biden para a Ucrânia, abdicando de apoiar uma vitória total de Kiev sobre a Rússia, procurando apenas que esta melhore a sua posição numa eventual negociação para pôr fim à guerra, o que implica a cedência de partes da Ucrânia à Rússia; e, o segundo, afirmando de uma forma desajeitada que “A Ucrânia não deve deixar passar a oportunidade de pôr termo ao derramamento de sangue. A recuperação de território não é a única medida de vitória nesta guerra.”

A evolução da posição de Washington relativamente ao futuro do conflito não está a ser aceite, ou, se quisermos, compreendida da mesma maneira pelos atores políticos ucranianos. Nem todos perceberam ou não querem perceber a nova realidade. Entre estes últimos encontra-se Zelensky. A fórmula mais território, mais dinheiro esgotou-se.

Passados mais de um ano e meio desde o início do conflito, a estratégia da atrição russa começou a produzir na sociedade ucraniana o efeito esperado. Passo a passo, a superioridade russa tem vindo a tornar-se cada vez mais percetível. Mas parece que o autismo de Zelensky e da sua entourage não reconhecem o óbvio. Não entendem que a situação não se vai reverter, que estão a perder a guerra e que têm de chegar a um acordo com os russos. Quanto mais tarde pior.

Perante o agravamento da situação e a incapacidade Zelensky em perceber a gravidade dos acontecimentos, não será de excluir a possibilidade de os militares virem a tomar conta da situação, embora não tenham até agora manifestado intenção de o fazer, particularmente Zaluzhnyi. “O envolvimento dos militares na política, que aumenta todos os meses, faz também aumentar os riscos da desestabilização interna do país e o espetro de uma guerra civil.”

A incapacidade de o governo preservar a unidade e a coesão entre os líderes militares e civis será fatal para a Ucrânia. Atenta a estes desenvolvimentos, Moscovo prepara-se para tirar vantagens.


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Um incendiário chamado Netanyahu

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 15/12/2023)

Não se pode, por enquanto, descartar a possibilidade da brutalidade da ação militar israelita, que tanto dano tem causado na população civil palestiniana, vir ironicamente a criar condições para se discutir uma solução política para o conflito.


Não se pode, por enquanto, descartar a possibilidade da brutalidade da ação militar israelita, que tanto dano tem causado na população civil palestiniana, vir ironicamente a criar condições para se discutir uma solução política para o conflito.

O conflito israelo-palestiniano que se arrasta há cerca de sete décadas e meia sem resolução é mais um dos legados históricos deixados pelos ingleses para outros resolverem.

Os horríveis e inaceitáveis acontecimentos na Palestina protagonizados pelo Hamas no fatídico dia 7 de outubro de 2023 foram, ironicamente, mais um capítulo da luta dos palestinianos para verem os seus direitos reconhecidos. Depois de duas intifadas e tantos desencontros ao longo de décadas, resta saber o que mais terá de acontecer para se avançar com a solução dos dois Estados prevista em várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU, que nem Israel nem o Hamas respeitam.

Durante estas décadas, a comunidade internacional varreu sistematicamente o problema palestiniano para debaixo do tapete, limitando-se a fornecer ajuda humanitária e a garantir que os espoliados da Nakba (1948) não morressem famintos, sem resolver o problema político que lhe estava subjacente, talvez esperando que os palestinianos se evaporassem ou desaparecessem.

Tem sido um período de humilhações diárias, de construção de muros e de ocupação ilegal de terras palestinianas por colonos patrocinadas pelo Estado israelita. Essa indefinição prolongada, e a incapacidade de cumprir o estipulado pelo Conselho de Segurança da ONU, explica parcialmente o momento em que nos encontramos, assim como o surgimento de fações radicais entre os palestinianos, como o Hamas.

Os israelitas também não foram afortunados. Gorada a possibilidade de levar por diante os Acordos de Oslo – em que a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) reconhecia o Estado de Israel – materializada pelo assassínio do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em novembro de 1995, os radicais liderados por Netanyahu passaram a dominar o espectro político em Israel.

Ainda durante a Administração Rabin, Netanyahu mobilizou os setores mais radicais da sociedade israelita contra a implementação dos Acordos de Oslo. Em março de 1994, Netanyahu liderou uma manifestação onde era transportado um caixão com os seguintes dizeres: “Rabin está a causar a morte do sionismo”. Mas a sua ação foi para lá da retórica, tendo transformado a contestação em violência política.

No dia 5 de outubro de 1995, exatamente um mês antes do assassínio de Rabin por um judeu radical, enquanto o Knesset aprovava a adoção dos Acordos de Oslo, Netanyahu organizava uma manifestação de 100.000 pessoas, onde se gritava “Morte a Rabin”. O chefe do Partido Trabalhista, Merav Michaeli chegou mesmo a acusar Netanyahu de ser cúmplice do assassinato de Yitzhak Rabin.

Na contestação aos Acordos de Oslo, Netanyahu encontrou no Hamas um aliado. Na véspera da reunião entre os negociadores palestinianos e israelitas sobre o reconhecimento formal de Israel pelo Conselho Nacional Palestiniano, o Hamas lançou uma campanha de ataques contra civis israelitas, que foi determinante na moldagem da opinião pública israelita para apoiar, no futuro, a formação de um governo de direita e a ascensão de Netanyahu ao poder.

A liderança de Netanyahu na contestação à paz entre judeus e israelitas foi compensada ao vencer as eleições gerais de 29 de maio de 1996, sucedendo a Rabin como primeiro-ministro. Afinal, a esquerda não era capaz de garantir a segurança do país, argumento que continua a prevalecer ainda hoje, pelo menos até ao dia 7 de outubro.

Netanyahu e o imperativo divino

O objetivo estratégico de Netanyahu, e dos grupos que o rodeiam, evoluiu recentemente para um novo patamar. Já não se trata de implementar uma política de separação e de apartheid, mas sim da expulsão dos palestinianos de Israel.

Isso ficou claro em vários momentos. Por exemplo, em janeiro de 2023, Netanyahu afirmou que “o povo judeu tem um direito exclusivo e inquestionável a todas as áreas da Terra de Israel”, sendo a concretização desse direito o objetivo principal do novo governo, que “promoverá e desenvolverá a colonização em todas as partes da Terra de Israel – na Galileia, no Negueve, nos Golã, na Judeia e na Samaria. A supremacia judaica é a política do Estado”.

Há nestas palavras uma visão bíblica e messiânica. A missão de Netanyahu na terra é fazer cumprir essa profecia. Isto é, criar a “Terra de Israel” expurgada de palestinianos e integrando Gaza e a Cisjordânia nas suas fronteiras. Na reunião anual da Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2023, Netanyahu deu nota dessa intenção ao mostrar um mapa do Médio Oriente em que a Cisjordânia e Gaza faziam parte integrante de Israel.

A visão supremacista da história abraçada por Netanyahu está ligada a um destino bíblico. Para concretizar o sonho de um “Grande Israel” que espelhe os tempos bíblicos é preciso, acima de tudo, impedir a existência de um Estado palestiniano independente. O reconhecimento internacional da Autoridade Palestiniana (AP), a 2 de junho de 2023 (139 dos 193 Estados membros da ONU reconheceram o Estado da Palestina), veio agitar as águas em Telavive e aumentar a sensação de perigo em redor da concretização do projeto sionista.

Para atingir esse objetivo, havia que enfraquecer os palestinianos e torná-los irrelevantes. Durante a administração Netanyahu, Israel promoveu a expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia, recorrendo à deslocação forçada dos palestinianos das suas casas e aldeias, frustrando as expetativas de milhões de palestinianos apoiantes de Oslo que, apesar de ser um processo inacabado, abria as portas à viabilização de um Estado palestiniano.

O projeto de liquidação da construção do Estado palestiniano passava também pela normalização das relações com os países árabes vizinhos, conforme previsto nos Acordos de Abraão. A sua concretização, à beira de se realizar aquando do ataque do Hamas, em 7 de outubro, não só comprometeria a viabilidade de um Estado palestiniano como a goraria irreversivelmente.

São muitas as declarações de dirigentes israelitas incitando à destruição de Gaza e à expulsão dos seus habitantes. Por outras palavras, apelando à limpeza étnica dos territórios palestinianos, de modo a permitir a construção da “Terra de Israel” sem árabes. Só assim se compreendem as reiteradas insistências de Netanyahu junto dos Presidentes egípcios Hosni Mubarak, Mohamed Morsi e Abdul Al-Sisi para receberem no Egito os palestinianos de Gaza, aliciando-os com promessas avultadas de dinheiro.

Numa entrevista, o conselheiro de Netanyahu, Danny Ayalon, admitiu que o plano de Israel é “abrir um corredor humanitário para que eles [os palestinianos de Gaza] possam sair…”. O objetivo é invadir o norte de Gaza e forçar toda a gente a ir para sul. Quando isso for conseguido, será anunciado um novo sector a limpar e continuará o avanço para sul até que todos os palestinianos sejam empurrados para o Sinai egípcio, através de Rafah.

Apesar das declarações de responsáveis israelitas nesse sentido, esse objetivo não foi ainda oficialmente assumido. Talvez por isso, o governo de Netanyahu não consegue (ou não quer) dizer, por enquanto, qual será o futuro de Gaza quando as operações militares terminarem.

Netanyahu e o Hamas

Uma das formas de Telavive comprometer a existência de um Estado palestiniano passava pelo reforço do Hamas utilizando-o como arma de arremesso contra a OLP. Na verdade, o apoio de Israel ao Hamas ter-se-á iniciado ainda nos tempos da primeira-ministra Golda Meir que, como os seus sucessores, viu nisso uma oportunidade para contrabalançar a ascensão da Fatah.

Segundo o semanário israelita Koteret Rashit (outubro de 1987), “as associações islâmicas, bem como a universidade [Islâmica de Gaza], tinham sido apoiadas e encorajadas pela autoridade militar israelita”, responsável pela administração (civil) da Cisjordânia e de Gaza. “Elas [as associações islâmicas e a universidade] foram autorizadas a receber pagamentos em dinheiro do estrangeiro.”

O Brigadeiro-General Yitzhak Segev, governador militar israelita de Gaza no início da década de 1980, confirmou aquelas relações de “proximidade” quando, numa entrevista ao “New York Times”, disse que tinha ajudado a financiar o movimento islamista palestiniano como “contrapeso” aos esquerdistas seculares da OLP e da Fatah.

Sem surpresa, em 1997, o primeiro-ministro Netanyahu mandou libertar da prisão o xeque Ahmed Yassin, líder histórico do Hamas, onde cumpria uma pena de prisão perpétua, permitindo o seu posterior regresso a Gaza. Simultaneamente, exigia cinicamente a Arafat que mantivesse o Hamas sob controlo.

Se dúvidas pudessem subsistir sobre a relação promíscua de Telavive com o Hamas, elas desvaneceram-se em 2006, quando Israel ajudou a criar condições para que o Hamas vencesse as eleições legislativas (Hamas 44,45%, Fatah 41,43%), o que estaria na origem, um ano mais tarde, do corte de relações entre o Hamas e a Fatah e da subsequente guerra fratricida, dividindo a AP em duas partes, uma liderada pela OLP, sediada na Cisjordânia, e outra pelo Hamas, em Gaza.

Em 2009, numa reunião da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o senador republicano do Texas Ron Paul explicava a hipocrisia dos EUA e de Israel ao encorajar a criação do Hamas, como tinha sido feito com a Al-Qaeda.

Sobre a utilidade do Hamas para Israel, Netanyahu foi muito explícito. Numa reunião privada do Likud, em 11 março de 2019, afirmou que “qualquer pessoa que queira impedir o estabelecimento de um Estado palestiniano tem de apoiar o reforço e a transferência de dinheiro para o Hamas”. “Isto faz parte da nossa estratégia – isolar os palestinianos em Gaza dos palestinianos na Cisjordânia.”

Numa entrevista ao site de notícias Ynet, em 5 de maio de 2019, Gershon Hacohen, um associado de Netanyahu e major-general na reserva, afirmou que “Temos de dizer a verdade. A estratégia de Netanyahu é impedir a opção de dois Estados, por isso está a transformar o Hamas no seu parceiro mais próximo. Abertamente, o Hamas é um inimigo. Secretamente, é um aliado”.

Shlomo Brom, um general reformado e antigo adjunto do conselheiro de segurança nacional de Israel, disse que um Hamas com poder ajudava Netanyahu a evitar negociar um Estado palestiniano. “A divisão dá a Netanyahu uma desculpa para se desligar das negociações de paz, dando-lhe a possibilidade de dizer que não tem parceiro [para negociar]”.

A “transferência de dinheiro para o Hamas” foi confirmada por várias fontes como, por exemplo, por um relatório publicado pelo “The Times of Israel”, de 8 de outubro de 2023: “O Hamas foi tratado como um parceiro em detrimento da AP, para impedir Abbas de avançar com a criação de um Estado palestiniano. O Hamas foi promovido de grupo terrorista a organização com a qual Israel conduziu negociações através do Egito e que foi autorizada a receber malas com milhões de dólares do Qatar através dos postos fronteiriços de Gaza.”

Entre 2012 e 2018, Netanyahu autorizou o Qatar a transferir para Gaza um montante acumulado que se estima rondar os mil milhões de dólares, dos quais pelo menos metade chegou ao Hamas, incluindo a sua ala militar. As transferências fluíram em permanência, mesmo quando as forças armadas israelitas já tinham nas suas mãos os planos de batalha da ação militar do Hamas e os treinos e exercícios preparatórios da ação eram visíveis.

Erro ou provocação?

Os acontecimentos de 7 de outubro têm sido apresentados como um falhanço catastrófico dos serviços de informações israelitas. Os analistas interrogam-se como é que o governo de Netanyahu não se apercebeu de que o Hamas estava a preparar um ataque desta dimensão, que requer longos meses de preparação. Como foi possível tal passar despercebido?!

Passados mais de dois meses sobre os dramáticos acontecimentos de outubro, surgem evidências de que o ataque do Hamas seria do conhecimento de Telavive, tornando insustentável a tese da surpresa e permitindo suspeitar do alegado lapso de distração ou, se quisermos, de incompetência.

Será difícil a Telavive explicar porque é que negligenciou os avisos dos serviços de informações egípcios de que “algo invulgar, uma operação terrível” estaria prestes a acontecer (três dias antes do ataque), quando as preocupações securitárias se encontram no topo da agenda de qualquer governo israelita. Ou o facto de ter sido avisada, dias antes dos ataques do Hamas, como confirmou Michael McCaul, presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes dos EUA.

Cabe ainda questionar porque foram desarmados os comités de proteção dos kibutzes algum tempo antes do ataque do Hamas? E porque é que as Forças de Defesa de Israel (IDF) demoraram mais de sete horas a reagir? Como dizia uma ex-militar israelita que serviu nas IDF durante 25 anos: “É impossível que Israel não soubesse o que estava a acontecer. A passagem de um gato ao lado da vedação é suficiente para acionar todas as forças.” Esta sequência de acontecimentos desafia toda a lógica, sabendo como funciona o sistema de defesa israelita e as preocupações com a segurança.

Cabe naturalmente perguntar, como em qualquer conflito, cui bono? Quem beneficia? Será que os acontecimentos de 7 de outubro criaram um pretexto para Netanyahu concretizar o seu objetivo estratégico maximalista e expulsar os palestinianos da Faixa de Gaza, algo em que é acompanhado por largos setores da elite israelita, tanto de esquerda como de direita? Será que estaremos a assistir “ao confronto final entre Israel e o Hamas”, como sugeriu Avigdor Lieberman num memorando datado de 21 de dezembro de 2016?

Não podemos esquecer as palavras do ministro da Defesa Yoav Gallant, em 9 de outubro, quando afirmou que “vamos mudar a realidade no terreno em Gaza… o que existia antes deixará de existir… não haverá eletricidade, alimentos, abastecimento de combustível, estará tudo fechado.” Acrescentando que “estamos [Israel] a combater animais humanos e como tal agiremos em conformidade”, lembrando-nos os argumentos utilizados pelos nazis para exterminarem os judeus.

Ou o recurso de Netanyahu ao Antigo Testamento para justificar uma resposta demolidora ao ataque do Hamas, quando comparou os palestinianos com os Amaleques, e assim justificar o assassínio total e sem restrições de todos os palestinianos, sem exceção, recorrendo à doutrina Dahya, a versão israelita do “choque e pavor” que, num conflito assimétrico, prevê que se exerça pressão sobre o oponente através da total destruição das suas infraestruturas civis, recorrendo ao uso desproporcional da força (comparando com a “quantidade de força” usada pelo inimigo) para atingir esse fim.

Não sabemos, nesta altura, se Israel conseguirá atingir os objetivos políticos e militares explícitos e implícitos da sua campanha. Contudo, não se pode excluir a possibilidade desta situação vir a transformar-se numa oportunidade, tal como aconteceu na guerra do Yom Kippur, em que a derrota militar egípcia veio uns anos mais tarde a saldar-se numa vitória política, ao recuperar em Camp David a soberania sobre a península do Sinai, levando Israel a desmantelar os colonatos na região.

Não se pode, por enquanto, descartar a possibilidade da brutalidade da ação militar israelita, que tanto dano tem causado na população civil palestiniana, vir ironicamente a criar condições para se discutir uma solução política para o conflito. Não será por acaso que os EUA e a AP se encontrarão a discutir o dia seguinte, conforme noticiado pela Bloomberg, onde se espera vir a ter a cooperação do Hamas: “Se o Hamas estiver disposto a assinar um acordo e aceitar a plataforma política da OLP, então haverá espaço para conversações.”

Independentemente do curso que o conflito israelo-palestiniano vier a seguir, será difícil escamotear a responsabilidade de Netanyahu no processo que conduziu ao 7 de outubro. Poderá com o seu comportamento ter comprometido definitivamente a criação da “Terra de Israel.” Os erros das suas opções estratégicas – negar um Estado palestiniano à custa do enfraquecimento da AP e promoção do Hamas – causaram danos terríveis no relacionamento entre judeus e palestinianos. As suas decisões alargaram feridas difíceis de sarar, impossibilitaram a transformação do conflito e a reconciliação entre a duas comunidades. O seu legado ficará para sempre ligado ao lado negro da história de Israel.


Uma contraofensiva condenada ao fracasso

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 04/10/2023)

Contrariando o otimismo desmesurado criado por uma campanha de Comunicação Estratégica muito bem orquestrada, era claro para especialistas informados que aquela contraofensiva estava desde o início condenada ao insucesso. 


Procuraremos nas linhas que se seguem explicar os motivos do fracasso da contraofensiva ucraniana iniciada a 4 de junho de 2023, e ainda sem fim à vista, sem prejuízo de um trabalho de maior envergadura a ser efetuado sobre o tema. Contrariando o otimismo desmesurado criado por uma campanha de Comunicação Estratégica muito bem orquestrada, era claro para especialistas informados que aquela contraofensiva estava desde o início condenada ao insucesso. 

A campanha de (des)informação montada à sua volta criou artificialmente a esperança de ser possível a vitória da Ucrânia, e influenciou indubitavelmente os decisores políticos norte-americanos e europeus fazendo-os acreditar na certeza de algo irrealizável, tornando-os vítimas da sua própria propaganda.

O General David Petraeus dizia convictamente que “esta contraofensiva vai ser impressionante!” Recordo-me como era difícil há três meses dizer na comunicação social nacional que o rei ia nu. Ninguém queria ver o óbvio.

Ao contrário dos seus promotores, Kiev estava ciente de que não se encontrava ainda preparada para um embate com as forças russas de tamanha envergadura: faltava-lhe o equipamento, o treino e as munições. A sua dependência do exterior era total, um elemento exógeno que não conseguia controlar. Mas a pressão era grande e foi obrigada a ceder. Contra a sua vontade, Kiev foi empurrada para o abismo. Isso ficou claro logo no início da operação.

As forças ucranianas tinham agora a espinhosa tarefa de romper as linhas defensivas russas, penetrar na profundidade do seu dispositivo fortemente preparado e simultaneamente destruir as forças russas. Tarefas ciclópicas. As forças ucranianas dependiam do poder de choque proporcionado pelas suas forças blindadas, para ultrapassar essas forças sem se empenharem em batalhas sangrentas e prolongadas. Isso ficaria para os segundos escalões. O objetivo era desconjuntar o dispositivo russo e com o seu escalão avançado chegar rapidamente ao Mar de Azov.

Passados três meses de contraofensiva, as forças ucranianas não conseguiram ir além da designada “zona cinzenta,” a faixa de terreno à frente da primeira linha da defesa russa. O objeto político a ser atingido com esta ofensiva não passa agora de uma amarga miragem. Como foi possível tanta gente acreditar numa vitória inverosímil?!

O treino

Uma vez perdido o fator surpresa, para conseguir o seu intento, as forças ucranianas teriam de realizar um ataque deliberado com um elevado poder de choque orientado para o ponto mais fraco do inimigo. Este tipo de operações é complexo e exige uma elevada preparação e treino que as forças ucranianas não tinham.

Referimo-nos principalmente ao treino coletivo e operacional de grandes unidades táticas (brigada e divisão). Para além de lhes faltar experiência de combate, as unidades ucranianas não tinham sido preparadas para combater a esses escalões, decisivos para se vencer. Para obter efeitos, esse treino teria de ter sido feito na Ucrânia e não no exterior, sobretudo quando nos referirmos às unidades blindadas, cruciais nesta manobra que os ucranianos pretendiam realizar.

Ao contrário das explicações que têm sido dadas, a formação no exterior não trouxe benefícios visíveis. Para além das dificuldades linguísticas e dos métodos de treino diferentes de país para país, muitos dos instrutores não estavam familiarizados com o armamento ucraniano, não tinham experiência de combate nem conheciam suficientemente a guerra que se estava a travar na Ucrânia. A última vez que os exércitos ocidentais travaram uma guerra convencional foi no Iraque, em 2003. Por outro lado, a utilização intensiva de drones veio revolucionar a tática condicionando a importância até então atribuída aos carros de combate. Eram desenvolvimentos táticos que eles não tinham vivenciado.

Na maioria dos casos, o treino no estrangeiro limitou-se ao treino individual, sem incorporar a componente tática ao nível batalhão e brigada. Por isso, não será de estranhar que numa operação onde era preciso aplicar elevada energia num ponto do dispositivo inimigo, o que se consegue empregando unidades táticas de elevados escalões, as forças ucranianas se limitassem a empregar unidades de baixo escalão, contrariando assim tudo o que se deve fazer neste tipo de operações.

Foram constituídos para esta operação dois Corpos de Exército no total de 12 brigadas, nove das quais equipadas com armamento fornecido por países da NATO e com um treino de duração entre 4 e 6 semanas, feito em países da Aliança. Muitos dos 36 mil soldados dessas nove brigadas eram recrutas sem experiência militar. Apenas 11 % dos 20 mil soldados ucranianos treinados no Reino Unido, desde o início da guerra, tinham alguma experiência.

Não se forma um combatente em seis semanas. Fica apenas apetrechado com os rudimentos para sobreviver no campo de batalha, aprende as ferramentas táticas para combater integrando unidades de baixo escalão (secção, pelotão e com muita vontade companhia), mas não fica habilitado para combater integrando unidades de escalão elevado. Por outro lado, o treino não se deve limitar aos soldados, tem de se alargar aos oficiais e à aprendizagem das técnicas de Estado-Maior, domínio onde se verificou ausência de atenção, como se a arte da guerra fosse matéria despiciente.

Os recursos

Os ucranianos envolveram-se nesta contenda numa situação de inferioridade de meios, ao contrário do que seria desejável e necessário. Embora seja difícil precisar com rigor o efetivo de cada um dos lados em confronto, não andaremos muito longe da verdade se dissermos que os dois contingentes se equivaliam em efetivos. Estimo que cada lado teria aproximadamente 250 mil soldados, o que à partida representava uma vulnerabilidade para o lado ucraniano, uma vez que a força atacante terá de ter, pelo menos, o triplo do efetivo da que defende.

Em matéria do equipamento à disposição de cada um dos lados, a Rússia tinha também vantagem. Em artilharia e munições estima-se que a relação fosse de 5:1 favorável às forças russas. Podemos ainda incluir na artilharia uma diversidade de equipamentos e de munições de que a Ucrânia não dispunha como, por exemplo, os poderosos flamethrowers (TOS-1). 

Não ter vantagem em artilharia até poderia não ser determinante para levar a cabo este tipo de operação. A artilharia faz a diferença numa guerra de atrição, mas não necessariamente numa blitzkrieg. A Ucrânia tem artilharia suficiente para apoiar com fogos uma rotura inicial no dispositivo inimigo, mas não para apoiar o alargamento da penetração, onde a artilharia perde importância, passando a ser indispensável e determinante o apoio aéreo próximo que a Ucrânia não dispõe. 

As forças russas não só tinham superioridade aérea como dispunham de uma considerável frota de helicópteros, entre os quais se destacam os Ka-52 equipados com misseis anticarro, que lhe permite destruir carros de combate até 15 km em quaisquer condições de visibilidade, o que tem provocado bastante dano nas viaturas blindadas ucranianas. Podemos ainda acrescentar a considerável superioridade em drones, independentemente do tipo, que a Rússia dispõe neste momento.

No que respeita a carros de combate e a viaturas blindadas de infantaria, as forças russas dispunham também de uma vantagem considerável, tanto em qualidade como em quantidade. O material fornecido pela ajuda externa à Ucrânia, fundamentalmente os carros de combate e os veículos blindados, apesar de generosa, não era suficiente para fazer face às necessidades. A grande variedade de equipamentos criou graves problemas de interoperabilidade e manutenção difíceis para não dizer impossíveis de superar. Para além disso, as forças ucranianas também tinham escassez de outros tipos de equipamentos cruciais para prevalecer neste tipo de operações, como seja material de desminagem e outros equipamentos de engenharia.

A tática

A surpresa, uma das vantagens do atacante, estava comprometida desde o início, não fosse a imensa proliferação de equipamentos de vigilância do campo de batalha que torna quase impossível esconder grandes concentrações de forças. Era impossível esconder a localização do ataque principal ucraniano e foi aí que os russos os foram esperar respaldados numa forte preparação do terreno, conhecida como linha Surovikin. Das três direções de ataque, o ataque principal deu-se, como esperado, na região de Orikhiv na direção de Melitopol.

A imensa panóplia de viaturas com capacidades e características diferentes tornava a sua utilização tática de forma coerente. Não era fácil empregar taticamente esta macedónia de viaturas. As viaturas MRAP (Mine-Resistant Ambush Protected) de elevada silhueta concebidas para outro tipo de combates tornaram-se presas fáceis para os helicópteros KA-52 russos. Não é de surpreender que as forças ucranianas tenham perdido cerca de 20% do armamento nas duas primeiras semanas da contraofensiva, nos quais se incluem um significativo número de carros de combate e veículos blindados fornecidos pela ajuda externa.

A reduzida profundidade do terreno controlado pelas forças de Moscovo limitou a escolha do tipo de defesa a adotar. Tiveram de optar por uma defesa avançada, dando batalha à frente da primeira linha defensiva, na designada zona de segurança, desgastando as unidades ucranianas antes de alcançarem a primeira linha de fortificações, ou até impedir que as atingissem.

Perante a avassaladora destruição de viaturas blindadas, Kiev desistiu de levar por diante uma blitzkrieg. Optou por deixar as suas viaturas blindadas à retaguarda para não serem destruídas e lançou a sua infantaria apeada sobre as trincheiras inimigas num terreno sem cobertos e abrigos e com observação às longas distâncias, à mercê da artilharia e dos drones russos.

Perante os factos apresentados, não extensivamente, não é difícil concluir que as forças ucranianas se encontram numa situação extremamente delicada, como era expectável. Não podemos deixar de estranhar que perante estes factos conhecidos por todos, alguém possa esperar que as forças ucranianas alguma vez pudessem repelir os contingentes russos do seu território. Só uma avaliação muito errada das capacidades das forças russas poderia justificar tal expetativa. 

Novamente vítimas da sua própria propaganda, os líderes e as opiniões públicas europeias caíram no logro de acreditar que os russos iam debandar e a vitória ucraniana seria um passeio no parque.

Como foi possível, perante tudo isto, pressionar Kiev a avançar e a mandar os seus filhos para o “picador de carne”, vendendo às opiniões públicas que era possível uma vitória? Mais sinistro ainda é sermos confrontados com alguns “especialistas”, que depois de estar na cara que as tropas ucranianas vão ser derrotadas, ainda continuam a tentar iludir as suas audiências com cantos de sereias.


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