O estranho caso do Dr. e do Sr. Navalny

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/02/2024)

Navalny conseguiu a quadratura do círculo ao defender e condenar simultaneamente as ações militares russas na sua vizinhança próxima.


O mundo foi confrontado no dia 16 de fevereiro com a morte do oposicionista russo Akexey Navalny, na colónia penal IK-3, situada na vila de Kharp, no Ártico. Morreu pouco antes do início da Conferência de Segurança de Munique, onde se encontrava reunida uma parte muito significativa da elite política ocidental, que trata de assuntos de segurança e defesa.

A Administração Biden, que não consegue explicar o assassínio de prisioneiros de alto perfil nas prisões norte-americanas, como foi, por exemplo, o de Jeffrey Epstein no Centro Metropolitano de Correção, de Nova Iorque, não teve quaisquer dúvidas em atribuir, de imediato, a Putin, a responsabilidade pela morte de Navalny, ocorrida lá longe na Sibéria. Outros países fizeram uma avaliação similar, como a Suécia, que, no entanto, não foi capaz de explicar a destruição do Nordstream nas suas águas territoriais.

O percurso político de Navalny é cheio de contradições passadas despercebidas a grande parte da comunicação social que integra o mainstream. Faz-nos lembrar o “Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, de Robert Stevenson. Procurarei trazê-las à liça, para que o leitor possa ter uma noção mais precisa de quem foi Navalny e o que significou. O seu nome ficou no Ocidente intimamente ligado à luta contra a corrupção e pelos valores da liberdade e da democracia liberal na Rússia. Mas terá sido o seu comportamento compaginável com esses valores?

No que toca à corrupção, a sua imagem de lutador intransigente e impoluto ficou manchada por graves problemas com a justiça. O primeiro remonta a 2009, embora a sentença tenha sido proferida em 2013, quando Navalny foi condenado a 5 anos de pena suspensa por peculato e desvio de fundos de uma grande empresa de madeiras (Kirovles), tirando partido do facto de ser conselheiro de Nikita Belykh, governador da província de Kirov. Na altura, o Tribunal Europeu para os Direitos Humanos recusou-se a reconhecer a sua prisão como politicamente motivada.

Nos finais de dezembro de 2012, vê-se novamente a braços com a justiça devido a uma queixa de Bruno Lepru, à altura Diretor-Geral da sucursal russa da Yves Rocher, contra uma empresa detida pelos irmãos Navalny acusada de peculato. No final de 2014, O tribunal considerou os irmãos culpados. Alexey foi condenado a uma segunda pena suspensa.

Efeito das penas suspensas e da liberdade condicional que gozava, Navalny tinha de apresentar-se regularmente no Serviço Penitenciário Federal, um procedimento que violou frequentemente.

Só no primeiro semestre de 2020 faltou seis vezes. Quando regressou da Alemanha em janeiro 2021, após ser tratado de um alegado envenenamento com Novichok, que inexplicavelmente não provocou danos irreversíveis, nem ninguém com quem privou adotou qualquer protocolo de isolamento de doentes contaminados – nem os médicos russos e alemães, nem a tripulação do avião que o transportou para a Alemanha – e umas férias no Caribe, entrou nos calabouços.

Sem questionarmos as possíveis motivações políticas da sua prisão, interrogo-me sobre o que se diria na TV se um empresário ou político português condenado em pena suspensa tivesse o mesmo comportamento.

Não terá sido por acaso, que numa primeira avaliação, em fevereiro de 2021, imediatamente após a sua detenção, a Amnistia Internacional (AI) não considerou Navalny um prisioneiro de consciência. Pressões sobre a organização fizeram com que esta, três meses mais tarde, alterasse a sua decisão passando a considerar Navalny prisioneiro de consciência, à semelhança do que aconteceu na Ucrânia, em 2022, quando a AI teve de retroceder e alterar as suas críticas sobre o modo como as forças ucranianas colocavam civis em perigo.

Em 2011, Navalny criou a “Fundação Anticorrupção” (FBK) com a missão de combater a corrupção na Rússia. Apenas 22% do seu orçamento tinha origem em doações de simpatizantes no interior da Rússia. Os restantes 78% eram originários do exterior, em particular dos EUA e do Reino Unido. Os sinais exteriores de riqueza evidenciados por Navalny e pelos membros do seu grupo faziam aumentar as suspeitas. Vladimir Ashurkov, o seu braço-direito e diretor executivo da FBK, oficialmente desempregado, vivia num apartamento alugado, no centro de Moscovo, com uma renda que rondava o milhão de rublos por mês.

O mesmo Vladimir Ashurkov foi filmado pelos serviços de informações russos num café em Moscovo a pedir $10-20 milhões por ano a James Ford, então segundo-secretário para os Assuntos Políticos, da embaixada do Reino Unido em Moscovo e muito provavelmente um agente do MI6, para dar início a uma revolução na Rússia.

Dizia Ashurkov: “se tivéssemos mais dinheiro, poderíamos aumentar a nossa equipa… e isto não é uma grande quantidade de dinheiro para pessoas que têm biliões em causa. A mensagem que estou a tentar passar é a de que os meus esforços de angariação de fundos se dirigem a pessoas da comunidade dos negócios. Temos de jogar noutros tabuleiros… protestos de massas, iniciativas civis, propaganda, estabelecer contactos com a elite e explicar-lhes que somos pessoas razoáveis e que não vamos destruir nada e levar os seus bens, coisas assim”.

Ashurkov pedia também ao Governo britânico para lhes disponibilizar informações que a FBK pudesse utilizar nas suas denúncias, colocando-se assim ao serviço dos serviços de intelligence ingleses. Em 2014, Ashurkov fugiu para Londres, sendo procurado na Rússia por fraude no financiamento da campanha para a presidência da Câmara de Moscovo, a que Navalny concorreu em 2013 e perdeu.

Para impedir a repetição deste tipo de acontecimentos e limitar a ação de organizações estrangeiras sediciosas que se tinham vindo a instalar na sociedade, o Governo russo promulgou uma lei em junho de 2022 “sobre o controlo de atividades de pessoas sob influência estrangeira”, que considerava “agente estrangeiro a pessoa que recebesse ou tenha recebido apoio e/ou esteja sob influência estrangeira sob outras formas e que exerça atividades tipificadas na lei”.

Navalny continuava na prisão a dirigir as ações dos membros da sua Fundação através do Twitter, que por sua vez utilizavam o canal Popular Politics, do YouTube, para apelarem ao derrube do governo e à luta armada contra as autoridades. Os apelos incluíam ainda a rendição dos militares russos e a rebelião contra os seus comandantes

Evolução e pensamento político

Para melhor entendermos o fenómeno Navalny devemos fazer uma incursão ao seu passado político. Navalny começou a sua carreira no Partido Democrático Unido Russo “Yabloko” de tendência social-democrata, liberal e pró-europeia, de onde foi expulso em 2007 pelas suas ideias ultranacionalistas, xenófobas e de extrema-direita incompatíveis com a ideologia de um partido que pugnava pela integração europeia da Rússia.

Desde 2005, que Navalny coorganizava, conjuntamente com grupos neonazis e de extrema-direita, a chamada “Marcha Russa”, um evento anual de cariz xenófobo e racista realizado sob a bandeira czarista – preta, amarela e branca – dirigido contra os imigrantes do Cáucaso e da Ásia Central, em particular os muçulmanos.

Nestas manifestações, Navalny aparecia e discursava ao lado de figuras sinistras como Vladimir Yermolavev, Alexander Belov e Dmitry Demushkin fundadores e líderes de partidos neonazis (seriam ilegalizados mais tarde). Referindo-se aos imigrantes, Navalny afirmava que “embora as baratas pudessem ser esmagadas com uma pisadela, no caso dos humanos recorria-se à pistola”. Mesmo depois da “operação formativa” nos EUA (ver detalhes adiante), Navalny continua a reiterar no seu blogue, por exemplo em 2013, ideias semelhantes. Ou seja, o processo educativo a que se submeteu nos EUA não surtiu grande efeito e parece não ter abalado as suas mais profundas convicções.

Após a expulsão do Yabloko, Navalny participou na fundação do designado Movimento de Libertação Nacional Russa “NAROD” de oposição a Putin, onde se manteve até 2010, cujo programa defendia a promoção da Grande Pátria russa e considerava como prioridade as políticas anti-imigração. Apesar da oposição a Putin, Navalny defendeu no seu blogue e em vídeos no Youtube a ação militar russa na Geórgia, em 2008, de onde provinham as “baratas”, nome que dava aos imigrantes, e a sua irradiação da sociedade russa.

Navalny manteve sempre laços estreitos com sectores das elites russas e do aparelho de Estado, cujo apoio lhe era extremamente útil para promover a sua agenda e a deles, sobretudo aqueles segmentos da oligarquia russa que acumulava ressentimentos contra o Kremlin, não devido ao déficit democrático contra o qual Navalny alegadamente lutava, mas por terem perdido o estatuto que antes gozavam, que lhes atribuía privilégios especiais.

Em 2010, Navalny ruma aos Estados Unidos, mais precisamente à Yale Jackson School of Global Affairs, onde no International Leadership Center (ILC) frequentou durante quatro meses, um curso de liderança. Como indica o website do ILC “reunimos líderes em ascensão de diferentes origens, lugares e convicções que se dediquem à prevenção de conflitos e à construção de sociedades melhores”. A escola “desenvolve e apoia líderes inovadores, eficazes e adaptáveis para enfrentar os desafios mais prementes e complexos com que o mundo se depara.” Também o seu chefe de gabinete, Leonid Volkov, participou em 2019 no mesmo programa.

Como outras escolas, o ILC tem por missão preparar indivíduos que os EUA pensam ter potencial para assumirem posições de liderança em países onde pretendem levar a cabo “revoluções coloridas`”. As networks criadas por Navalny durante esse período permitiram que a sua filha viesse a estudar na Universidade de Stanford onde, no ano de letivo de 2022-2023, se pagava anualmente de propina cerca de 58 mil dólares num curso de licenciatura, um valor que não está ao alcance de qualquer russo da classe média, cujo salário médio ronda os 100 mil rublos, cerca de 1,1 mil euros.

No regresso à Rússia, após a experiência americana, Navalny continuou a organização da resistência ao regime de Putin. Embora se tenha inibido nos últimos anos de participar nas “Marchas Russas”, nunca se distanciou das posições alegadamente incómodas assumidas no passado. As forças da extrema-direita eram sempre convidadas para os protestos por si organizados. Em 2011, Navalny junta-se à campanha anti-imigração e xenófoba organizada pelos neonazis “Parem de alimentar o Cáucaso”.

Em 2013, no seu momento de maior popularidade, concorre à Câmara de Moscovo nas listas do Partido Republicano da Rússia “PARNAS”. Com uma abstenção a rondar os 68%, Navalny foi derrotado obtendo apenas 26% dos votos (632,697), mesmo assim um excelente resultado. Mas a partir daí a sua notoriedade foi progressivamente diminuindo. Numa recentemente sondagem, as intenções de voto em Navalny rondavam os 2%. A sua reduzida notoriedade na Rússia contrasta profundamente com a que lhe é atribuída no Ocidente.

Ambiguidades e contradições políticas

Conforme atrás sugerido, não era claro que Navalny tenha sentido necessidade de esconder a sua xenofobia e ultranacionalismo, após regressar dos EUA. Quando confrontado, em várias entrevistas recentes a jornais de referência (“Guardian”, “NYT”, “Der Spiegel”), com as suas afirmações comprometedoras proferidas no passado, nunca mostrou sinal de arrependimento, chegando mesmo a reiterá-las.

Navalny conseguiu a quadratura do círculo ao defender e condenar simultaneamente as ações militares russas na sua vizinhança próxima. Se, por um lado, condenou a intervenção militar russa na Ucrânia, por outro, apoiou a ocupação da Crimeia (2014) e as ações militares do Kremlin na Abecásia e na Ossétia do Sul (2008). “Como Putin, Navalny considerava a Ucrânia uma construção artificial”. A sua veia ultranacionalista levou-o a afirmar que russos, bielorussos e ucranianos eram partes integrantes da mesma nação, ou seja, da nação russa, posições que não lhe valeram popularidade na Geórgia e na Ucrânia.

Como é sabido, a estratégia tanto dos EUA como da Alemanha passava por: numa primeira fase, provocar uma mudança de regime em Moscovo e instalar um líder obediente; e, numa segunda, desmembrar a Federação russa jogando na promoção de tendências regionais separatistas, com o objetivo de criar cisões nas elites dirigentes e desestabilizar o regime de Putin. Não obstante as suas posições ultranacionalistas exacerbadas, a ambição política de Navalny falou mais alto prestando-se a alinhar num jogo em que nunca passou de peão de brega.

Para concretizar os seus objetivos, Washington costuma não olhar frequentemente a meios, recorrendo amiudadas vezes à fórmula “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Apesar das consequências nefastas desta abordagem (Al Qaeda, Estado Islâmico, etc.), os EUA continuam a insistir nelas.

Não perdem a oportunidade para terem o seu “filho da mãe”, desde que isso lhes proporcione vantagens no curto prazo, sem pensarem nas consequências amargas que advém dessas decisões. Esse princípio foi utilizado nas intervenções no leste europeu onde combinaram “fações dissidentes da oligarquia e do aparelho de Estado, por um lado, e elementos de extrema-direita e neonazis, por outro”, como ficou bem patente na Ucrânia.

O recurso aos préstimos de Navalny insere-se nessa abordagem. Assim se explica, que mesmo sendo ultranacionalista, ele tivesse apoiado os projetos centrífugos e regionalistas abraçados por vários segmentos das elites políticas e económicas, que emergiram com a implosão da União Soviética. Estamos recordados, quando Navalny defendeu a secessão do Cáucaso do Norte da Federação russa (deixem as “baratas” irem-se embora), ou o aumento da autonomia regional, e o regresso às eleições diretas dos governadores regionais.

Em 2019, Navalny fez um longo périplo pela Rússia profunda, ajudando a organizar manifestações contra Moscovo em Yekaterinburg, nos Urais, promovendo a formação da República Independente dos Urais; e, em 2020, apoiou os protestos contra Moscovo na cidade de Khabarovsk, localizada no extremo-oriente russo, na sequência do afastamento do governador da cidade, onde se gritava “liberdade” e “renuncia Putin”.

Epílogo

A antipatia dos dirigentes norte-americanos e do Ocidente em geral relativamente a Putin, não se prende exatamente com a natureza do regime político da Rússia, matéria em que o Ocidente tem muitas pedras no sapato, mas com o facto de Putin ter impedido a desagregação da Federação da Rússia, e a sua ação ter sido decisiva para parar um processo iniciado no tempo de Ieltsin.

Putin foi um contratempo, um empecilho à concretização desse projeto. Mas os EUA não desistiram de provocar uma mudança de regime em Moscovo que lhes permita explorar os imensos recursos naturais da Rússia, como fez no início da década de 90, do século passado, com os recursos energéticos das repúblicas da Ásia Central, imediatamente à capitulação da União Soviética. Como a guerra na Ucrânia, Navalny era uma peça na engrenagem, para implementar essa estratégia complexa.

Para lá de uma razoável certeza, há factos incontornáveis. Navalny não era o desafiador de Putin, o seu grau de notoriedade na Rússia estava muito longe daquele que lhe é atribuído no Ocidente, não foi inicialmente preso por motivos políticos, e as suas credenciais de lutador anticorrupção são débeis. Navalny era, acima de tudo, um oportunista ultranacionalista, xenófobo e racista cheio de contradições. Deve ficar claro que nem todos os apoiantes de Navalny na Rússia são pró-Ocidente, nem que ele era um democrata liberal.

Cui bono a morte de Navalny? Não é seguramente a Putin e ao seu regime; não lhe traz vantagens e só o prejudica. Para que quereria Navalny morto? Não é fácil encontrar uma resposta aceitável. Veio ofuscar a imagem positiva que Putin tinha conseguido com a entrevista de Tucker Carlson e a vitória militar das forças russas em Avdeevka. Em contraponto, não se pode deixar de registar a completa ausência de indignação e repúdio pelas mortes de dissidentes nas masmorras ucranianas sem julgamento, em particular, a recente morte do jornalista e bloguer chileno-estadunidense Gonzalo Lyra. Fica por explicar a dualidade de critérios.

Custa ver o Ocidente apostar em alguém tão contraditório e inconsequente como Navalny para promover a democracia na Rússia. Não haveria alguém mais credível? Porquê investir num ator caído em desgraça, com tantas fragilidades e sem uma máquina política partidária por detrás para o projetar?

Esta opção não deixa de ser reveladora das dificuldades dos EUA em conceberem e implementarem uma estratégia vencedora. A Administração Biden não conseguiu ir além de uma campanha de Comunicação Estratégica magistralmente gizada e com sucesso garantido no Ocidente – colocando mais um prego na demonização de Putin –, mas com poucos ou nenhuns resultados na alteração do regime em Moscovo, como as próximas eleições muito provavelmente o comprovarão.


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Gaza e a responsabilidade de proteger

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/02/2024)

Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive.


Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive.

Muito se tem escrito na Academia sobre Intervenção Humanitária, Responsabilidade de Proteger (R2P), Operações de Resposta a Atrocidades em Massa (MARO), conceitos diferentes, mas muito próximos no que respeita à possibilidade do emprego da força contra um Estado, quando se trate de prevenir ou pôr termo a violações graves e generalizadas dos direitos humanos dos seus cidadãos, por este perpetradas.

Enquanto a intervenção humanitária não prevê a legitimação do uso da força através de autorização do Conselho de Segurança da ONU, ao abrigo do Capítulo VII da Carta, a R2P considera necessária essa autorização quando o emprego da força vise prevenir ou travar o risco de genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica ou crimes contra a humanidade.

A fonte inspiradora de todas estas teorias foi o genocídio no Ruanda e o conflito no Kosovo, este último o exemplo proeminente de uma intervenção humanitária unilateral e não autorizada, levada a cabo por uma organização regional.

Não se pretende debater neste texto a justificação ética, legal ou política destes conceitos, mas tão somente confirmar empiricamente aquilo que já se sabe, e que se procura escamotear e rever: o facto de não se equacionar a possibilidade de penalizar o comportamento de Telavive, através ou de uma intervenção humanitária ou de uma ação no âmbito da R2P, demonstra à saciedade o estatuto de inimputabilidade de que Israel goza. Como dizia um meu conhecido, “para os amigos tudo, para os outros a lei.”

O ataque do Hamas em 7 de outubro e o argumento da autodefesa (a que Israel tem indiscutivelmente direito) não justificam a punição coletiva do povo palestiniano, tanto na Faixa de Gaza como na Cisjordânia, nem a retaliação selvática e desproporcional de Israel. O propósito da barbaridade é outro. Se havia dúvidas no início do conflito sobre as intenções genocidas das autoridades de Israel, elas desfizeram-se passados quase quatro meses de hostilidades.

A desmesurada intensidade do uso da força por parte do Estado de Israel provocou a destruição de 75% dos edifícios da Faixa de Gaza e a morte de cerca de 28 mil palestinianos, dos quais 60% eram mulheres e crianças, e ao deslocamento de mais de 80% dos seus habitantes.

A fome, a morte, as doenças, o corte da água, eletricidade e impedimento do acesso a ajuda médica e humanitária permitem perceber o que realmente pretendem as autoridades israelitas com a sua ação. Na lista dos alvos incluem-se escolas, universidades, hospitais e cemitérios. Na Cisjordânia, respaldados por militares, os colonos cimentam poços para os palestinianos não terem acesso à água, roubam-lhes o gado e as colheitas, e assassinam palestinianos apenas por serem palestinianos. É difícil escamotear a intenção destas ações.

A devastação total e o sofrimento causado deliberadamente às populações têm um objetivo que os dirigentes israelitas não escondem, apesar de não o assumirem formalmente, isto é, tornar Gaza inabitável e enviar os palestinianos para outras paragens. A isto junta-se a eliminação deliberada de importantes segmentos da elite palestiniana, “como sejam cientistas, médicos e académicos de topo em Gaza, cuja perda terá um impacto incalculável na sociedade.”

Relativamente a intenções, os dirigentes israelitas não têm sido parcos em palavras. Por exemplo, no dia 29 de janeiro, vários milhares de israelitas, entre os quais 12 ministros, reuniram-se em Jerusalém para proclamar o regresso dos colonatos a Gaza. “Chegou o momento de regressar a Gush Katif e encorajar a emigração voluntária”, declarou Itamar Ben-Gvir, o ministro da Segurança Nacional, ao evocar um grupo de colónias israelitas antes instaladas em Gaza.

Por seu lado, o primeiro-ministro Netanyahu não deixou os seus créditos em mãos alheias ao relembrar os Amalek, antigos inimigos bíblicos do povo judeu, para incitar ao genocídio dos palestinianos.

Uma intervenção humanitária em Israel?

Foi com base nestes e noutros acontecimentos, alguns ainda mais graves, que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) deliberou que Israel tomasse medidas provisórias para evitar atos de genocídio: prevenir e punir a incitação direta e pública ao genocídio; permitir a prestação de serviços básicos e assistência humanitária urgente; prevenir a destruição e garantir a preservação de provas relacionadas com alegações de atos no âmbito do Art.º II e do Art.º III, da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de genocídio contra membros do grupo palestiniano na Faixa de Gaza; prevenir os crimes que equivalem a genocídio, como “matar, causar danos corporais e mentais graves; e impedir que se infligissem ao grupo condições de vida que pudessem provocar a sua destruição física total ou parcial.

O TIJ deliberou ainda que Israel terá de apresentar dentro de um mês, a partir do momento da decisão, um relatório em que explicará que medidas provisórias tomou para evitar atos de genocídio. O Tribunal recordou ainda a todas as partes as suas obrigações ao abrigo do Direito Humanitário e apelou à libertação dos reféns. Contudo, as decisões do Tribunal parecem não terem inibido Israel de continuar e nalguns casos até agravar o seu comportamento, tornando quase impossível o seu cumprimento.

Antecipando a não observância das medidas provisórias decretadas pelo TIJ e a continuação das mesmas práticas por parte de Israel, não será difícil prever o comportamento dos EUA tanto no Conselho de Segurança (CS) como na Assembleia-Geral (AG), se for colocada a possibilidade de uma operação de R2P em Gaza.

Em situações muito menos gravosas, leia-se Kosovo e Líbia, com o argumento de crimes cometidos contra a população, para impedir a continuação da sua perpetração, num caso, os EUA sob a capa da NATO, e noutro, os EUA conjuntamente com o Reino Unido e França, avançaram unilateralmente com intervenções humanitárias.

Se, relativamente a Gaza, a Administração Biden não recorrer aos mesmos critérios que suscitaram as intervenções anteriores, no sentido de impedir a continuação da flagrante e reiterada violação dos direitos humanos, colocar-se-á numa situação de extrema precariedade em matéria de credibilidade. Será acusada de utilizar dois pesos e duas medidas. Cairá por terra a sua narrativa de defesa de uma Ordem Internacional baseada em regras, tão repetida aquando da invasão russa da Ucrânia.

Tal, leva-nos a concordar com John Lander, ex-embaixador da Austrália no Irão e vice-embaixador na China, quando afirmou que a “Ordem baseada em regras” do Ocidente é “um conjunto de regras sempre variáveis e constantemente vacilantes, concebido pelos Estados Unidos para o benefício dos Estados Unidos e dos seus aliados ocidentais”. Na prática, é um conceito para ser arvorado quando interessa, e descartado quando se torna inconveniente.

A traição dos intelectuais

Embora estejamos perfeitamente cientes da conveniente volatilidade e falácia do conceito de Ordem baseada em regras, nunca é de mais recordá-lo em tempo de revisionismo despudorado promovido por alguns intelectuais da nossa praça e, não são poucos, que fingem não saber existirem uns Estados mais iguais do que outros, tentando convencer os incautos de que a lei é igual para todos, e que todos os Estados são iguais perante a lei.

Não restam dúvidas de que o presente conflito entre Israel e o Hamas mais do que justificaria uma intervenção humanitária na Faixa de Gaza, ao abrigo do Pilar III da R2P, para impedir a continuação das inegáveis atrocidades cometidas pelas Forças de Defesa de Israel contra a população palestina, em contravenção com as decisões do TIJ. Mas sabemos que isso não irá acontecer, e ao não acontecer deixa a descoberto a hipocrisia dos imaculados fariseus vendedores de ética e moral.

Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive; mudos perante a absoluta perversão em curso de valores humanos apregoados de universais, legitimando com o seu silêncio a carnificina. Os defensores da legitimidade do uso da força no Kosovo e na Líbia, tão duros e implacáveis no passado, esvaem-se agora na insustentabilidade do seu medo e contradições.

Na lista incluo os académicos, jornalistas, comentadores e outros, que se inibem de denunciar os crimes e os horrores que ocorrem na Palestina, optando por se aninharem na comodidade do pensamento dominante e nos benefícios que ele proporciona, independentemente dos factos e da razão.

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O acordar tardio do sonâmbulo?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 24/01/2024)

Apesar de alguns alimentarem a ilusão da reversão dos acontecimentos na Ucrânia, os decisores sabem que a possibilidade de isso acontecer é extremamente remota.


A retirada das forças russas de Karkhiv e Kherston no verão de 2022 criou nas elites políticas e nalguns areópagos do comentário a ilusão de que a Rússia iria soçobrar. Os objetivos estavam a ser atingidos. Foram momentos de triunfalismo. No entanto, como podemos hoje comprovar, essas opiniões resultavam de uma avaliação errada da situação baseada em informação falsa e premissas enviesadas.

Senadores norte-americanos regozijavam-se de a guerra na Ucrânia estar a ser um grande investimento. Sem baixas americanas, Washington estava a conseguir destruir metade da capacidade militar russa apenas com 3% do seu orçamento de defesa. Nunca tinha sido tão elevada a crença na possibilidade de um levantamento contra Putin, um dos motivos desta guerra, se não o mais importante, e de uma operação de mudança de regime em Moscovo, várias vezes manifestada por Washington e Kiev. Era o sonho do grupo de neoconservadores que rodeia a Administração Biden.

Contudo, o anunciado e previsto insucesso da ofensiva ucraniana, no verão de 2023, trouxe à tona de água a falta de sustentabilidade das crenças alimentadas pela propaganda. As vozes otimistas e confiantes na derrota russa começaram a baixar o tom e a emudecer. Exceção feita à sempre irrepreensível Ursula von der Leyen, que com as sound bites fora de prazo, veio dizer em Davos que a Rússia tinha perdido 50% da sua capacidade militar.

Os desenvolvimentos políticos na Rússia e na Ucrânia vieram mostrar que o cálculo estratégico da Administração Biden, abraçado servilmente pelos europeus, falhou redondamente. Ao invés do desejado, a popularidade de Putin aumentou e a economia russa não desabou. Pelo contrário, prosperou como dão nota disso os relatórios de várias organizações internacionais insuspeitas. Recentemente, a “Newsweek” corroborou esses relatórios, removendo dúvidas que ainda pudessem subsistir.

A imposição de sanções resultou num fiasco, tendo a Rússia encontrado alternativas para escoar os seus hidrocarbonetos. A tentativa do G7 impor à Rússia um preço máximo de 60 dólares por barril de petróleo não funcionou. Hipocritamente, os EUA romperam as sanções que tanto advogaram comprando petróleo diretamente à Rússia, ao preço de $74 e $76 por barril, segundo a US Energy Administration. Associa-se a isso, o aumento da produção industrial. A Rússia teve, em 2023, um invejável aumento de 3,5% do PIB.

Foi com imensa perplexidade que ouvimos o mais alto dignitário da NATO Jans Stoltenberg vir reconhecer, na recente reunião do Fórum Económico Mundial, em Davos, aquilo que muito poucos vinham consistentemente afirmando há cerca de dois anos, e pelo facto foram agraciados com o epíteto de putinistas: o Ocidente subestimou a Rússia. Esta conclusão tardia é de uma imensa gravidade, uma vez que ilustra a realidade virtual em que ocupantes de altos cargos têm vivido e o desvalor com que as vidas ucranianas foram equacionadas.

As dificuldades da Administração Biden e dos europeus em suster o esforço de guerra ucraniano vieram agravar um ambiente que começava a não ser percebido como favorável, e em que se registava uma inversão de tendência.

Se para Kiev não se consegue ainda visualizar com precisão como irá terminar a guerra, para a Administração Biden começa a visualizar-se mais um fracasso estratégico. Uma vez mais, a Casa Branca foi vítima das alucinações de um grupo de neoconservadores que, de uma maneira ou de outra, continuam a causar perdas irreparáveis à imagem externa dos EUA.

Fizeram quase tudo errado. Para confrontar a China, Biden devia ter garantido a neutralidade de Moscovo, mas a obsessão ideológica neoconservadora foi mais forte do que o pragmatismo. Não só aproximaram Moscovo de Pequim, ao ponto de hoje Moscovo se preparar para cortar completamente os laços económicos com a Europa, como correm o risco de se verem envolvidos em duas crises estratégicas, em simultâneo, para as quais não estão preparados, comprometendo decisivamente as suas ambições hegemónicas globais. No Ocidente, nomeadamente em Portugal, não faltaram comentadores a aplaudir este disparate.

A situação no terreno e o aumento das dificuldades em apoiar o esforço de guerra ucraniano não só provocou uma enorme frustração e desespero no Ocidente, como contribuiu para aumentar a confiança de Moscovo. Como se torna cada vez mais óbvio, é irrealista pensar ser possível reunir condições para a realização de uma futura contraofensiva que possa superar a de 2023. Quem alimenta essa possibilidade está completamente desfasado da realidade. Nem os europeus têm capacidade para a apoiar, nem os ucranianos para a realizar.

Kiev procura lançar desesperadamente uma controversa e impopular campanha de mobilização de 500 mil soldados durante o ano de 2024. Ora, esse efetivo não visa atribuir capacidade ofensiva às forças armadas ucranianas, mas tão somente repor as cerca de 20 mil baixas mensais, isto é, recompletar. Ou seja, conferir-lhes apenas capacidade defensiva.

Por outro lado, o Ocidente não tem, aparentemente, um plano para impedir o insucesso ucraniano que se vislumbra no horizonte. Parece restar-lhe a incomodidade e o desespero. Em vez de enfrentar os factos, assistimos a uma fuga para a frente. Brande o papão de uma terceira guerra mundial. A Rússia vai atacar a NATO, e vão fazê-lo através dos Estados bálticos, que o presidente Biden confundiu com Balcãs. Estas declarações alarmistas visam criar o pânico entre a população e escamotear desonestamente o tremendo erro de análise feito.

Não há consenso quanto à data desse ataque. Uns falam num ano, outros três e outros ainda cinco a oito. De modo descontraído e ligeiro, o ministro da Defesa do Reino Unido Grant Shapps afirmou que nos encontramos num estado de “pré-guerra mundial”. Para tornar mais realista a ameaça, um jornal alemão veio divulgar um documento secreto a explicar como irá decorrer essa operação.

Desacreditada a tese da derrota russa, há que ocultá-la criando outra tese. A histeria alarga-se. O chairman do comité militar, Almirante Rob Bauer, veio desajeitadamente assustar os europeus sugerindo-lhes que se preparassem para o conflito, como se fosse amanhã: “é preciso água, um rádio e uma lanterna a pilhas para garantir que sobreviverá nas primeiras 36 horas. Coisas assim, simples, mas temos de perceber que a paz não é um dado adquirido.”

Na Suécia, por exemplo, sucedem-se as notícias alarmistas, com declarações do mais alto dignitário militar do país, o general Micael Bydén, a alertar que “todos os suecos deviam estar a preparar-se para a guerra.”

A ampliação desta campanha de medo, em que participam alguns diligentes comentadores, baseada num argumento falso – temos de parar a Rússia agora porque no futuro será mais difícil – visa pressionar também a obtenção dos recursos financeiros para apoiar a Ucrânia.

Apesar dos recentes apelos, os indícios de preparação para a guerra já têm alguns anos. A criação de uma infraestrutura logística na Europa não é de agora, como o prova, por exemplo, a criação da “Mobilidade Militar” inserida nos programas da Cooperação Estruturada Permanente da UE, em 2018.

Mais recentemente, a Finlândia disponibilizou 15 instalações militares no seu território para os EUA aí instalarem unidades militares e pré-posicionarem equipamento militar. Por seu lado, a Polónia disponibilizou o seu território para a instalação de bases militares alemãs, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, à semelhança do que já tinham anunciado fazer na Lituânia.

Nos países bálticos, a linha de caminho de ferro com a bitola utilizada na antiga União Soviética está a ser transformada na bitola europeia, um projeto que poderá estar terminado apenas em 2030. Entretanto, a NATO criou um programa que designou por Schengen militar, permitindo que as tropas da Aliança se movam rapidamente e sem obstáculos dentro da União Europeia.

Por seu turno, a Roménia acelera rapidamente a construção de uma nova autoestrada até à fronteira com a Ucrânia, que poderá ser utilizada para facilitar a movimentação de forças militares em caso de conflito. Importa mencionar que este projeto, pensado há muitos anos, ganhou um carácter de urgência a seguir à invasão russa da Ucrânia.

Sempre nos interrogámos qual poderia ser a resposta do Ocidente caso se viesse a verificar uma débâcle da Ucrânia. Os desenvolvimentos recentes começam a apontar para uma resposta. Apesar de alguns alimentarem a ilusão da reversão dos acontecimentos na Ucrânia, os decisores sabem que a possibilidade de isso acontecer é extremamente remota, como também sabem que os próximos 5/7 anos serão de grande agitação geoestratégica, em que as potências emergentes vão procurar tirar partido do vazio de poder criado pelo desmoronamento em curso da Ordem Mundial.

Como tem sido sublinhado por vários académicos, a possibilidade de a transição de poderes na Ordem internacional envolver o uso da força pelos principais atores é extremamente elevada. Acresce que o teatro de operações ucraniano reúne as condições para esse embate. Lamentavelmente, assistimos na praça pública a atiçadores da fornalha, uns manifestamente impreparados, outros escandalosamente industriados.

O objetivo de ambos os grupos é claro, incutir na opinião pública a inevitabilidade de um conflito armado de larga escala, escamoteando conscientemente as consequências que um confronto dessa natureza poderia ter, nomeadamente o arrastamento de toda a Europa.

Esperemos que o exercício Steadfast Defender organizado pela NATO, envolvendo cerca de 90 mil soldados, o maior exercício desde o fim da guerra fria, cujo tema genérico é repelir uma invasão de forças terrestres, fique por um exercício, e não haja a tentação de se intrometer nos desenvolvimentos em curso na Ucrânia.


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