Os russos não chegarão à ribeira de Cheleiros

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/03/2024)

Seria sensato que os europeus não aumentassem os decibéis da retórica, num coro de apoio aos EUA, e percebessem ser tempo para reconciliar e recuperar fórmulas de convivência pacífica, já testadas com sucesso no passado.


Para quem não saiba, a ribeira de Cheleiros situa-se genericamente a sul da vila de Mafra e as suas águas correm no fundo das suas margens alcantiladas. Era aí que, nos meus tempos de tenente na extinta Escola Prática de Infantaria (EPI), o seu batalhão de infantaria detinha as forças do Pacto de Varsóvia que, entretanto, tinham cruzado toda a Europa ocidental e derrotado as forças da NATO por onde passavam. Seriam os valorosos infantes descendentes do Santo Condestável a pôr um ponto final no assunto. Mas estávamos todos cientes de que se tratava de uma situação fictícia para enquadrar um exercício de fogos reais.

Os dirigentes europeus desses tempos, de um e do outro lado da “cortina de ferro”, apostaram na dissuasão, porque sabiam que uma guerra quente entre os dois blocos levaria ao extermínio. Falava-se então na Destruição Mútua Assegurada (MAD, Mutual Assured Destruction), um conceito que parece ter sido esquecido pelos atuais líderes do Velho Continente. Pelo menos, é isso que podemos deduzir do discurso desta nova geração de dirigentes que não viveu o flagelo da guerra.

Foi graças à dissuasão e à MAD, que os dois arqui-inimigos coexistiram pacificamente durante mais de quatro décadas. As grandes potências – EUA e URSS – optaram por se confrontar noutras latitudes, noutros teatros de operações, através de guerras por procuração, afastadas dos seus territórios. Os afegãos, os vietnamitas e outros povos de África saberão certamente do que falo.

Recentemente, surgiu na mente de muitos, por ingenuidade ou mesmo por ignorância, a possibilidade, ou antes, a certeza de que Ucrânia iria derrotar militarmente a Rússia, uma potência nuclear, recorrendo apenas ao patrocínio – financeiro, político, de aconselhamento e armamentista – dos seus promotores, sem que estes tivessem de colocar tropas no terreno, com unidades militares constituídas.

Passados dois anos de guerra, é cada vez mais óbvio o irrealismo dessa fantasia. Não sei o que terá mais de acontecer para perceberem que continuar a armar Kiev, não só não terá consequências estratégicas significativas, como apenas servirá para prolongar a destruição da sociedade ucraniana e o sofrimento de um povo que parece não querer continuar a combater, e que o próprio poder político teme em mobilizar à força.

A cegueira e o preconceito ideológico nunca foram bons conselheiros de quem tem de decidir. Quando se meteram nesta aventura, os europeus deviam estar cientes do historial americano de erros de cálculo estratégico.

Avaliação estratégica desastrada

Quando da guerra do Iraque, a França e a Alemanha, os pilares do projeto europeu, distanciaram-se dessa aventura. Agora não tiveram esse discernimento e optaram por engrossar o coro dos apoiantes. Não será necessário recordar o que aconteceu no Vietname, Afeganistão, Iraque e Líbia, entre muitos outros casos. A crença na derrota da Rússia à custa dos ucranianos é mais um caso de avaliação estratégica desastrada.

Frustrada a esperança de derrotar a Rússia, sentimento que começou a desenhar-se com o insucesso militar de Kiev, no outono de 2023, e o consequente aumento da capacidade e dos sucessos militares do Kremlin, tem-se assistido no Ocidente e, em particular, na Europa a uma certa desorientação, à dificuldade em aceitar que apostaram no “cavalo errado”, em reconhecer que as opções tomadas foram equivocadas e que é tempo de arrepiar caminho.

A hipótese de uma vitória russa na Ucrânia – seja lá o que isso for – tida há dois anos como uma tontaria nos areópagos do comentário, ganhou tração no espaço mediático.

Parece, afinal, que as mal preparadas forças russas conseguiram ultrapassar os problemas da falta de granadas e mísseis e, de um momento para o outro, qual fénix renascida, passaram a ser capazes de desafiar militarmente uma comunidade política com mais de 400 milhões de habitantes, que lhe é económica e tecnologicamente superior. O facto desta abordagem ser ridícula, não impediu que esteja a ser repetida à exaustão, procurando convencer a opinião pública da verosimilhança desse absurdo.

O Presidente Macron será, porventura, o expoente máximo do desalento europeu com a provável humilhação estratégica que a Europa poderá vir a sofrer. A tentativa de liderar a resposta a essa afronta coletiva impeliu-o a formar uma coligação fora do quadro da NATO (com a Polónia e os “poderosos” países bálticos) para intervir com tropas na Ucrânia, sabendo de antemão que os EUA não enviarão forças para o terreno e esquecendo-se, provavelmente, das suas debilidades militares.

Em 2011, não fosse a ajuda americana (mísseis, o reabastecimento aéreo, intelligence, etc.) e o ataque à Líbia teria sido um desastre. Para além disso, Paris já entregou 40% da sua artilharia à Ucrânia e não goza de apoio popular para uma tamanha empresa.

A Rússia não terá a iniciativa de invadir o Ocidente. São muitas as razões que explicam esse comportamento. A primeira, prende-se com a incapacidade de, no caso de ser força atacante, derrotar militarmente as forças europeias da NATO, mesmo que estas não tenham o apoio norte-americano.

O Kremlin está ciente dessa realidade. É demasiado óbvio para haver dúvidas. Veja-se a dificuldade da Rússia em derrotar as forças ucranianas, apoiadas pelas forças ocidentais. O Kremlin sabe, por exemplo, as suas vulnerabilidades em matéria de ISR (Intelligence, Surveillance, Reconnaissance), bem patentes no início da guerra, e ainda evidentes passados dois anos.

A Rússia dispõe apenas de 15 AWACS para cobrir todo o seu imenso território, tem limitações de vigilância permanente do Teatro de Operações e na deteção de longo alcance. É evidente a dificuldade em manter uma presença de 24 horas por dia, sete dias por semana, como tem a NATO, na parte ocidental do Mar Negro. A Rússia não tem recursos para manter uma guerra peer-to-peer com a NATO para lá do território ucraniano. Quem afirmar o contrário é ignorante, ou então impostor.

Todas as grandes potências tiveram a tentação de se apoderar da Rússia, ou de parcelas do seu território, para acederem aos seus imensos recursos naturais. Não recuando às invasões anteriores ao séc. XVI, no séc. XVII, a Rússia foi invadida pela Polónia, no séc. XVIII pelos suecos e, no séc. XIX, por Napoleão. Ainda no séc. XIX, tanto a França como os Britânicos combateram a Rússia na guerra da Crimeia. Não há memória de a Rússia ter reciprocado estas ações instigando, por exemplo, rebeliões na Córsega.

No séc. XX, a Rússia foi invadida pelos japoneses em dois momentos diferentes e, durante a guerra civil (1917-1920), por uma coligação internacional, na qual até participou um contingente norte-americano de 17 mil soldados.

O projeto da Casa Branca não é novo

O projeto norte-americano de remover o regime em Moscovo e substituí-lo por alguém mais próximo dos seus interesses, submisso à Casa Branca, como disse Victoria Nuland, um parceiro como queríamos, “um parceiro ocidentalizado e europeu”, não é novo nem original.

Franceses e britânicos tiveram a mesma ideia no final da Primeira Guerra Mundial, por motivos muito semelhantes aos dos norte-americanos. Também eles tinham como objetivo derrubar o regime recém-instalado em Moscovo para ter “vantagem comercial e política”. Segundo o acordo celebrado nessa altura, caberia à França “exercer influência”, eufemisticamente falando, nas zonas da Bessarabia e da Crimeia.

Segundo o “Le Monde”, Macron partilhou com o seu inner circle a intenção de enviar tropas francesas para Odessa, provavelmente para celebrar os 105 anos em que Odessa foi durante cem dias uma província francesa. Gorado o projeto britânico de construir uma base militar naval em Odessa, a França procura agora tomar a dianteira na concretização desse projeto.

A estes sonhos e a estas ambições, terminadas todas do mesmo modo, teremos de adicionar o sonho hitleriano do império de 1000 anos, cuja brutalidade da operação militar deixou marcas ainda hoje bem visíveis na sociedade russa.

Só em duas ocasiões na História, as forças russas/soviéticas avançaram para oeste dos rios Oder e Vístula, na sequência das invasões dos exércitos napoleónicos e hitlerianos, em operações de exploração do sucesso, em resposta ao ataque de que foram vítimas. O que motivaria o Kremlin a fazê-lo agora?

Historicamente, a Rússia balanceou-se estrategicamente para a Ásia e não para a Europa. A ausência de um motivo plausível que explique uma alteração estratégica leva-nos a concluir ser uma falácia a inevitabilidade de um ataque russo à Europa, forjado para distrair as atenções da derrota estratégica que se avizinha no horizonte.

Ao contrário dos EUA e de outras potências, que invadiram ou provocaram mudanças de regime em locais não contíguos com os seus territórios, a Rússia atuou militarmente em dois locais – Geórgia e Ucrânia – que lhe são contíguos e nos quais houve anteriormente operações de mudança de regime provocadas por Washington. Curiosamente, foram estes os dois países convidados para aderirem à Aliança na Cimeira de Bucareste, em 2008. Convinha relacionar os acontecimentos e tirar daí ilações.

É tempo de recuperar fórmulas de convivência pacífica

Não é controverso o rearmamento europeu e o reforço da sua preparação militar (Schengen militar, transportes militares, construção de caminhos de ferro e autoestradas, etc.) se for subordinado a uma lógica de dissuasão. É, aliás, necessário, desde que não tenha outro fim em vista. Contudo, não deixa de ser caricato que figuras como Ursula von der Leyen, que colaborou ativamente no enfraquecimento das forças armadas germânicas enquanto ministra da defesa (2009-2014), vir agora liderar o coro dos belicistas. Dá que pensar.

Antes de escalarem o conflito para patamares insustentáveis, os altos dignitários europeus devem considerar no seu processo de decisão: que os EUA não enviarão tropas para a Ucrânia, tendo os europeus de contar apenas consigo próprios; que o conceito MAD continua válido e a Rússia tem vantagem em matéria de armamento nuclear estratégico; que a Rússia não vai atacar o Ocidente; e que o prolongamento da guerra não vai provocar uma alteração estratégica da situação, mas sim piorar a situação da Ucrânia.

É inaceitável que os “Comunicadores Estratégicos” tenham escolhido como tema de recurso a invasão da Europa pela Rússia, uma vez resolvido o problema ucraniano. Cria ansiedade na população fazendo-a crer que a guerra é inevitável, apesar de não existirem indícios técnicos que o possam sugerir. É uma ação de doutrinamento baseada em premissas falsas, promovido pelos setores mais belicistas, para tornar as populações recetivas a aceitarem um confronto militar indesejado com a Rússia.

Seria, pois, sensato que os europeus não aumentassem os decibéis da retórica, e percebessem ser tempo para reconciliar e recuperar fórmulas de convivência pacífica, já testadas com sucesso no passado.

Afinal, a probabilidade de os russos voltarem a passar o Oder ou o Vístula para Ocidente afigura-se nula. Os mafrenses e os europeus poderão dormir descansados. Os russos não chegarão à Ribeira de Cheleiros.


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As palavras e os factos após dois anos de guerra

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/03/2024)

Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não.


Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não.

Passados dois anos de guerra começa a ser tempo de comparar aquilo que tem sido dito com o que na realidade aconteceu e está a acontecer. Urge confrontar as palavras com os factos e tirar conclusões. Os factos vieram dar-nos razão, confirmando na generalidade os nossos comentários e previsões, que refletiam uma posição surpreendentemente minoritária. Ilustraremos o que pretendemos demonstrar com alguns exemplos.

Contrariando a maioria, que via nos recuos táticos dos militares russos em Kherson e Karkhiv, no verão e outono de 2022, o caminho para a vitória ucraniana, previmos com bastante precisão o desenlace da ofensiva ucraniana no verão de 2023, e explicámos com bastante rigor os motivos desse desaire militar e a incapacidade ucraniana para fazer recuar as forças russas até às fronteiras de 1991, e, em particular, expulsá-las da península da Crimeia.

O mesmo se pode dizer quando apontámos a perigosa ingerência de potências estrangeiras no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia, com o recurso a soldados e agências nacionais a operar não oficialmente em território ucraniano. Vieram recentemente a público notícias que confirmaram o que afirmámos. Foi o próprio chanceler alemão Olaf Scholtz que referiu o envolvimento dos britânicos no conflito. Essa ingerência britânica foi também confirmada pelos altos comandos da Força Aérea alemã, numa conversa telefónica intercetada.

Os britânicos são fundamentais para a operação dos mísseis Storm Shadow, utilizados pelos ucranianos. Existem fortes suspeitas de terem operado os mísseis Patriot que abateram o avião civil russo que transportava prisioneiros de guerra ucranianos. Mas a interferência britânica foi particularmente útil e eficaz no que respeita à destruição de navios de guerra russos da esquadra do Mar Negro. Esse empenhamento terá mesmo levado o Chefe do Estado-Maior de Defesa britânico Almirante Sir Tony Radakin a protelar a sua passagem à reserva.

Num registo semelhante, veio também à liça o Presidente francês Emmanuel Macron, quando reconheceu a permanência informal de soldados franceses ao lado das forças ucranianas, confirmando aquilo que tínhamos vindo a alertar. O que até aí era feito dissimuladamente passou a ser assumido oficialmente. Afinal, as potências ocidentais estão envolvidas no conflito, estão em guerra com a Rússia, mas a meio gás. Dispenso de comentar a gravidade de que se reveste este tipo de atuação.

Também afirmámos que a Ucrânia tinha sido impedida de fazer a paz, em março de 2022. Essas afirmações não foram igualmente bem aceites. Mas declarações posteriores de vários responsáveis vieram confirmar, na íntegra, a justeza daquilo que tínhamos afirmado. Perdeu-se uma oportunidade de terminar a guerra em condições não desfavoráveis à Ucrânia.

Davyd Arakhamia, membro da delegação ucraniana às negociações em Istambul, e Naftali Bennett, antigo primeiro-ministro israelita, que liderou uma iniciativa de mediação de Israel, confirmaram aquilo que afirmámos. Recentemente, o “The Wall Street Journal” apresentou uma versão do acordo prestes a ser aprovada, não tivesse existido a intervenção de Boris Johnson junto de Kiev.

O que antes foi considerado uma suposição herética, afinal, é mesmo um facto. Entretanto, o antigo chairman do comité militar da NATO, o general alemão Harald Kujat veio confirmar tudo o que afirmámos: “houve negociações em Istambul com um excelente resultado para a Ucrânia”. “Todos os ucranianos mortos, assim como todos os russos mortos ou feridos depois de 9 de abril [de 2022], devem-se ao facto de a Ucrânia não ter sido autorizada a assinar este tratado de paz”.

Sempre dissemos ser uma falácia a convicção de que os fornecimentos de armas ocidentais fossem alterar a situação estratégica na frente de batalha a favor de Kiev. Pelo contrário, iriam prolongar os combates e exaurir ainda mais os ucranianos, mas não derrotar o Kremlin. Somos agora acompanhados neste raciocínio por Harald Kujat, que vem dizer exatamente o mesmo. Afinal, como sempre dissemos não há armas maravilha, “game changers” como foi afirmado tantas vezes por muitos especialistas espontâneos.

Convém questionarmo-nos se a solução que vier a ser encontrada para o conflito será melhor para Kiev do que aquela possível de obter em 2022. Seguramente que não. Após três anos de guerra na Bósnia, cerca de 100 mil mortes e um país destruído, o acordo assinado pelas partes em Dayton representou uma solução política consideravelmente pior daquela que teria sido obtida se o plano Cutileiro acordado em Lisboa, três anos antes, tivesse sido implementado. À semelhança do que aconteceu na Bósnia, o futuro da Ucrânia não se afigura diferente.

Contra a maioria, sempre negámos que a Rússia estava à beira de um colapso logístico e dissemos que essas afirmações eram falsas e não passavam de propaganda. Passados dois anos, o mainstream ocidental veio a descobrir, de um dia para o outro, que a Rússia já não combatia com enxadas e pás, nem roubava máquinas de lavar para lhes retirar os chips, e passou a estar em condições de invadir a Europa e de colocar armas nucleares no espaço. Este double thinking deve merecer uma reflexão muito cuidada dos leitores sobre a qualidade daquilo que lhes tem vindo a ser dito.

Antevimos, com um mês de antecedência, a demissão do general Zaluzhznyi das funções de Chefe do Estado-maior das Forças Armadas ucranianas. Também essa avaliação foi desvalorizada e considerada campanha desestabilizadora anti Ucrânia. Os factos mais uma vez falaram por si.

Sempre dissemos, ao contrário do que prevalecia no mainstream, que a guerra não tinha começado em 2022. Recordemos as palavras do Presidente Biden, em 24 de fevereiro de 2022, ao afirmar: “Os militares russos lançaram um ataque brutal contra o povo da Ucrânia sem provocação, sem justificação, sem necessidade”. Também neste tema mudou a narrativa. Num discurso no Parlamento Europeu, o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg contradisse a narrativa oficial: “a guerra não começou em fevereiro do ano passado [2022]. Começou em 2014”.

Do ponto de vista tático, fomos duramente criticados quando chamámos à atenção para a necessidade da Ucrânia estabelecer uma postura defensiva, a qual passava pela construção de uma linha fortificada, à semelhança da linha Surovikin, construída seis meses antes da ofensiva ucraniana do verão de 2023.

A sua construção teria permitido às forças ucranianas economizar meios e prepararem-se para um futuro embate com as forças russas em melhores condições. O que se está a verificar após a queda de Avdeevka comprova na plenitude o que afirmámos. As forças ucranianas encontram-se desprovidas de uma capacidade defensiva apropriada para fazer face aos desafios com que vão ter de se defrontar no curto prazo.

Também previmos a possibilidade de os ucranianos poderem vir a deparar-se com a situação difícil em que se encontram, devido à escassez do apoio ocidental. A situação ainda não se encontra no ponto que previmos, mas para lá caminha. Seria bom para Kiev que a nossa previsão não se concretizasse.

As baixas ucranianas têm sido um dos assuntos mais escamoteados na campanha mediática que acompanha a guerra. Depois dos 100 mil mortos ucranianos anunciados pela Presidente da Comissão Europeia, passados uns meses o “New York Times” (NYT), baseado em fontes ucranianas anónimas, indicou 70 mil, e, mais recentemente, o presidente ucraniano Zelensky indicou 31 mil baixas. As rigorosas fontes pró-ucranianas conseguem o milagre das rosas. As baixas ucranianas reduzem com o prolongamento da guerra.

A insanidade demagógica da Comunicação Estratégica que tem imperado no Ocidente impede os cidadãos de perceberem o quão dramática é a situação de Kiev neste capítulo. Procura a todo o transe esconder que as baixas ucranianas rondarão um número entre os 450 e os 600 mil mortos e feridos. Quem acompanha a situação conhece as dificuldades das autoridades militares em recompletarem as unidades que combatem na linha da frente. Um descuido, aparentemente involuntário, de uma parlamentar ucraniana do Partido “Servos do Povo”, referiu cerca de 25-30 mil baixas mensais.

Esta situação é o resultado da guerra de atrição levada a cabo pelas forças russas, tantas vezes negada. Infelizmente, a escolha de quilómetros quadrados conquistados como a métrica de excelência para avaliar o progresso e a situação de uma força militar, esquecendo todas as outras dimensões, nomeadamente as intangíveis, tem recolhido a preferência dos comentadores mais desinformados, e, como tal, mais suscetíveis de serem influenciados pelas fações.

Ataque preemptivo?

Uma das questões que tem suscitado debates bastante acessos prende-se com a natureza preemptiva do ataque russo, em 24 de fevereiro de 2022. Isto é, terá sido uma ação militar em antecipação contra um alvo que estava prestes a iniciar um ataque militar? Será absolutamente correto que “os militares russos lançaram um ataque brutal contra o povo da Ucrânia sem provocação, sem justificação, sem necessidade”, como afirmou nesse mesmo dia o presidente dos EUA, Joe Biden?

A profundidade do tema justifica uma análise que não faremos neste texto. Contudo, algumas notícias que vieram recentemente a público permitem reavaliar os motivos da ação russa. É sempre importante relembrar os relatórios da missão da OSCE na Ucrânia, localizada na linha de separação entre as forças ucranianas pró-governo e pró-russas, convenientemente esquecidos, que assinalavam nos dias que antecederam a invasão russa o dramático aumento de fogos indiretos da parte ucraniana. Eram, na prática, fogos de preparação do assalto ao Donbass pelos cerca de 100 mil militares ucranianos ali estacionados.

Muito interessante e clarificadora foi a intervenção de Evgeniy Muraev, ex-candidato presidencial e presidente do, entretanto, proibido partido “Nashi”, em 14 janeiro 2022, dias antes da invasão, e que só agora chegou ao nosso conhecimento. A marinha britânica estava a preparar a construção de bases na região de Odessa, em território ucraniano. Dizia ainda Muraev, “se nós tivermos no nosso território algum tipo de armamento que eles [os russos] considerem perigosos, então nós estaremos na zona de impacto. A federação russa atuará em conformidade, porque isso será uma ameaça à sua segurança nacional.”

Por sua vez, o NYT veio dizer aquilo que já se sabia, mas que não podia ser dito sem se ser acusado de difundir desinformação russa. Afinal a CIA estava presente na Ucrânia há mais de uma década, mesmo antes do Euromaidan. Segundo o NYT, a CIA admitiu ter ajudado a construir, equipar e operar 12 bases subterrâneas secretas ao longo da fronteira com a Rússia, para espiar e lançar ataques contra o território russo.

Para além disso, a CIA patrocinou e construiu a agência de informação militar ucraniana, tendo-a utilizado durante mais de uma década como arma de espionagem, assassinatos e outras provocações dirigidas contra a Rússia. Ainda segundo o NYT, a agência, durante esse período, formou, treinou e armou forças paramilitares ucranianas que participaram em assassínios e outras provocações contra as forças russas na Crimeia e na Rússia.

A longa ingerência de potências estrangeiras na Ucrânia tinha-se tornado inaceitável para a Rússia. A sua grande preocupação relativamente à Ucrânia era, e continua a ser, acima de tudo, de natureza securitária, procurando que não sejam colocadas bases militares e armamento no seu território. Mas isso não foi respeitado. Podemos antever sem grande margem de erro qual seria a reação dos EUA ou do Reino Unido perante uma situação similar nos seus territórios.

Antevendo um desfecho deste conflito bastante desfavorável para a Ucrânia, defendemos desde o seu início uma solução política mediada, em que a Ucrânia perdesse o menos possível. Esta abordagem foi violentamente criticada, como se estivéssemos a beneficiar o infrator e a fazer a apologia do agressor. Na “onda do que está a dar,” alguns dos que defendiam com profunda determinação a continuação da guerra até à derrota da Rússia, têm vindo convenientemente a reformular o seu discurso.

Primeiro, defendendo a continuação dos combates até que a Ucrânia se encontre numa situação negociável forte; mas como essa situação é cada vez menos plausível, reformularam uma vez mais o discurso. Alguns tiveram o descaramento de vir dizer que “sempre se soube que o conflito acabaria com cedências de parte a parte”, demorando dois anos a aproximarem-se daquilo que sempre defendemos, e que os factos aconselham que aconteça quanto mais depressa melhor.

Esquecendo a história – as tentativas das grandes potências derrotarem a Rússia no seu território tiveram sempre o mesmo fim. Suecos, polacos, franceses e alemães sabem do que falo – e os frequentes erros de cálculo norte-americano (Vietname, Afeganistão, Iraque e Líbia, entre outros), os europeus embarcaram em mais um erro de cálculo da grande potência, que se está a transformar numa aventura dolorosa para a maioria.

Por isso, faz cada vez mais sentido a mobilização das opiniões públicas contra a fação insana dos promotores da narrativa belicista que procura envolver a Europa numa guerra mundial cujos resultados não são difíceis de antecipar.


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Com papas e bolos…

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 04/03/2024)

Após a morte de Navalny, lamentavelmente, ninguém no ‘mainstream’ parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.


Após a morte de Navalny, lamentavelmente, ninguém no ‘mainstream’ parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.

O caso Navalny trouxe-me à memória muitos outros casos, em que as opiniões públicas, resultado da ação da designada Comunicação Estratégica são levadas a acreditar em versões enviesadas dos acontecimentos. Para se atingirem determinados objetivos políticos, versões deturpadas dos factos são apresentadas de modo a serem percebidas como verdades indiscutíveis. Falamos de manipulação das perceções.

A minha atenção para este fenómeno foi despertada por um acontecimento que relatei num livro publicado em 2016. Quando um jornalista perguntou ao responsável de uma empresa de Relações Públicas (RP), contratada por croatas e muçulmanos bósnios, para promover as suas causas, ou, se quisermos, as suas imagens públicas, qual era o feito de que mais se orgulhava, a resposta saiu pronta e sem hesitação: “Colocar a opinião pública judaica do nosso lado”, leia-se, contra os sérvios bósnios acusando-os de nazis.

Esta “tese” punha em causa toda a história da Segunda Guerra Mundial, nos Balcãs. Quem, na verdade, combateu as forças de Hitler foram os sérvios, tanto os que alinharam com os partisans como os monárquicos. Os croatas e os muçulmanos estiveram do lado errado da história, engrossando as fileiras da Wehrmacht e das SS com unidades próprias. Milhares de judeus morreram às mãos dos croatas em campos de concentração na Croácia.

Ambos os presidentes Tuđman (croata) e Izetbegović (muçulmano bósnio) tinham escrito livros onde expressavam ideias muito inconvenientes e inapropriadas. O primeiro defendia, com grande convicção, ideias antissemitas e racistas, enquanto o segundo defendia, como objetivo último da sua ação política, a criação de um Estado islâmico fundamentalista. As questões ideológicas não foram impedimento para o Ocidente se colocar do lado dos croatas e dos muçulmanos na guerra que dilacerou o país, entre 1992 e 1995.

Perante cartões de visita tão inapresentáveis, como dizia o responsável da empresa de RP, havia todas as razões para que intelectuais e organizações judaicas fossem hostis, tanto a croatas como a muçulmanos. “O nosso desafio [da empresa de RP] era reverter esta atitude. E nós fizemos isso magistralmente. Foi um tremendo golpe”. E foi mesmo. Conseguiram colocar as opiniões públicas ocidentais contra os supostos sérvios nazis. É para isto que servem as empresas de Relações Públicas. Limpar imagens, alterar perceções. Foi dinheiro bem empregue!

Apesar do Tribunal de Haia ter, em 2016, ilibado Milosevic da responsabilidade pelos crimes de que foi acusado, ficou para a história como o “carniceiro dos Balcãs”. O mal já estava feito, pouco ou nada serviu a “retificação.” A verdade histórica apurada a posteriori não produz efeitos retroativos. Não faz breaking news.

Na altura, a internet não tinha ainda a utilização generalizada que tem nos dias de hoje, nem existiam redes sociais. Como dizia o referido membro da empresa de RP, a diferença fazia-se através de uma boa base de dados, um computador e um fax. A base de dados devia conter algumas centenas de nomes de jornalistas, políticos, académicos e representantes de organizações humanitárias. Eles encarregar-se-iam de propalar e difundir as “notícias”.

Com a morte de Navalny aconteceu algo semelhante ao que acabo de contar. O Kremlin foi acusado de imediato e sem hesitações da sua morte, em várias versões. Não tenho informação para me pronunciar sobre as causas de tão trágico acontecimento. Mas a débil verosimilhança do que se conta não resiste a um apuramento dos factos, mesmo ligeiro e rápido que seja. Lamentavelmente, ninguém no mainstream parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.

Foi dilacerante ver como ideias estúpidas conseguiram ganhar tração e prevalecer. Os difusores da “verdade” podiam ter-se interrogado, por exemplo, qual seria o interesse do Kremlin em aniquilar um opositor irrelevante – considerado no Ocidente o grande opositor de Putin, vá lá saber-se porquê –, quem fez essa avaliação e com que métrica, quando estavam em curso negociações para ser trocado por um agente russo. Por outro lado, só um ignorante pode acreditar na morte de Navalny causada por envenenamento com Novichok.

Para tornar a situação ainda mais absurda, o insuspeito general Budanov, chefe dos serviços de intelligence ucranianos, veio confirmar a tese russa, afirmando que Navalny teria morrido de morte natural. Dispensaremos da análise muitos outros temas igualmente merecedores de atenção, mas que poderão ser considerados menos ponderosos para o caso (consumo frequente de narcóticos, a visita do advogado na véspera da morte, a coincidência da morte com a inauguração da Conferência de Segurança de Munique, a defesa da ocupação da Crimeia e, simultaneamente, a oposição à operação militar russa na Ucrânia, xenofobia, ligação comprovada a organizações neonazis, etc.).

É muito preocupante que um acontecimento desta natureza, com as implicações políticas conhecidas, não tenha sido objeto de maior escrutínio, ou, se quisermos, de escrutínio tout court. Se é compreensível que as massas não o tivessem feito, o mesmo não se poderá dizer de outros segmentos da sociedade, enquadráveis naquilo que poderemos designar por elites (académicos, fazedores de opinião, intelectuais, etc.). Terá sido desleixo? Não parece credível.

A ausência de interrogações sobre o assunto leva-me a introduzir dois temas na discussão, transportando-a para um outro patamar: o conceito de socialização e poder hegemónico, desenvolvido por John Ikenberry e Charles Kupchan, dois académicos liberais norte-americanos; e o conceito de Comunicação Estratégica.

Ikenberry e Kupchan publicaram, em 1990, na International Organization, um artigo fabuloso, onde explicam como as potências hegemónicas se devem comportar para afirmarem o seu controlo sobre os outros Estados, entenda-se os Estados subordinados. As suas propostas têm como referência aquilo que os EUA devem fazer para o conseguir.

Segundo eles, a cooperação dos Estados secundários com a potência hegemónica exige a adesão a crenças substantivas. A aquiescência advém da socialização dos líderes dos estados secundários; das suas elites aceitarem e interiorizarem as normas articuladas pelo poder hegemónico e, portanto, seguirem políticas consistentes com a sua noção de ordem internacional.

Este processo exige que os líderes e elites dos Estados secundários interiorizem as orientações, e aceitem a normatividade dos valores propostos pela potência hegemónica. Para o processo de socialização resultar, é essencial a recetividade daqueles dois segmentos da sociedade às normas articuladas “superiormente.”

A Comunicação Estratégica desempenha um papel crucial no processo de socialização dos líderes e das elites das nações secundárias. Trata-se de um conceito aglutinador de conceitos, como sejam, as relações públicas, a diplomacia pública, as operações de informações e as operações psicológicas. É o veículo utilizado para moldar atitudes e comportamentos dos diferentes segmentos da sociedade.

Sem entrarmos em grandes considerações conceptuais, diremos que abre as portas ao exercício de operações psicológicas sobre as populações amigas, coisa que o conceito isolado de operações psicológicas proíbe, criando uma barreira conceptual muito ténue entre o permitido e o não permitido. Com a criação do conceito de Comunicação Estratégica as fronteiras esbateram-se. O que não se podia efetuar sobre as populações amigas, acaba por se fazer sob a capa da Comunicação Estratégica. Abrem-se as portas à desinformação sob um manto límpido e assético.

A socialização ajudou a produzir elites que aceitam sem reticências e discussão as crenças básicas propostas pela potência hegemónica, e que agem e pensam em conformidade e de modo normalizado; a Comunicação Estratégica amplifica e difunde essas crenças, através de uma seleção criteriosa de temas e mensagens. A “não normatividade” é penalizada com a ostracização (e não só). É para aí que caminhamos.

Se fosse vivo, George Orwell teria nas democracias liberais de hoje muita matéria para fazer uma revisão alargada do seu “1984”.


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