Da geopolítica da guerra na Ucrânia

(Agostinho Costa e Carlos Branco, a partir de 13/03/2025)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

(Vale a pena ouvir quem sabe de guerra e fala sem seguir a agenda das operações de propaganda da NATO, como acontece com o Isidro ou o Serronha. O Major General Agostinho Costa e o Major General Carlos Branco analisam a situação militar geopolítica e a atualidade Ucrânia – USA – Rússia. O estado da situação em Kursk e no Donbass, as perspetivas do famigerado cessar-fogo, o day-after e o papel da Europa. É ver o vídeo abaixo.

Estátua de Sal, 16/03/2025)


O pacto com o diabo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 06/03/2025)


No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.

O tema ganhou uma renovada acuidade quando o presidente Donald Trump apelidou o seu congénere ucraniano de ditador. Independentemente do rigor das palavras usadas por Trump importa perceber qual é a verdadeira natureza do regime presentemente instalado em Kiev. Segundo a Varities of Democracy, uma organização de elevada credibilidade académica, que estuda o tema dos regimes políticos a nível mundial, considera a Ucrânia uma autocracia eleitoral, portanto, longe de ser uma democracia plena. Embora não se pretenda com este artigo fazer incursões teóricas no domínio da ciência política, ele apresenta alguns factos que podem ajudar o leitor a fazer uma apreciação do tema mais informada.

Para uma melhor compreensão dos factos e com o intuito de facilitar a sua leitura e sistematização, consideraram-se neste trabalho quatro períodos distintos: desde a independência (1991) até à vitória de Viktor Yanukovych (2010); durante a presidência Yanukovych (2010 – 2014); desde o golpe de Maidan (2014) até à eleição de Zelensky (2019), e desde a eleição deste até aos dias de hoje. Por questões de parcimónia, iremos, fundamentalmente, concentrar-nos no último período.

O aparecimento na Ucrânia, à luz do dia, de organizações ultranacionalistas teve lugar no primeiro período, acelerando após a revolução laranja (2004) e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko que, por exemplo, em 2006 reabilitou a organização nacionalista ucraniana OHH UN, responsável pela execução de cerca de 100 mil polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa sequência, em 2010, pouco antes de abandonar a presidência, Yushchenko concedeu o título de Herói da Ucrânia aos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) Stepan Bandera e Roman Shukhevych (22 de janeiro).

Durante a presidência de Yanukovych houve uma pausa nessa política de estado, com a anulação do título de herói da Ucrânia concedido por Yushchenko. Mas, isso não impediu que esses grupos continuassem a proliferar. Por exemplo, em 2013, nasce a Misanthropic Division, uma rede internacional neonazi cujo dirigente Dmytro Kanuper foi condecorado pelo parlamento dinamarquês, em 2024, como um combatente pela liberdade, o mesmo que tinha o Mein Kampft como a sua leitura preferida; ou, a trasladação (21 de julho de 2013) por ativistas da organização ucraniana Pamiat (Memória) dos restos mortais de soldados ucranianos que combateram na Divisão SS “Galicia”.

O golpe de estado arquitetado pelos EUA no início de 2014 – numa audição no Congresso norte-americano, Vitória Nuland confessou terem sido gastos, desde 1991, cinco mil milhões de dólares em ações subversivas na Ucrânia – foi executado com a colaboração ativa destes grupos. Não é, por isso, de estranhar ver Oleg Tyanibok, um confesso nazi líder do Svoboda, uma organização de extrema-direita, impedido de entrar nos EUA devido às suas opções políticas, ser reabilitado e aparecer ao lado do falecido John McCain.

Em 2014 realizaram-se eleições presidenciais (25 de maio) e legislativas (25 de agosto). Nas primeiras concorreram 21 candidatos e nas segundas 29 partidos, num ambiente de grande hostilidade relativamente às forças não apoiantes do novo regime. O Partido das Regiões que tinha ganhado as eleições em 2010 não teve condições para concorrer às eleições legislativas, apesar de ter apresentado um candidato às presidenciais. O sistema marginalizou e absorveu os partidos pró-russos influentes. Nesse ambiente iniciaram-se as perseguições e o assédio a jornalistas e opositores ao regime.

Petr Poroshenko, presidente, entretanto, eleito, vem dizer, num tom “conciliador” que os “ucranianos terão empregos, eles [os russos] não; nós teremos pensões, eles não; as nossas crianças irão para as escolas e jardins de infância, as deles terão de se esconder em caves.” Iniciam-se os ataques indiscriminados às populações russófonas do Donbass por milícias ultranacionalistas, com a anuência do governo, recorrendo ao bombardeamento intensivo de áreas residenciais. Tornaram-se triviais as procissões destes grupos pela Avenida Moscow Prospect, redenominada Avenida Bandera Prospect, com archotes, em datas simbólicas.

Poroshenko toma medidas para diminuir a relevância social da língua russa e da Igreja Canónica Ortodoxa. Em 2017, foi aprovada uma lei que proibia o uso do russo no sistema de ensino. Em dezembro de 2018, foi criada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), independente da igreja canónica ortodoxa, alinhada com Constantinopla, cujos sacerdotes não só subscrevem a ideologia dos setores politicamente mais radicais do espetro político ucraniano, como homenageiam publicamente colaboradores nazis, personagens como Stepan Bandera.

Neste período generalizaram-se as punições públicas extrajudiciais dos chamados marauders, uma forma de justiça popular, “em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita-cola, com as calças ou saias baixadas e as nádegas fustigadas com chibatas e varas.” Estas práticas sociais passaram a ser dirigidas contra quem se suspeitasse ser russófilo. Bastava ser ouvido pela “polícia de costumes” a falar russo ao telemóvel. Em 2015, Poroshenko bane o partido comunista, do antecedente, uma força política com uma considerável influência na sociedade.

Em maio de 2019, Zelensky ganha as eleições e assume o poder com a promessa de resolver o problema das províncias rebeldes que dilacerava a sociedade ucraniana havia cinco anos e fazer a paz. Mas fez tudo ao contrário do que tinha prometido. Tendo chegado ao poder escudado num partido – “Servo do Povo” – com uma ideologia libertária, rapidamente se posicionou como um partido russofóbico e pró-americano, navegando num pântano de contradições ideológicas que combinava ideias liberais, socialistas e nacionalistas.

A intervenção na Rada (27 de maio de 2019) de Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário ilustra bem a importância dos referidos grupos na sociedade ucraniana, quando ameaçou Zelensky de morte se “traísse a Ucrânia”, ou seja, se tivesse a aleivosia de implementar os Acordos de Minsk (“que não eram para ser cumpridos, mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia”).

Com a tomada de posse de Zelensky, acelera-se o processo de deterioração das liberdades cívicas iniciado no mandato do seu antecessor, particularmente no que respeita à promiscuidade entre Estado e grupos ultranacionalistas, que aumentam de protagonismo. Completamente alinhado ideologicamente com aqueles grupos, Zelensky vai aprofundar aquilo que Poroshenko tinha iniciado. Os oligarcas seguem-lhe o exemplo.

Um dos principais objetivos do presidente, ex-russo falante, é a completa eliminação da língua e cultura russa. Imediatamente após os protestos de Maidan, o Verkhovna Rada decidiu revogar a lei sobre os princípios da política linguística do Estado, que estava em vigor desde 2012. Em 2017, Poroshenko proíbe o ensino em russo, e a partir de janeiro de 2021, Zelensky dá outra machada na língua russa, ao proibir a sua utilização na administração do Estado.

Foram igualmente proibidos os livros escritos em russo, incluindo os clássicos da literatura russa. Zelensky ordenou a retirada de 100 milhões de livros de autores russos das bibliotecas da Ucrânia. Tolstoi, Pushkin, Dostoievski e Gorky, entre outros, foram proscritos. O mesmo sucedeu aos compositores russos. Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich, Borodin, Glinka, Rimsky-Korsakov e muitos outros foram também banidos. Espetáculos e quaisquer outras manifestações culturais em língua russa foram igualmente proibidas. O inglês passou a ser a segunda língua na Ucrânia. As minorias húngaras e romenas, que tinham pretensões semelhantes à russa foram igualmente atingidas e objeto de discriminação.

No plano religioso, Zelensky foi mais além de Poroshenko e proibiu a igreja canónica ortodoxa (ICO). Foi penoso ver, em abril de 2023, o cerco ao Kiev Pechersk Lavra (KPL) e os correligionários da nova igreja ucraniana expulsarem os sacerdotes da ICO com a ajuda da polícia. De santuário de referência da ICO, o KPL passou a ser lugar de cerimónias pagãs e de encontros gastronómicos sem qualquer relação com a religião. Por toda a Ucrânia, os acólitos da nova igreja apoderaram-se dos santuários da ICO e expulsaram os seus sacerdotes.

Foi durante a vigência de Zelensky, que se realizaram os maiores ataques à liberdade de expressão no país. No dia 3 de fevereiro de 2021 foram banidos três canais de televisão (ZIK, News 1 e 112 Ukraine). No dia 20 de março de 2022, obedecendo às ordens de Zelensky, o Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia ilegalizou, de uma assentada, 11 partidos políticos por supostas ligações à Rússia. Viktor Medvedchuk, o líder da “Plataforma para a Vida”, o principal partido da oposição, que ocupava 44 lugares no parlamento ucraniano, foi colocado em prisão domiciliária.

Destino semelhante teve o presidente do supremo tribunal. O presidente do Tribunal Constitucional “ausentou-se” para parte incerta para não ter a mesma sorte. Até o antigo Presidente Poroshenko, um adversário político e inimigo de longa data de Zelensky, foi vítima da repressão política e da caça às bruxas “politicamente motivada” promovida por Zelensky, que o acusou de “alta traição” e de auxílio a organizações terroristas. É longa a lista de políticos, jornalistas e empresários mortos, sequestrados ou torturados durante a presidência de Zelensky. Um deles, é Oleksander Dubinskyi deputado na Rada, vítima de duas tentativas de assassinato e preso há mais de 15 meses por criticar a corrupção no país.

Em contrapartida, nenhuma das organizações neonazis foi ilegalizada. O nazismo e as insígnias fascistas normalizaram-se na sociedade e no seio das forças armadas. A suástica, o Sol negro e a caveira de Totenkopf vulgarizaram-se e tornaram-se moda. Zelensky publicou, sem qualquer pudor, fotografias destas insígnias nas suas contas das redes sociais.

A 13 de maio de 2023, Zelinsky visitou o Papa envergando uma camisola preta com o emblema da UNO, uma organização nacionalista ucraniana, e entregou-lhe um ícone com uma silhueta negra de Cristo ao colo da Virgem Maria, o que, de acordo com os cânones da Igreja Católica pode ser considerado satânico. A moda chegou também a outros domínios como monumentos, toponímia e filatelia, utilizados para exaltar figuras prominentes do movimento ucraniano bandeirista, responsável pela morte de judeus.

No dia 1 de março de 2022, de acordo com o decreto assinado por Zelensky, foi criada a “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” que passou a ser integrada na estrutura das Forças Armadas, cujo pessoal incluía mercenários, adeptos de ideias extremistas e terroristas de várias partes do mundo.

Zelensky aderiu e alimentou a fantasia, promovida pelos ultranacionalistas, de um estado mono étnico, monocultural e centralizado. A aprovação na Rada da lei racista e xenófoba sobre os povos indígenas” (13 de dezembro 2022) foi uma materialização desse desígnio. Inserido neste projeto, assiste-se a um movimento de revisionismo histórico com laivos fantasiosos e caricatos. Igor Tsar, autor do livro “Ucrânia – a pátria ancestral da humanidade”, vencedor do Prémio Stepan Bandera, publicado em Lvov alerta-nos para uma imensidão de “factos históricos” desconhecidos (foram as tribos arianas da Ucrânia que fundaram o Irão no 4º milénio a.C. e colonizaram a Palestina. A língua inglesa é proveniente da Ucrânia. Até Jesus era ucraniano).

Nesta análise sobre o regime ucraniano sob a tutela de Zelensky, não podíamos deixar de referir o envolvimento de Zelensky na corrupção que grassa no país, que se encontra devidamente documentada. No outono de 2021, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou os chamados Pandora Papers, onde se incluíam dados das contas offshore de 35 líderes mundiais. Zelensky e os seus parceiros do estúdio Cartel 95 estavam entre eles.

Entre 2012 e 2016, foram transferidos 41 milhões de dólares para a empresa offshore de Zelensky. Num país normal teria sido preso. Uma das múltiplas mansões que tem por esse mundo fora encontrava-se na Crimeia, um erro que lhe custou caro. Foi expropriado e a mansão vendida em hasta pública, tendo o resultado da venda revertido para um fundo de ajuda a combatentes russos.

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. O “Guardian”, entre outros órgãos de referência da comunicação social, que antes do início da guerra em 2022 escrevia “bem-vindo à Ucrânia, o país mais corrupto da Europa”, passou depois a considerar que “A luta pela Ucrânia é a luta pelos ideais liberais.” A corajosa reportagem de Mariana Van Zeller sobre grupos neonazis na Ucrânia foi censurada e retirada do canal Disney. Quem desmonta esta e outras falácias (o tema está longe de se esgotar neste artigo) foi acusado de ser propagandista do Kremlin.

O branqueamento do regime instaurado em 2014 é feito com base em dois argumentos: se o regime tivesse a filiação ideológica de que é acusado não teria um presidente judeu; os neonazis não têm expressão eleitoral significativa, por isso o regime é democrático. As questões devem, no entanto, ser colocadas de outro modo. Seria insuportável para as democracias europeias admitirem que estão a apoiar um regime que permite a proliferação da ideologia nazi e protege organizações neonazis.

Por outro lado, omite-se o facto de que muitos desses partidos/grupos ultranacionalistas não concorreram às eleições, e menospreza-se deliberadamente a sua influência na sociedade, sobretudo nas forças militares e de segurança, consolidada no rescaldo do golpe de Maidan. O facto da Ucrânia ter servido de tirocínio de combate a vários grupos neonazis europeus está superlativamente documentado em língua portuguesa (aqui (cap.IV) e aqui).

A farsa completa-se quando Zelensky participou nas comemorações do 80º aniversário da libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz, ou se ajoelha no memorial de Babyn Yar, em Kiev, não obstante a sua adesão incondicional à exaltação histórica dos bandeiristas, os mesmos que perpetraram o massacre lembrado por aquele memorial.

Não podemos deixar de nos questionar sobre a complacência e promiscuidade do Ocidente com as forças neonazis que proliferam na Ucrânia, porque é que se omitiu essa realidade e se tornou um tabu a partir de fevereiro de 2024, apesar de denunciada antes, com o conluio da comunicação social. Os exemplos são gritantes, e são muitos. Os aplausos em pé no parlamento canadiano a Yaroslav Hunka, que durante a Segunda Guerra Mundial serviu na 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS, considerado um “herói” durante a visita do Presidente Zelensky. Por terem sido vítimas da brutalidade destes grupos, os polacos são uma exceção a este unanimismo.

Pelo exposto, pode concluir-se que Donald Trump não anda afinal muito longe da verdade. Pelo andamento da carruagem, não se admire o leitor se um dia acordar e perceber que andou três anos a ser enganado. A possibilidade de isso acontecer já esteve mais distante.

A importância da Conferência de Munique

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 20/02/2025)


As alianças são efémeras e funcionam apenas quando existe sobreposição de interesses. Desaparecem ou modificam-se sempre que essa sobreposição deixa de existir.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A Conferência de Segurança de Munique (CSM) realizada na cidade que lhe dá o nome, de 14 a 16 fevereiro de 2025, ficará registada na nossa memória coletiva. A maratona de discursos teve o seu ponto alto na intervenção do vice-presidente norte-americano JD Vance, que utilizou aquele fórum para informar o mundo de que o projeto globalista norte-americano tinha terminado e que, consequentemente, as relações dos EUA com a Europa iriam sofrer alterações significativas. Esta ia deixar de poder contar com o apoio ilimitado dos EUA.

O carácter disruptivo do seu discurso assemelha-se ao de Vladimir Putin, em 2007, quando sinalizou o início do fim da Ordem Unipolar nascida no final da Guerra Fria, assim como do projeto hegemónico global que lhe estava associado, travestido de “Ordem Liberal Internacional”, que lhe dava o suporte ideológico. O livro de Fukuyama saiu das estantes e foi ganhar pó para os baús da História.

Se o discurso de Putin representou o desafio a essa Ordem e a esse projeto, o discurso de Vance, já num quadro de multipolaridade assumida, veio pôr fim ao projeto exaurido e fantasioso da primazia global norte-americana, causando um grande incómodo aos neoconservadores e neoliberais dos dois lados do Atlântico. E, por consequência, pondo cobro ao atlanticismo ameaçando as alianças que lhe deram corpo, nascidas no fim da Segunda Guerra Mundial.

Vance veio afirmar que o perigo para a Europa não se encontrava na Rússia nem na China, mas sim no seu interior, na distância entre as promessas feitas pelos dirigentes europeus aos seus cidadãos e a forma como (não) eram concretizadas, na falsidade em que assentam os seus princípios, na debilidade do poder político tanto ao nível europeu como nacional e nas ameaças à democracia, dando como exemplo o cancelamento das eleições na Roménia e os ataques à liberdade de expressão. Lembrou que a Europa é fraca e que não está em sintonia com os interesses e valores americanos.

Houve na sala um esgar de confrontação entre duas posições ideológicas distintas. As palavras de Vance chocaram a audiência e provocaram algumas respostas. Como o peixe fora da água em grande agitação antes de morrer, os atlanticistas e defensores de uma esgotada Ordem Liberal davam um ar da sua graça, como fizeram Pistorius e Kaja Kalas, entre outros, mas de um modo inconsequente.

Ao ser formalizado o fim do Ocidente como uma entidade – aparentemente – unida, escancaram-se as portas para a emergência de uma nova Ordem Internacional, por cima dos escombros da antiga, provavelmente mais difícil e agreste para os europeus, cada vez mais irrelevantes geopoliticamente e marginais na gestão dos assuntos internacionais, agora agravada pelo afastamento dos EUA da segurança europeia. O atlanticismo caminha a passos largos para o fundo da gaveta.

Vance veio mostrar quem manda e qual o caminho que vai ser seguido. Não é que isso seja novo, mas costumava ser feito de modo menos rude e arrogante como aconteceu desta vez. Não me recordo de líderes norte-americanos não cumprimentarem os dirigentes de um país anfitrião, por permanecerem pouco mais tempo em funções e, em contrapartida, encontrarem-se com líderes da oposição.

O golpe desferido numa Europa decadente, a caminhar para a irrelevância estratégica, torna evidente o fim do sonho da Europa se tornar num polo de poder mundial, um “par inter pares”, com que muitos sonharam e nos quais me incluo. A adesão incondicional da Europa aos excessos do modelo neoliberal liderado por Washington contribuiu decisivamente para o seu declínio.

A conversa sobre a Europa como um ator global não passou de um delírio alimentado por muitos académicos, quando era claro que a União Europeia, a entidade política que representava a Europa, já não desempenhava um papel de relevo em matérias globais. Como pode a UE querer ser autónoma e pensar ser um ator global se ante esta emergência reúne em Paris durante uma presidência polaca ao invés de em Bruxelas ou, no máximo, em Varsóvia?

A Ucrânia foi igualmente um tema incontornável na agenda da conferência. A posição dos europeus veio confirmar uma evidência histórica e, de certo modo, dar razão ao presidente Trump. As guerras europeias contribuíram para a diminuição da importância estratégica do continente. Foi assim nas duas Guerras Mundiais, em que a liderança da Ordem passou para potências não europeias. No caso da guerra na Ucrânia, mais uma guerra europeia, a negligência em compreender a História está a produzir resultados dramáticos.

A não participação da Europa no processo negocial em vias de se iniciar evidencia a sua menoridade no relacionamento entre as potências maiores. O topo da pirâmide política europeia sediada em Bruxelas não compreende isto. A sua visão do mundo limita-se a séries curtas, recorrendo à linguagem utilizada pelos economistas. Talvez compreendam agora, tardiamente, que não existem potências normativas, como nos quiseram fazer crer durante décadas.

O alinhamento incondicional da Europa com o projeto neoconservador/neoliberal da Administração Biden demonstrou a sua incapacidade em perceber que o projeto Ucrânia se tratava de um projeto norte-americano sedicioso, de longa data, contra a Rússia, no qual participaram afincadamente algumas potências europeias, na esperança de colher alguns dividendos. A complacência dos europeus ante as revelações do célebre F*** the EU, da autoria de Victoria Nuland, ou We find a way relativamente à destruição do Nordstream, da lavra de Joe Biden, na presença do chanceler Olaf Scholz, contrastam hoje com o escândalo e a raiva face ao pragmatismo geopolítico de Trump e Vance.

Os dirigentes europeus ainda estão com dificuldade em perceber o que está a acontecer. Têm de se adaptar a viver sozinhos, sem a proteção securitária fornecida pelos EUA, num mundo multipolar e numa nova correlação de forças internacionais em que são atores de segunda ordem. No curto prazo, a Europa pode ser confrontada com uma revolução conservadora. As eleições que se avizinham em vários países europeus poderão ser decisivas e comprometer, decisivamente, este projeto europeu onde prosperam os burocratas não eleitos, mas não o desenvolvimento. O PIB agregado da Europa passou de 90% do norte-americano, em 1999, para 75%, em 2024.

Recuperando uma ideia do Coronel Carlos Matos Gomes, um insigne historiador militar, “uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados… Foram os EUA e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a Ocidente, e a União Soviética, a Leste, que dividiram o continente entre si, em Ialta e Potsdam,” como o voltarão a fazer se for necessário. Nada disto foi tido em consideração pelos altivos burocratas bem instalados na bolha bruxelense.

À semelhança das outras guerras europeias do século XX, também a guerra na Ucrânia está a contribuir para o declínio da Europa. As potências europeias terão de perceber porque deixaram de ser uma prioridade para Washington e que o seu destino vai ser decidido principalmente (se não exclusivamente) pelas grandes potências, China, EUA e Rússia. Afinal, como se estuda nas academias militares e nos cursos de segurança, as alianças são efémeras e funcionam apenas quando existe sobreposição de interesses. Desaparecem ou modificam-se sempre que essa sobreposição deixa de existir.

Os europeus pensaram, ingenuamente, que faziam parte da equipa, que integravam o plantel, quando na verdade nunca passaram de apanha-bolas.

Até há pouco tempo, os inefáveis defensores do elo transatlântico combatiam ferozmente quem defendia o reforço da Política Comum de Segurança e Defesa europeia. Colocavam à frente do desenvolvimento de uma Europa forte os interesses norte-americanos. Multiplicavam-se em conferências e reflexões sobre o tema, em que sob a capa de um pretenso debate se fazia propaganda e criavam lealdades, ridicularizando o projeto de autonomia estratégica europeia. Eram, objetivamente, um instrumento de quem em Washington defendia o imperativo de impedir a emergência na Europa de um polo de poder que pudesse rivalizar com o americano.

Os atlanticistas tinham por missão impedir que a Europa alguma vez pertencesse ao universo dos atores que verdadeiramente contam. Dessa forma, traíram a Europa e os europeus. Alguns, têm agora o descaramento de lamentar a fraqueza militar europeia, quando contribuíram conscientemente para o estado em que nos encontramos.