Para que serve o rearmamento da Europa?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 01/04/2025)


Parece não restarem muitas dúvidas de que os líderes europeus não têm nas suas mentes uma estratégia de dissuasão, mas sim outra mais exigente em meios, para além de ser mais perigosa.


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O debate em redor do rearmamento da Europa passou a dominar as manchetes dos jornais e a abertura de telejornais. A Europa está desarmada, qual capuchinho vermelho prestes a ser triturado pelos dentes afiados do lobo mau, que um dia virá de leste. Mas a realidade dos factos é que nem a Europa está desarmada nem a psicose de massas artificialmente fabricada se justifica com uma ameaça russa em aproximação, desprovendo de sentido a urgente corrida armamentista que se anuncia como inevitável e em que a Europa se prepara para embarcar.

É frequente argumentar que o enfraquecimento da capacidade de defesa europeia se deve a décadas de desinvestimento. Contudo, convém relembrar o desinvestimento recíproco da Rússia em defesa, a seguir ao fim da Guerra-Fria. As ameaças, se não desapareceram totalmente, pelo menos desvaneceram-se consideravelmente. Não havendo ameaça, não faz sentido manter uma capacidade militar que vá para além da dissuasão, estratégia de que a Europa nunca prescindiu.

De 2019 a 2023, o valor agregado das exportações de armamento europeias quase que triplicou o valor das exportações russas. Só a França tem maior capacidade exportadora do que a Rússia. Dos oito maiores países exportadores de armamento, a nível mundial, seis são europeus.

Surpreendentemente, os acérrimos defensores do rearmamento urgente devido a um ataque russo são também os mesmos que: (1) argumentam com a superioridade estratégica europeia (demografia, PIB, capacidade industrial, etc.), a qual é, por si própria, um tremendo fator de dissuasão; (2) e acreditam que a guerra na Ucrânia tem mostrado o quão fraco e ineficaz é o exército russo. Conseguem fazer a quadratura do círculo. A Europa vai ser invadida por um inimigo incapaz e incompetente. Portanto, temos de nos armar até aos dentes.

A Europa tenta delinear uma “estratégia” com base naquilo a que George Orwell chamou de double thinking, isto é, acreditar simultaneamente em duas ideias que se excluem mutuamente. O debate sobre o tema deve começar por esclarecer qual a finalidade do rearmamento, para que serve? Após uma análise cuidadosa do White Paper produzido por uma equipa liderada pela Alta Representante para a Política Externa da UE Kaja Kallas, não ficou claro qual seria a finalidade do rearmamento europeu. São tantas as ameaças e tão diferentes (Rússia, China, Ártico, Norte de África), que ficamos sem perceber exatamente o que se pretende.

Embora não seja dito de modo explícito, não restam dúvidas ser a Rússia a ameaça percebida ficando, no entanto, por saber qual a postura estratégica que a Europa vai adotar: dissuasão defensiva, ofensiva ou é todo este esforço apenas para ajudar a Ucrânia? A resposta a esta questão crucial é ambígua.

A definição de uma estratégia passa por identificar claramente, por esta ordem, os objetivos a atingir, os caminhos a seguir e os meios (objectives, ways and means). A proposta da presidente da Comissão europeia ao Conselho Europeu concentrou-se apenas nos meios – como dotar os estados-membros dos recursos financeiros para se rearmarem, sendo omissa quanto aos objetivos e aos caminhos a seguir. Ou seja, Ursula Van der Leyen (VDL) começou e terminou nos meios.

Qual o objetivo?

A proposta da Comissão sobre o rearmamento europeu usava o termo “dissuasão,” sugerindo a adoção de uma estratégica predominantemente defensiva. Mas, as dúvidas sobre este propósito são enormes. Os lugares tenentes de VDL falam em escalar o conflito e confrontar militarmente a Rússia, sem que esta tenha alguma vez repudiado essas declarações.

Kaya Kallas, a mesma cujo marido fazia negócios com a Rússia já depois do início do conflito na Ucrânia, disse que era preciso destruir e fragmentar a Rússia; e o comissário europeu para a defesa e espaço, o lituano Andrius Kubilius afirmou ser necessário prolongar a guerra até exaurir a Rússia e a Europa adquirir capacidades para a destruir.

Exatamente no mesmo sentido foi o alemão Bruno Kahl, diretor do Serviço Federal de Informações, ao afirmar que um acordo de paz não beneficiará a Europa se for alcançado antes dos próximos cinco anos. Segundo ele, a Rússia está a preparar uma grande guerra com a NATO. O grande argumento em abono desta tese é o facto “das perdas russas estarem a ser repostas e a indústria de defesa do país está a produzir mais do que o necessário para a atual guerra.”

Por sua vez, o Inspetor Geral das Forças Armadas alemãs general Carsten Breuer canta segundo a mesma pauta de música. A ministra dos negócios estrangeiros da Alemanha Annalena Baerbock fala em mobilização nacional. O tradicional rigor orçamental alemão está prestes a desvanecer-se, com o governo a preparar-se para contrair uma dívida no valor de mais de 500 mil milhões de euros, a gastar nos próximos 12 anos. Para além disso, o Governo alemão criou um instrumento para aumentar a dívida num total de cerca de um trilião de euros, ou mesmo mais, envolvendo uma alteração constitucional.

Como se não houvesse amanhã, a Dinamarca acelerou a introdução do alistamento militar obrigatório para as mulheres, passando o seu início de 2027 para 2026; o presidente Macron diz que a Rússia é uma ameaça à França e à Europa e, seguindo o exemplo da Suécia, mandou distribuir manuais de sobrevivência à população, como se a guerra estivesse à porta, criando uma ansiedade absolutamente injustificada; as autoridades polacas anunciaram o início dos preparativos para uma possível guerra com a Rússia introduzindo, para o efeito, formação militar em massa da população, e o primeiro-ministro polaco Donald Tusk quer ter armas nucleares e anunciou o aumento das forças armadas para meio milhão de soldados.

Por seu lado, a Comissão teve o despautério de pedir à população para que armazene água, medicamentos, pilhas e alimentos para sobreviver por três dias sem assistência externa em caso de emergência. É difícil não considerar isto uma preparação para a guerra. Este tom reflete a narrativa a que recorrem os países bálticos. Como notou a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, referindo-se a Kaja Kallas “se alguém a estiver a ouvir, parece que estamos em guerra com a Rússia, e essa não é a linha política da UE.”

Independentemente daquilo que se pense, a verdade é que a UE se está a preparar para a guerra. Parece não restarem muitas dúvidas de que os líderes europeus não têm nas suas mentes uma estratégia de dissuasão, mas sim outra mais exigente em meios, para além de ser mais perigosa. Daí a alegada necessidade de um rearmamento urgente.

O desvario

A ideia do rearmamento europeu não pode ser dissociada de outros acontecimentos em curso que influenciam decisivamente a narrativa armamentista. O principal prende-se com a acusação de que os EUA não honrarão as suas obrigações no âmbito do artigo V, em caso de um ataque militar da Rússia. Nada até agora o indicia.

A Estratégia Nacional de Segurança, da Administração Trump, em 2017; era clara: “A aliança da NATO de Estados livres e soberanos é uma das nossas grandes vantagens em relação aos nossos concorrentes, e os Estados Unidos continuam empenhados no Artigo V do Tratado de Washington.” Pretender que os europeus assumam maiores responsabilidades, não pode ser confundido com a retirada das garantias de segurança por parte de Washington. É intelectualmente desonesto misturar factos distintos apresentando-os como fazendo parte de uma única realidade.

Sem os EUA terem alguma vez manifestado intenção de abandonar a proteção nuclear da NATO, e após terem declarado a intenção em a manter, a Alemanha veio sugerir a sua substituição por uma outra proteção a ser fornecido pela França e Reino Unido (RU). Esta proposta do novo chanceler alemão Friedrich Merz, até recentemente alto quadro da BlackRock Germany, representa a sua total descredibilização. A capacidade nuclear agregada dos dois países não só não constitui uma alternativa ao guarda-chuva nuclear norte-americano, como nem sequer se aproxima da proteção por ele conferida.

Começando logo pelo facto do RU não dispor de capacidade nuclear autónoma. O programa nuclear inglês é um prolongamento do norte-americano. Se os EUA quiserem, o RU não dispara nenhum míssil. Depende dos EUA para tudo (manutenção, arquitetura, teste dos submarinos, etc.) e os misseis Trident são alugados aos EUA e encontram-se, na sua maioria, na Geórgia (EUA). Não deixa de ser hilariante a informação dada pelo desbragado almirante britânico Chris Parry de que um submarino com misseis Trident poderia varrer 40 cidades russas da face da terra. Por outro lado, o programa nuclear francês foi concebido para proporcionar dissuasão nuclear à França. Estendê-lo à Europa é uma ideia que tem tanto de perigosa como de ridícula.

Os dirigentes europeus estão amuados com a nova Administração norte-americana que lhes exige uma maior participação financeira na NATO. Despeitados pelo novo patrão os tratar com maior rudeza passaram a comportar-se de um modo insensato, sendo os principais responsáveis pela rotura com Washington a que temos assistido. Sem pensamento estratégico parecem dispostos a arrastar a UE para uma grande guerra contra a Rússia.

A União Europeia caminha sonâmbula para uma guerra perdida, à qual não tem capacidade para alterar o destino, cujo instigador está a abandonar por ter percebido que não a vai ganhar, tal como aconteceu no Afeganistão, coisa que os europeus ainda não atingiram.

Enquanto a necessária modernização das forças armadas europeias se basear em pressupostos errados, nada de bom se poderá esperar dela. Como diz Matos Gomes “este mantra [do rearmamento] assenta num conjunto de sofismas, de deturpações grosseiras… faz parte da comédia de enganos com que os dirigentes da Europa estão a iludir os europeus.” A Europa, que nasceu como um projeto de paz vencedora do prémio Nobel 2014, está a converter-se num projeto de guerra.

Fonte aqui.

Voyeurismo ou um erro de Signal?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 27/03/2025)


É dramático o ponto a que chegaram as relações entre europeus e norte-americanos. Em vez de se discutirem contactos, negociações e reuniões de alto nível entre líderes, discute-se o voyeurismo das relações internacionais.


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A publicação pela revista The Atlantic, um reduto dos neoconservadores norte-americanos mais empedernidos, de um artigo da autoria do seu editor-chefe, Jeffrey Goldberg, sobre as discussões tidas num grupo de chat do Signal, um serviço de mensagens encriptadas de código aberto, em que participavam altos dignitários da Administração norte-americana, deixou alguma comunicação social europeia em êxtase.

O tema fez manchetes. E embora tenha nascido nos EUA, Goldberg viveu em Israel, onde serviu nas forças de defesa (IDF) durante a Primeira Intifada, tendo sido guarda da prisão de Ktzi’ot, onde se encontravam prisioneiros palestinos.

Segundo as explicações oficiais, Goldberg foi incluído por engano nesse grupo de chat, onde se discutiram os planos para atacar o Iémen. Cumpriu-se a lei de Murphy. É conhecida a hostilidade do The Atlantic a Trump. É uma publicação onde pontificam pessoas como Anne Applebaum, e em que campeia a russofobia.

Quando se apercebeu de que estava a mais no grupo, em vez de alertar e sair, num gesto eticamente muito questionável, Goldberg deixou-se ficar optando pelo voyeurismo, qual mirone a espreitar a vizinha desnuda no banho através de uma frecha da janela. Decidiu partilhar a sua experiência incluindo no texto vários screenshots selecionados, esclarecendo não ter revelado tudo o que viu.

O que aconteceu não pode ser considerado, de modo algum, um exemplo de boas práticas, infelizmente generalizado entre políticos. Talvez por falta de preparação na forma como lidar com matéria classificada, este erro tornou-se frequente. O caso mais chocante terá sido a violação da lei federal pela Secretária de Estado Hillary Clinton, quando utilizou um servidor de correio eletrónico privado para comunicações oficiais classificadas, em vez de utilizar as contas oficiais de correio eletrónico do Departamento de Estado, mantidas em servidores federais. Este caso é mais grave, por não se tratar de suspeitas de incompetência, mas sim de crime.

Com o “acidente” relatado tivemos a confirmação daquilo que se suspeitava. Como os sistemas oficiais seguros não funcionam, os altos funcionários recorrem a aplicações comerciais para lidarem com assuntos sensíveis. No século XXI, com a chegada dos millennials ao poder, o recurso a estas práticas tornar-se-á cada vez mais frequente, sendo necessário tomar urgentemente medidas para o evitar. Os serviços secretos de países hostis agradecem a inação.

O mais interessante do artigo, aquilo em que a comunicação social europeia deveria ter concentrado a atenção – a seleção dos screenshots, que não mostra informação secreta – foi varrido para debaixo do tapete. Não deixa de ser curioso verificar que o que os membros daquele grupo de chat disseram em privado coincide com o que têm vindo a dizer publicamente.

Particularmente confrangedor foi ver os europeus tomarem conhecimento, através deste incidente, daquilo que vai no pensamento da Administração norte-americana sobre desenvolvimentos desta natureza, com sérias implicações para eles e sem serem ouvidos nem achados. São os europeus quem mais beneficia com a liberdade de navegação no Mar Vermelho. Cerca de 40% do comércio para a Europa passa pelo Canal do Suez.

Não deixa de ser interessante notar que na decisão de atacar o Iémen, os americanos tiveram em consideração as possíveis consequências para a Europa, acabando por decidir algo com imenso impacto nos interesses europeus sem ouvirem/consultarem a sua opinião. É dramático o ponto a que chegaram as relações entre europeus e norte-americanos.

As relações internacionais encontram-se ao nível da escola secundária. Em vez de se discutirem contactos, negociações e reuniões de alto nível entre líderes, telefonemas entre a Administração norte-americana e Comissários europeus, discute-se o voyeurismo das relações internacionais. Aproveita-se um engano para dar gás à divergência entre as lideranças europeias e a atual Administração americana, fomentar a discórdia e cavar um fosso entre os dois lados do Atlântico.

Não me recordo de tanto frenesim e indignação nas lideranças e comunicação social europeias quando Victoria Nuland, manifestando um profundo desprezo pelos europeus, mandou a Europa para “aquela parte” (F*ck the EU), ou quando se tornou público que os telefones dos dirigentes europeus andavam a ser escutados por organizações norte-americanas.

Órfãos de um projeto no seu estertor, os líderes europeus estão a fazer tudo para cortar as relações com os EUA. As lideranças europeias esforçam-se ao máximo para extremá-las alimentando o ódio, procurando afirmarem-se como o bastião do anti trumpismo. O fosso que estão a cavar nas relações transatlânticas está a conduzir-nos para um beco sem saída.

Entretanto, na Europa, a erudita Alta Representante Kaja Kallas prega aos quatro ventos que o Ocidente precisa de um novo líder. Mais rapidamente precisa a Europa de uma nova Alta Representante.

Uma última nota sobre os screenshots. Ficou evidente a aversão de JD Vance às guerras eternas (forever wars) e ao ataque ao Iémen, que não servem os interesses norte-americanos, extensiva à falta de entusiasmo e ceticismo relativamente a um conflito com o Irão. Um princípio que os europeus não aprenderam ainda, dispostos que estão a sacrificarem-se e a apoiarem cegamente a causa ucraniana. Apesar das suas descrenças, JD Vance mostrou ser um jogador de equipa e não vetou a decisão da maioria, o que revela ser esta segunda Administração Trump mais consistente do que a primeira. Há que contar seriamente com ela e não a menosprezar.

Os desencontros da paz na Ucrânia 

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 22/03/2025)


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Teve lugar, no dia 11 de março, em Jeddah, na Arábia Saudita, um encontro entre delegações norte-americanas e ucranianas para discutirem a paz na Ucrânia, marcando, assim, o início de um processo diplomático, que se espera conduza à paz. A conclusão mais relevante que saiu desse encontro foi o anúncio de um cessar-fogo temporário, de trinta dias, que passou a dominar as atenções de quem segue o tema. 

Convém, antes de mais, sublinhar que os objetivos definidos pelas partes envolvidas no conflito se encontram muito distantes. São, por enquanto, irreconciliáveis. É importante perceber onde residem as dificuldades nesse caminho de aproximação dos litigantes, antes de se discutir a utilidade do cessar-fogo e os problemas que lhe estão associados. 

Os objetivos da Rússia e da Ucrânia 

O presidente Putin pretende que a Ucrânia: (1) renuncie ao seu objetivo de aderir à NATO, adote uma postura de neutralidade estratégica, e impeça que o seu território possa vir a ser utilizado por potências rivais podendo, assim, constituir uma ameaça ao território russo; (2) renuncie à ambição de possuir armas nucleares; (3) se desmilitarize para incapacitar Kiev de um futuro acerto de contas e se desnazifique; (4) e ceda a totalidade das quatro regiões presentemente ocupadas por Moscovo mais a península da Crimeia. Por seu lado, Zelensky pretende exatamente o oposto. Entre outros objetivos, (1) insiste na adesão à NATO ou noutra forma de garantias de segurança; (2) e fala numa paz justa, uma forma de dizer que a guerra só termina quando a Ucrânia recuperar todos os territórios atualmente na posse da Rússia. Estes são os principais objetivos de um e do outro lado da barricada. 

Ambos os litigantes pretendem prolongar a guerra, uma vez não terem ainda atingido os seus objetivos estratégicos. Se Putin não conseguiu ainda infligir às Forças Armadas ucranianas o nível de destruição desejado, Zelensky continua a acreditar ser possível recuperar os territórios perdidos. Apesar do prolongamento da guerra lhe ter sido desfavorável – em 2022, Kiev tinha conseguido manter a integridade territorial do país, mantendo Donetsk e Lugansk na Ucrânia, mas com autonomia política; em 2025, essa integridade territorial corre o sério risco de não se manter devido à amputação das quatro províncias – Zelensky continua a acreditar que vai atingir os seus objetivos, apesar de contar apenas com o apoio dos europeus, que, por sua vez, o incentivam a continuar, no pressuposto de que no futuro, em algum momento, a Rússia irá soçobrar. Não soçobrou nos três anos de guerra (apesar dos sucessivos vaticínios e das certezas dessa inevitabilidade; primeiro era falta de equipamento, agora é a implosão da economia) com o apoio norte-americano, a rondar os 150 mil milhões de dólares, mas agora vai soçobrar apenas com a ajuda europeia. 

É importante perceber o motivo que leva ambos os lados a não se encontrarem disponíveis para efetuar os compromissos necessários, e se mantenham empenhados em prolongar os combates. Putin sente que o curso da guerra lhe está a correr de feição. Está confiante que vai conseguir desbaratar as forças ucranianas. Apesar de não conseguir recuperar o terreno perdido, de estar acossado e refém dos grupos ultranacionalistas, Zelensky tem uma margem de manobra muito estreita para fazer cedências, em particular as de natureza territorial.

Trump não percebeu que Zelensky, para além de não querer, não pode ceder. Não compreendeu onde reside a origem do problema, que não está em Zelensky, mas sim nos que mandam em Zelensky e sobre os quais, aparentemente, Washington não tem controlo, nem consegue influenciar. 

Surgem relatos de que Trump pretende forçar Zelensky a demitir-se recorrendo à pressão política. Para se verem livres de Zelensky, os norte-americanos fizeram uma aproximação aos seus rivais políticos, em particular, Yulia Tymoshenko e Petro Poroshenko. A primeira já veio manifestar “a necessidade de um fim imediato para o conflito na Ucrânia nos termos mais justos possíveis… acredito que a Verkhovna Rada é obrigada a reagir imediatamente. Estamos a dar esse passo. A guerra deve terminar imediatamente nos termos mais justos possíveis.” Tymoshenko deixou de fazer parte do problema e transferiu-se com armas e bagagens para a “solução”. 

Este plano não é isento de escolhos. Em primeiro lugar, uma solução temporária, na preparação de uma solução definitiva, terá de ter em conta Valerii Zaluzhnyi, um homem de mão dos ingleses; e, em segundo, qualquer que seja a solução a ensaiar – tentativa de um golpe de estado palaciano ou outra – terá de ter em conta a reação dos grupos ultranacionalistas, fortemente implantadas no aparelho militar ucraniano. O próprio Boris Johnson constatou isso mesmo em 2019. Washington está a dar um tiro ao lado. Para atingir a paz, os norte-americanos têm, antes de mais, de pressionar estes grupos e demovê-los das suas posições mais radicais, antes de consumirem tempo com alternativas políticas que, tal como Zelensky, se encontram condicionadas. 

O cessar-fogo 

Um cessar-fogo não conduz necessariamente a um processo de paz. Aliás, são poucos os casos em que isso aconteceu. Os cessar-fogo são, frequentemente, uma consequência de processos de paz, e não a sua origem. A probabilidade de sucesso de um cessar-fogo aumenta quando as forças em confronto têm uma capacidade simétrica, enfrentam um impasse doloroso e a mesa de negociações se torna o único caminho. Quando isso acontece, as condições estão amadurecidas (ripe) para se avançar com um processo político e aumenta assim a probabilidade de a mediação ser bem-sucedida. Não é o caso na Ucrânia. Nem as forças em confronto têm uma capacidade simétrica, nem existe um impasse doloroso. À partida, a probabilidade de sucesso de um cessar-fogo é bastante reduzida. 

A abordagem americana ao processo de resolução do conflito é oposta à da Rússia. Os americanos preferem iniciar o processo negocial com um cessar-fogo, os russos consideram que um cessar-fogo deve ser uma consequência da negociação. Enquanto os EUA pretendem um cessar-fogo a todo o vapor (seja lá o que isso for), a Rússia coloca condições, fazendo-o depender da retirada das tropas ucranianas do Donbass e da renúncia formal da intenção de aderir à NATO. Quando isso acontecer, a Rússia estará então disponível para um cessar-fogo. Segundo Putin, o seu objetivo é pôr fim ao conflito e não simplesmente congelá-lo. 

Para as fações concordarem com o cessar-fogo, Trump recorreu à estratégia “do pau e da cenoura”. Para persuadir Kiev, Washington suspendeu-lhe seletiva e temporariamente o fornecimento de intelligence e de equipamento, com resultados práticos. A pausa no fornecimento foi levantada quando Kiev concordou com o cessar-fogo. Para persuadir Moscovo ameaçou com sanções recusando-se a prolongar as “isenções de Biden” (12 de março de 2025) que permitiam aos bancos russos processarem pagamentos europeus para vender petróleo. Mais recentemente, o secretário de estado norte-americano Marco Rubio pediu ao Ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria que não vetasse as novas sanções da União Europeia à Rússia, permitindo assim que o embargo aos ativos russos permanecesse em vigor. 

Não será difícil perceber a recusa de Moscovo a uma trégua temporária de 30 dias, sem serem colocadas condições; seria uma oportunidade para a Ucrânia se rearmar e equipar, como tem sido admitido por dignitários seus. Por isso, Kiev manifestou imediatamente e sem hesitações disponibilidade para o cessar-fogo, aproveitando o momento para acusar a Rússia de não querer a paz.  

A resposta de Moscovo ao cessar-fogo foi cuidadosa. Procurando não estragar a relação de diálogo agora criada com os EUA, apoiou a cessação de hostilidades apresentando um conjunto de condições, inserindo-as num processo político conducente a uma paz duradoura, que elimine as causas do problema. Putin declarou explicitamente que qualquer cessação das hostilidades na Ucrânia deve ser precedida de uma cessação da ajuda militar e intelligence à Ucrânia, assim como uma clarificação dos mecanismos de verificação e controlo das violações, a implementar. 

O impacto em Kiev do “pau” norte-americano é substancialmente diferente do impacto em Moscovo. No primeiro caso, traduz-se numa vantagem, é na prática uma “cenoura”, no segundo será uma desvantagem, embora de efeito pífio. Nestes três anos de guerra, a Rússia sobreviveu a 28.595 sanções. É duvidoso que estas sanções adicionais impostas por Washington lhe venham causar grande mossa, ao ponto de a empurrar, contrariada, para a mesa das negociações. O que foi um incentivo para Kiev foi um desincentivo para Moscovo. Um cessar-fogo significa para Moscovo mais armas para o oponente, o que dificilmente se pode interpretar como um incentivo. 

O discurso de Trump tem sido oscilante. Tanto diz que a Rússia “tem todas as cartas” como afirma que “não tem cartas.” É difícil perceber como é que Putin vai ser “forçado” a comprometer-se; se de facto tiver todas as cartas. Afinal, até é mais difícil para Trump negociar com a Ucrânia, apesar de “eles [a Ucrânia] não terem cartas”, e “talvez seja mais fácil lidar com a Rússia”. Difícil de interpretar! 

A Europa 

A Europa tem sido arredada das negociações de paz e continuará a sê-lo. Se havia ainda dúvidas sobre isso, ficou claro quando Trump e Putin concordaram, na segunda conversa telefónica (18 de março), continuar diálogo no Médio Oriente através de grupos de especialistas. 

As elites políticas europeias não se conformam com a irrelevância estratégica para que a Europa foi relegada por Washington e Moscovo. Enquanto os EUA estão a tentar acabar com uma guerra por procuração contra a Rússia, criada por eles próprios, e desanuviar as relações com Moscovo, as elites europeias insistem em manter o conflito e prolongar a confrontação com a Rússia, não se sabe até quando. 

Fazendo tábua rasa das instituições europeias – provavelmente imitando o comportamento de Washington e Moscovo – Londres e Paris têm andado num frenesim organizando encontros atrás de encontros, tanto ao nível de chefes de Estado e de Governo, como de chefias militares. 

Sem dar conta da sua irrelevância, como se a sua voz fosse ouvida por Moscovo, Keir Starmer veio exigir a Putin a aceitação e o cumprimento do cessar-fogo, como se tivesse tido alguma interferência no processo. Entretanto, anunciou uma coligação de vontades (coalition of the willings), reunindo cerca de 30 países, entenda-se uma força combinada e conjunta que conta, na maioria dos casos, com países europeus – Reino Unido e França, à cabeça – para ser empregue na Ucrânia. Sem serem conhecidos os contornos do acordo de paz e como se a opinião da Rússia não contasse, Starmer veio dizer que essa força atingiu a “fase operacional”. Secundando Starmer, o ousado Macron considera que Moscovo não se pode pronunciar sobre a colocação de uma força internacional em território ucraniano. 

É difícil descortinar a utilidade desta força. Provavelmente nem Starmer o saberá, uma vez que confunde frequentemente o seu emprego, tanto na monitorização do cessar-fogo como na implementação de um acordo de paz, como se isso não tivesse implicações no desenho e constituição da força a ser empregue num e noutro caso, e nas regras de empenhamento a serem adotadas. 

Ironicamente, a Europa estava mais segura durante a Administração do presidente Joe Biden. Independente de ter empurrado os europeus para esta aventura, havia alguma certeza de que certas linhas vermelhas não seriam ultrapassadas. Uma delas, a não colocação de forças norte-americanas em território ucraniano. Parece que Starmer e Macron não percebem as consequências para a segurança europeia desse ato, ainda por cima sem o chapéu de chuva norte-americano. Seria avisado ouvirem a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, que considera a proposta da França e da Grã-Bretanha, de enviar forças de paz para a Ucrânia, complexa, arriscada e ineficaz. 

Encontramo-nos, pois, perante um fenómeno contraditório. Os europeus que se subordinaram levianamente ao “Projeto Ucrânia” das Administrações democratas de Obama e de Biden sem o questionarem e servindo o seu propósito hegemónico e de primazia global, vêm agora transportar o archote de uma ideia que deixou de fazer sentido, abandonada que foi pela nova Administração norte-americana, sem darem conta da sua orfandade. 

O nó górdio 

Dada a reduzida alavancagem de Washington sobre Moscovo, os efeitos de “castigos” como sanções serão diminutos. Interrogamo-nos se, com a sabotagem do plano norte-americano pelos europeus, os norte-americanos terão uma alavancagem suficiente sobre a liderança em Kiev para a levar a reformular os seus objetivos estratégicos, isto é, renunciar à adesão à NATO e fazer cedências territoriais. Isso só será possível se os EUA conseguirem chegar a quem tem verdadeiramente o poder em Kiev, o que parece não terem ainda incorporado no seu cálculo estratégico. Enquanto isso, Kiev continuará a combater, porque não se encontra ainda num impasse doloroso. A menos que Washington lhe cesse todo o apoio e lembre a Londres e Paris que lhes pode acontecer o mesmo que em 1956, durante a crise do Suez. 

Fazendo apenas jus aos comunicados resultantes da segunda conversa telefónica tida entre Putin e Trump, no dia 18 de março, a mais longa na história das conversas telefónicas entre presidentes russos e norte-americanos – cerca de duas horas e meia – verificamos, entre outras questões, que: (1) no seguimento de uma iniciativa de Trump, Putin concordou com uma trégua de 30 dias, mas apenas em relação a ataques a instalações energéticas; (2) a Europa continua e continuará por mais algum tempo arredada das conversações entre americanos e russos, que vão continuar entre os dois países, no Médio Oriente; (3) Putin não fez concessões; (4) aparentemente a paz será estabelecida nos termos combinados entre Moscovo e Washington, e não nos termos pretendidos por Kiev e/ou Bruxelas. 

Como não se antecipam alterações nas vontades das fações, ainda convencidas de que conseguirão atingir os seus objetivos maximalistas – encontramo-nos longe de um impasse doloroso – assistiremos à continuação da guerra, embalados pela ilusão de que a Rússia irá ceder. Apesar das pressões de Washington, as condições para se iniciar um processo negocial não se encontram ainda maduras neste momento. 

Major-general (na reserva)