Vai a diplomacia sobrepor-se aos canhões?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/05/2025)


Putin conseguiu, até agora, aquilo que pretendia. As negociações prosseguirão, sempre que Kiev estiver disponível, mas sem um cessar-fogo prévio.


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A estratégia da Rússia e a da Ucrânia para terminar a guerra que travam há três anos são conhecidas: os russos exigem que se comece por negociações diretas, sem condições prévias, baseadas nos “acordos de Istambul” (2022); enquanto os ucranianos pretendem, antes de mais, um cessar-fogo de trinta dias; primeiro cessar-fogo e só depois conversações de paz. Compreendem-se as motivações de uns e de outros. O cessar-fogo iria beneficiar o lado ucraniano, que se encontra numa situação militar difícil, e dificultar o avanço de soluções políticas. Os russos apenas estão disponíveis para o cessar-fogo se determinados pressupostos políticos forem previamente satisfeitos.

A encenação começou no dia 10 de maio, com o ultimato feito pelos dirigentes dos países que integram o “Weimar Group +” (WG+), ou seja, Alemanha, França, Polónia e Reino Unido, a Moscovo. Reunidos em Kiev, com o presidente Volodymyr Zelensky, exigiram a Moscovo o fim incondicional das hostilidades, por 30 dias, com início às zero horas do dia 12 (segunda-feira). Se a Rússia não obedecesse seria varrida por sanções e todo o tipo de punições. Desconhece-se o que aconteceria aos ucranianos caso prevaricassem e cometessem eles as infrações.

Numa evidente falta de criatividade para punir o incumprimento russo, o WG+ insistiu na ineficaz estratégia das sanções, como foi reconhecido à NBC News pelo secretário do tesouro dos EUA, Scott Bessent: “as sanções impostas à Rússia durante a administração Biden foram amplamente ineficazes.” A Rússia tem resistido a mais de 28 mil sanções. Não seria agora que os WG+ conseguiriam descobrir as sanções milagrosas que a fariam soçobrar.

Moscovo rejeitou, de imediato, as exigências do WG+. Numa conferência de imprensa pelas duas horas da madrugada do dia 11 (domingo), o presidente Vladimir Putin convidou Kiev para negociações diretas, sem pré-condições, no dia 15 de maio (quinta-feira), em Istambul. Logo nesse domingo, Zelensky afirmou tratar-se de um “sinal positivo”, mas insistiu que “o primeiro passo para acabar verdadeiramente com qualquer guerra é um cessar-fogo”. Cada um dos opositores continuava no seu canto do ringue. A Alemanha e a França rejeitaram de imediato a proposta de Putin.

Entretanto, o presidente Donald Trump foi dando nos seus posts na Truth Social “uma no cravo e outra na ferradura.” Ora manifestava simpatia pela proposta do WG+ para o cessar-fogo, ora pela proposta de Putin para negociações diretas. Num primeiro momento, os WG+ ficaram satisfeitos com a resposta de Trump, porque sabiam que sem os EUA as “suas” sanções não produziriam efeito algum. Julgavam ter encostado Putin à parede.

Mas, a resposta de Trump ao anúncio de Putin começou a desorientá-los. Afinal, Trump não estava de pedra e cal com os europeus. A tentativa de amarrar Trump à estratégia europeia parecia não estar a resultar. Para que as sanções produzissem efeito precisavam dos norte-americanos, pois sozinhos não iam lá. Trump estava a resistir em prolongar a estratégia de Biden abraçada pelo WG+.

Para “estimular” os russos a aceitar o cessar-fogo, vários países continuaram, entre outras ideias, a defender o armamento da Ucrânia e o estacionamento de tropas ocidentais em solo ucraniano. Essa colocação de forças na Ucrânia já foi, entretanto, abandonada. Para Macron “a proposta de cessar-fogo não significava o fim da entrega de armas à Ucrânia. A trégua proposta por Kiev e seus aliados não incluía a suspensão do fornecimento de armamento”. Os Estados Unidos, a Alemanha e a Austrália, entre outros, concordaram em continuar com a ajuda militar a Kiev.

Putin fez orelhas moucas às ameaças do WG+, não só não cessou as hostilidades como conseguiu implementar o seu plano de sentar os ucranianos à mesa das negociações, como ele desejava, sem nenhum cessar-fogo – a tal pré-condição ucraniana para negociar. É sabido que a Ucrânia necessita desesperadamente de um cessar-fogo para poder restaurar o seu potencial militar e continuar o confronto militar com a Rússia.

As negociações de paz só foram possíveis graças à pressão de Trump sobre Kiev. A França e a Alemanha esforçaram-se por as sabotar, mas os posts de Trump na sua rede social esclareciam inequivocamente ao que ia: “A Ucrânia deve aceitar IMEDIATAMENTE as negociações propostas por Putin na Turquia.” O desconforto crescia no círculo íntimo de Zelensky, pouco satisfeito por Kiev ter de negociar diretamente com os russos sem um cessar-fogo prévio. O próprio Zelensky confirmou isso, quando disse que “por respeito a Trump, enviaria uma delegação ucraniana às negociações.”

Depois de Trump “ter pedido” publicamente a Zelensky para aceitar negociações diretas, ficou claro que o presidente ucraniano não tinha outra alternativa que não fosse a de aceitar a proposta russa. A delegação ucraniana apresentou-se em Istambul apenas por receio das possíveis retaliações de Trump.

Como sublinhou o “Guardian”, ao exigir que a Ucrânia iniciasse imediatamente negociações de paz com a Rússia, Trump frustrou o plano do WG+ impor sanções a Moscovo pela rejeição do cessar-fogo. E, em resultado disso mesmo, o WG+ não pôde cumprir a sua ameaça e teve de adiar essas novas sanções a Moscovo.

Encurralado, e num golpe de teatro rocambolesco, Zelensky desafiou Putin para uma reunião presencial em Istambul, sabendo antecipadamente que este não aceitaria. Tendo em mente o acontecimento da Casa Branca, Putin nunca iria permitir que Zelensky transformasse a cimeira entre os dois numa armadilha mediática. Não só Putin não reconhece legitimidade a Zelensky, como este ainda não revogou o decreto, assinado no outono de 2022, que o impede de negociar com Putin. Qualquer decisão acordada poderia assim ser posteriormente revogada com base na falta de mandato de Zelensky para negociar em nome da Ucrânia.

Como era previsível, a recusa de Putin para se reunir com Zelensky foi utilizada para uma campanha de Relações Públicas, como numa ópera bufa, em que Putin foi acusado de não querer a paz. O secretário-geral da NATO Mark Rutte juntou-se à comédia dizendo que a ausência do dirigente russo mostrava o quão desesperado estava. Zelensky representava como um ator no palco de um teatro, uma vez que o seu objetivo não era chegar a um acordo de paz, mas sim continuar os combates. Queria somente fazer parecer que a Rússia não estava a falar a sério sobre a paz, esperando assim que Trump voltasse à anterior estratégia de Biden.

A Ucrânia, que tinha abandonado as negociações três anos antes e que andou sistematicamente a recusar negociar com a Rússia, tinha-se tornado agora, num ápice, num paladino da paz. Dada a pressão colocada por Trump, havia que fingir estar do lado das negociações.

Em visita ao Médio Oriente, Trump deu a entender que, eventualmente, se poderia juntar a Zelensky e a Putin dizendo que “nada vai avançar até que eu e Putin nos encontremos… Mas ele [Putin] não iria sem mim. E quer se queira quer não, não acredito que algo vá realmente acontecer até nos encontrarmos pessoalmente.” Entretanto, deixava alguma ambiguidade no ar ao referir “que se a possibilidade de um acordo para resolver o conflito não for encontrada através de negociações, os líderes europeus e os Estados Unidos atuarão em conformidade.”

Afinal, as negociações acabaram por acontecer nos termos propostos por Putin. No dia 16, antes do início das negociações com a delegação russa, em Istambul, altos dignitários do WG+ reuniram-se em Antalya com a delegação ucraniana. Não desistiam de convencer os EUA a impor à Rússia novas sanções económicas. Mas, para se assegurar que o plano iria decorrer conforme o previsto, o secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, e o senador Lindsey Graham também se reuniram com a delegação ucraniana para lhe transmitir as instruções de Trump: Kiev tem de participar em negociações diretas com a Rússia.

A pressão de Zelensky e do WG+ sobre Trump tem sido constante, não perdendo nenhuma oportunidade. Desde a Albânia ao Vaticano, que se tornou no centro da geopolítica mundial. Até a missa inaugural de Leão XIV foi um pretexto para encontros entre altos dirigentes, para se discutir o tema. Os encontros, as cimeiras e as reuniões foram tantas que já se perdeu a sua conta.

Até ser óbvio que não havia escapatória e que a Ucrânia tinha mesmo de avançar para negociações com a Rússia, os líderes do WG+ pensaram que, com as suas exigências e o apoio de Trump, tinham encurralado Putin. Ao exigir que a Ucrânia iniciasse imediatamente conversações de paz com Moscovo, Trump frustrou assim os planos do WG+. Putin rejeitou o cessar-fogo exigido e Washington não alinhou nas sanções a Moscovo. Entretanto, a Sky News atribuiu a culpa a Trump pela derrota da coligação anti russa.

A pressão de Zelensky e do WG+ sobre o presidente norte-americano aumentou devido ao anúncio da conversa telefónica entre ele e Putin, prevista para o dia 19 de maio, com os líderes europeus a tentarem desesperadamente convencer Trump a não concluir nenhum acordo com Putin e a pressioná-lo para aceitar o cessar-fogo, recorrendo a sanções.

Depois de duas horas e meia de conversa, continuou tudo na mesma. Não houve alterações substantivas na posição russa, e Trump não ameaçou o Kremlin com novas sanções por entender que existe uma hipótese de alcançar a paz, e que o aumento de sanções não iria ajudar. Os europeus não conseguiram o que queriam e o desalento do WG+ e de Zelensky foi imenso.

Mas o que mais os assustou foi o post de Trump, após a conversa com Putin, em que levantava a possibilidade dos EUA se retirarem das negociações. Trump enfatizou que as negociações entre as duas partes deviam iniciar-se imediatamente. Por outras palavras, negociações diretas com a Rússia, sem os EUA.

Trump esclareceu posteriormente que, se no curto prazo não houver progressos significativos no processo de paz, Washington cederá à Europa o seu papel na resolução do conflito. Sem esclarecer, afirmou que outras decisões se seguirão. Fica por saber se, no seguimento do possível abandono das conversações de paz, Washington deixará de apoiar a campanha militar ucraniana, e até onde. Insensível a estes desenvolvimentos, Zelensky continuou a resistir à exigência de Trump para negociar diretamente com a Rússia propondo uma reunião mais ampla envolvendo os EUA, a UE e a Rússia.

Há que perceber o significado da reunião entre as delegações russa e ucraniana, em Istambul, independentemente do âmbito e do mérito do que se acordou, como foi o caso da troca de prisioneiros e do acordo para continuarem as negociações. Putin conseguiu, até agora, aquilo que pretendia. As negociações prosseguirão, sempre que Kiev estiver disponível, mas sem um cessar-fogo prévio.

Mas antes de fazer o ultimato, o WG+ devia ter assegurado o apoio do presidente norte-americano. Ao não conseguir arregimentar Washington para impor novas sanções a Moscovo, colocou-se numa posição vulnerável. Foi um erro de principiante. A capacidade do WG+ para pressionar Moscovo resume-se agora às sanções incluídas no 17.º pacote de sanções aprovado pela UE de consequências económicas duvidosas. Ao não se amedrontar e fazer tábua rasa do ultimato, Moscovo evidenciou a fraqueza do WG+, daqui em diante difícil de ser levado a sério. Os seus líderes quiseram dar um passo maior do que a perna. Isso paga-se caro em matéria de credibilidade.

O significado do acordo dos minerais

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 13/05/2025)


Sob a capa da criação de fundos para a reconstrução ucraniana, o acordo em causa garante a Washington uma presença norte-americana permanente na Ucrânia, numa fronteira adjacente à Rússia.


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A expressão “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita” podia aplicar-se ao acordo dos minerais [daqui em diante o Acordo] assinado em Washington, a 30 de abril de 2025, entre altos dignitários norte-americanos e ucranianos, e posteriormente ratificado pelo Parlamento ucraniano, que tem por objetivo criar um fundo de investimento para a reconstrução da Ucrânia. A saga em redor deste Acordo é longa, com o ponto alto na reunião de Trump com Zelensky, na Casa Branca, bem conhecida de todos. Apesar da insistência ucraniana em associar a este Acordo garantias de segurança norte-americanas, essa aspiração não se concretizou.

Há ainda alguns aspetos desse acordo por apurar. Compreende três documentos, mas só se conhece o que foi assinado, desconhecendo-se o conteúdo dos outros dois, pois o governo ucraniano não os facultou aos deputados. Alguns deles alertaram para o facto de a verdadeira substância do Acordo, a forma como irá funcionar, quem o controla e quais os compromissos legais a que a Ucrânia fica vinculada poder encontrar-se nos dois documentos não divulgados. Alguns deputados manifestaram incómodo pelo facto de estarem a ser pressionados para ratificarem uma versão incompleta do Acordo, quando poderão estar em causa sérias violações da soberania nacional.

As tergiversações norte-americanas também são conhecidas. Afinal, o objetivo do acordo já não é ressarcir os EUA das volumosas quantias gastas com o apoio à Ucrânia, anteriores à sua assinatura. Este acontecimento foi considerado uma vitória diplomática de Kiev. Resta saber se será mesmo assim, ou se não haverá algo obscuro que possa amarrar a Ucrânia, no longo prazo, a obrigações que foram negociadas sem transparência. As rápidas e sucessivas alterações da posição americana sugerem a possível camuflagem de intenções, em que se procurou desviar as atenções daquilo que era realmente pretendido.

O acordo

Talvez precipitadamente, alguns analistas associaram-se de forma apressada à narrativa da vitória ucraniana. Sendo o quinto acordo assinado por Kiev com os EUA desde 1999 (2008, 2017, 2011, 2021), de âmbito semelhante, restam poucas dúvidas das implicações que terá na soberania e independência do Estado ucraniano, já muito coartadas. Por exemplo, cerca de 40% da terra arável ucraniana encontra-se nas mãos de empresas estrangeiras, em particular americanas e chinesas.

A relação entre os signatários do Acordo é manifestamente assimétrica, com benefício da posição americana. As empresas ucranianas são excluídas dos projetos que se venham a contratar, nomeadamente empresas estatais como a Ukrnafta e a Energoatom. Kiev não será remunerada da distribuição de lucros do Fundo se violar os termos do acordo, e os gestores ucranianos perderão todos os direitos de voto no Conselho e nos comités relevantes do Fundo, gerido por um Conselho com igual número de representantes da Ucrânia e dos Estados Unidos, mas em que os principais comités ficarão nas mãos dos gestores americanos.

Ao terem as empresas norte-americanas direito de preferência sobre os novos projetos que vierem a ser propostos a Kiev, os acordos já assinados pela Ucrânia com o Reino Unido e a União Europeia ficam comprometidos. Só se investidores americanos – os primeiros a terem acesso às informações sobre projetos mineiros e de infraestruturas – não manifestarem interesse nos projetos apresentados, é que outros investidores poderão avançar com a sua implementação.

Não é crível que os EUA disponham de novas informações relativamente ao que já se sabe sobre os depósitos de minérios em território ucraniano proporcionado pelos estudos geológicos da era soviética e que, pelos vistos, não terá motivado os oligarcas ucranianos e empresas estrangeiras a explorar nas mais de três décadas que nos separam da independência.

O argumento das “terras raras” inicialmente aduzido para justificar um “negócio da China” é falacioso. É sobejamente conhecido que a Ucrânia não é fonte de nenhum dos 17 metais que compõem a lista de “terras raras”. Não serão os depósitos ucranianos em “terras raras” que vão dar resposta às necessidades da indústria norte-americana nesta matéria. Ao que se deve juntar a viabilidade económica destas explorações. Segundo o Washington Post “levará pelo menos uma década para que os cobiçados recursos possam trazer benefícios às cadeias de abastecimento dos EUA.”

Como o Acordo se refere exclusivamente a minérios não explorados, a rentabilidade económica da sua exploração tem obrigatoriamente de incluir a sua mineração, o que requer um grande investimento cujo retorno económico não é garantido. O mesmo se coloca relativamente ao petróleo e ao gás, com reservas de pouca expressão, cuja exploração as torna pouco atrativas para empresas que podem investir noutros locais com um menor risco de investimento e níveis de retorno mais elevados.

A exploração de titânio, grafite e lítio poderá valer a pena, embora as reservas existentes não sejam muito significativas, o que não as torna particularmente rentáveis. Os depósitos mais promissores destes minerais encontram-se em território ocupado pela Rússia. Comparativamente com outros países, as reservas ucranianas são modestas. A instabilidade política e securitária da região é um desincentivo ao investimento. Muitas das reservas de gás encontram-se em zona de conflito, onde as empresas estariam relutantes em investir, mesmo na eventualidade de um acordo de paz.

Não deixa de ser importante sublinhar, que a Corporação Internacional de Financiamento do Desenvolvimento dos EUA (DFC), um parceiro do Fundo, mantém unilateralmente a autoridade sobre as decisões de investimento, a resolução de litígios e as alterações aos termos da parceria. O estatuto de parceiro menor, apesar da representação nominal equitativa no conselho de administração (3 de 6 lugares), não confere à Ucrânia poder de veto. Kiev assume responsabilidade ilimitada pelas perdas, incluindo disputas legais, flutuações cambiais e reclamações de terceiros, enquanto as obrigações dos EUA se limitam a consultas não vinculativas. Perante isto e muito mais, seria necessária muita boa-vontade para considerar este acordo uma vitória ucraniana.

A posição da Administração Americana

O facto de a Administração Trump se encontrar ciente destas circunstâncias, sumariamente expostas, leva-nos a reequacionar os verdadeiros motivos que terão levado Washington a um tamanho empenho neste acordo. No curto e no médio prazo, os benefícios económicos para os EUA advirão mais da venda de armamento norte-americano do que da futura exploração de recursos a descobrir e a explorar. Cada uma das partes contribuiu para o fundo com 50%, sendo o contributo norte-americano feito em géneros, leia-se armamento.

Mas sobrepor-se-ão os benefícios económicos aos geopolíticos? Sob a capa da criação de fundos para a reconstrução ucraniana, este acordo garante a Washington uma presença norte-americana permanente na Ucrânia, numa fronteira adjacente à Rússia, à semelhança daquilo que anteriores Administrações fizeram na Polónia, países Bálticos e Finlândia (onde detém autorização de acesso a 15 bases militares).

Ao descair-se e apresentar o Acordo como um fator de pressão sobre a Rússia, o Secretário do Tesouro norte-americano Scott Bessent, o mesmo que considera Vladimir Putin um criminoso de guerra, deixou cair a máscara sobre o verdadeiro objetivo do Acordo, sugerindo aquilo de que desconfiávamos. Mais do que as questões económicas, o grande empenho dos EUA no Acordo é de natureza geopolítica. Subjacente, embora não formalmente admitido por Washington, encontra-se um compromisso alargado com a defesa de Kiev, mesmo que isso não envolva forças militares norte-americanas, pelo menos por agora.

Não é possível nesta altura prever quando e quanto dinheiro os EUA receberão de volta, mas isso não foi determinante. Trump presta-se a fazer, de modo subtil, aquilo que Biden não foi capaz.

Brincando à guerra mundial

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/04/2025)


Para os ucranianos, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Ao passo que os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer.


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Para os ucranianos, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Ao passo que os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer.

Uma reportagem do “New York Times” (29 de março de 2025) trouxe à luz do dia o envolvimento secreto – e direto – dos EUA na guerra da Ucrânia, confirmando aquilo que temos vindo a dizer ao longo dos últimos três anos, e tantas vezes sonegado e/ou desvalorizado pela comunicação social.

Em abril de 2022, os EUA estabeleceram no quartel-general do Exército americano para a Europa e África, em Wiesbaden (Alemanha), um posto de comando (PC) operacional orientado exclusivamente para o planeamento e direção das ações militares ucranianas, “trazendo a América muito mais próximo da guerra do que se sabia do antecedente,” onde, lado a lado, oficiais americanos e ucranianos planeavam as ações militares de Kiev. Esta parceria, a espinha dorsal das operações militares ucranianas, considerada por Moscovo como violação de uma linha vermelha, esteve na base de sucessivas ameaças veladas de uma possível resposta nuclear russa. Nesta aventura participaram também, entre outros, oficiais britânicos, canadianos e polacos.

A atividade desse PC inclui(u) um enorme esforço de recolha de informações sobre alvos russos, que eram posteriormente passadas aos soldados ucranianos no terreno, funcionando como um centro de fusão de intelligence, produzindo informações detalhadas sobre as posições, movimentos e intenções russas. Inicialmente, a identificação dos alvos reportava-se “apenas” a alvos russos em território ucraniano.

Como adiante veremos, com o andamento da guerra essas regras foram sendo alteradas e aplicadas também a alvos em território russo, e ao emprego de drones marítimos, desta feita com recurso ao apoio da CIA e dos britânicos. A sobrevivência ucraniana no campo de batalha deveu-se não só ao equipamento fornecido pelos EUA, mas, sobretudo, a este tipo de apoio responsável pela morte de vários generais russos no início da guerra.

A desconfiança mútua

Apesar da estreita colaboração entre ucranianos e americanos ser apresentada como uma parceria, a reportagem dá-nos nota de uma permanente desconfiança recíproca. “Rivalidades, ressentimentos, imperativos e agendas diferentes” contribuíram para isso.

Ilustrativo desse sentimento foram as palavras do general Oleksandr Syrsky, então comandante das forças terrestres ucranianas, na primeira vez que se encontrou com americanos, “nós estamos a lutar contra os russos. Vocês não. Porque é que havemos de vos dar ouvidos?”. Para essa desconfiança terá contribuído o facto de os ucranianos “verem, por vezes, os americanos como prepotentes e controladores – o protótipo do americano paternalista. Por outro lado, os americanos não conseguiam compreender porque é que os ucranianos não aceitavam simplesmente os seus bons conselhos.”

Como ponto de partida dessa desconfiança estava a distância entre os objetivos estratégicos de cada uma das partes. “Os ucranianos queriam ganhar a guerra de uma vez por todas. Mesmo partilhando essa esperança, os americanos queriam certificar-se [apenas] de que os ucranianos não a perdiam.” O objetivo estratégico de Washington era derrotar estrategicamente a Rússia, numa versão maximalista a sua implosão, e a mudança de regime em Moscovo (sem nunca entendermos qual seria a alternativa de Washington a Putin, se é que havia) sem uma confrontação militar direta.

Foram vários os desencontros entre os principais atores envolvidos nessa parceria. Por um lado, os ucranianos “estavam sempre zangados com o facto de os americanos não poderem, ou não quererem, dar-lhes todas as armas e o equipamento que desejavam.” Por outro, “os americanos estavam irritados com o que consideravam ser exigências pouco razoáveis dos ucranianos.”

Na opinião destes, os americanos não estavam dispostos a fazer o que era necessário para os ajudar a vencer. Por sua vez, os americanos achavam que os ucranianos não estavam dispostos a fazer o que era imprescindível para serem ajudados a vencer. Como pano de fundo de tudo isto estava a soberba norte-americana. Como disse o General Christopher Cavoli, SACEUR e por acumulação de funções comandante das forças americanas na Europa, afinal os ucranianos “não tinham de ser tão bons como os britânicos e os americanos; tinham apenas de ser melhores do que os russos.”

Num assomo de sinceridade, o comandante desta parceria ucraniana-americana instalada em Wiesbaden, o General Christopher Donahue explicou que os ucranianos lutavam e morriam, testavam o equipamento e as táticas americanas e partilhavam as lições aprendidas. “Sem vocês”, disse ele, “nunca poderíamos ter construído todas estas coisas.”

Um dos primeiros acontecimentos que marcou essa desconfiança foi o afundamento do Moskva, o navio almirante da esquadra russa no Mar Negro, em abril de 2022. Numa reunião rotineira de partilha de informações, entre oficiais da marinha americana e ucraniana, o navio apareceu inesperadamente nos radares. A Administração Biden não tinha intenção de permitir que os ucranianos atacassem um símbolo tão importante do poder russo. Não obstante, com a ajuda dos ingleses, e sem avisarem os seus parceiros americanos, nem os informarem de que possuíam mísseis capazes de atingir o navio, afundaram-no contra a sua vontade.

Outro dos momentos do desconforto instalado, foi a contraofensiva ucraniana no verão de 2023, quando os ucranianos contrariando as instruções dos norte-americanos atacaram simultaneamente em três direções, com os resultados conhecidos, comprometendo assim a possibilidade de um volte-face no conflito, dado o volume de meios destruídos nessa operação. O que mereceu o grito desesperado de Cavoli “não é esse o plano!”. “A estratégia concebida em Wiesbaden foi vítima da política interna fraturante” onde a política se intrometia nas operações militares, e os generais competiam entre si por protagonismo.

No início de 2024, Zelensky deu instruções ao general Valery Zaluzhnyi para empurrar os russos de volta para as fronteiras da Ucrânia de 1991, até ao outono desse ano. O general chocou os americanos quando lhes apresentou um plano que exigia cinco milhões de granadas de obuses e um milhão de drones, ao que o general Christopher Cavoli respondeu, em russo fluente: “E onde é que os vou buscar?”

“À medida que os ucranianos foram ganhando maior autonomia na parceria, foram mantendo as suas intenções cada vez mais secretas.” A incursão ucraniana na região de Kursk, no segundo semestre de 2024, veio agravar esse sentimento de desconfiança. Os ucranianos não só mantiveram novamente os americanos na ignorância da operação, como atravessaram secretamente uma linha mutuamente acordada, levando equipamento fornecido pela coligação, em particular o americano, para território russo.

Mais uma vez, os ingleses não desperdiçaram a oportunidade para mostrar serviço e dar uma facada nos americanos, participando ativamente no planeamento da operação, que não contou com o apoio dos HIMARS e dos serviços secretos dos EUA. O resultado desta imprudente operação, decidida pelo presidente Zelensky contra o parecer de Zaluzhny, subordinada a objetivos políticos, também é conhecido. Os danos em material e pessoal foram imensos, e provavelmente irrecuperáveis.

As dificuldades de relacionamento entre os diferentes atores são conhecidas e estão documentadas. Por exemplo, entre Zaluzhny e o seu homólogo americano, o general Mark A. Milley. Mas alargam-se às lutas intestinas entre as lideranças ucranianas, algo que a propaganda ocidental impediu a divulgação. A reportagem dá conta dos choques entre Zelensky e o seu chefe militar general Zaluzhnyi (e potencial rival eleitoral), e entre este e o general Syrskyi, inconformado por o seu subordinado ter passado a ser seu comandante.

Na sequência do incómodo causado pela irrealizável utopia instalada na cabeça de Zelensky de recuperar todos os territórios sob controlo russo, Zaluzhnyi publicou um longo artigo no “The Economist” (1 de novembro de 2023) em que declarava estar a guerra num impasse, precisando os ucranianos de um avanço tecnológico quântico para a vencer, contradizendo o apelo à vitória total do seu presidente.

As linhas vermelhas

Com o prolongar do conflito e a evidente incapacidade de ucranianos e americanos infligirem uma derrota militar a Moscovo, o envolvimento americano foi progressivamente aumentando, fornecendo aos ucranianos armas cada vez mais sofisticadas, ultrapassando muitas das suas próprias linhas vermelhas e avançando para terrenos cada vez mais perigosos e movediços. Passaram a autorizar operações clandestinas anteriormente proibidas, colocando militares no terreno. Foram enviados conselheiros militares para Kiev, posteriormente autorizados a deslocarem-se para a linha da frente, próximo dos combates.

O mesmo fizeram os britânicos enviando secretamente dezenas de militares para a Ucrânia. Uns com a missão de instruir os soldados ucranianos a operar os sistemas anticarro fornecidos por Londres; outros (maio de 2023), após a transferência dos mísseis cruzeiro Storm Shadow para Kiev, para formar os ucranianos a utilizá-los. À semelhança do NYT, o “The Times” dá nota do papel crucial desempenhado pelos comandantes militares britânicos na Ucrânia.

Como atrás referido, numa fase inicial, os americanos apenas identificavam alvos russos em território ucraniano. Se os ucranianos quisessem atacar dentro da Rússia, teriam de o fazer recorrendo aos seus próprios serviços secretos e a armas produzidas pela Ucrânia. “A nossa mensagem [americanos] para os russos era: Esta guerra deve ser travada dentro da Ucrânia.” Os americanos “apenas” informavam os ucranianos onde é que se encontravam as forças russas em território ucraniano.

Perante a ausência dos resultados desejados, os generais Cavoli e Donahue optaram por subir a parada e pediram autorização para se utilizarem os HIMARS (High Mobility Artillery Rocket Systems), o que proporcionou um enorme salto qualitativo nas capacidades ucranianas. A reportagem do NYT chama à atenção para o facto de um oficial americano, num ato de lucidez, se interrogar “se não estamos [americanos] a dar um passo na direção da Terceira Guerra Mundial?” Transformado no back office da guerra, Wiesbaden supervisionou os ataques com os HIMARS.

Os ucranianos pediram autorização para utilizar as armas fornecidas pelos Estados Unidos para atingir o outro lado da fronteira, leia-se, território russo. O que foi autorizado, desde que os alvos se situassem nas designadas “caixas de operações”, isto é, zonas mais ou menos retangulares com cerca de 190 milhas, previamente selecionadas. Os ucranianos passaram a poder utilizar os seus novos ATACMS fornecidos pelos EUA para atingir alvos no interior da Rússia. “O impensável tinha-se tornado real. Os Estados Unidos estavam agora envolvidos na morte de soldados russos em solo russo,” o que legitimava um ataque russo ao quartel-general das forças americanas na Europa.

Neste perigoso processo de sucessivas alterações das regras do jogo, Wiesbaden desempenhava um papel decisivo, orientando os ataques, como vinha fazendo por toda a Ucrânia e na Crimeia fornecendo os objetivos e as coordenadas dos alvos. Oficiais americanos e britânicos supervisionavam todos os aspetos de cada ataque, desde a determinação das coordenadas até ao cálculo das trajetórias de voo dos mísseis.

Em 2024, a continuação da falta de progresso das forças ucranianas e a necessidade de manter os ucranianos à tona de água “forçou” a Administração Biden a ultrapassar novamente as suas próprias linhas vermelhas. Numa entrevista, já depois de ter abandonado a função de conselheiro de segurança nacional, na Administração Biden, Jake Sullivan disse que não foi por medo da 3ª Guerra Mundial que os ATACMS não foram inicialmente distribuídos à Ucrânia, mas porque não os tinham.

O stock existente era insuficiente para satisfazer as necessidades de dissuasão americana. Esse problema foi posteriormente resolvido pelo aumento da produção. Segundo ele, “à medida que tomávamos decisões sobre o fornecimento de equipamentos, avaliávamos o nível de risco aceitável de modo a evitar uma espiral de escalada”, como se eles próprios, com estas decisões, não estivessem a escalar o conflito.

De acordo com esta evolução e contrariando uma política de longa data, que impedia a CIA de fornecer informações sobre alvos em solo russo, a CIA teve luz verde para apoiar ataques a objetivos específicos dentro da Rússia. A Administração Biden autorizou a CIA a ajudar os ucranianos a desenvolverem, fabricarem e instalarem uma frota de drones marítimos para atacar a frota russa do Mar Negro.

Militares e operacionais da CIA em Wiesbaden planearam e apoiaram a campanha de ataques ucranianos à Crimeia. Em outubro, com margem de manobra para atuar na própria Crimeia, a CIA apoiou secretamente os ataques de drones ao porto de Sebastopol. Para além disso, a Casa Branca autorizou os militares e a CIA a trabalharem secretamente com os ucranianos e os britânicos num projeto para derrubar a ponte de Kerch.

Quem, na verdade, combatia com um braço preso atrás das costas, não eram os ucranianos, como se tornou comum afirmar, mas sim os russos, impossibilitados de atacar o olho da serpente localizada em Wiesbaden, responsável pelos ataques ucranianos e protegida pela NATO. Uma resposta russa a Wiesbaden significaria a guerra mundial. Foi com esta espada de Dâmocles que vivemos durante mais de dois anos.

Entretanto, os comentadores nacionais, imitando o que a propaganda internacional ia propalando, apelidavam irresponsavelmente Putin de frouxo e medroso, por recuar nas linhas vermelhas sucessivamente ultrapassadas, esquecendo que “tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia lá deixa a asa.” Para eles, indiferentes ao perigo, na sua puerilidade e ignorância apregoavam a necessidade de continuar a pressão sobre a Rússia, sem terem a noção de quão perto se encontravam do abismo.

Estamos em crer que outro dirigente russo talvez não tivesse a paciência estratégica de Putin e não tivesse resistido a tamanhas provocações. Não temos muitas dúvidas sobre qual seria a resposta dos EUA, se os russos decidissem reciprocar o tratamento, colocando misseis “defensivos” em Cuba ou na Venezuela.

Portanto, não podemos deixar de assinalar a ligeireza, a insensatez, a falta de preparação e a imprudência com que a Administração Biden lidou com este assunto. Ainda teremos de perceber o quão perto estivemos da catástrofe, a dimensão da irresponsabilidade das lideranças europeias, e o grau de desonestidade do comentariado nacional.” Andaram mesmo a brincar às guerras mundiais.