O que pretende Israel com o ataque ao Irão?

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 18/06/2025)


São várias as respostas possíveis a esta pergunta, umas enunciadas de modo claro, outras nem por isso. Israel identificou como objetivos do seu ataque a destruição do programa nuclear iraniano, provocar uma mudança de regime em Teerão e anular a capacidade balística iraniana. Não enunciados, estão a manutenção de Netanyahu no poder, a sabotagem das negociações de paz agendadas para 15 de junho, em Omã, dois dias depois de iniciarem os ataques, e criar condições para os EUA se envolverem diretamente em operações ofensivas contra Teerão, ao lado de Israel.

Até ao momento, Israel não atingiu nenhum dos objetivos que se tinha proposto atingir. Após a euforia inicial, o Irão recompôs-se e está a dar luta. Começa a ficar claro que, apesar da excelência israelita em inteligência, Telavive avaliou erradamente as capacidades balísticas iranianas. A retaliação iraniana foi mais poderosa do que o previsto e esperado.

Os objetivos explícitos

O argumento da iminente arma nuclear que o Irão está prestes a conseguir, para atacar preventivamente o Irão, repetido ad nauseam há quatro décadas, é aparentemente falso como foi o utilizado para atacar o Iraque, em 2003. A 25 de março de 2025, na apresentação da “2025 Annual Threat Assessment of the U.S. Intelligence Community”, os serviços secretos americanos consideraram “que o Irão não está a construir uma arma nuclear e que, desde 2003, o Líder Supremo Khamenei não autoriza o programa de armamento”, não tendo revogado a sua fatwa alegando motivos de natureza religiosa. Ao que se acrescenta, a parceria estratégica celebrada entre a Rússia e o Irão que considera como incontornável a escrupulosa obediência de Teerão aos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT).

O Irão tem sido o país mais escrutinado pela Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), ao contrário de Israel que continua a não admitir oficialmente que possui armas nucleares, não cumprindo o disposto na Resolução do Conselho de Segurança da ONU (UNSCR 487/81), que “solicita a Israel a urgente colocação das suas instalações nucleares sob a salvaguarda da (IAEA)”, algo que nunca fez, impedindo a verificação do seu armamento nuclear, para além de nunca ter aderido ao Tratado de não-Proliferação de Armas Nucleares. Não deixa de ser insólito, um país que possui armas nucleares atacar um país que declara pretender desenvolver um programa nuclear para fins civis, sem apresentar provas do contrário.

O ataque seguiu-se a uma resolução votada pelo Conselho de Governadores da AIEA na véspera (12 de junho), aprovada por 19 votos a favor, 3 contra e 11 abstenções em que, no fundamental, os inspetores afirmavam não ter conseguido determinar se o programa nuclear do Irão era exclusivamente pacífico. Embora a maioria dos governadores tenha votado a aprovação dos votos, não se pode deixar de notar uma dispersão significativa da votação, o que não deixa de ser revelador das dúvidas existentes.

A isto acrescenta-se o facto de a Força Aérea israelita não dispor de meios para atingir as instalações nucleares subterrâneas do Irão. Pode afetá-las, mas não destruí-las. Não dispõe no seu arsenal das bombas de penetração necessárias para o fazer. Apenas os EUA as têm. Necessita para tal da ajuda norte-americana com as bombas que podem penetrar e atingir a profundidade requerida. Assim se compreende que Gila Gamliel, membro do Conselho de Ministros israelita tenha exigido “categoricamente que os Estados Unidos se juntassem à guerra contra o Irão”.

A insistência de Israel na questão nuclear assemelha-se em tudo ao pretexto da posse de armas de destruição em massa, por parte de Sadam Hussein, para justificar intervenção militar norte-americana e a mudança de regime pela força no Iraque.

Com o intuito de provocar uma revolta interna que levasse a uma mudança de regime, logo nas primeiras horas do ataque foram assassinadas as chefias militares de topo e outras entidades importantes, nomeadamente cientistas ligados ao programa nuclear, bem como executados ataques ao aparelho económico e industrial iraniano, para o que contou com a ajuda de uma rede de infiltrados construída ao longo dos anos. Uma parte significativa dos ataques israelitas foi realizada com a ajuda de agentes internos, sabotadores e agentes da Mossad no Irão.

Para dificultar a atuação desses grupos, nomeadamente o guiamento de drones, Teerão cancelou o funcionamento da internet, mas Elon Musk ativou o StarLink sobre o Irão, exatamente no dia 13 de junho, quando começou o ataque israelita, de modo a permitir a atuação destes grupos. A isto, juntam-se as ameaças de morte a Khamenei proferidas reiteradamente por Netanyahu.

O plano consistia em atacar a capital iraniana e encorajar os habitantes a abandoná-la, com o objetivo de pressionar o Governo. As Forças de Defesa de Israel (FDI) emitiram declarações afirmando que “Teerão será tratado como Beirute”. Para levar o plano para a frente, Hossein Yazdanpanah, líder do Partido da Liberdade Curda no Iraque, a partir da cidade iraquiana de Erbil, declarou a sua disponibilidade para participar num ataque à República Islâmica.

Por outro lado, Reza Pahlavi, o filho do monarca deposto em 1979, veio apelar à revolta popular: “a República Islâmica acabou e está a cair, a entrar em colapso. O que começou é irreversível. O futuro é radioso e juntos navegaremos por esta reviravolta na história. Agora é a altura de nos erguermos; a hora de reconquistar o Irão. Que eu possa estar convosco em breve,” colocando-se na linha da frente para assumir o controlo do futuro regime. Dificilmente, o regresso ao regime da monarquia Pahlavi seria bem recebido e galvanizador de uma revolta popular, por ser percebido como um peão de Israel.

São várias as vozes em Telavive que subscrevem o que referi sobre os recursos limitados do país para concretizar as ambições megalómanas a que se propôs. Por exemplo, o Conselheiro Nacional de Segurança de Israel, Tzachi Hanegbi, alertou para o facto do Irão ainda possuir “milhares de mísseis balísticos”, um número muito superior aos 1.500 a 2.000 anteriormente estimados pelos analistas militares. Segundo ele, “esta não é uma batalha que, a longo prazo, será capaz de pôr fim à ameaça iraniana”. Numa entrevista ao Canal 12 de Israel, Hanegbi admitiu que os ataques israelitas por si só não conseguem eliminar o programa nuclear iraniano. Em vez disso, dever-se-ia pressionar militarmente o Irão para o desmantelar voluntariamente. Quando questionado sobre se Israel pretende destruir o programa nuclear iraniano, Hanegbi respondeu dizendo “Isso não é possível. Não pode ser feito por meios cinéticos”.

O facto de Israel saber que não tinha meios suficientes para tal leva-nos a crer que o objetivo principal da operação israelita é a mudança de regime no Irão, algo profundamente desejado pelo lobby neocon/liberal norte-americano e dos seus aliados europeus, a cavalo do pretexto das armas nucleares, tal e qual como no Iraque em 2003. Por isso, a lista de alvos incluía instalações ligadas ao tecido económico, centrais energéticas, media, etc. fazendo parte de uma operação de mudança de regime e não de “desarmamento”. Em documentos políticos americanos é admitido que o objetivo foi sempre a mudança de regime e que o programa iraniano, mesmo que produzisse armas nucleares, não era uma ameaça real. É sempre conveniente relembrar a entrevista do general Wesley Clark sobre o plano de norte-americano de atacar sete países em cinco anos (Iraque, Síria, Líbia, Somália, Líbano, Irão e Sudão).

Os objetivos não explícitos

O momento do ataque entronca-se com dois acontecimentos relevantes: o dia em que o Knesset iria votar a demissão do governo, colocando Netanyahu numa situação política extremamente difícil; e ter ocorrido 48 horas antes de mais uma ronda negocial entre iranianos e norte-americanos, a realizar em Omã.

O ataque no dia 13 de junho inviabilizou a votação no Knesset permitindo a Netanyahu manter-se no poder. Já no que respeita à sabotagem das negociações, a trama é mais complexa. Os norte-americanos sabiam do ataque israelita e não fizeram nada para o impedir, pois interessava a ambas as partes. Netanyahu via assim legitimada a sua continuidade no poder, Trump esperava tornar o ataque israelita num exercício de “diplomacia coerciva”. Após o ataque israelita, Teerão ficaria “amaciado” e pronto para aceitar o que os EUA lhe pusessem em cima da mesa. Mas não foi isso que aconteceu.

Entretanto, a pressão sobre Teerão continuou. Como disse um dirigente iraniano, vamos agora ter de combater contra uma coligação. Os aviões de reabastecimento aéreo norte-americanos deslocam-se para o Médio Oriente, os bombardeiros estratégicos estacionaram em Diego Garcia e dois porta-aviões dirigem-se para a região. Trump confia que não tendo o ataque israelita dobrado Teerão serão agora as suas poderosas armas a fazê-lo. Os bombardeiros estacionados em Diego Garcia estão preparados para lançarem a famigerada GBU-43/B MOAB (mãe de todas as bombas) para resolver de uma vez para sempre o irritante nuclear iraniano.

Mas não é isto que Netanyahu, alinhado com os neocon americanos, pretende. O fim do programa nuclear iraniano sabe-lhes a pouco. O que eles querem mesmo é uma mudança de regime e Trump não é o seu homem. Os falcões de guerra estão a dar tudo por tudo para quebrar com a oposição de Trump a guerras desnecessárias sem fim e abandonar a abordagem mais transacional, “America First”, na sua política externa.

O poder que aquele grupo detém esteve patente quando conseguiu excluir a Diretora Nacional de intelligence Tulsi Gabbard da reunião do Conselho Nacional de Segurança, onde se iria discutir o ataque norte-americano ao Irão. Ficaria assim mais fácil encurralar Trump, cujo pensamento não passa por uma política externa de mudança de regime. Ele sabe que uma intervenção militar norte-americana não só vai hostilizar os países muçulmanos da região e comprometer o seu plano de paz para o Médio Oriente, como também saberá que os conflitos Irão/Israel e Ucrânia/Rússia podem dividir a direita e o movimento MAGA, sabotar a sua presidência e ter repercussões na sua agenda de política interna, objetivo abraçado por determinados segmentos do establishment político norte-americano.

Entretanto, a AIEA não condenou o bombardeamento israelita às instalações nucleares iranianas, e as entidades europeias apoiaram a ação de Israel, fazendo hipocritamente tábua rasa do Direito Internacional. Afinal, para Bruxelas, a ação “preventiva” israelita justifica-se plenamente (Israel tem o direito a defender-se), enquanto a ação preemptiva russa no Donbass é completamente inaceitável. Entretanto, o presidente do Conselho Europeu António Costa dá camisolas do Ronaldo a Donald Trump.

Está ainda por perceber com detalhe qual será a reação da China e da Rússia, para além da condenação da ação israelita. A China estará a apoiar Teerão com equipamento militar, enquanto a Rússia veio lembrar que considera o Irão debaixo do seu chapéu nuclear. Depois da capacidade única de sobrevivência revelada pelo regime iraniano, interrogamo-nos sobre o que haverá de novo nesta aventura em que Israel se meteu que possa reverter a anti fragilidade do regime iraniano.

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O partido da guerra à beira de um ataque de nervos

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 09/06/2025)


No rescaldo dos recentes ataques ucranianos às bases aéreas russas, várias personalidades próximas de Trump vieram a terreiro manifestar a sua opinião sobre o perigoso momento em que se encontra a humanidade como, por exemplo, o ex-mentor de Trump Stephen Bannon e o ex-conselheiro de segurança nacional Mike Flynn, refletindo ambos pensamentos muito próximos.

Numa recente mensagem colocada no “X”, Flynn alerta para a atuação de quem se encontra por detrás dos acontecimentos em curso e que empurram os EUA para uma confrontação militar de larga escala, com a Rússia. Dos vários aspetos abordados na referida mensagem, um merece particular atenção.

Flynn alerta para o facto de a maior parte da América permanecer alegremente desinformada pela comunicação social (CS), enquanto “as duas maiores superpotências do mundo são manipuladas pelas Forças das Trevas, dentro e fora do nosso governo [Administração Trump], para um grande confronto militar que nenhum país quer, e que nenhuma pessoa sã jamais desejaria.” O mesmo sucede na Europa, onde proliferam os idiotas úteis. Tal como a antiga presidente da Lituânia Dalia Grybauskaite que dizia “as armas nucleares já não amedrontam ninguém”, também nós temos cá criaturas semelhantes.

Flynn reitera algo que já sabíamos, mas que dito por alguém com a sua idoneidade ganha uma força e um sentido redobrado.

“O ‘Estado Profundo’ (Deep State) americano é composto por pessoas com um ódio profundo, visceral e irracional à Rússia, que conspiraram para interferir na tomada de decisões do Presidente Trump através do [conhecido] Russiagate Hoax.”

Flynn recorda-nos o óbvio, mas que causa incómodo a muita gente, na maior parte das vezes, por pura ignorância: “A Rússia não é a União Soviética e Putin não é Estaline”. “A CS oficiosa, profundamente influenciada e por vezes controlada pelo ‘Estado Profundo’, rotulou o Presidente Trump e aqueles que trabalham para ele de ‘marionetas de Putin’, para o incitar a tomar medidas injustificadas e agressivas contra a Rússia.”

“Estas vozes da CS do establishment refletem os pontos de vista do ‘Estado Profundo’, não do povo americano, não do movimento MAGA, e devem ser completamente ignoradas, se não mesmo ridicularizadas.” “Durante quase todo o período do pós-Segunda Guerra Mundial e certamente desde a criação da CIA, em 1947, essas forças obscuras do establishment, não eleitas, têm atuado para desestabilizar o mundo, trazendo morte, fome, assassinatos, violência, golpes de estado, motins, revoluções e destruição no nosso planeta.”

“Atualmente, estas forças estão a trabalhar para provocar a Rússia para um grande – talvez o último – conflito militar com o Ocidente.” Estas provocações têm assumido muitas formas: destruição do Nordstream, ataque aos radares de aviso prévio associados ao sistema nuclear russo, etc. e, mais recentemente, o ataque de drones ao arsenal estratégico da Federação Russa. Como salientou Flynn, “os bombardeiros estratégicos russos e americanos são obrigados, por acordo, a encontrarem-se visíveis à vigilância satelitária”. “Nunca ninguém atacou esses alvos. Se os bombardeiros russos podem ser atacados impunemente, o mesmo acontece com os bombardeiros americanos. Com esta ação, o Governo ucraniano não só enfraqueceu a Rússia como pôs em risco a América. Assim, os membros do Governo ucraniano que ordenaram estes ataques tornaram-se inimigos não só da Rússia, mas também dos Estados Unidos.”

Flynn não acredita que “a recente escalada contra a frota de bombardeiros estratégicos da Rússia tenha sido autorizada ou coordenada com o Presidente Trump. Pelo contrário, pensa que o ‘Estado Profundo’ está a agir fora do seu controlo. O ‘Estado Profundo’ está envolvido num esforço deliberado para provocar a Rússia para um grande confronto com o Ocidente, incluindo os Estados Unidos.”

Segundo ele, “chegou o momento de tomar medidas agressivas contra aqueles que abusam da sua autoridade como funcionários do Governo, para manipular a liderança eleita da nossa nação [EUA]. O ‘Estado Profundo’ americano não é apenas uma ameaça à paz, mas também uma ameaça ao Presidente”. Por isso, exorta “Trump a tomar medidas para purgar os inimigos da nossa nação [EUA] dentro das nossas agências e departamentos. Retirar essas pessoas do poder é absolutamente necessário para alcançar o tipo de paz que ele descreveu durante a sua campanha e no início da sua Administração.”

Flynn estabelece uma analogia com o presidente John Kennedy, quando este se apercebeu de que estava a ser manipulado, e afastou Allen Dulles do cargo de Diretor dos Serviços Centrais de Informações, bem como vários dos seus assistentes, que se opunham a quem procurava a paz. Nessa linha, exorta “o Presidente Trump a limpar imediatamente a casa de todos os membros do Governo que tiveram conhecimento prévio ou participaram de alguma forma no ataque ucraniano aos bombardeiros estratégicos da Federação Russa e a ir mais longe, declarando imediatamente o fim de qualquer apoio à Guerra da Ucrânia.” “Todos os americanos que ajudaram e foram cúmplices dos ataques da Ucrânia devem ser investigados por violação da lei americana e processados na medida do necessário.”

Aconselha, ainda, o presidente Trump a distanciar-se de certos líderes ocidentais, como o Chanceler alemão Friedrich Merz, que atuaram e falaram de forma irresponsável em relação à guerra na Ucrânia. “Se há países na Europa que desejam prestar assistência militar à Ucrânia, isso é da conta deles, e não devem ficar surpreendidos depois com a resposta do presidente Putin às suas ações contra a Rússia. Se esses dirigentes quiserem conduzir as suas nações para guerra, persistindo num comportamento irresponsável, deverão fazê-lo sozinhos.” “Este procedimento deve aplicar-se igualmente aos belicistas instalados no Governo norte-americano, entre os quais o Senador Lindsay Graham. Aqueles que adoram as guerras travadas por outros não são amigos da América e não têm o direito de ser amigos do presidente.”

Por último, Flynn “exorta o povo americano a apoiar, em espírito de oração e determinação, o presidente Trump, enquanto ele limpa a casa e atua em busca da paz que o Presidente Kennedy abraçou. A paz não é o estado normal do homem. A liberdade exige um preço a ser pago por cada geração. É altura de voltar a comprometer a nossa nação com ambos.”

Está, pois, na altura dos povos europeus abrirem os olhos e não se deixarem embalar pelo canto das sereias que atrai, seduz e cativa, mas que poderá conduzir ao naufrágio.

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Tantas vezes vai o cântaro à fonte…

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/06/2025)


Com estes ataques, Zelensky escalou o conflito transportando-o para um ponto sem retorno. Não restará a Putin outra solução que não seja a de também escalar.


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Nas noites de 30 e de 31 de maio, nas vésperas da segunda ronda de negociações entre russos e ucranianos, em Istambul, com vista a discutir a paz na Ucrânia, Kiev levou a cabo duas poderosas operações militares em território russo. Falamos da destruição de três pontes nos oblasts de Kursk e Bryansk e dos ataques a cinco bases aéreas estratégicas (Murmansk, Irkutsk, Ivanovo, Ryazan e Amur) localizadas na profundidade territorial russa, apenas bem-sucedidos em dois casos (Murmansk e Irkutsk).

A terem sido todos os ataques eficazes, as consequências para a capacidade de bombardeamento estratégico russa teriam sido catastróficas. Não foi o que aconteceu. Estima-se que tenham sido afetadas 13 aeronaves (8xTU-95. 4xT-22M3 e uma de transporte), três delas irreparáveis, de uma frota de 132. Apesar do dano causado, o nível destrutivo dos ataques foi baixo.

O presidente Zelensky assumiu a responsabilidade pelos ataques elogiando publicamente o feito e o seu executor, o general Vasyl Malyuk, chefe do serviço de segurança (SBU). Segundo os ucranianos, foram usados na operação 117 drones, que teriam destruído cerca de um terço da capacidade russa. Estes ataques levantam uma série de questões merecedoras de atenção.

O momento escolhido foi a véspera das negociações, em Istambul, onde os ucranianos estavam obrigados a comparecer. Está longe de ser verdade, esta ideia recorrentemente apresentada, de que os ucranianos se encontram altamente comprometidos com a paz. Estes ataques não podem ser dissociados da tentativa, sem sucesso, de boicotar as negociações. No entanto e dito isto, não se está a afirmar que os russos estejam particularmente empenhados na imediata resolução política do conflito.

Como já nos habituou, o objetivo de Kiev com esta operação prendia-se mais com o seu impacto mediático do que com os reais benefícios militares. “Um espetacular golpe de propaganda”, como lhe chamou a BBC. Mas ia para além disso. Pretendia mostrar aos seus patrocinadores, que não está acabada, que pode provocar dano ao adversário, que pode ser um bom investimento, num momento em que algumas fontes de abastecimento começam a secar, sobretudo do lado norte-americano. Não foi por acaso, que Lindsey Graham, coincidentemente em Kiev na véspera do ataque, dizia que a Ucrânia não estava a perder a guerra, que ainda está em jogo e que é preciso apoiá-la enviando mais armas e munições.

Tudo indica que houve serviços estrangeiros envolvidos no ataque e que alguns norte-americanos tiveram conhecimento prévio. A Axios deu nota disso, retratando-se uma hora mais tarde. O secretário de defesa Pete Hegseth terá acompanhado a operação em tempo real. Parece pois difícil escamotear algum envolvimento norte-americano. Entre outros aspetos, importa saber quem informou os ucranianos da localização exata das aeronaves russas.

Desconhece-se se o presidente Trump estava informado dos ataques, mas não se pode deixar de estranhar o facto de se ter mantido em silêncio, quando antes tinha sido tremendamente vocal sobre os ataques russos da semana anterior à Ucrânia. Estamos recordados do seu post na Truth Social a mandar Putin parar. A isto deve acrescentar-se as suas declarações enigmáticas: “o que Vladimir Putin não compreende é que se não fosse eu, montes de coisas más já teriam acontecido à Rússia, realmente más. Ele está a jogar com o fogo!

O ataque à aviação estratégica russa coloca-nos perante um outro assunto de extrema gravidade. É um facto que os russos já haviam utilizado os TU-95 para atacar a Ucrânia, o que dava aos ucranianos legitimidade para os atacar. Mas os TU-95 também integram a frota de bombardeiros estratégicos russos, que transportam armamento nuclear e isso confere uma outra dimensão, não escamoteável, aos ataques.

Os bombardeiros estratégicos russos encontravam-se estacionados na pista em conformidade com o estabelecido pelo novo Tratado START, que exige a permanência das aeronaves ao ar livre em locais observáveis pelos satélites, de forma a permitir o seu controlo pela outra parte, normalmente em bases aéreas designadas, para verificar não só a sua localização, mas também o tipo de armamento (nuclear ou convencional) com que poderão estar equipadas.

Teoricamente, a Rússia não estava obrigada a fazer esse exercício, uma vez que suspendeu a sua participação no Tratado, em fevereiro de 2023, interrompendo as inspeções e a partilha de dados. A Ucrânia alavancou oportunisticamente este contexto.

Este comportamento dos ucranianos levou o ex-assessor de Trump, Stephen Bannon, a afirmar: “Estamos [EUA] a ser arrastados para uma possível Terceira Guerra Mundial que ofusca as duas primeiras. E isso acontece todos os dias da forma mais flagrante. A Casa Branca disse não ter conhecimento dos planos dos ucranianos. Simplesmente atacaram a tríade nuclear da Rússia… o país que patrocinamos [Ucrânia] e com o qual fazemos negócios está agora a arrastar-nos para a sua guerra. Pensam que podem atacar território russo e arrastar-nos para um conflito com a Rússia. Estamos a ser arrastados para um conflito que se pode transformar em metástase.”

No mesmo sentido, pronunciou-se o ex-conselheiro de segurança nacional Mike Flynn ao afirmar que “a audácia de Zelensky infligiu um insulto geopolítico a Trump e aos Estados Unidos. Zelensky pôs em risco a segurança global sem pensar duas vezes, dando luz verde a ataques a aeroportos russos sem o conhecimento de Trump… se a Ucrânia está disposta a atacar com consequências estratégicas sem notificar a Casa Branca, já não somos apenas aliados com uma certa dessincronização: somos um partido de guerra a voar às cegas e fora de controlo.”

Estes ataques não afetaram a situação no campo de batalha, onde as forças russas continuam a avançar e onde as forças ucranianas começam a demonstrar uma dificuldade cada vez maior em as deter. Para além do impacto mediático, as consequências do ataque não produziram mudanças significativas nas forças estratégicas russas nem produziram alterações no equilibro nuclear estratégico entre os EUA e a Rússia. Se havia a intenção de o alterar, isso, claramente, não foi conseguido.

O dilema da resposta

Estes ataques à aviação estratégica russa foram mais um caso de espetacularidade, a juntar a tantos outros (os ataques ao Crocus City Hall e ao Kremlin, à ponte de Kerch, aos radares de aviso prévio estratégico, os assassinatos seletivos, etc.) e podiam ter justificado uma resposta musculada do Kremlin, que optou até agora por não a dar.

O Kremlin tem demonstrado uma paciência estratégica assinalável. A Rússia tem preferido absorver essas provocações. Os defensores deste comportamento russo argumentam que, estando a Rússia a ganhar a guerra, não é conveniente responder a essas provocações, porque isso daria azo a uma escalada incontrolável e o pretexto para atores exteriores se intrometerem no conflito. Por outro lado, alguns analistas incautos, sobretudo no Ocidente, confundem paciência com passividade, veem fraqueza no comportamento do Kremlin, e caucionam a ultrapassagem de todas as linhas vermelhas. No final do dia, o Kremlin recuará sempre, porque tem medo, segundo eles.

Ao contrário do seu habitual estilo bombástico e fanfarrão, Medvedev veio agora, num tom sério e sem estridência, dizer que a retaliação vai ser inevitável: “tudo o que precisa de explodir, explodirá, aqueles que precisam de ser eliminados, serão eliminados.” Com este ataque ao sistema nuclear estratégico russo, depois de ter atacado os radares de aviso prévio, Kiev ultrapassou todas as linhas vermelhas russas.

Com estes ataques, Zelensky escalou o conflito transportando-o para um ponto sem retorno. Não restará a Putin outra solução que não seja a de também escalar. Os desenvolvimentos a que assistimos representam uma mudança na direção de uma guerra em larga escala.

Zelensky sabe que a Ucrânia não tem hipótese de vencer uma guerra contra a Rússia. A única forma de se manter à tona da água é envolver o ocidente num conflito direto com a Rússia, tão cedo quanto possível, mesmo que isso passe pela destruição do seu país e a aniquilação do seu povo. Veremos se os europeus percebem que se estão a envolver num jogo de soma negativa, e não caiem na armadilha. Para além de se procurar perceber quais os termos da escalada retaliatória russa, é preciso perceber como vai o designado ocidente responder.

O encontro de dia 2 de junho em Istambul poderá ter sido a última tentativa de resolver o conflito sem ser pela via militar. Tudo indica que a Ucrânia se irá arrepender desta audácia. E veremos se o arrependimento ficará apenas em Kiev.