Voyeurismo ou um erro de Signal?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 27/03/2025)


É dramático o ponto a que chegaram as relações entre europeus e norte-americanos. Em vez de se discutirem contactos, negociações e reuniões de alto nível entre líderes, discute-se o voyeurismo das relações internacionais.


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A publicação pela revista The Atlantic, um reduto dos neoconservadores norte-americanos mais empedernidos, de um artigo da autoria do seu editor-chefe, Jeffrey Goldberg, sobre as discussões tidas num grupo de chat do Signal, um serviço de mensagens encriptadas de código aberto, em que participavam altos dignitários da Administração norte-americana, deixou alguma comunicação social europeia em êxtase.

O tema fez manchetes. E embora tenha nascido nos EUA, Goldberg viveu em Israel, onde serviu nas forças de defesa (IDF) durante a Primeira Intifada, tendo sido guarda da prisão de Ktzi’ot, onde se encontravam prisioneiros palestinos.

Segundo as explicações oficiais, Goldberg foi incluído por engano nesse grupo de chat, onde se discutiram os planos para atacar o Iémen. Cumpriu-se a lei de Murphy. É conhecida a hostilidade do The Atlantic a Trump. É uma publicação onde pontificam pessoas como Anne Applebaum, e em que campeia a russofobia.

Quando se apercebeu de que estava a mais no grupo, em vez de alertar e sair, num gesto eticamente muito questionável, Goldberg deixou-se ficar optando pelo voyeurismo, qual mirone a espreitar a vizinha desnuda no banho através de uma frecha da janela. Decidiu partilhar a sua experiência incluindo no texto vários screenshots selecionados, esclarecendo não ter revelado tudo o que viu.

O que aconteceu não pode ser considerado, de modo algum, um exemplo de boas práticas, infelizmente generalizado entre políticos. Talvez por falta de preparação na forma como lidar com matéria classificada, este erro tornou-se frequente. O caso mais chocante terá sido a violação da lei federal pela Secretária de Estado Hillary Clinton, quando utilizou um servidor de correio eletrónico privado para comunicações oficiais classificadas, em vez de utilizar as contas oficiais de correio eletrónico do Departamento de Estado, mantidas em servidores federais. Este caso é mais grave, por não se tratar de suspeitas de incompetência, mas sim de crime.

Com o “acidente” relatado tivemos a confirmação daquilo que se suspeitava. Como os sistemas oficiais seguros não funcionam, os altos funcionários recorrem a aplicações comerciais para lidarem com assuntos sensíveis. No século XXI, com a chegada dos millennials ao poder, o recurso a estas práticas tornar-se-á cada vez mais frequente, sendo necessário tomar urgentemente medidas para o evitar. Os serviços secretos de países hostis agradecem a inação.

O mais interessante do artigo, aquilo em que a comunicação social europeia deveria ter concentrado a atenção – a seleção dos screenshots, que não mostra informação secreta – foi varrido para debaixo do tapete. Não deixa de ser curioso verificar que o que os membros daquele grupo de chat disseram em privado coincide com o que têm vindo a dizer publicamente.

Particularmente confrangedor foi ver os europeus tomarem conhecimento, através deste incidente, daquilo que vai no pensamento da Administração norte-americana sobre desenvolvimentos desta natureza, com sérias implicações para eles e sem serem ouvidos nem achados. São os europeus quem mais beneficia com a liberdade de navegação no Mar Vermelho. Cerca de 40% do comércio para a Europa passa pelo Canal do Suez.

Não deixa de ser interessante notar que na decisão de atacar o Iémen, os americanos tiveram em consideração as possíveis consequências para a Europa, acabando por decidir algo com imenso impacto nos interesses europeus sem ouvirem/consultarem a sua opinião. É dramático o ponto a que chegaram as relações entre europeus e norte-americanos.

As relações internacionais encontram-se ao nível da escola secundária. Em vez de se discutirem contactos, negociações e reuniões de alto nível entre líderes, telefonemas entre a Administração norte-americana e Comissários europeus, discute-se o voyeurismo das relações internacionais. Aproveita-se um engano para dar gás à divergência entre as lideranças europeias e a atual Administração americana, fomentar a discórdia e cavar um fosso entre os dois lados do Atlântico.

Não me recordo de tanto frenesim e indignação nas lideranças e comunicação social europeias quando Victoria Nuland, manifestando um profundo desprezo pelos europeus, mandou a Europa para “aquela parte” (F*ck the EU), ou quando se tornou público que os telefones dos dirigentes europeus andavam a ser escutados por organizações norte-americanas.

Órfãos de um projeto no seu estertor, os líderes europeus estão a fazer tudo para cortar as relações com os EUA. As lideranças europeias esforçam-se ao máximo para extremá-las alimentando o ódio, procurando afirmarem-se como o bastião do anti trumpismo. O fosso que estão a cavar nas relações transatlânticas está a conduzir-nos para um beco sem saída.

Entretanto, na Europa, a erudita Alta Representante Kaja Kallas prega aos quatro ventos que o Ocidente precisa de um novo líder. Mais rapidamente precisa a Europa de uma nova Alta Representante.

Uma última nota sobre os screenshots. Ficou evidente a aversão de JD Vance às guerras eternas (forever wars) e ao ataque ao Iémen, que não servem os interesses norte-americanos, extensiva à falta de entusiasmo e ceticismo relativamente a um conflito com o Irão. Um princípio que os europeus não aprenderam ainda, dispostos que estão a sacrificarem-se e a apoiarem cegamente a causa ucraniana. Apesar das suas descrenças, JD Vance mostrou ser um jogador de equipa e não vetou a decisão da maioria, o que revela ser esta segunda Administração Trump mais consistente do que a primeira. Há que contar seriamente com ela e não a menosprezar.

9 pensamentos sobre “Voyeurismo ou um erro de Signal?

  1. Mas sim, claro, milhares e milhares de sites e de agentes infiltrados, de putinistas dum cabrão, tipo a Estátua, estou mesmo a ver quem gere a Estátua ir todos os meses, dia 22, 23, que é quando recebem os fun cionários públicos, à Embaixada; falam com o adido cultural, um tal de Boris, e pimba, 5000 paus todos os meses. J
    á eu, que não tenho site, é só ao nível do comentário, não sou recebido na embaixada pelo adido, não, é pelo porteiro, um tal de Ivan, que discretamente me passa um envelopezito com uns míseros 500 euros.
    Ainda por cima, ultimamente o Ivan anda chateado, diz que não vê resultados e que a continuar assim vai descer a tarifa para os 250. Eu bem que lhe digo, opá, Ivan, os gajos têm as televisões todas nas mãos, tem uma catregada de ONGs, dezenas de milhares de sites, comentadeiros a granel com palanque 24 sobre 24 horas, é complicado, Ivan….

  2. A “ONG” é da Lituânia… Quem paga às ONG? Esta e tantas outras? Só na Geórgia são às centenas, na Roménia idem. Quem lhes paga são governos Europeus, a Comissão Europeia e agências de três letras dos States, como a NED. Aliás, é fabuloso intitularem-se organizações não-governamentais, é orwelliano mesmo.

  3. 1500 milhões de euros? Então como e que segundo estudos da Unido Europeia estão a pagar mais de 2500 sites de propaganda na Uniao Europeia, sendo que nao será essa a única operação que o sistema de propaganda de um país fará.
    Anda a Rússia a pagar muito mal. Nao sei porque e que a malta desses sites se dá ao trabalho nem onde vai buscar o resto do dinheiro.
    E quem pagara a propaganda aldrabona dessa tal ONG?
    Vao ver se o mar da megalodonte.

  4. Sim, esta gente mente como respira e acho que perderam de vez a ligação com a realidade. E ainda querem fazer guerra a Rússia quando não conseguem nem por um foguete no ar.
    Valha lhes um burro aos coices.

    • Ainda agora, fiz zapping para o Telejornal da RTP 1 e pouco depois aparece a Ana Lourenço a introduzir a notícia que a Rússia gasta 1500 milhões de euros em propaganda, segundo uma ONG qualquer, que nem quis ouvir mais… chegando aqui, mudei logo de canal e perguntei-me quantos milhões de euros gastará a UE (e cada país em particular), ou os EUA, em campanhas de desinformação e propaganda? Não haverá por aí nenhuma ONG que calcule e apresente esses valores? É que esses é que me vão ao bolso e me impingem constantes “verdades absolutas” que não passam de tretas para engrupir pategos.

    • Talvez nem assim, diriam que tinham testado o sistema de auto-destruição. Talvez só se não se passasse nada e o foguete orbital nem se mexesse…
      Se fosse a Roscosmos a apresentar resultados destes e explicações destas, diriam que estávamos perante a maquiavélica propaganda russa/putinista.
      Como é no Ocidente, SpaceX e Isar, como corporações ocidentais, já podem apresentar qualquer género de explicações e justificações, que por muito absurdas que sejam, são apresentadas como acertadas e “politicamente correctas”. E a NASA ou a ESA também, atirar barro à parede é com elas.
      Como se o marketing desenfreado que as corporações promovem na mídia ocidental não fosse ele próprio uma manipulação de percepções e realidades, ou seja, propaganda e desinformação.

  5. Por falar em tecnologia de ponta, e “sinal”…

    …Hoje mais um “great success” da indústria aero-espacial ocidental, desta vez não a SpaceX americana, mas da Isar Aerospace europeia.
    O foguete orbital Spectrum conseguiu a proeza de se elevar durante alguns segundos, para rapidamente “perder o gás” e se despenhar nas águas poucas dezenas de metros ao lado da plataforma de lançamento. Agora imaginem que entrava mesmo em órbita!

    “Nosso primeiro voo de teste atendeu a todas as nossas expectativas e foi um grande sucesso. Tivemos uma decolagem perfeita, voamos por 30 segundos e conseguimos até validar nosso sistema de interrupção de voo”, comentou Daniel Metzler, cofundador e CEO da jovem empresa alemã.”

    Este é um trecho original publicado em Exame.com. Leia a matéria completa em

    https://exame.com/mundo/primeiro-foguete-orbital-da-europa-continental-cai-segundos-apos-ser-lancado-veja-video/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento

  6. O Tiranossauro está a ser diabolizados como foi Putin e e provável que seja alvo de nova tentativa de assassinato que desta vez seja bem sucedida.
    O que vai de vez colocar nos num saco de gatos de consequências imprevisíveis.
    Porque tal como Putin, o Tiranossauro não e o único a ter o seu projecto para a América.
    Por exemplo, seria preciso matar também Vance, um homem na casa dos 40 anos que pode muito bem ser funcional durante pelo menos mais 30.
    A Europa entretem se também a estimular a fuga de cérebros dos Estados Unidos e isto tem tudo para correr não correr nada bem.
    Porque se esta gente for suficientemente psicopata para “fazer mal, muito mal a Trump” como disse o bandalho que reconheceu ter mentido nos Acordos de Minsk vamos ver nos a contas não só com a Rússia mas também com o povo americano.
    Toda a gente, mesmo os adversários de Trump sentir se ao vítimas de um acto de terrorismo com contornos colonialistas.
    Trump será erigido a mártir da luta contra tiranos e o colonialismo europeu e talvez o seja.
    Teremos todo um povo, com um poder militar imenso a odiar nos e a querer fazer nos mal, muito mal.
    Talvez quem suceder a Trump telefone a Putin e diga “Vladimir, vamos lá os dois destruir de vez essa cambada de assassinos que não viram que o tempo do colonialismo já acabou”.
    Por isso temos mesmo de nos livrar desta cambada de psicopatas. Infelizmente não sei a receita e duvido que alguém saiba.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.

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