Sanções valentes e imortais

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 08/07/2016)

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João Quadros

 

Pode ser fanfarronice, derivado de estarmos na final do Euro 2016, mas já entrei numa fase em que bem me podem ameaçar com sanções da CE que não levo a sério.


Não adianta o Schäuble fazer ameaças porque o que os portugueses temem é a final do Euro e os pontos na carta de condução.

Mais uma vez, a CE empurrou com a barriga as sanções contra Portugal e Espanha. A decisão sobre possíveis sanções foi adiada para o Ecofin. Será que estão à espera que o Schäuble faça a revisão dos 5 mil quilómetros?! Isto de procrastinar decisões é muito português – cuidado, CE, estão a ganhar vícios. Não deixes para amanhã o que podes sancionar hoje.

A CE, como pai, é miserável. Esta ideia de ir adiando castigos é de quem não leu tratados nem o livro do Doutor Benjamin Spock. Ninguém consegue levar a sério esta gente. Decidam-se! As sanções da CE são piores do que o tratamento de canais, já é a terceira vez que lá vamos. Sejam valentes ou parem com ameaças. Tanta pressa para o Reino Unido invocar o artigo 50 e não são capazes de tomar uma decisão com os pobres ibéricos. É melhor deixarem para Setembro, porque sanções boas são nos meses com R. Está visto que ficamos com a sanção de França. Toda esta falsa valentia popular da CE dá vontade de citar o grande Quim Barreiros: o melhor dia para as sanções é o 31 de Julho porque depois entra Agosto.

Sobre Schäuble, já pouco mais se pode dizer. Schäuble é a falha de Santo André da UE. Um dia destes… Sobre as declarações de Passos, sobre as declarações de Schäuble, “mostram que a desconfiança instalou-se”, podemos dizer que por muito menos prenderam o espião português que vendia segredos aos russos.

A CE gosta de fazer os outros de parvos, daí Durão ter sido presidente da dita. Já todos percebemos que o castigo não são as sanções, mas sim tentar obter o que se quer, com os adiamentos de possíveis sanções. Antigamente, chamava-se chantagem. Maria Luís, desta vez, falou verdade quando disse que não haveria sanções se ela ainda fosse ministra das Finanças. Não é a esquerda que é anti-UE. É a UE que é anti-esquerda. A Catarina Martins vai ter de se vestir como a Maria Luís e o Costa vai ter de aprender a fazer papos de anjo.

Não sei se a CE vai insistir muito mais tempo nesta táctica sádica de “castigar o passado, mas com um olho num futuro de redenção”, sabendo que o Brexit está longe de ter dado que falar e o Deutsche Bank ainda não começou a ser falado. O que é certo é que se a CE resolver deixar a “geringonça” de Costa em paz até ao fim de 2016, quem vai ter de arranjar um plano B é Passos Coelho.


top 5

Sanções

1. “A PJ apreendeu várias obras de Paula Rego a Diogo Gaspar, ex-director do Museu da Presidência – A minha esperança é que este Diogo Gaspar tenha roubado alguma coisa ao ex-Presidente Cavaco Silva. Sempre era uma novidade.

2. Expresso: “Bombistas suicidas do aeroporto de Istambul eram da ex-União Soviética” – Há o risco de os próximos serem da ex-União Europeia.

3. Passos Coelho: “este discurso pão, pão, queijo, queijo de quem acha que Portugal está no caminho do incumprimento…” – “Para trás mija a burra” , etc. Passos é o nosso Tino de Massamá.

4. Grupo Impresa (Expresso, SIC) envia convites para a Universidade de Verão do PSD – A seguir, o jornal Público vai enviar uma camisola amarela aos leitores.

5. Fraude na gestão do museu da Presidência da República – Também gostava que investigassem quem ficou com os cavalos todos do Museu dos Coches.

Na Caixa com certeza

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 17/06/2016)

CGD

A Caixa Geral de Depósitos tem sido, ao longo de décadas, uma espécie de Casa do Artista do Bloco Central (mas num condomínio de luxo).


O primeiro-ministro, António Costa, admitiu, na passada quarta-feira, que o plano de reestruturação da Caixa Geral de Depósitos inclui a saída de funcionários por motivo de reforma, e defendeu a possibilidade de serem encerrados balcões no estrangeiro, em posições que não sejam “estrategicamente relevantes” para o país. Lá se vai a Caixa no Vaticano. Já percebemos que há menos na Caixa do que nós imaginávamos.

A Caixa Geral de Depósitos tem sido, ao longo de décadas, uma espécie de Casa do Artista do Bloco Central (mas num condomínio de luxo). O pessoal do arco da governação arranja ali um arco onde se abrigar quando está retirado dos palcos políticos. De Varas a Cardonas, passando por Nogueiras Leites, a Caixa é o abrigo na dura estrada da vida dos favores políticos. – Está de chuva? Vai para a Caixa e espera que passe. A vida é uma incerteza menos para quem tem a Caixa com certeza. A ideia que tenho da CGD é que é um banco que funciona tão bem que metade da administração não tem de fazer nada.

O mais curioso deste tema, Caixa Geral de Depósitos, é o facto de a ex-coligação governamental, de repente, estar preocupada com a saúde da Caixa. Já lá vai o tempo em que Maria Luís, sobre a CGD poder levar rombo com o Fundo de Resolução no Novo Banco, dizia: “A CGD pode sentir um impacto: é o preço de ter um banco público.” Sem espinhas. E o Presidente, Cavaco Silva, garantia, a propósito do mesmo tema: “É errado dizer-se que pela via de redução dos lucros da CGD os contribuintes podem vir a suportar custos.” Era a caixa da Joana, agora é a de Pandora.

Posto isto, a minha proposta para ajudar a recuperar financeiramente o nosso banco é vender o edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos na Avenida João XXI. Deve dar uma boa ajuda em termos financeiros, não só no que se poupa como no que se ganha.

Vejamos. A nível de espaço, suponho que equivale a cinco Jerónimos. Dava um bom Continente, por exemplo. Juntamente com a Muralha da China, e o ordenado do Mexia na EDP, é a única coisa que se vê, a olho nu, da Lua. A CGD podia, por exemplo, vender a sede da João XXI à Câmara para fazer a nova Mesquita de Lisboa. Desta vez, sem chatices (nem expropriações), até porque o edifício, em termos arquitectónicos, já tem um formato que não exige grandes mudanças. É pôr um crescente na abóbada principal e siga. Depois não digam que o Quadros não contribui. Claro que o maior problema desta solução é a dificuldade que um muçulmano sente ao ter de dizer: “Vou ali à Mesquita João XXI.”


top 5  A toque de caixa

1. Inglaterra e Rússia podem ser excluídas do Euro 2016 devido aos “hooligans” – A exclusão da Rússia e da Inglaterra permite começarmos a pensar no objectivo “melhores quartos lugares”

2. PSD e CDS não chegaram a acordo sobre documento das sanções a Portugal – Por falar em geringonça…

3. Obama e Dalai Lama reúnem-se à porta fechada na Casa Branca – Dalai quer direitos pelos fatos laranja usados em Guantánamo.

4. Portugal tem o segundo maior aumento da produção industrial na Zona Euro – Mas isto foi antes de começar o Euro 2016.

5. Desacatos no Euro 2016 fazem vários feridos – O Euro 2016 vai pagar à Turquia para se ver livre dos “hooligans”.

As toupeiras também têm coração

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 27/05/2016)

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João Quadros

Um espião português foi detido, em Roma, por suspeita de estar a vender segredos a um funcionário dos serviços de informações da Rússia.

A primeira pergunta que me ocorre é: será que isto conta como exportações? Pode haver aqui um mercado a explorar. A quanto estará o barril do segredo?
Eu sou péssimo a guardar segredos. Nota-se logo que estou a esconder alguma coisa. Mesmo que essa coisa não tenha nada a ver com a pessoa que está à minha frente. Jamais conseguiria guardar o terceiro segredo de Fátima, como fez a irmã Lúcia. Haveria de acabar por contar ao oftalmologista.

Percebo, perfeitamente, que um espião tenha necessidade de desabafar. Mas, segundo percebi, este nosso espião estava a desabafar a troco de 10 mil euros do espião russo, com quem se encontrou em Roma. Espero que os 10 mil euros fossem só o sinal. Parece-me pouco por um segredo da NATO. Espiões que se vendem ao preço de um central da II Liga de futebol portuguesa. Que pena o Jorge Mendes não andar, também, metido nisto.

Diz quem o conhece (ao espião) que Frederico Carvalho Gil era “certinho” até que se divorciou. Licenciado em Filosofia, segundo os antigos colegas (espiões), “chegava a ser gozado pela sua correcção considerada excessiva”, “incapaz sequer de dizer um palavrão”. Resumindo, estavam habituados a vê-lo como intelectual e “certinho” até que o viram “de rabo-de-cavalo e a fazer vida nocturna.” Por acaso, eu associo muito os espiões à vida nocturna. Deve ser por isso que muitos espiões portugueses vêm da maçonaria. As mulheres já estavam habituadas a que eles saíssem à noite sem explicar bem onde iam.

Nos livros e filmes de espiões, alguns baseados na realidade, os espiões trocam de lado numa terrível vingança depois de terem sido traídos ou abandonados à morte numa missão. Os nosso espiões mudam de lado porque estão com uma crise de meia-idade pós-divórcio. O mais provável é o nosso espião ter ido vender um segredo da NATO aos russos para ter dinheiro para ir comprar um Porsche.

Se os amigos e colegas do espião dizem que ele, desde o divórcio, começou a usar rabo-de-cavalo, deixou de usar gravata e passou a ir para a noite, isto tem muito pouco a ver com espionagem. Estamos perante o clássico caso do recém-divorciado que quer convencer a ex-mulher que já é outra pessoa. Usa rabo-de-cavalo, sai à noite e vende segredos aos russos. Como quem diz: “Já não sou o bota de elástico com quem te casaste. Até fiz uma tatuagem a dizer Fuck e, agora, sou o bandido que todas adoram.”

A nossa espionagem é isto, muito pouco John le Carré, bastante Corín Tellado.