Acabar com a NATO e corrigir o erro de Estaline

(Por Batiushka, in Réseau International, 24/12/2022, Trad. Estátua de Sal)

Para o inferno com Washington” ( Coronel Douglas Macgregor)


Introdução: O Atlântico e a Europa

A julgar pelo seu nome, NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte só envolveu os Estados Unidos e o Reino Unido, um acordo entre os americanos e o meio-americano Churchill. Afinal, quão importante é o “Atlântico Norte” para a Alemanha báltica ou para a Itália mediterrânea, quanto mais para a Grécia egeia e para a Turquia no mar Negro? Até a Espanha e Portugal olham para as Caraíbas e para o Atlântico Sul, não para o Atlântico Norte. A NATO é claramente uma organização que descende diretamente da Carta do Atlântico, elaborada por Roosevelt e Churchill numa baía da Terra Nova em 1941 (nem mesmo no Atlântico), e depois imposta a todos.

O fim da NATO

Então, o que é que o Atlântico Norte estava a fazer no sopé dos Himalaias, no Afeganistão? Além de ser a sua maior derrota (até agora), o que é que ele lá estava a fazer? E o que é que o Atlântico Norte, ou pelo menos partes dele, está a fazer no Mar da China Meridional? Certamente há uma pista no nome – China? Este mar pertence à China. O que é que a marinha dos EUA e outros estão a fazer nessa região?

É certo que mesmo Liz Truss, que queria que o mundo inteiro fosse governado pela NATO, com os seus fracos conhecimentos de geografia, deve ter pensado que era hora de renomear a NATO? Talvez para Organização Nazi-Americana da Tirania? Dessa forma, poderíamos manter as mesmas iniciais. Como salientou Saker, o primeiro secretário-geral da NATO, o coronel-general Hastings Ismay, nascido na Índia, admitiu sem rodeios que o objetivo da NATO era “manter a União Soviética fora, os americanos dentro e os alemães em baixo”.

E como Saker explicou : “Manter os alemães em baixo” significa esmagar quaisquer europeus que possam ser rivais no controle da Europa Ocidental pela anglosfera, que agora controla toda a Europa, exceto as terras russas livres. “Manter os americanos dentro” significa esmagar todos os movimentos de libertação europeus, os de De Gaulle ou outros. “Manter a União Soviética fora significa destruir a Rússia, para que não liberte a Europa da tirania da anglosfera. Este último objetivo é simbolizado pelas bandeiras americana e britânica, que estão onipresentes, mesmo em itens de moda, camisetas e jeans, desde os anos 1960. É por isso que os verdadeiros europeus se recusam a usar esses itens.

Na realidade, é óbvio que a NATO deveria ter desaparecido em 1 de julho de 1991, dia em que desapareceu o Pacto de Varsóvia. Se tal tivesse ocorrido em 1991, a derrota da NATO teria sido evitada, trinta anos depois no Afeganistão. Na verdade, o facto de não ter sido extinta naquela época é uma tragédia que custou milhões de vidas, principalmente no trágico Médio Oriente, e hoje em toda a trágica Ucrânia.

Curiosamente, a resposta à agressão e intimidação da NATO (a elite americana ainda intimida), o Pacto de Varsóvia, recebeu o nome da capital da Polónia. Ironicamente – e não há nada mais irónico do que a história – é hoje na Varsóvia da “nova Europa”, longe do Atlântico Norte, que encontramos o mais fanático dos seguidores da NATO. Então, afinal, qual é o significado da NATO?

A República americana da Polónia

O nome “Polónia” está relacionado com a palavra inglesa “plain”, de modo que “Polónia” significa literalmente “campos”. Dito de outro modo, não há barreira geográfica entre as terras alemãs e as russas, que começam com a atual Bielorrússia, e a Ucrânia. Ou seja, não há barreiras geográficas entre Berlim e Moscovo. Existe apenas uma barreira política puramente artificial. Os dois povos, polacos e russos, são irmãos genéticos. O seu confronto, como aquele que existe entre outros irmãos genéticos, os croatas e os sérvios, é puramente artificial.

Faz parte do gigantesco complexo de inferioridade dos polacos – suponha que você vive no meio dos imensos campos entre a Alemanha e a Rússia -, imaginar que a Rússia está interessada em conquistar a Polónia. A Rússia realmente não está interessada na Polónia. Mas então, ouço-vos eu perguntar, porquê a Rússia Imperial participou nas três partições prussianas e austríacas da Polónia no final do século XVIII? Porque é que Molotov e Ribbentrop a partilharam? Porque é que Estaline a ocupou?

A resposta é sempre a mesma. Quem foi invadido tanta vez pela Europa Ocidental, como foi a Rússia, deve criar uma zona tampão para se proteger. Como a geografia não muda, os czares e os bolcheviques foram compelidos, por idêntico receio de agressão e inveja ocidentais, a fazer o mesmo  para se protegerem, e isso significava controlar o leste ou toda a Polónia. Nisso, o czar Nicolau II teve muito mais sucesso do que os bolcheviques. Assim, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães e os austríacos nunca entraram na Rússia, permanecendo presos principalmente no leste da Polónia e na Lituânia e causando menos de 670.000 baixas russas em dois anos e meio de guerra. Foi diferente durante a Segunda Guerra Mundial, quando os alemães chegaram ao Volga e causaram quarenta vezes mais vítimas, ou seja, 27 milhões.

É uma explicação, não uma justificação. Alguns dos meus melhores amigos são polacos: pertencem à pequena minoria de polacos que conhecem tudo isso e sabem que a Polónia de hoje é apenas um vassalo dos americanos. Acho que, provavelmente, eles também sabem que se um polaco recebesse o Prémio Nobel da Paz, seria para quem liderasse a Polónia e a levasse a estar em paz com a Rússia, em vez de ir para a guerra. Seria um polaco que rompesse com os americanos, os expulsaria da Polónia e declarasse a independência. E faria o mesmo com a UE, os Estados Unidos da Europa, liderados pelos Estados Unidos. Este é o tipo de patriotismo polaco (totalmente diferente do nacionalismo polaco) que aprovo, porque se trata de afirmar a identidade nacional polaca e não de destruí-la.

Infelizmente, alguns membros da elite política e militar polaca de hoje sonham varrer a Rússia do mapa, como os cruzados católicos da Idade Média. O seu delírio está ao nível do daqueles cruzados. Os polacos não percebem que os americanos (e os britânicos) os deixarão cair (e aos ucranianos) como tijolos quentes, na hora de os esmagar. Como fizeram em 1945, embora os britânicos afirmassem que entraram na guerra em 1939 com o único propósito de defender a Polónia. Isso, afinal, era mentira. Quando é que os polacos descobrirão quem são os seus verdadeiros amigos? Como o Saker disse: 

Os Estados Unidos e a NATO precisam de mão-de-obra e de poder de fogo para enfrentar a Rússia numa guerra convencional combinada. Qualquer uso de armas nucleares resultará em retaliação imediata 

Hoje, na Polônia, pelo menos 1 em cada 33 pessoas é um “refugiado” ucraniano. Muitos polacos estão fartos dessa invasão. Isso sujeita o país a uma rude prova.

O futuro

Neste momento, a NATO está a desmilitarizar a Ucrânia. Ironicamente, a Ucrânia é oficialmente um país não pertencente à NATO, o país onde residem algumas das pessoas que no mundo mais odeiam os polacos. Os ucranianos que vivem na fronteira polaca (os galegos) até inventaram uma nova religião para não serem católicos como os polacos (ou ortodoxos como os russos). É o chamado “catolicismo grego”. Não se encontra uma mistura mais estranha e artificial do que essa. Como dizem os russos: “Nem carne nem peixe“. Então, o que acontecerá quando a NATO entrar em colapso? Voltaremos à história do século passado, muita da qual diz respeito à Polónia, da Varsóvia devastada pelos nazis, à Auschwitz libertada pelos soviéticos, de Wroclaw (Breslau) a Gdansk (Danzig).

No início de 1917, a Primeira Guerra Mundial durava há dois anos e meio e a Rússia estava apenas a alguns meses da vitória total e da libertação de Viena, Berlim e Istambul. No entanto, a Revolução de Fevereiro organizada pelos britânicos (o embaixador britânico na época, Sir George Buchanan, foi a Victoria Nuland desse tempo) pôs fim a isso. E os aristocratas totalmente incompetentes, mas anglófilos, que os britânicos tinham escolhido para governar a Rússia, abriram as comportas para eclosão da Revolução de Outubro. Sem a interferência britânica, não teria havido a Polónia, que entre 1919 e 1920 ocupou a maior parte da Bielorrússia e do oeste da Ucrânia, lá permanecendo até 1939. E se as tropas russas tivessem entrado em Viena, Berlim e Istambul, não teria havido um cabo austríaco que, em 1939, lançou a segunda parte da Primeira Guerra Mundial, e por isso também não teria havido nenhuma invasão americana da Europa Ocidental em 1944. Logo, também nenhuma tropa soviética teria entrado violentamente em Viena e Berlim em 1945 e, portanto, hoje nenhuma guerra pela libertação da Ucrânia estaria a acontecer.

As intrigas austríacas que contribuíram para a Primeira Guerra Mundial fizeram o jogo dos franceses e britânicos e destruíram o eixo São Petersburgo-Berlim. Foi trágico porque Berlim é o verdadeiro centro da Europa Ocidental e Central e tudo o mais é secundário, incluindo Paris. (Tudo o que os alemães precisam de fazer para garantir a sua liderança, de facto, é agradar à vaidade da elite francesa e dizer-lhes que são muito importantes, isso é o suficiente). Porque a harmonia entre Berlim e São Petersburgo significa a existência de harmonia em toda a Europa Ocidental, Europa Central e na parte norte da Europa Oriental. Pondo de lado a Europa Ocidental, também há partes inteiras da Europa Central e Oriental que não interessam à Rússia, por albergarem culturas que são estranhas à mentalidade russa e mais próximas da história e cultura alemãs. Referimo-nos à antiga Alemanha Oriental protestante, bem como à antiga Polónia católica (incluindo parte do que é hoje o extremo oeste da Ucrânia), a Eslováquia, Áustria, Hungria, Eslovênia, Croácia, o norte da Bósnia e Herzegovina, bem como a ateísta Chéquia.

Tirando esses territórios da equação, chegamos às partes da Europa Oriental nas quais a Rússia está interessada e próxima. São elas: Bielorrússia, Ucrânia (russa), países bálticos, Moldávia, Roménia, Bulgária, Sérvia, sul da Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Macedónia do Norte, Albânia, Grécia, e Chipre. Entender-se-á porque pertencem esses territórios ao mundo cultural russo consultando o mapa de Samuel Huntington intitulado “The Eastern Boundary of Western Civilization” (sic). Como ele disse, de acordo com a sua visão etnocêntrica: “A Europa termina onde termina o cristianismo ocidental“. Aqui, a Rússia não precisará de construir um muro, instalar armadilhas de tanques, arame farpado e cimento. Ela tem amigos do outro lado da fronteira.

Este foi o erro de Estaline – criou uma zona tampão que incluía países cuja cultura maioritária era estranha aos russos, em vez de se limitar a países ao sul e ao leste, como se elencou acima. Como ateu, Estaline não tinha mais tempo ou mais compreensão do que os americanos modernos, para as nuances religiosas e culturais dos povos. Foi pena. A Europa do sudeste, a lista de países acima referida, entrará mais uma vez na esfera de influência russa, mas os do norte e oeste pertencem a outra esfera, à esfera alemã e, portanto, à Europa Ocidental.

Conclusão: Depois da NATO

À medida que a NATO continua o seu colapso, que começou em Cabul em agosto de 2021, ficará claro que os Estados Unidos não podem apegar-se à Europa, assim como não podem apegar-se à Ásia. As guerras da NATO logo terminarão. A NATO está a ser desmilitarizada e desnazificada. Na verdade, está em vias de colapsar. Uma vez restaurado o eixo Berlim-Moscovo, o resto da Europa seguirá em frente, não sob uma esfera de influência russa, mas como uma área que deseja estabelecer boas relações com a Rússia, até mesmo com as ex-repúblicas americanas da Polónia, Lituânia, Letónia, Estônia e a Grã-Bretanha americana. 

De facto, atrás de Moscovo, há Pequim e toda a Eurásia. E toda a Europa precisa de Pequim e de Moscovo, Pequim para os produtos manufaturados, Moscovo para a energia. A Europa deve voltar às suas raízes, virando as costas à insignificância e à ingerência transatlântica. Em breve tal será passado. Como disse o bom coronel MacGregor: “Para o inferno com Washington”.

Fonte aqui


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O suicídio da social-democracia — onde está a Internacional Socialista?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/12/2022)

(Texto brilhante do Coronel Matos Gomes. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que consegue desmontar a narrativa que nestes tempos negros a comunicação social nos quer impor, e que quase todo o espectro político subscreve e para a qual nos convoca.

Estátua de Sal, 23/12/2022


As burguesias: industriais, proprietários de bens de raiz, de rendimentos palpáveis, comerciantes regionais, altos funcionários foram o motor das sociedades capitalistas e demoliberais que tomaram o poder na Europa após as revoluções dos séculos XVIII em França, na Inglaterra e na Alemanha e no século XX na Rússia. Foram as classes médias europeias (as burguesias) que decidiram o colonialismo para se apropriarem das matérias-primas de África e que estiveram na origem de duas guerras mundiais.

O colonialismo e a Segunda Guerra estão na raiz da atual ordem no mundo. O colonialismo resultou das necessidades de matérias primas pela indústria da revolução industrial e a Segunda Guerra resultou das respostas das burguesias nacionais aos movimentos operários (os camponeses transformados em operários — proletários) que geraram o complexo fenómeno que por facilidade designamos comunismo. O nazismo foi uma resposta ao comunismo, a outra foi a social-democracia — os católicos referem a democracia cristã e a encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII e publicada em 1891, mas esta é mais uma “orientação” para limitar a exploração gerada pelo liberalismo capitalista do que para alterar a ordem social e a hierarquia das classes.

(Adivinho o comentário: compara o nazismo à social-democracia! — não, o que quero dizer é que o mesmo problema (no caso a revolta dos proletários) pode originar diferentes soluções políticas e que reconhecer a diversidade de opções é a base do pluralismo. Depois há soluções melhores, piores e péssimas.)

Partindo desses pressupostos, chegamos ao artigo de Alexis Corbiére no Nouvelle Observateur, L’Obs para os amigos e ao artigo de Novembro: Porque não sou social-democrata. (Ver artigo aqui).

O que me atraiu de novo para o artigo que lera de raspão na data da publicação foi (tem sido) a quantidade de comentários de pessoas que facilmente se identificam com o Partido Socialista a apoiar o seguidismo da União Europeia aos Estados Unidos contra a Rússia e a criticar quem não o faz (eu, no meu caso). O que me motivou a voltar ao artigo do L’Obs foi o exacerbado americanismo dos sociais-democratas portugueses, em consonância com os sociais-democratas europeus. O SPD, o partido social democrata alemão, é o mais forte apoiante da política americana e da NATO. Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO era (talvez ainda seja) social-democrata. Os sociais-democratas da Suécia são agora a favor da entrada na NATO. Quanto aos partidos socialistas (sociais democratas) de Portugal e da Espanha são desde a sua fundação (ou refundação no pós guerra) fiéis seguidores da política dos EUA, foram-no durante as transições para a democracia, foram-no mais tarde na Sérvia, no Afeganistão, na Síria, e agora na Ucrânia.

Deve haver uma razão para esta opção de escolha de uma tutela americana em vez de uma autonomia europeia no xadrez mundial (que eu defendia) e essa não será certamente a da defesa de princípios morais. Os Estados Unidos carregam um historial reconhecidamente alargado de violações dos mais elementares princípios de democracia política e de defesa dos direitos do homem e até de violência interna, desde a liberal lei das armas à pena de morte e a um dos mais ignóbeis sistemas prisionais do planeta, desde o poder das igrejas e seitas à concentração dos grandes meios de comunicação num reduzido e exclusivo grupo de milionários, o que torna a ideia de liberdade de imprensa bastante contestável e pueril.

Então porque se agacham tanto os sociais-democratas europeus perante os Estados-Unidos?

Vamos ao artigo do L’Obs: “Antes de mais e para evitar falsos debates, é necessário recordar (ou redefinir) o que é a social-democracia do pós-Segunda Guerra na Europa Ocidental, o único espaço do planeta onde ela existiu: um modelo que combinou uma estratégia política reformista e uma forma de organização assente nos laços estreitos entre um partido de massas e um movimento sindical também poderoso. A convergência destas duas unidades permitiu a constituição do modelo de consenso que sustentou o estado de bem-estar aos operários e outros assalariados — salários, férias, reformas, serviços públicos de saúde e previdência social, habitação, educação. Este modelo assente na extensão de bens sociais aos trabalhadores desviou-os do comunismo. Era esse o objetivo da social-democracia, que se implantou, como é visível num mapa da Europa, nos países junto à fronteira do designado Bloco Leste, em particular na Alemanha e nos países nórdicos. (A Inglaterra desenvolveu um sistema próprio, específico, como as medidas em polegadas e milhas e as roscas dos parafusos no sentido sinistrorsum). Os países latinos nunca implantaram uma social-democracia nos termos em que ela existiu na Alemanha e nos países nórdicos. Os partidos socialistas francês e italiano nunca foram partidos de massas e a sua ligações ao sindicalismo foi sempre fraca. Os partidos comunistas francês e italiano foram, na verdade o mais próximo da social-democracia que existiu na Europa latina, mas não podiam ser aceites como tal e participar dos governos porque eram “comunistas” e os Estados Unidos não permitiam a associação da imagem de social-democracia ao comunismo, que para eles tinha um significado estratégico de ligação ao inimigo, a URSS.

É na estratégia da guerra fria que reside a atração e a dependência dos partidos sociais-democratas e “socialistas” europeus e não deixa de ser curioso que os partidos “menos” sociais-democratas, de maiores diferenças de classe e mais acérrimos defensores da propriedade privada de bens estratégicos e de alto valor social, se designem socialistas (caso de Portugal, Espanha, Itália, a Grécia e até a França), enquanto os países mais industrializados e mais igualitários optaram pela designação de social-democrata. Os ingleses não são nem uma coisa, nem outra, são “trabalhistas”!

A vitória do “bem-estar” social-democrata, de welfare state europeu foi conseguida à custa da alienação de um “bem”: a componente de força militar, sem a qual qualquer Estado deixa de ser soberano, mesmo que limitadamente (tão limitadamente quanto a força de que dispuser).

Os partidos sociais-democratas, responsáveis em boa medida pela “construção europeia” do pós-guerra, com personalidades tão marcantes como Willy Brandt, por exemplo, optaram — se voluntária e conscientemente, se por imposição americana é outra questão — por abdicar do instrumento decisivo da soberania, a força e trocaram-na por aquecimento nas casas, reformas na velhice, férias pagas, um VW ou um Opel na garagem, por vezes um BMW ou um Mercedes.

O que os sociais-democratas ganharam a distribuir comodidades, perderam em soberania! (o desarmamento alemão do pós-guerra não se deve apenas ao receio da Alemanha armada, mas à transferência de recursos para o bem estar que “apaziguou” a sociedade alemã e a levou a aceitar o domínio americano com as bases no seu território).

A Europa está hoje a pagar essa opção social-democrata (alemã, holandesa, belga, austríaca) de desarmamento militar e ideológico. Em termos políticos tem de obedecer a quem possui força — os EUA. Tem de seguir quem impôs, pela força, a ideologia dominante do neoliberalismo, do mercado, do individualismo. Tem de funcionar nos parâmetros do pensamento dominante e “politicamente correto”. Está tudo ligado: política, militarismo, moda, ideologia para conseguir a domesticação dos europeus sem grandes reações. (O nazismo desenvolveu-se neste caldo.)

Pensar a social-democracia hoje é pensar num longo processo de decadência, de envenenamento ou de morte por inação conduzido pela social-democracia, o melhor dos sistemas, se fosse sustentável, se fosse possível abdicar da força para sobreviver num mundo de espécies que vivem em estado de competição — o que Darwin descobriu há 200 anos.

Pensar a social-democracia hoje é reconhecer que ela se suicidou, deixou de ser viável apesar da partilha equilibrada de riqueza e a organização racional da vida no planeta serem cada vez mais prementes e com elas a resposta às necessidades dos novos e velhos trabalhadores e a integração de vagas de migrantes. E não é viável porque a social-democracia fez um outsourcing da força que sustenta a soberania e a liberdade de ação. Resta aos sociais-democratas de hoje, para manterem a face, fazerem-se adeptos dos Estados Unidos de motu próprio, colocarem-se a seu lado para aparecerem na fotografia de família.

Estas figuras tiveram nomes de penetras para as classes baixas e de emergentes para aspirantes a nova classe.

O consenso social-democrata dos 30 anos gloriosos assentava na ilusão do crescimento económico eterno e ilimitado e num consenso sobre a partilha da riqueza entre o capital e o trabalho. Esse consenso funcionou até aos anos 80 do século passado, o fim da ameaça do comunismo — de facto da URSS enquanto superpotência — fez os Estados Unidos e os seus ideólogos neoliberais concluir que a social-democracia europeia, o bem-estar dos europeus, era um custo que podia ser evitado dado já não existir o perigo das classes trabalhadoras serem atraídas por uma ilusão que se desfizera, a URSS. A nova ilusão que seria muito mais rentável e permitia concentrar a riqueza mais rapidamente era o neoliberalismo.

O par Ronald Reagan e Margaret Tatcher patrocinaram a nova ordem económica e ideológica baseada na liberalização dos movimentos de capitais, da livre troca generalizada (Organização Mundial do Comércio), destruição das proteções sociais na Europa, de modo a transformarem o mundo num mercado (o velho sonho imperial dos ingleses vitorianos), onde não há lugar para a social-democracia.

Aos militantes sociais-democratas europeus resta hoje elogiar a desigualdade e a competição em nome da liberdade (de ser explorado) e defender a intervenção militar do império em nome de princípios que ele se encarrega de negar. Tornaram-se neoliberais e militaristas. A decadência dos partidos sociais-democratas e socialistas é fruto do beco da dependência real em que se meteram, ou foram metidos, e da incapacidade de gerarem um ideologia para o mundo de hoje.

É interessante recordar a hibernação de uma organização de que muito poucos já ouviram falar: a Internacional Socialista! — sumiu-se, deixou de ter utilidade.

Por fim, a França, que nunca foi social-democrata, foi soberanista e o soberanismo é a base do seu comportamento desde antes de Napoleão e até depois de De Gaulle tenta remar contra a maré, com limitações conhecidas. Mas ainda tem quem pense. O que já é um feito nestes tempos de pensamento único.

Não são boas notícias, mas são as que me parecem as verdadeiras.


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Porque os Estados Unidos fabricaram o Catargate?

(Adina de Souzy, in Réseau International, 22/12/2022)

(Confesso que me andava a fazer confusão terem tramado a Eva, tão simpática e tão prendada… Eis que o presente artigo esclarece tudo. O Império não dá ponto sem nó e descarta qualquer um quando deixa de ser útil ou quando “outros valores mais altos se levantam”. Foi o caso. Coitada da Eva. Tem que se portar bem e não falar demais, sob pena de lhe cortarem mesmo o pio. É que, com as coisas “sérias” do Império não se brinca…

Estátua de Sal, 22/12/2022)


Que a UE fede a corrupção não é nenhuma surpresa. Na verdade, a corrupção é o mecanismo pelo qual opera toda a máquina manipulada pelos Estados Unidos. Sem corrupção não poderiam colocar as mãos nos funcionários europeus – que roubam, mas com a permissão dos mestres. Como ninguém se importava com a Ursula, porque atacaram o suposto suborno de 600.000 euros de Eva Kaili? Algo está errado. Mas a questão é mais complexa do que parece.

Eva Kaili foi nem mais nem menos que a concretizadora da política europeia de cooperação com o Catar. As luvas que recebeu têm lógica porque em todo o mundo, ao mais alto nível, sabe-se que os decisores têm de ser lubrificados. Sem subornos, não fazem nada! É do conhecimento comum agora. Então, onde é que Kaili falhou?

Bem, houve uma mudança de perspetiva de última hora por parte dos Estados Unidos. Eles decidiram que era útil destruir o relacionamento da UE com o Catar. Porquê? Para que a UE não tivesse mais acesso ao gás liquefeito do Catar. É simples assim. A UE já não tem acesso ao gás da Rússia, nem do Irão, e agora do Catar. Os três maiores produtores mundiais. O que isso significa senão que a UE será absolutamente dependente do gás do quarto maior produtor mundial, ou seja… OS ESTADOS UNIDOS. Gás que, diga-se de passagem, também é muito caro, muito mais caro! Vale a pena sacrificar alguns dos seus idiotas úteis por tal ação.

Sem falar que, dessa forma, é dado o sinal de que todo o fio da corrupção está nas mãos do Big Brother do outro lado do oceano…


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