E o Catar aqui tão perto!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 25/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

Confesso que depois de várias vezes me ter indignado e escrito acerca da vergonha da nossa “moderna agricultura” intensiva, sustentada com mão-de-obra intensiva importada e explorada por máfias nacionais e estrangeiras e sofregamente aproveitada nas tais modernas explorações agrícolas, já não esperava que nada mudasse algum dia e que algum assomo de escrúpulos ou de pudor viesse perturbar o negócio. Das estufas de frutos vermelhos do litoral alentejano aos olivais e amendoais a perder de vista da região do Alqueva, há todo um mundo de donos de terrenos a servirem-se dessa mão-de-obra subcontratada, de proprietários de par­dieiros a alugá-los como habitações aos desgraçados que atravessaram por vezes meio mundo para virem aqui ser explorados como novos escravos, submetidos a uma lei da kafala por máfias organizadas e actuando à luz do dia.

Agora, que tanto falamos do Catar, é ainda mais extraordinário que tenhamos passado tantos anos a fingir que não víamos o Catar entre nós. Só porque a escala é diferente não erguemos um Mundial de futebol e não gastámos 220 mil milhões de euros sobre as vidas perdidas dos nossos imigrantes.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

E porque tantas vezes escrevi, indignado, sobre isto, agora venho saudar o que parece ser o fim da inércia e da impunidade. A imensa operação lançada pela PJ na madrugada de quarta-feira no Alentejo, visando uma das redes mafiosas, pode ser o princípio do fim do desmantelamento do nosso Catar escondido e o restabelecimento do Estado de direito em grande parte do sector agrícola. Foram feitas 35 prisões sob suspeitas dos crimes de tráfico de seres humanos, branquea­mento de capitais e evasão fiscal, numa investigação que presumo não ser fácil e onde a obtenção de prova é dificultada pelo silêncio das vítimas, receosas de represálias sobre elas e as suas famílias nos países de origem. Agora é preciso que as inevitáveis pressões dos beneficiários da situação ou a brandura da justiça não venham conseguir deitar por terra este primeiro passo para pôr termo a uma situação que é uma vergonha para o país. E que esta investida das autoridades sirva de aviso para os proprietários que aceitam mão-de-obra subcontratada a empresas de fachada que sabem não garantir quaisquer direitos laborais aos trabalhadores.

2 Porque as duas primeiras razões invocadas por Marcelo para o seu passeio ao Catar não colheram — o “interesse nacional” e o “apoio à selecção” —, o Presidente viu-se forçado a ensaiar uma terceira: “a defesa dos direitos humanos”. Não sei qual das três razões é mais ridícula, qual é mais rebuscada, qual a que nos pretende tomar mais por tolinhos. O interesse nacional é aquilo que uma maioria clara de cidadãos sente consensualmente como tal, e não aquilo que um Presidente invoca como interpretação privilegiada da sua parte. Só é assim nas autocracias terceiro-mundistas, e mesmo aí às vezes há alguma contenção: neste Mundial e até à data, o nosso é o único Presidente que foi ao Catar. Ridículo mesmo é o argumento do apoio à selecção, como se esta não conseguisse jogar bem sem vislumbrar, lá no alto da tribuna de honra dos estádios, alguma das mais altas figuras da nação: no caso de Augusto Santos Silva, duvido mesmo que algum dos jogadores saiba até da sua existência. Resta então a oportunidade dos direitos humanos. Afinal, Marcelo tinha tudo planeado: ir ao Catar para dar in loco uma lição de direitos humanos. Se isso fosse verdade, seria de uma enorme indelicadeza diplomática. Mas não é verdade: Marcelo, segundo o próprio, terá aproveitado uma palestra sobre educação na Fundação Aga Khan para falar sobre direitos humanos, que, como se sabe, “têm tudo a ver com educação”. Umas dezenas de pessoas talvez assistam à palestra, e presume-se que a imprensa local e os jornalistas internacionais presentes no Mundial certamente não deixarão de fazer disso o acontecimento do dia, e assim a viagem estará safa. O Falcon pode continuar a ir e vir até Doha e, depois, como diz o Presidente, “vamos esquecer isso”. Vamos esquecer isso, vamos esquecer as visitas humilhantes a Bolsonaro, ao narco-Estado da Guiné-Bissau, os suplicados 15 minutos com Donald Trump para falar de Ronaldo (“um instrumento essencial da nossa política externa”) ou o desgaste de conviver de manhã à noite com um Presidente que não nos dá um minuto de tréguas e que fala mais depressa do que consegue reflectir e viaja mais do que consegue ver.

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Mas quando penso para além de Marcelo e, sobretudo, quando penso nos putativos sucessores que a imprensa nos quer impingir — Marques Mendes, Durão Barroso e por aí fora —, eu que, ao contrário de Marcelo, nunca senti qualquer pulsão monárquica se não fosse por esse “detalhe” de não podermos eleger nem despedir o Rei, até ficaria a pensar duas vezes. É que hoje em dia é bem mais fácil ter mão num Rei constitucional do que num Presidente eleito com tentações majestáticas. O infeliz Carlos III de Inglaterra, por exemplo, que toda a vida foi ambientalista, bem quis ir à COP27 no Egipto, mas a ex-PM Liz Truss, “a Breve”, disse-lhe simplesmente: “Nem pensar, só lá ia atrapalhar.” E Sua Majestade ficou em terra.

3 Outro ex-PM inglês, Boris Johnson, esteve esta semana em Lisboa para falar no jantar comemorativo do 1º aniversário desse projecto de sucesso que é a CNN Portugal. É uma bela vida, esta dos outrora grandes do mundo, que, uma vez retirados, andam por aí, pagos a peso de ouro, fazendo-se escutar como oráculos de sabedoria. Porém, se me é permitida a ousadia, em Lisboa Boris Johnson não esteve à altura do acontecimento que era suposto abrilhantar. Ele, que foi talvez o principal artífice do ‘Brexit’ — cujos desastrosos resultados económicos para os ingleses começam agora a ficar à vista —, escolheu fugir do tema e concentrar-se apenas na guerra da Ucrânia. E, sobre isso, não foi além de generalidades e banalidades de todos sabidas, oferecendo à audiência um banal panfleto anti-Rússia, com a conclusão de que não há lugar a quaisquer negociações de paz e a única opção para a guerra é a derrota total de Putin, através do conti­nuado fornecimento de armamento à Ucrânia até à vitória. Ele, que foi um biógrafo de Churchill, cujo estilo sempre quis copiar, encostou-se, desde o início da guerra e por razões de política interna, à figura de Zelensky, que apresentou ao mundo como o Churchill do nosso tempo. Na sua palestra, aliás, não resistiu a recordar a visita que fez a Kiev, para insinuar a coragem que ele e Zelensky demonstraram em exporem-se a eventuais disparos de snipers russos eventualmente emboscados nos telhados da cidade (os quais nunca existiram para além da sua imaginação). Uma fraca comparação com o seu biografado: Churchill, o verdadeiro, percorreu durante a guerra mais de 220 mil quilómetros em navios e aviões de guerra, navegando e voando sobre território inimigo em circunstâncias verdadeiramente aventurosas e visitando várias vezes a frente de batalha em África ou na Normandia. Mas Churchill, que combatia contra Hitler, que não era propriamente Putin, e que tinha de se entender com Estaline, que também não era exactamente Putin, chegou ao desespero por não conseguir convencer os polacos a aceitarem um acordo com os russos e exigirem antes que a Inglaterra os apoiasse militarmente nas suas exigências absolutas. A história conta que, no final, Estaline não cumpriria nenhuma das promessas feitas a Churchill e acabaria por engolir toda a Polónia de forma maquiavélica, mas ficou por se saber se poderia ter sido diferente se o Governo polaco no exílio tivesse aceitado o acordo que Churchill e Estaline lhe propuseram antes. Acontece que as vitórias totais apregoadas em palestras são sempre infinitamente mais fáceis do que as vitórias possíveis arrancadas no campo de batalha.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Surfar a onda de contestação ao Catar…

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 21/11/2022)

Tem sido uma enorme operação de denúncia das inaceitáveis práticas laborais – empresariais refira-se – a que o mundo tem assistido no Catar. A imprensa – também empresarial – não tem poupado espaço dedicado ao facto: o negócio acima dos seres humanos, escravatura, sobre-exploração, tratamento indigno de migrantes, migrantes prisioneiros em acampamentos que não podem abandonar, condições de trabalho humanamente inaceitáveis…

Devemos assumir, desde já, que grande parte das acusações são válidas e merecidas, não apenas pelo que o Catar fez na construção dos estádios e infraestruturas do mundial de futebol, mas também pelo facto de estas práticas não constituírem exceção, tratando-se antes de um padrão, devendo até assumir-se que, face à incidência dos holofotes da imprensa internacional sobre este evento, que, porventura, até tenhamos assistido a uma versão mais light das horrendas práticas laborais aí desenvolvidas. E não se diga apenas no Catar, porque a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait, também não devem ser muito diferentes.

Chegados aqui e não podendo subsistir quaisquer dúvidas quanto à dimensão extrema da exploração presenciada, devemos, contudo, aproveitar a boleia e tocar já de uma penada em tudo o que fica de fora desta onde de contestação que tanto tem de pontual, como de superficial, como arrogante.

É mesmo motivo para me levar a uma reflexão: não terá esta onda de contestação às condições do Catar algumas das características que também se veem na contestação à intervenção russa na Ucrânia?

Vejamos, nos dois casos algumas das críticas são justas, as preocupações com as vítimas são plausíveis e as acusações à brutalidade dos envolvidos também são aceitáveis. Mas em que falha esta onda de contestação? Falha no mesmo em que falha a contestação à Rússia: falha em lembrar a história; falha em identificar a natureza real e profunda do problema; falha em retirar as devidas ilações – e duras consequências – em matéria de práticas do próprio Ocidente, sempre tão rápido a acusar os outros do que também faz, apoia e perpetua.

Eu sei, eu sei… As falhas de uns não perdoam as falhas de outros. Precisamente por isso. Apontar as falhas de uns, por uma questão de coerência deve levar-nos a apontar, com a mesma dureza – e nalguns casos de forma ainda mais veemente pela imoralidade e hipocrisia subjacentes – as práticas de outros.

O Mundial do Catar é um mundial típico de um mundo capitalista e ideologicamente liberal. Tens dinheiro? Então consegues fazer! Não é assim o ideal de liberalidade do liberalismo? Que não devem ser impostos limites coletivos à expressão individual da liberdade que resulta da acumulação de riqueza, precisamente porque essa acumulação é em si “virtuosa” e, quando projetada através da liberdade individual, é geradora de mais riqueza e dinâmicas sociais também virtuosas?

O Mundial do Catar é um exemplo paradigmático do que é o capitalismo e a ideologia liberal. O Catar não é um país importante, culturalmente determinante, regionalmente agregador e representativo, futebolisticamente relevante como o seriam outros como o Irão, o Egipto ou até a Argélia, para ir apenas a países muçulmanos e com tradição de futebol. Nada disto. O mundial não está no Catar por uma questão de justiça ou mérito. Não! O mundial está no Catar porque o Catar teve o dinheiro para o comprar: através da compra dos votos e de uma campanha mediática orquestrada; através de campanhas de charme e de persuasão pelo fausto e luxo.

Tal como um rico tem mil e uma mansões só porque é rico, enquanto milhões de pobres não têm nenhuma, o Catar, país do Sul global, teve direito ao seu mundial, enquanto países como os que referi, a que poderíamos adicionar a Nigéria, o Vietname, a Indonésia, Angola, Marrocos e outros, países de futebol e relevantes de muitas formas, nunca o conseguiram, por não o poderem comprar. O dinheiro comprou o mundial, ponto final.

Este dinheiro foi alimentar muitos bolsos ocidentais, desde a promoção, ao marketing, à construção e organização, bolsos  que não disseram NÃO, baseando-se para isso no historial de práticas desumanas do Catar. Empresas ocidentais, profissionais ocidentais (um dos técnicos de SST era português, e que bem lhe souberam os 10 mil euros mensais), todos cooperaram, a troco de dinheiro, no jogo viciado e desumano que foi praticado pelo Catar. Tal como noutras situações, nenhum disse nada.

É em nome destes, e de outros que lá estão, que Marcelo diz “temos de esquecer”, tal como dizia que temos de esquecer a pedofilia e os abusos da Igreja. Marcelo faz parte desse mundo hipócrita que, com uma mão aponta o erro, e com outra guarda o dinheiro que o erro produziu.

Mas, à boleia desta onda de comiseração pelos desunidos “trabalhadores do mundo”, que quando se unem e tomam o poder, são sempre acusados de o fazer, veio também a questão da escravatura que terá existido no Catar. E bem, digo eu.

É, contudo, fundamental continuar esta onda de contestação que responsabiliza o Catar, para responsabilizar quem origina e legitima pela sua prática, todo um conjunto de outras formas de escravatura com que convivemos normalmente com um silêncio ensurdecedor.

Como não me lembrar dos mercados de escravos da Líbia (ver na imagem acima), em que seres humanos – por serem pobres – são carregados em camiões como gado (pior que o gado na ainda rica Europa), para trabalharem em atividades que vão gerar lucros que, mais tarde, entram nos mercados financeiros que ninguém diz se recusa a receber. E como esquecer os causadores disto? Afinal, foi a França de Sarkozy e a NATO de Obama, hoje elevadas a anjos da paz, que destruíram um país evoluído, com o maior rendimento per capita e o maior índice de desenvolvimento humano de toda a áfrica. Tudo porque este país, então muito rico, quis usar o seu ouro para suportar uma moeda pan-africana que visava libertar a África do jugo do franco africano e do dólar. Ah! E este país também tem o “azar” de ter muito petróleo.

E que bem soube ouvir Meloni chamar “questo Bambino” a Macron e acusar a França das suas práticas imperiais e coloniais no Burkina Faso e noutros países, as quais, como provado pela própria Meloni, sugam 50% das riquezas destes países para o Banco Central francês, impedindo-os de se desenvolverem e, consequentemente, não deixando outra opção aos seus povos que não seja a de emigrar massivamente através do mediterrâneo. Tudo verdade. Mas Meloni também esquece que as causas desta migração massiva não se prendem só com o jugo ocidental (e não apenas francês) sobre os países africanos, mas também com a destruição do Líbano, do Iraque, da Síria e da Líbia, antes destinos destas massas migrantes e não apenas pontos de passagem. Mas isto Meloni já não poderia dizer, porque seria reconhecer que EUA, NATO e UE vivem do mesmo.

Voltando ao mundial, o que também é esquecido e deve ser apanhado à boleia, são os milhares de mortos que todos os anos se afogam no Mediterrâneo devido à intervenção dos EUA, NATO e da UE em África e no Médio Oriente, ao ponto de, onde o FMI entra, onde entram os fundos destas organizações, onde estes fazem as suas “revoluções” coloridas e os países que a eles se submetem, nenhum, mas mesmo nenhum, consegue desenvolver-se e sair da mais nefasta pobreza. Uma vez mais, esta pobreza negou a estes povos o direito a um mundial, que o Catar por ser rico, pôde comprar.

E como acusar o Catar, como faz a capa do DN, por ser o mundial que coloca o negócio acima das pessoas e esquecer o que essa prática significa aqui, no Ocidente? Vejamos o caso dos estafetas da UberEats ou da Glovo? Paquistaneses e Indianos, como no Catar, a subirem e a descerem as colinas de Lisboa, às vezes com mais de 40 graus celsius, em chinelos, quase sem comer, sem seguro de acidentes de trabalho, muitas vezes com o seu passaporte apreendido por máfias intermediárias que são “partners” das Ubers deste mundo… Não serão estas práticas desumanas? Não significarão, estas práticas, uma inaceitável e desumana exploração? Já pensaram no número de acidentes de trabalho (17 vezes mais do que um trabalhador normal) que sofre esta gente, apenas por ser pobre? E quando sofrem um acidente, para além de pobres morrem à fome porque as pornograficamente ricas plataformas não querem saber?

Eu gostava de ver todos os que criticam – e bem – as práticas do Catar, a acusarem os donos da Uber, da Amazon, da Glovo e outras, do mesmo tipo de práticas em todo o mundo – não apenas no Catar – e a recusarem fazer parte desse mundo desumano que, ainda por cima e da forma que só a hipocrisia ocidental sabe fazer, nos é apresentado como sofisticado e moderno.

Por outro lado, a negação dos mais básicos direitos laborais que vemos no Catar, por ausência total de um estado que obrigue à sua aplicação, está qui presente no Ocidente com a moderna economia digital. Corrompendo, comprando e aproveitando os olhos fechados da UE e dos estados membros, estas “modernas” empresas, entraram selvaticamente nos mercados da distribuição de bens e serviços, e à boleia da inação desenvolveram práticas que violam o mais básico dos direitos humanos – o direito à dignidade. Agora, no topo de negócios multimilionários, não existe governo capitalista que consiga colocá-las no seu lugar. Um exemplo bem paradigmático de liberalismo económico. O mesmo liberalismo que ataca o nosso código do trabalho, que faz do Catar o inferno laboral que é, e que, avançando ainda mais e de forma impune no Ocidente, qualquer dia, muito pouco teremos a apontar ao Catar sem que sejamos envergonhados por um manto de cinismo e hipocrisia. O que não faltam são situações, no nosso mundo “civilizado” em que o negócio prevalece sobre as pessoas.

Mas, ainda à boleia do mesmo, também devemos questionar a hipocrisia da FIFA que diz não se poder mostrar mensagens políticas nos estádios pelas equipas, protegendo assim o seu negócio, mas que, quando foi para retirar a seleção russa e bielorussa das provas internacionais e admitir mensagens de condenação nos estádios, não se importou de aceitar. Afinal, o critério não é regulamentar, o critério chama-se EUA e NATO. NATO que se encontra profundamente dividida, como demonstra a última ação de espionagem dos EUA que invadiu os servidores militares turcos para conhecer os planos de ataque aos curdos da Síria.

Enfim, são muitas as consequências que devemos retirar desta onda de consternação para com os trabalhadores do Catar, nomeadamente, quanto aos milhões de refugiados que se encontram na Turquia, que recebe milhões da UE, para nem os deixar voltar, nem os deixar entrar na União, condenando milhões de pobres a uma existência em campos de concentração, ainda para mais, com as mais desumanas condições de vida. Viramos uma pedra e encontramos mais uma razão para surfar a onda Catar aqui na UE.

Tal como a onda de condenação à Rússia deveria justificar um surf contra a NATO, a UE e todas as guerras de agressão que praticam, e isto, veja-se bem, sem justificar a agressão que pelos primeiros possa ter sido feita.

Até na questão das sanções, aplicadas a uns e não a outros. Sabiam que os EUA têm aliviado as sanções à Rússia? E enquanto a UE fala de mais sanções, a maioria dos países da União aumentou o seu comércio bilateral com a Rússia? Tanta hipocrisia. E tanta falta de coerência.

Coerência, que esta malta “woke” não tem, nem um pingo!


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O futebol é lindo, este Mundial é uma vergonha

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

No próximo dia 20 começa no Catar o 22º Campeonato do Mundo de Futebol, envolvendo 32 selecções, entre as quais a nossa. Antes que as nossas varandas se cubram de bandeirinhas nacio­nais e as crianças se vistam de camisolas do Ronaldo, antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial. Não sei se a nossa Federação de Futebol fez parte das que votaram contra o Mundial no Catar, das que votaram em consciência a favor ou daquelas cujos dirigentes se deixaram comprar para votar a favor. Espero bem que não tenha sido a última hipótese, mas todas são possíveis, pois só através da corrupção do colégio eleitoral — em grande parte provada — foi possível atribuir o Mundial a um país que, por razões climáticas, é forçado a organizá-lo pela primeira vez no Outono do Hemisfério Norte, forçando a alteração dos calendários estabelecidos na Europa para as provas nacionais e internacionais. Um país cujos nacionais se estão nas tintas para o futebol e cuja selecção (classificada no ranking da FIFA em 102º lugar e com o recurso a 17 estrangeiros em 23 jogadores) jamais conseguiria, não sendo anfitriã, apurar-se para um Mundial.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Em 24 de Outubro, o dirigente vitalício do Catar, o emir Tamin bin Hamad Al Thani, explodiu de indignação com as “críticas feitas de invenções e duplos padrões” dirigidas ao seu país e “sem precedentes em relação a qualquer outro país organizador”. E com razão. Além da questão da corrupção na escolha do Catar, da questão do clima e das nulas credenciais do país em matéria futebolística, e apesar de toda a cobertura dada pela FIFA, o Catar tem sido alvo de um rol de críticas relativas à forma como conseguiu pôr de pé este Mundial e, designadamente, construir de raiz 10 estádios, que, a seguir ao evento, não servirão para nada, num país em que não há memória de um jogo de futebol alguma vez ter tido mais do que mil espectadores num estádio. Mas, em contrapartida, o Catar tem muito, muito dinheiro: tem, por exemplo, a maior reserva mundial de gás natural, agora tão precioso. E consta que o emir, ao contrário dos seus súbditos, gosta muito de futebol, tanto que, através da Qatar Sports Investments, além de patrocinar a Roma e o Bayern de Munique, é dono do PSG — onde, troçando das regras do fair-play da FIFA e UEFA, que só se aplicam a pobres, juntou um trio atacante composto por Mbappé, Neymar e Messi, que custam em salários, sem contar com direitos de imagem, mais de €250 milhões por ano. Mas para organizar este Mundial, que o extasiado presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirma que será o melhor de sempre, o emir não olhou a despesas: foram €330 mil milhões de custos, o equivalente a toda a riqueza produzida em Portugal durante um ano inteiro. Só que Portugal tem 10 milhões e meio de habitantes e o Catar tem três milhões, dos quais só 320 mil são catarianos, gozando de todos os direitos de cidadania, como o de não pagar impostos. Todos os restantes são emigrantes asiáticos, dos quais 72% homens trabalhando na construção civil e 28% mulheres trabalhando como empregadas domésticas. Claro que foram estes homens que o regime empregou para construir os estádios e tudo o mais, trabalhando oito a 12 horas por dia, seis dias por semana, debaixo de temperaturas extremas e em condições iguais aos que nós contratamos para as estufas de Odemira ou os olivais e amendoais do Alqueva: entregues à protecção de um kafala, com o passaporte retido, amontoados como gado, sem quaisquer direitos sindicais ou sociais. 6500 deles morreram a construir os 10 estádios onde as vedetas e os seleccionadores pagos a peso de ouro e especializados na fuga aos impostos se vão exibir para o mundo inteiro, não se esquecendo de cantar os respectivos hinos a plenos pulmões para que o povo em casa ou nas bancadas pense que eles se batem pela pátria.

Antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial

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Pois, o emir está zangado com tudo isto. O emir não percebe como é que as melhores empresas de consultadoria de imagem inglesas e europeias ou vedetas como Xavi Hernández ou o pateta do David Beckham, que só sabia marcar cantos e variar de penteados, não conseguiram mostrar ao mundo como o Catar — que até sedia uma televisão, a Al Jazeera, tantas vezes melhor do que as grandes marcas internacionais — não era aquilo que um relatório da ONU de há um par de anos classificava como “uma sociedade de castas de organização medieval”. É verdade que o próprio Governo do emir não ajudou muito quando começou a divulgar conselhos ao milhão de visitantes previstos para o Mundial de que deveriam “respeitar os costumes do país” e aos milhares de jornalistas que irão cobrir o evento avisos de que não poderão entrevistar pessoas na rua ou em suas casas, em especial os trabalhadores estrangeiros, ou entrar em edifícios públicos. Acontece que entre os costumes do país está a proibição da homossexualidade, que lá é crime, e o Governo fez saber que tolerará a sua entrada (como não?) mas não tolerará as suas manifestações. Quanto às mulheres, estão autorizadas a conduzir automóveis mas não se aconselha que saiam à rua sozinhas: Alá não gosta e, além disso, o Catar é suspeito de tolerar, sim, simpatizantes da Irmandade Islâmica e do Daesh.

Eis, a traços largos, o retrato do país que albergará o próximo Mundial de Futebol. Mas o futebol não tem culpa nenhuma disto. Algures, em estádios do antigamente, como o La Bombonera, em Buenos Aires, onde Diego Armando Maradona começou a elevar-se aos céus ao serviço do Boca Juniors, ainda hoje a multidão enche o estádio sem precisar de ir ao engano, porque aí ainda o futebol é genuíno. Feito de arte, geometria, dor e alegria. A toda a volta, onde estão os ídolos que as televisões e os jornais promovem e as massas idolatram, há toda uma teia de sanguessugas — na FIFA, na UEFA, nas federações nacionais, nos grandes clubes — que explora a “festa do povo” em seu benefício próprio e que de há muito perverteu tudo. O jogo agora chama-se dinheiro. E a cobiça é tanta que, depois de a UEFA ter inventado um outro Campeonato da Europa de Selecções a que chama Taça das Nações e que alterna com aquele a cada dois anos, é a vez de a FIFA querer também um Mundial de dois em dois anos e de os grandes clubes da Europa congeminarem outra Champion’s League só para eles e com lugar cativo para eles todos os anos. Tudo isto, claro, é feito à custa de uma overdose de jogos absurda e de uma exploração extrema do esforço dos jogadores. Mas os grandes jogadores aceitam porque também a eles só uma coisa verdadeiramente lhes interessa: o dinheiro. Já alguém viu um jogador de futebol, nas imensas viagens que faz ou nos intermináveis estágios em que tem de permanecer, ocupado a ler um livro ou um jornal que não seja desportivo? Já alguém o viu de visita a um museu, um monumento, umas ruínas históricas? Não, ocupam todos os tempos livres a jogar futebol na PlayStation, a postar imagens das férias no Instagram ou a debitar banalidades para os seguidores no Facebook.

E tudo isto, claro, alimenta-se do terceiro factor: o público. No dia em que não houver público nos estádios o futebol definhará até morrer, como se viu durante a covid. E é uma pena se o que nos leva ao estádio, seja tanto a beleza do jogo como a descarga de adrenalina e tudo o mais que precisamos de descarregar e que um jogo de futebol permite como poucas coisas mais, não seja também uma oportunidade para descarregar contra todo o universo sujo escondido por detrás do jogo.

Se os espectadores soubessem (se os jornalistas desportivos lhes contassem…) o luxo em que vivem e viajam os dirigentes dos clubes, das organizações de futebol, das federações, os agentes que chulam os clubes, os da UEFA e da FIFA, a riqueza que acumulam enquanto eles, espectadores, só gastam o seu dinheiro a manter o negócio milionário dos outros, talvez as coisas fossem diferentes.

Se a multidão que enche os estádios com o seu amor à camisola (o único que é genuí­no) tivesse o mesmo espírito crítico para com jogadores e dirigentes — em matéria de corrupção, de fiscalidade, de negociatas — que tem para com os políticos, talvez o futebol fosse menos indecente. Ou, ao menos, mais envergonhado. Não estou a ver as opiniões públicas a engolir um prémio das Nações Unidas para os direitos humanos atribuído ao Catar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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