A ventania de socialismo

(Tiago Franco, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)

Uma frota de ministros bem “montados”. Imagem roubada ao processado servidor público, Volksvargas

Se há coisa que António José Seguro (AJS) teve mérito, nesta campanha presidencial, foi o de trazer a palavra “socialismo” para o debate. Para a extrema-direita essa palavra está associada a pobreza e corrupção. Para a esquerda, em princípio, era palavra que não fazia parte do programa do PS há muito tempo.

Depois de um ano aflitivo para o PS, o António acabou por ser o Trubin do Largo do Rato. As voltas que a vida dá e, é por isso, que ela não deixa de ser bela. Maravilhosa ironia.

Não há socialismo em Portugal desde que as linhas ideológicas do PS e do PSD se fundiram, com ligeiras diferenças nas parcerias público-privadas (PPPs). Mas, no essencial, são iguais. E é por isso um enorme favor à esquerda, e ao PS, quando estes são associados com o socialismo. Os estrategas do Ventura, também eles, deviam ganhar um prémio da FIFA, ou algo do género.

Desde que a direita assumiu o controlo do Parlamento que somos bombardeados, diariamente, com ataques ao estado social. Venha pelo lado da imigração ou pelos utentes do SNS. Seja pela tributação fiscal ou pelas obrigações dos grandes grupos empresariais. Seja pelo pacote laboral ou pela descativação de serviços públicos.

Todos os dias. Todo o santo dia, nos martelam com a necessidade de entregar a saúde a privados e fazermos mais “medicares”. Ou de reduzir a carga fiscal das empresas para que estas paguem melhor (sem qualquer certeza). Ou garantir que o Estado sai do mercado da habitação (como se lá estivesse a fazer algo) para que se construam cidades sem fim. Ou que não podemos meter dinheiro na escola pública porque temos que comprar armas e fazer o que a Nato manda. Ou que precisamos de reduzir a função pública, cortar serviços, ser mais eficientes. “Eficiente” é sempre a palavra que um político, sem currículo e com um bom salário, usa quando quer justificar cortes cegos.

Quem vive, e é faustosamente pago pelo erário público, enche diariamente os estúdios de televisão, as bancadas do Parlamento ou as redes sociais, para te avisar que é preciso acabar com o socialismo. Mesmo que não te expliquem o que é o socialismo, ou que tu saibas que muitas das tuas regalias, que hoje usas sem saber como, foram conseguidas por lutas de sociedades solidárias, organizadas e socialistas.

Depois, acontecem os azares. Um cabo parte-se num elétrico, as labaredas que invadem a aldeia, umas rajadas que levantam uns telhados, a chuva que não dá tréguas por uns dias, a intempérie que leva umas árvores ou carros ou tapumes de obras. E aí tu percebes que vives num país de Terceiro Mundo, gritas e ninguém aparece. Nessa altura queres resposta pronta, serviços públicos e proteção civil. Os tais que nos custam impostos e que nos dias de sol estão a mamar. Ora isso é uma parte do tal Socialismo que te dizem ser mau.

O que tens, na realidade, é um país pouco preparado para tudo o que requer planeamento. Ninguém pode evitar o vento (talvez os gajos do ADN que acham o clima uma invenção dos jornais), mas pode-se ter sistemas de apoio às populações e, já agora, as próprias populações com noções básicas do que fazer. A forma como se organiza a sociedade começa na escola, a tal escola de que governo algum quer saber há décadas.

E é por isso que, com alguma certeza, verás os teus governantes a reagirem sempre tarde, meio perdidos, e mais preocupados com vídeos de autopromoção do que propriamente com o trabalho real.

Quem vota, repetidamente, em gente como o CEO da Spinumviva para liderar a Nação, não pode esperar grande coisa. Alguém que defende a inenarrável ministra da saúde ou dá espaço a um subserviente, que nos envergonha diariamente, como Paulo Rangel, não pode saber o que fazer num momento de crise. Alguém que se rodeia de um inútil como Nuno Melo ou que permite que Leitão Amaro seja, na prática, o porta-voz para a imigração do Chega no governo, não percebe sequer a velocidade do vento ou porque se entopem as ruas.

Se quem lidera o país tem a curta visão que as suas próprias limitações impõem e, em simultâneo, defende interesses que não se cruzam com os da população, como é que alguém pode imaginar que, em caso de necessidade, o país pode contar com esta trupe de incompetentes?

Um país que resolveu entregar sectores estratégicos a multinacionais estrangeiras, numa altura de crise, sem comunicações ou eletricidade, agarra-se a quê? Eu sei, vocês também sabem. Mantenhamos o nível, pois. Na melhor das hipóteses arranjam-se uns vídeos de ministros de mangas arregaçadas e unhas roídas e, quiçá, uma chegada em força, numa longa frota de BMWs para ver como está a plebe.

Por mais que te convençam que o socialismo é um bicho papão e, por pior que seja o governante em cada momento, quando as lágrimas te escorrem pela cara e o teu momento de aflição chega, tudo o que queres é alguém, por perto, com meios para ajudar, não é? É como Deus para mim. Não sou grande fã mas quando a turbulência bate naquelas asas, a 11 km do chão, até ao Buda vou.

Pensa nisso, então, da próxima vez que te venderem a lei da selva, as liberdades individuais e todas as metáforas de merda que significam, no fundo, que terás o que conseguires pagar. Não há como uma boa ventania para que percebas que o socialismo verdadeiro, das sociedades organizadas e solidárias, não só funciona como é realmente preciso. Especialmente quando o telhado que voa, é o teu.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Na hora dos monstros

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 21/01/2026)


Os Estados Unidos precisam de garantir pela força aquilo que já não conseguem por outros meios e sabem que, eventualmente, este é o último momento na história em que ainda são superiores militarmente a todos os outros países.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O primeiro-ministro canadiano tratou de assinar acordos com a China e o Catar e fez um discurso em Davos que, a ser feito por qualquer um de nós há poucos anos, levaria o carimbo de marxista. Ontem, Mark Carney anunciou que o mundo baseado em regras acabou e fez mea culpa assumindo algo que muitos de nós vínhamos denunciando desde sempre.

Em primeiro lugar, que a história da ordem internacional baseada em regras “era parcialmente falsa” e que os mais fortes se “isentariam quando lhes fosse conveniente”, que as regras comerciais eram aplicadas “de forma assimétrica” e que o direito internacional “era aplicado com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima”.

No mesmo dia, o primeiro-ministro belga citou o líder comunista italiano Antonio Gramsci com a mesma frase que o Professor António Avelãs Nunes cunhou o título do seu livro: “O mundo velho está a morrer, o novo ainda não nasceu. Este é o tempo dos monstros”.

O facto é que depois de múltiplas sanções, invasões, ocupações e um genocídio contra países terceiros só agora é que os líderes europeus parecem despertar. Não porque estejam preocupados com o mundo mas porque está em causa a sua própria sobrevivência. A União Europeia e os seus aliados regionais são vítimas das políticas de subordinação aos Estados Unidos e da relação supremacista com as antigas colónias.

Sejamos sinceros, os líderes europeus estão como aquele adolescente conhecido por fazer bullying aos colegas, sempre protegido pelo seu amigo mais alto e mais forte, e que agora se vê abandonado no recreio da escola sem qualquer proteção em frente às suas vítimas.

Os Estados Unidos precisam de garantir pela força aquilo que já não conseguem por outros meios e sabem que, eventualmente, este é o último momento na história em que ainda são superiores militarmente a todos os outros países.

Por isso, neste prelúdio de um mundo em guerra, os povos europeus têm de fazer escolhas. Uma delas é lutar pela sua soberania e romper com o escolho que representa a União Europeia, um instrumento ao serviço de potências como a Alemanha e a França em detrimento de países como Portugal. Outra é estabelecer relações de igualdade e respeito mútuo entre países e procurar promover um mundo onde prevaleçam as regras e não a lei do mais forte.

Naturalmente, nada disto faz sentido sem governos que trabalhem para o bem-estar dos seus povos como um todo e não para alimentar as riquezas de elites que estão subordinadas a interesses externos. A guerra que nos espreita hoje é a mesma a que alguns fecharam os olhos quando acontecia noutras regiões do planeta. O general prussiano Carl von Clausewitz escreveu a frase que é ensinada em todas as escolas militares: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.

Nesta hora dos monstros, recordo que há muito que o Ocidente mergulhou o mundo na guerra e que muitas vezes rejeitámos os refugiados dos conflitos e das crises alimentares que o próprio Ocidente criou. Enquanto jornalista, assisti a todo o tipo de massacres que insistentemente tentaram ocultar porque eram obra daqueles que os nossos líderes financiam e apoiam. Por causa disso, prenderam e assassinaram jornalistas. Para que não pudéssemos ver o que acontecia em Gaza, assassinaram duas centenas de repórteres.

No Donbass ou no Líbano, as bombas tinham o carimbo das empresas norte-americanas e europeias. Eu vi-as, ninguém me contou. Debaixo delas morreu muita gente inocente. É este o destino que queremos para a Europa?

A revolta dos “escravos infelizes”

(Viriato Soromenho Marques, in Blog Azorean Torpor, 25/01/2026)


Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, durante a Conferência de Davos – onde se reúne o verdadeiro governo mundial (esse monstro híbrido que combina a voracidade da política e do capital) -, o efeito daquilo que tenho vindo a designar como o “brutalismo” de Trump, produziu duas intervenções dignas de nota entre governantes ocidentais.

A primeira foi protagonizada pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever. Este líder já tinha surpreendido pela sua firme recusa da intenção, maioritária nas instituições em Bruxelas, de confiscar os ativos financeiros russos “congelados” na UE, e em especial depositados no Euroclear Bank, na Bélgica. O PM belga explicou que esse gesto constituía um roubo, que tornaria a zona euro numa terra inóspita para os depósitos e o investimento estrangeiro, ameaçando aumentar os juros da dívida dos Estados europeus. Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”. Num só golpe, ficava exposta a servidão voluntária da Europa, dita dos “valores”, sempre pronta a submeter-se às incursões imperiais dos EUA, desde que alguma coisa sobrasse das suas pilhagens. O tão aclamado projeto de integração europeia resumia-se, no fundo, a partilhar algumas das vitualhas resultantes da Pax Americana, nomeadamente, aquelas resultantes dos despojos trazidos pelos EUA das suas incursões para “mudanças de regime”, do Iraque à Líbia, da Síria à Venezuela. Agora, com a intenção expressa por Trump de ocupar a Gronelândia, seria um país europeu, a Dinamarca, a tornar-se o alvo da pilhagem. Os vassalos já não comeriam as migalhas que tombavam da mesa para o chão. Eles passariam a estar na mesa, como parte do menu, para serem trinchados pelo senhor feudal de Washington…

Primeiro-ministro da Bélgica Bart De Wever

A segunda intervenção, mais longa e sistemática, pertenceu ao PM canadiano, Mark Carney. Tratou-se de uma autocrítica ao comportamento dos aliados dos EUA, a começar pelo seu próprio país, por terem aceitado “viver dentro da mentira”. Essa era uma expressão retirada de uma estória de Vaclav Havel, na qual um comerciante, no tempo do regime comunista na Checoslováquia, todos os dias colocava na porta da sua loja um cartaz afirmando o credo marxista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”…apesar de nem ele nem ninguém acreditarem nisso. Mark Carney, por analogia, recordou que, no Ocidente, os aliados dos EUA colocaram, durante décadas a fio, o seu próprio cartaz, que exaltava a “ordem internacional baseada em regras”. E acrescenta Carney: “Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.” Durante décadas a “ficção” funcionou para os aliados mais próximos dos EUA. Por isso calaram-se, como “vassalos satisfeitos”. Contudo, agora, tudo mudou: “Não se pode viver dentro da mentira de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação”. A hegemonia dos EUA, como sistema, entrou em rutura. Esse sistema não pode regressar à casa de partida, nem ser reformado. Por isso, afirma, imperativamente, o PM do Canadá: “Parem de invocar a ordem internacional baseada em regras como se ainda funcionasse conforme anunciado”.

Primeiro-ministro do Canadá Mark Carney

São duas intervenções que revelam coragem e, sobretudo, recusam-se a confundir as fantasias úteis com a realidade. Contudo, não creio que o exemplo destas intervenções, com algum grau de dissidência, faça escola entre os dirigentes europeus dos últimos trinta anos. Eles teriam muito para contar pela sua colaboração ativa com as aventuras do império norte-americano, desde o bombardeamento de Belgrado (1999) até ao apoio ao genocídio do povo palestiniano, ainda em curso. Por enquanto, ainda são os Costas, os Macron e os Merz, ou as von der Leyen e as Kallas a assobiar o pífaro partido da “ordem internacional baseada em regras”. E em Portugal, os atores políticos estão viciados numa mistura tóxica entre subserviência com Bruxelas e pequenez perante Washington. As provações de Portugal e dos portugueses ainda mal começaram. O país mergulhou há quase quatro anos num pesado caldo de russofobia, importado de Washington, Londres e Berlim.

Por todo o lado na UE tocam os tambores que nos incitam a fazer guerra ao urso russo… Foi preciso o brutalismo de Trump para vislumbramos, lá no alto, o voo incisivo da águia norte-americana… Afinal é ela que parece pronta a cobiçar-nos os olhos e o fígado…

Fonte aqui