A revolta dos “escravos infelizes”

(Viriato Soromenho Marques, in Blog Azorean Torpor, 25/01/2026)


Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”.


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Nos dias 20 e 21 de janeiro de 2026, durante a Conferência de Davos – onde se reúne o verdadeiro governo mundial (esse monstro híbrido que combina a voracidade da política e do capital) -, o efeito daquilo que tenho vindo a designar como o “brutalismo” de Trump, produziu duas intervenções dignas de nota entre governantes ocidentais.

A primeira foi protagonizada pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever. Este líder já tinha surpreendido pela sua firme recusa da intenção, maioritária nas instituições em Bruxelas, de confiscar os ativos financeiros russos “congelados” na UE, e em especial depositados no Euroclear Bank, na Bélgica. O PM belga explicou que esse gesto constituía um roubo, que tornaria a zona euro numa terra inóspita para os depósitos e o investimento estrangeiro, ameaçando aumentar os juros da dívida dos Estados europeus. Num debate sobre as relações da UE com os EUA, nomeadamente sobre a ameaça de conquista norte-americana da Gronelândia por meios militares, De Wever proferiu uma frase que desnudou toda a hipocrisia e cinismo reinantes no discurso político dominante na Europa: “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra bem diferente”. Num só golpe, ficava exposta a servidão voluntária da Europa, dita dos “valores”, sempre pronta a submeter-se às incursões imperiais dos EUA, desde que alguma coisa sobrasse das suas pilhagens. O tão aclamado projeto de integração europeia resumia-se, no fundo, a partilhar algumas das vitualhas resultantes da Pax Americana, nomeadamente, aquelas resultantes dos despojos trazidos pelos EUA das suas incursões para “mudanças de regime”, do Iraque à Líbia, da Síria à Venezuela. Agora, com a intenção expressa por Trump de ocupar a Gronelândia, seria um país europeu, a Dinamarca, a tornar-se o alvo da pilhagem. Os vassalos já não comeriam as migalhas que tombavam da mesa para o chão. Eles passariam a estar na mesa, como parte do menu, para serem trinchados pelo senhor feudal de Washington…

Primeiro-ministro da Bélgica Bart De Wever

A segunda intervenção, mais longa e sistemática, pertenceu ao PM canadiano, Mark Carney. Tratou-se de uma autocrítica ao comportamento dos aliados dos EUA, a começar pelo seu próprio país, por terem aceitado “viver dentro da mentira”. Essa era uma expressão retirada de uma estória de Vaclav Havel, na qual um comerciante, no tempo do regime comunista na Checoslováquia, todos os dias colocava na porta da sua loja um cartaz afirmando o credo marxista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”…apesar de nem ele nem ninguém acreditarem nisso. Mark Carney, por analogia, recordou que, no Ocidente, os aliados dos EUA colocaram, durante décadas a fio, o seu próprio cartaz, que exaltava a “ordem internacional baseada em regras”. E acrescenta Carney: “Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.” Durante décadas a “ficção” funcionou para os aliados mais próximos dos EUA. Por isso calaram-se, como “vassalos satisfeitos”. Contudo, agora, tudo mudou: “Não se pode viver dentro da mentira de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação”. A hegemonia dos EUA, como sistema, entrou em rutura. Esse sistema não pode regressar à casa de partida, nem ser reformado. Por isso, afirma, imperativamente, o PM do Canadá: “Parem de invocar a ordem internacional baseada em regras como se ainda funcionasse conforme anunciado”.

Primeiro-ministro do Canadá Mark Carney

São duas intervenções que revelam coragem e, sobretudo, recusam-se a confundir as fantasias úteis com a realidade. Contudo, não creio que o exemplo destas intervenções, com algum grau de dissidência, faça escola entre os dirigentes europeus dos últimos trinta anos. Eles teriam muito para contar pela sua colaboração ativa com as aventuras do império norte-americano, desde o bombardeamento de Belgrado (1999) até ao apoio ao genocídio do povo palestiniano, ainda em curso. Por enquanto, ainda são os Costas, os Macron e os Merz, ou as von der Leyen e as Kallas a assobiar o pífaro partido da “ordem internacional baseada em regras”. E em Portugal, os atores políticos estão viciados numa mistura tóxica entre subserviência com Bruxelas e pequenez perante Washington. As provações de Portugal e dos portugueses ainda mal começaram. O país mergulhou há quase quatro anos num pesado caldo de russofobia, importado de Washington, Londres e Berlim.

Por todo o lado na UE tocam os tambores que nos incitam a fazer guerra ao urso russo… Foi preciso o brutalismo de Trump para vislumbramos, lá no alto, o voo incisivo da águia norte-americana… Afinal é ela que parece pronta a cobiçar-nos os olhos e o fígado…

Fonte aqui

Possível base avançada da CIA pode transformar Venezuela numa Ucrânia 2.0

(Por RT in Diálogos do Sul, 29/01/2026)


Possíveis objetivos dos EUA incluem desestabilizar e atacar Cuba e Colômbia; a continuidade do governo chavista na Venezuela, porém, poderia dificultar os planos de Trump.


A Agência Central de Inteligência dos EUA, a CIA, está montando um posto avançado permanente na Venezuela, de onde supostamente replicará seu trabalho realizado na Ucrânia. Isso poderia significar desde controlar políticos locais até transformar o país em uma base operacional avançada para mudança de regime.

Com o presidente venezuelano Nicolás Maduro sob custódia dos EUA e a presidenta interina Delcy Rodríguez cooperando com Washington, a “prioridade número um” de Washington é estabelecer um “anexo” da CIA em Caracas, disse uma fonte anônima dos EUA à CNN nesta terça-feira (27). Muito antes da abertura formal de uma embaixada dos EUA, esse posto avançado permitirá que agentes da CIA se aproximem do governo de Rodríguez e de partidos de oposição, e “mirem terceiros que possam ser ameaças”, afirmou a fonte.

Que a CIA queira expandir suas operações na Venezuela não é surpresa. O presidente dos EUA, Donald Trump, autorizou a agência a conduzir operações encobertas na Venezuela em outubro passado, três meses antes de Maduro ser sequestrado por forças especiais dos EUA. Após a incursão, o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi o primeiro alto funcionário estadunidense a visitar a Venezuela para se reunir com Rodríguez e seus chefes militares.

No entanto, um comentário da fonte da CNN se destaca. Parafraseando o oficial, a CNN disse que o trabalho da CIA na Venezuela seria paralelo ao “trabalho da agência na Ucrânia”.

O que a CIA fez na Ucrânia?

Em 2024, o New York Times publicou um relato surpreendentemente franco das atividades da CIA na Ucrânia. Falando muito tempo depois dos fatos, fontes estadunidenses e ucranianas descreveram como um telefonema em 2014 iniciou uma cadeia de eventos que culminaria em uma guerra aberta com a Rússia.

Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.

No início daquele ano, dias após o presidente Viktor Yanukovich ter sido derrubado no golpe do Maidan orquestrado pelos EUA, o novo chefe da espionagem do país, Valentin Nalyvaichenko, ligou para o chefe da estação da CIA em Kiev e pediu ajuda para reconstruir o aparato de inteligência da Ucrânia. A CIA aceitou, trabalhando primeiro com o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU, na sigla em inglês), que atua como uma agência de polícia secreta, e depois com sua agência de inteligência militar (HUR, na sigla em inglês).

A agência treinou e equipou uma força paramilitar conhecida como Unidade 2245. Essa equipe conduziria operações de sabotagem e assassinato em território russo muito antes da escalada do conflito ucraniano em 2022, segundo o New York Times e a ABC News. O atual chefe do gabinete do líder ucraniano Volodymyr Zelensky, Kirill Budanov, serviu nessa unidade e passou a liderar a HUR de 2020 até o início deste mês.

Tamanho era o valor de Budanov como ativo, que a CIA o levou de avião a um hospital militar nos EUA quando ele foi ferido em uma incursão na Crimeia em 2016.

A agência também treinou “uma nova geração de espiões ucranianos que operavam dentro da Rússia, por toda a Europa, e em Cuba e outros lugares onde os russos têm grande presença”, e supervisionou “um programa de treinamento, realizado em duas cidades europeias, para ensinar oficiais de inteligência ucranianos a assumir de forma convincente identidades falsas e roubar segredos na Rússia”, informou o New York Times.

Em fevereiro de 2022, a CIA havia construído mais de uma dúzia de bases subterrâneas perto da então fronteira da Ucrânia com a Rússia. “Sem elas, não haveria como resistirmos aos russos”, disse ao NYT o ex-chefe do SBU, Ivan Bakanov.

“Os serviços de inteligência dos EUA, como a CIA e outros, estiveram presentes na Ucrânia muito antes de o golpe eclodir”, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em 2024. “Após o golpe, eles se instalaram ali. Ocuparam um andar inteiro, talvez até dois andares, no prédio do SBU. Ninguém tem dúvida disso. A Ucrânia é governada por anglo-saxões e por alguns outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia (UE).”

O que os EUA estão planejando na Venezuela?

Os objetivos da CIA na Venezuela e além não são claros. No entanto, algumas suposições gerais podem ser feitas com base em declarações da Casa Branca.

Imediatamente após o sequestro de Maduro, em 3 de janeiro, Trump advertiu que Cuba é a próxima a “estar pronta para cair”. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse no dia seguinte: “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, ficaria preocupado”, e tanto o portal Politico quanto o Wall Street Journal relataram desde então que Rubio está pressionando por uma mudança de regime em Cuba até o fim deste ano.

Ter uma presença permanente da CIA na Venezuela ajudaria os esforços de coleta de inteligência dos EUA e aproximaria agentes de potenciais aliados em Havana — que mantém extensos laços comerciais e diplomáticos com Caracas. No momento, autoridades estadunidenses dependem de exilados cubanos em Miami para obter informações sobre elos frágeis no governo cubano, segundo o Wall Street Journal.

Trump também advertiu o presidente colombiano Gustavo Petro para “cuidar do seu traseiro”, dizendo a repórteres que uma operação militar na Colômbia “soa bem” para ele. A Venezuela compartilha uma fronteira de 2.200 km com a Colômbia, o que significa que, se Trump interviesse contra Petro, ativos da CIA na Venezuela provavelmente estariam envolvidos.

Todas essas possibilidades, no entanto, dependem do sucesso da agência em penetrar o governo de Rodríguez e em encontrar colaboradores entre a oposição. Diferentemente da Ucrânia pós-Maidan, o governo de Maduro permanece no poder, ainda que com Rodríguez, mais amigável com os EUA, à frente. Ainda assim, Rodríguez condenou publicamente “as ordens de Washington relativas a políticos na Venezuela” e declarou que somente os venezuelanos resolverão as diferenças e os conflitos internos do país.

Em entrevistas e discursos públicos, Maduro acusou repetidamente a CIA de trabalhar para minar seu governo e removê-lo do poder. Ele provou estar certo no início deste mês, e seus funcionários provavelmente estarão extremamente cautelosos em relação aos agentes estadunidenses que estejam montando operações na Venezuela. Em contraste, Nalyvaichenko e os outros chefes de inteligência da Ucrânia “cortejaram assiduamente a CIA”, segundo o New York Times.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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Acordo para não atacar centrais de energia?

(João Gomes, in Facebook, 29/01/2026, Revisão da Estátua)


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Fala-se, nas últimas horas, de um possível entendimento entre a Ucrânia e a Federação Russa para evitar ataques a centrais de energia e infraestruturas críticas. Fala-se – e é importante sublinhá-lo – sem confirmação oficial, sem comunicado conjunto, sem garantias verificáveis. Por agora, trata-se de um dado incerto, mais próximo de um sinal do que de um acordo.

Ainda assim, o simples facto de esse sinal existir não é irrelevante. Num conflito em que a energia foi usada como arma – para escurecer cidades, paralisar economias e pressionar populações civis – qualquer indício de contenção merece atenção. Não por ingenuidade, mas por realismo: as guerras raramente terminam de repente; começam, quase sempre, por pequenas suspensões do absurdo.

O ceticismo é inevitável. A experiência recente mostra que entendimentos deste tipo foram anunciados, violados e enterrados em poucos dias, por ambas as partes. A palavra “acordo” tornou-se frágil, quase decorativa. Mas também é verdade que ninguém negoceia a paz a partir do silêncio absoluto das armas – começa-se, regra geral, por escolher o que já não se ataca.

Se este eventual compromisso se confirmar, será menos um gesto de boa vontade do que um reconhecimento tácito de limites: há infraestruturas cujo ataque deixa de trazer vantagem estratégica e passa apenas a acumular desgaste político e humano. É pouco, mas não é nada.

Convém, portanto, manter duas atitudes em simultâneo: prudência e atenção. Prudência para não vender ilusões; atenção para não desperdiçar sinais.

Porque, numa guerra prolongada, até uma pausa mal definida pode ser o primeiro ensaio de uma negociação mais séria. E, neste momento, qualquer ensaio – por frágil que seja – já é melhor do que a repetição mecânica da destruição.