Uma amêndoa para a Estátua?

(Estátua de Sal, 18/04/2025)

Em tempos idos esta época era de antecipação anunciada da festa a haver e a fruir no próximo domingo, o dito domingo de Páscoa. Os padrinhos davam o folar aos afilhados, e os crentes abriam as portas de casa – desde que assinaladas com o verde de folhas de vegetação variada -, ao compasso. O padre da freguesia comandava o séquito dos mordomos, entrava casa adentro, corria todos os presentes aspergidos a água benta, recolhia o envelope que continha a côngrua, e despedia-se fazendo votos de, no ano seguinte, nos encontrarmos todos de novo.

Adoçava-se a boca com amêndoas, umas coloridas, outras mais em branco – as mais comuns -, outras mais dadas a modernices, vestidas de chocolate ou mesmo recheadas a licor. E era assim.

Hoje o mundo está numa escalada íngreme para um dealbar de perigos surpreendentes e de incertezas dilacerantes. Ainda que, por isso mesmo, a angústia nos possa assaltar repentina e inusitadamente, a Estátua acha que, ainda assim, uma réstea de esperança nos deve serenar. E por isso deixa a todos os que a seguem – crentes e não-crentes -, votos de uma Páscoa Feliz.

E aqueles que quiserem ajudar a Estátua a prosseguir por aqui a sua presença diária, podem sempre mandar-lhe uma amêndoa, não importa de que cor ou recheio… 🙂

Antecipadamente grato.

Estátua de Sal, 18/04/2025

Preâmbulo ao artigo “A Parceria: A história secreta da guerra na Ucrânia”

(José Catarino Soares, in A Tertúlia Orwelliana, 16/04/2025) 

Oficiais militares ucranianos, americanos e ingleses em reunião na Ucrânia, Agosto 2023. O general Valerii Zalujny, à época o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Ucranianas, é o homem à direita com ambos os cotovelos assentes na mesa. À sua frente estão os generais americanos Christopher Cavoli (no meio), Comandante Supremo Aliado da Europa, e Antonio Alzona Aguto Jr. (ao lado esquerdo de Cavoli), comandante do Grupo de Assistência à Segurança-Ucrânia de 2022 a 2024.

A segunda guerra na Ucrânia (a que teve início em 24 de Fevereiro de 2022, com a “Operação Militar Especial” [OME] da Rússia) começou por ser uma guerra entre, de um lado, a Rússia, a República Popular de Donetsk (RPD) e a República Popular de Lugansk (RPL) ⎼ as duas últimas na Donbass, uma região situada no extremo leste da Ucrânia e no sudoeste da Rússia ⎼ e a Ucrânia, do outro.

Porém, rapidamente se tornou numa guerra entre a Rússia (+ RPD + RPL), de um lado, e o chamado “Ocidente alargado” (com os EUA, o Reino Unido, a OTAN [/NATO] e a União Europeia [UE] em grande destaque), do outro. Mas com esta característica especial: essa guerra do “Ocidente alargado” contra a Rússia seria travada por intermédio da Ucrânia, cujo regime aceitou cumprir um mandato de procurador camicase para enfraquecer militarmente a Rússia, enquanto os seus mandantes a acossavam economicamente com sanções económicas ⎼ 24.387 (!!) sanções, 2.695 antes do início da OME e mais 21.692 depois dessa data [1] ⎼ na esperança de abrir caminho à derrocada interna da Rússia e, eventualmente, ao seu posterior desmembramento num mosaico heterogéneo de pequenos Estados impotentes [2].

A aceitação desse mandato de procurador camicase do “Ocidente alargado” data da 2.ª semana de Abril de 2022. Foi nessa data que Zelensky repudiou o acordo de paz, muito vantajoso, que tinha negociado com a Rússia em Istambul nas semanas anteriores. Fê-lo em troca da promessa que lhe foi feita, em pessoa e de viva-voz, por Boris Johnson (à época primeiro-ministro do Reino Unido) de um apoio incondicional, e “pelo tempo que for necessário”, do “Ocidente alargado” à Ucrânia, se esta decidisse optar por travar uma guerra sem quartel contra a Rússia, em vez de fazer as pazes com ela [3].

Em 13 de Junho de 2022, dois meses depois deste infausto episódio de chantagem (Boris Johnson), estultícia (Johnson e Zelensky) e perdição (Zelensky), o então presidente do México, Andrés López Obrador, definiu muito bem o teor prático desse mandato de procurador camicase:

«Nós [Ucrânia] fornecemos os mortos. Vós [“Ocidente alargado”] forneceis as armas».

No Outono de 2022, o general americano Christopher T. Donahue, muito citado no artigo de Adam Entous, disse a mesma coisa, com toda a candura, ao general Zabrodskyi, o seu camarada ucraniano (ver trecho do artigo destacado a amarelo).

E assim aconteceu, de facto, não só com as armas, mas também com as munições, o treino e o aconselhamento militar, as informações militares, a contra-informação e a logística militar que há três anos têm vindo a ser fornecidas continuamente, em quantidades gigantescas, à Ucrânia pelo “Ocidente alargado” — além do apoio económico e financeiro (também ele gigantesco) para ajudar o regime político, a administração pública e a economia da Ucrânia a manterem-se à tona. 

Só não sabíamos até que ponto e como, concretamente, é que os EUA e o Reino Unido (os dois principais patrocinadores e aliados militares da Ucrânia) estiveram e estão envolvidos no planeamento e na condução prática (incluindo comando e controlo) dessa guerra contra a Rússia por interposta Ucrânia.

Pois bem, ficámos a sabê-lo muito recentemente por intermédio de dois extensos e pormenorizados artigos: um da autoria de Adam Entous, no New York Times, em 29 de Março de 2025, relativamente ao envolvimento dos EUA, e outro da autoria de Larisa Brown, no The Times (de Londres), em 11 de Abril de 2025, relativamente ao envolvimento do Reino Unido.

É o artigo de Adam Entous [4] no New York Times [5] que publicamos hoje, aqui, na tradução de Fernando Oliveira.

O que mais (me) impressiona nesse artigo são os vários exemplos de quão perto estivemos no decurso desta guerra, sobretudo nos últimos dois anos, da eclosão de uma terceira (e derradeira) guerra mundial, graças ao aventureirismo e à húbris quer de Zelensky e do seu regime, quer de Biden e do seu governo. Poder-se-ia supor a priori que as chefias militares ucranianas e americanas directamente envolvidas nessa guerra tivessem introduzido um módico de racionalidade e autocontenção que evitassem a todo o transe essa escalada para o Apocalipse nuclear, mas o artigo de Adam Entous corta cerce essa conjectura auspiciosa.

Tanto de um lado como do outro, houve chefes militares impregnados de aventureirismo hubrístico que marcaram presença ao mais alto nível. É o caso, entre outros, do general Oleksandr Syrsky (actual comandante em chefe das Forças Armadas ucranianas e o general preferido de Zelensky), e dos generais Christopher Donahue (actualmente comandante em chefe do Comando Terrestre Aliado e do Exército dos EUA na Europa e África) e Christopher Cavoli (Comandante Supremo Aliado da Europa, o cargo militar de topo da OTAN [/NATO]). Mas os leitores ajuizarão por si próprios lendo o artigo de Adam Entous.

Noutra ocasião, contamos publicar a tradução do artigo de Larisa Brown sobre o envolvimento do Reino Unido na 2.ª guerra na Ucrânia. Tudo vai depender de Fernando Oliveira conseguir encontrar, para além dos seus afazeres profissionais, o tempo e a disponibilidade para realizar mais essa exigente tarefa.

A tradução completa para português do artigo de Adam Entous pode ser lida aqui.


Notas e referências

[1] Fonte dos dados: Castellum.AI

[2] Em 23 de Junho de 2022, a Comissão de Segurança e Cooperação na Europa (CSCE) dos EUA, mais conhecida como Comissão de Helsínquia, organizou uma sessão de esclarecimento intitulada, Descolonizar a Rússia: Um Imperativo Moral e Estratégico. Esta comissão afirma ser “independente”, mas é uma agência do governo dos EUA criada, financiada e supervisionada pelo Congresso americano. Nove comissários são membros do Senado, nove são membros da Câmara dos Representantes e três são membros do poder executivo (Departamento de Estado [= Ministério dos Negócios Estrangeiros], Departamento da Defesa e Departamento do Comércio).

A Comissão de Helsínquia apoia o Fórum Nações Livres da Pós-Rússia, que realizou uma reunião no Parlamento Europeu em Bruxelas no início de 2023 e mais três eventos em diferentes cidades americanas em Abril de 2023. O Fórum Nações Livres da Pós-Rússia publicou um mapa da Rússia desmembrada com a qual sonha, dividida em 41 Estados diferentes, num mundo pós-Putin, partindo do pressuposto de que este é derrotado na Ucrânia e é destituído pelos seus compatriotas (v. Anchal Vohra, «The West Is Preparing for Russia’s Disintegration,» Foreign Policy, April 17, 2023). São sonhos fagueiros que persistem apesar de Trump não os acarinhar (ao contrário de Biden). Para 11-13 de Junho de 2025, está anunciado um novo evento deste Fórum, em Washington D.C.

[3] Sobre este assunto, ver José Catarino Soares, «Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos.» Tertúlia Orwelliana, 9 de Dezembro de 2023 [https://tertuliaorwelliana.blogspot.com/2023/12/]

[4] Adam Entous é um jornalista do The New York Times. Anteriormente, trabalhou em três outras empresas jornalísticas: Reuters, The Wall Street Journal, The New Yorker. Entous autodefine-se assim:

«Interesso-me pelo mundo da espionagem e por histórias que revelam a verdadeira natureza das relações entre indivíduos, instituições e Estados. Estas são frequentemente escondidas e difíceis de alcançar» (https://www.nytimes.com/by/adam-entous)

[5] O The New York Times (NTY) é um jornal diário americano com 174 anos de publicação ininterrupta. É propriedade da mesma família (a família Ochs-Sulzberger) há 129 anos. É o jornal de maior circulação do EUA (10 milhões e 800 mil assinantes em Agosto de 2024). Desde 1956 (eleição do candidato Dwight Eisenhower, do Partido Republicano, para presidente dos EUA) que o NYT apoia os candidatos presidenciais do Partido Democrático. A orientação política do NYT é assumidamente “liberal” um termo que, nos EUA, significa, grosso modo, o mesmo que “social-democrata” na Europa.

Convém lembrar que o NYT tem sido, desde a primeira hora, um apoiante das decisões do Governo Biden de apoio incondicional à Ucrânia — em armas, munições, treino e aconselhamento militar, informações militares, contra-informação, logística militar e em tudo o mais que Adam Entous nos relata no seu artigo.

Assim sendo, julgo que o artigo de Adam Entous só pode ser interpretado, dado o seu teor, como tendo por objectivo principal preparar a opinião pública americana, em particular a que vota no Partido Democrático, para a derrota na Ucrânia do regime de Volodymyr Zelensky e do seu mais poderoso parceiro co-beligerante: os EUA de Joe Biden — uma derrota que Donald Trump pretende mitigar e licitar em proveito próprio.

O paradoxo ocidental da ineficiência: quanto mais crises pagamos, mais crises enfrentamos

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 15/04/2025, Revisão da Estátua)


A nossa “crise” é só uma: fazermos crescer o monstro da ineficiência sistémica que nos asfixia.


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A imposição de políticas proteccionistas pelos EUA e, em parte, pela UE, aparentemente motivadas por objectivos geoeconómicos apresentados como legítimos (reindustrialização), é responsável por um paradoxo da ineficiência do investimento, que deixa antever, uma vez mais, o real caracter que se esconde por detrás das agendas ocidentais: despejar dinheiro sobre a economia, afunilando os recursos económicos disponíveis para uma acumulação de riqueza sem paralelo na história humana, promovendo um sistema cada vez mais ineficiente e que, de tão viciado em rendimentos, tende a optar sempre pelas estratégias mais dispendiosas e, consequentemente, mais desastrosas para os nossos destinos colectivos. Quem o diz não sou eu, é a Golden Sachs, no seu relatório “Carbonomics – Tariffs, deglobalization and the cost of decarbonization”.

Este comportamento, visível, especialmente desde o início do século XXI, acelerou com a crise económica do subprime, ao abrigo da qual, ao invés de se punirem e responsabilizarem os verdadeiros culpados pela especulação desenfreada, os poderes instalados em Washington e os seus servidores na EU, FMI, BCE e Banco Mundial, optaram antes por transferir a culpa para os povos do Sul, nomeadamente do sul da Europa, plantando nas suas cabeças o preconceito de que teriam andado a “viver acima das suas possibilidades”, ao passo que, através de uma política de choque austeritário, não só pilharam os recursos nacionais disponíveis (empresas públicas e recursos fiscais) para fazer face à urgência dos “credores”, como ainda despejaram sobre as economias ocidentais triliões de euros, alimentando o monstro voraz que se esconde por detrás da economia de casino na sua fase gangsterizada.

Como seria de esperar, nada disto resolveu problema algum. Bem pelo contrário! Alimentou-se o monstro da ineficiência e da insensatez, com o único objectivo de promover a circulação, cada vez maior e mais rápida, de capital com destino à acumulação. Como vieram a demonstrar crises posteriores, o caso da Covid 19, da guerra da Ucrânia ou, mais recentemente, da “crise da segurança”, este monstro sugador de recursos produzidos pelo trabalho, tornou-se especialista em inventar “crises”, cuja urgência, gravidade e caracter, precedem sempre a anterior, obrigando, sem excepção e de forma tão repetida quanto previsível, a desviar recursos que outrora eram destinados à educação, habitação, saúde ou segurança social.

Como referiu no canal Substack, Another Angry Voice, num dos seus artigos, chegámos à fase final do capitalismo. Nos últimos 35 anos (pós-URSS) assistimos a uma aceleração tal do sistema capitalista ocidental (o núcleo central do domínio deste modo de produção), que passámos da social democracia – a qual, apesar da sua degeneração já nos anos 90, ainda conseguia reter uma parte importante dos recursos produzidos para serviços públicos -, para o neoliberalismo e, mais recentemente, para uma versão ainda mais brutal deste, à qual Varoufakis chamou de “Tecnofeudalismo”, mas que não passa de capitalismo monopolista – Sam Altman da Open AI dizia que fazia parte daqueles que trabalham para o monopólio, pois a concorrência é para os fracos -, para agora entrarmos na fase “gangsterista”. O resultado é simples: não existe uma única pessoa no Ocidente que me consiga demonstrar que a vida dos trabalhadores desta região (a esmagadora maioria da população) no essencial melhorou, em qualquer que seja o aspecto considerado. Não só não melhorou, como piorou em todos!

A explicação é fácil, de quantitative easing em quantitative easing, tornou-se demasiado fácil à oligarquia exigir dinheiro aos estados e vê-lo jorrar para os seus bolsos em quantidades absolutamente loucas, agravando o nível de endividamento dos países ocidentais, que por sua vez leva ao déficit e, por sua vez ainda, leva a mais austeridade, num processo rotativo de constante esmagamento e sucção dos recursos destinados aos serviços públicos, aos serviços para todos. Atente-se no caso alemão. Um governo constituído pela CDU aprova uma revisão constitucional irregular, para aprovar uma derrogação da regra do deficit das contas públicas, para que se possa gastar mais dinheiro na guerra. Esta CDU, ao tempo de Merkel e Shoebel, era o mesmo partido que, em plena crise do subprime obrigou os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha) a aplicarem uma austeridade brutal, provocando miséria, fome, mortes nas urgências dos hospitais, porque não podiam haver excepções às “contas certas”. Há quem chame a isto “democracia”.

Mas ainda não tínhamos recuperado a respiração de tanto esticão orçamental e já os estados-membros, e a EU, se preparam para fazer jorrar mais uns triliões para as “empresas” poderem enfrentar os efeitos das tarifas de Trump. O governo português, que se prepara para gerir um déficit orçamental (governo da direita liberal (PSD) com a direita reaccionária (CDS) e com apoio da direita ultraliberal (IL)), o que já não sucedia há mais de 8 anos, vem também destinar mais 10 mil milhões de euros para enfrentar o problema. Ou seja, são os trabalhadores quem irá pagar tudo mais caro, mas é o patronato quem leva os subsídios. Enquanto isto, cada vez mais trabalhadores portugueses, incluindo licenciados, vivem e dormem na rua.

O que esta realidade demonstra é que, toda a dificuldade, qualquer ténue turbulência, é amplificada a níveis inauditos por um exército de “órgãos de comunicação social”, comentadores, analistas, politólogos, consultores, com a cartilha tão bem estudada que mais parecem um exército de drones saído de A Guerra das Estrelas, com a função de gerar o alarmismo, o drama, o medo e a consternação, de forma a justificar mais uma excepção, mais um fundo público, num interminável ciclo de apropriação e concentração.

Os dados não deixam mentir, só a EU destinou 1,17 triliões de dólares para “salvar” a banca, sem que fosse feita qualquer exigência ou contrapartida social. Foi só encaixar e distribuir sob a forma de dividendos aos accionistas. Já durante a crise Covid-19, assistimos a políticas monetárias expansionistas, que beneficiaram, uma vez mais a banca, que se financiava a juro 0% junto do BCE e emprestava a juros comerciais de 10, 20 ou 30%, entregando-se triliões de euros a grandes corporações (só o Plano de Resiliência e Recuperação foram 700 mil milhões de euros sem contar com o que os estados-membros haviam dado durante a crise pandémica).

Com a “guerra da Ucrânia”, para além das “ajudas” ao desgraçado país apanhado nas garras do Tio Sam, a EU destinou fundos avultados para a crise energética do gás, para o aumento dos custos com a energia, nomeadamente para os sectores com “uso energético intensivo”, aprovou incentivos fiscais, subsídios para o restabelecimento de cadeias de fornecimentos e incentivos à transição energética, da “dependência da Rússia” para a “dependência dos EUA”. Tudo isto acompanhado de desregulação do mercado de trabalho, ataques aos sindicatos e silenciamento das vozes dissonantes. Quando Rui Tavares, do Partido Livre (uma espécie de Baerbock à portuguesa, mas com barbas) acusa Victor Orban de atacar o estado de direito, engrossa o movimento daqueles que aprovaram a maior vergonha democrática na europa ocidental desde os tempos do fascismo: a anulação das eleições romenas, o impedimento de candidatos de concorrerem por delito de opinião e a escolha administrativa, pela NATO, de candidatos possíveis, apenas do quadrante pró-Aliança Atlântica, logo na Roménia que nem águas tem no Oceano Atlântico!

O facto é que, já desde os anos 20 do século XX – o período dos barões da máfia – que os EUA já não assistiam a um nível tão elevado de concentração da riqueza ( EUA têm maior concentração de riqueza desde os anos 20 – Instituto Humanitas Unisinos – IHU ). De referir que tal período foi também um período em que se desenvolveu a primeira Red Scare (purga vermelha). Os 0,1% mais ricos têm hoje 14% da riqueza nacional, naquele que é um recorde absoluto. Segundo o próprio FED, a metade mais pobre (trabalhadores mais mal remunerados, desempregados, idosos, crianças…), fica apenas com 2,5% da riqueza nacional, enquanto a metade mais rica (a que vota e sustenta o sistema oligárquico), fica com 97,5% da riqueza (Ricos cada vez mais ricos: nos EUA, o 0,1% no topo agora detém 14% da riqueza nacional, um recorde ). Talvez contentes com o nível de democraticidade da coisa, os candidatos dos principais partidos (PS, PSD, IL e Chega), apenas dirigem o seu discurso à “classe média”, nomeadamente quando referem a necessidade de “construir casas para a classe média” (ver em debate entre Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua ontem dia 09/04/2025 e Montenegro e Paulo Raimundo no dia 08/04/2025). Há quem lhe chame “liberdade”.

A adicionar a isto tudo, ainda podemos dizer com grande dose de objectividade que, consideradas as políticas de transição verde e descarbonização no Ocidente, e tomando a “crise” como verdadeira, não apenas os trabalhadores ocidentais pagarão muito do seu bolso, como pagarão para condenar o planeta à morte. É isto mesmo que nos prova o relatório da Golden Sachs que acima referi.

Provam os dados e as conclusões retiradas que as tarifas e incentivos à produção local de tecnologias verdes elevam os custos globais de descarbonização em pelo menos até 30%, contradizendo directamente as metas do Acordo de Paris. Adianta também o relatório Carbonomics 2025 da Goldman Sachs que a tensão criada entre “soberania industrial” e “sustentabilidade ambiental” pode comprometer seriamente a transição energética global.

Ou seja, não apenas despejámos fundos brutais numa transição verde que está agora ameaçada de morte, a não ser que despejemos ainda mais fundos, como teremos de pagar para recuperar industrias que perdemos, apenas e tão só, por causa do neoliberalismo globalista e da financeirização da economia ocidental. Reindustrialização que agravará a transição ambiental que financiámos. O contribuinte europeu financia a doença, a cura, o tratamento e a eutanásia do doente!

Estas conclusões estão amplamente suportadas no relatório em causa, do qual é possível extrair que o “proteccionismo verde” da EU/EUA, que resultou em tarifas aos veículos eléctricos, baterias, painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas, tem um custo oculto brutal e que raramente é quantificado pelos governos.  A produção local de painéis solares e baterias, na Europa e EUA, custa 58% a 115% mais que as importações chinesas. Para mitigar essa diferença, seriam necessárias tarifas médias de 115% sobre painéis solares e 55% sobre baterias de veículos eléctricos – medidas que inflacionariam o custo total de descarbonização global em 30%. Ou seja, tanto dinheiro gasto para sermos colocados perante um dilema impossível: ou descarbonizamos, ou ficamos sem trabalho! Eis a eficiência das políticas ocidentais em todo o seu esplendor! Como sempre, pagaremos para as duas, para nada se conseguir.

Por outro lado, tendo deixado transitar para o Oriente, em função de uma visão espartilhada, horizontal, deslocalizada, da economia, daquilo que se considera por “Tecnologias maduras (solar, baterias)”, o facto é que hoje, segundo a GS, as inovações chinesas em 2024 representaram uma redução de custos em pelo menos 30%. Ou seja, os povos europeus pagaram triliões para financiar o seu sistema económico e o resultado é que criaram um monstro da ineficiência e do desperdício, viciado em dinheiro fácil sem metas e contrapartidas. Acresce que, agora, dizem-nos que vamos ter de o refinanciar, desta feita, para, ao abrigo de um suposto “reshoring” (trazer para a nossa costa) dessas tecnologias, passarmos nós a produzir o que os outros, também por nossa culpa e pela melhor governação deles, produzem mais, melhor e mais barato que nós.

Há um exemplo concreto desta situação que é paradigmático: uma pequena Câmara municipal em Portugal, gerida pelo PSD (partido liberal ou neoliberal), no norte do país, numa pequena cidade chamada Monção, faz um alarido enorme por ter comprado 5 autocarros eléctricos por 2,1 milhões de euros. Ou seja, mais de 400 mil euros cada um. Ora, estes autocarros podem ser comprados na China a menos de 60 mil euros cada. Assim sendo, resta perguntar: então vamos pagar mais para quê? Porque são feitos na EU? Ora, este argumento só valeria se o fizéssemos com tudo, mas como no que interessa aos interesses oligárquicos continuamos a comprar na China e em todo o lado, só resta uma conclusão óbvia: é que isto é mesmo para ser assim e trata-se de um imenso jackpot aos gangsters do greenwashig (lavagem verde) que operam no Ocidente.

Mas o relatório da GS ainda aponta outra contradição que corrobora precisamente isto que disse, ou seja, o desenvolvimento de tecnologias brutalmente dispendiosas, mas que justificam os enormes subsídios atribuídos e a rotação de enormes quantidades de capital, que engordarão ainda mais as contas offshore, detidas por uma nova categoria de sanguessugas capazes de sugar continentes inteiros, designadas de super-ricos. Trata-se do desenvolvimento de “Tecnologias emergentes (hidrogénio verde, SAF)” que provocam a estagnação ou alta de custos por falta de escala global associada. A incapacidade para respeitar e negociar com a India, China, Rússia e todos os BRICS, esquemas à escala global, a birra em querer dominar toda a indústria de ponta e em querer controlar as cadeias de valor e suprimentos, faz com que o Ocidente esteja a investir em quimeras que têm como função extorquir mais e mais dinheiro aos seus contribuintes, sabendo que não são competitivas nem escalonáveis. Afinal, as designadas políticas de “friend-shoring” (trazer para os amigos) concentram investimentos em tecnologias menos competitivas, enquanto penalizam sectores onde a cooperação internacional poderia acelerar ganhos de eficiência. E não sou eu que o digo, é a Golden Sachs.

Por fim, para agravar este paradoxo geopolítico-climático, a UE e os EUA destinam US$ 1.7 triliões/ano em subsídios verdes, mas cada dólar investido em produção local de energia solar tem eficiência climática 58% menor versus as importações asiáticas. Ou seja, esta teoria de que temos de ser nós a fazer o que outros já fazem, só porque pensávamos, em primeira mão, que iriamos ganhar a corrida às tecnologias verdes e ficar com o jackpot inteiro, está a fazer-nos embarcar num paradoxo da insustentabilidade: quanto mais dinheiro colocamos nas tecnologias verdes em concorrência à Ásia (para não dizer China), menos eficiência carbónica e ambiental temos! Fantásticos governantes! É o milagre da subtracção!

O facto é que a transição verde exige um reequilíbrio entre segurança económica e eficiência climática. Como mostra o Carbonomics 2025, a fragmentação das cadeias de suprimentos verdes não só encarece a descarbonização como retarda o ponto de inflexão tecnológico necessário para sectores difíceis de abater, como o caso dos sectores ligados às energias fósseis. Não apenas gastamos mais dinheiro, como tornamos tudo mais difícil e tardio. Como diz a própria GS, a solução não reside no isolamento, mas na arquitectura de novos pactos industriais-globais que harmonizem interesses nacionais com imperativos climáticos, económicos e sociais, acrescento eu. Ou seja, ao invés de guerras frias e quentes, devemos proteger-nos, sim, mas também cooperando. Algo que o Ocidente deixou de saber fazer com quem não lhe agrada. Se é que algum dia soube.

O relatório da GS evidencia que as políticas proteccionistas ocidentais, de tão bem desenhadas que foram (talvez tenham sido desenhadas pelos mesmos que desenharam as deslocalizações, privatizações,etc) criam um ciclo vicioso de custos elevados e dependência de subsídios estatais através de três mecanismos principais:

  1. Subsídios industriais como compensação artificial, pois as políticas de “reshoring” (relocalização industrial) exigem investimentos massivos para tornar viáveis sectores estratégicos em território nacional. Por exemplo: a UE destinou US$ 1.7 triliões/ano em subsídios para tecnologias verdes, porém com eficiência climática 58% inferior às importações asiáticas, e os EUA aplicam tarifas de até 54% sobre produtos chineses, mas precisam compensar empresas locais com créditos fiscais equivalentes a 30% do custo de produção. Estes mecanismos geram um efeito de “custos duplos”, pois protegem indústrias menos competitivas e transferem o ónus financeiro para os contribuintes. Fantástico negócio.
  2. Fragmentação de cadeias de suprimentos, pois o proteccionismo força a duplicação de infra-estruturas críticas, por exemplo: os painéis solares custam mais 115% que as importações, aumentando o seu preço em 40% para os sistemas residenciais; as baterias para VE custam mais 55% do que os fornecedores globais, aumentando o custo médio dos veículos em 8.000$. Esta fragmentação exige financiamentos estatais contínuos para manter a viabilidade de sectores estratégicos, criando dependência crónica de fundos públicos. Mas depois, ouvem-se os Trumpistas, o André Ventura do partido mais reaccionário em Portugal, os Orbans, Melonis e muitos outros a dizer, que são os imigrantes quem leva o dinheiro e são os ciganos quem recebe mais subsídios.
  3. Efeito dominó geopolítico, pois as tarifas ocidentais desencadeiam retaliações que amplificam custos sistémicos, amplificados, por exemplo, com a resposta chinesa, da EU, BRICS e outros. Cada medida proteccionista gera novas distorções de mercado, obrigando os estados a injectar recursos adicionais para neutralizar impactos negativos não previstos.

Não que eu seja contra todas as formas de proteccionismo, muito pelo contrário. Contudo, este proteccionismo, uma vez mais e tal como quando se deu a abertura das economias ocidentais à globalização, não visa proteger os trabalhadores e as suas condições de vida. Visa, isso sim, proteger as condições de acumulação de uma elite cada vez mais rica, que se sente incapaz de competir com aqueles que antes via como inferiores.

A própria paranóia da inteligência artificial generativa é também outro logro que qualquer dia será responsável por nos colocar novamente à luz da vela, para que meia dúzia de iluminados possam usá-la para virtualmente enriquecerem. Como refere também a Golden Sachs no seu briefing semanal, a Inteligência artificial aumentará a procura de electricidade em 165% até 2030. O problema é que é mesmo para ser assim, muito dinheiro público a jorrar para uma área de negócio profundamente ineficiente, como veio provar o DeepSeek, sobre o qual escrevi também no passado.

Em conclusão, se dúvidas havia que este sistema está condenado ao fracasso, vejamos como as várias fases do seu desenvolvimento apenas nos trouxeram à dependência, ineficiência e ao atraso em relação aos competidores que tanto parecem assustar a nossa oligarquia.

Quanto mais medo têm da China e da Rússia, mais nos conduzem ao paradoxo da ineficiência ocidental: quanto mais se investe o dinheiro dos contribuintes, mais atrasados ficamos e mais medo temos! Uma espiral destrutiva imparável e sem fundo à vista.

E como se não estivessem contentes, como se não tivessem falhado todas as estratégias trazidas até aqui, como se o neoliberalismo não tivesse deslocalizado a nossa capacidade industrial instalada e know-how, como se o monopolismo tecnológico não tivesse empobrecido milhões e milhões de trabalhadores e como se o gangsterismo capitalista não tivesse usado todos os fundos públicos, a ele destinados desde o início do século, apenas para enriquecer uma minúscula fracção populacional, agora, querem obrigar-nos a pagar mais 800 mil milhões de euros porque identificaram mais uma “crise”. O resultado será simples: quanto mais medo tivermos da Rússia, da China, do Irão, da Coreia do Norte, mais dinheiro gastaremos, tudo para descobrir, no final, que eles continuam sempre a ser mais poderosos.

O facto é que a nossa “crise” é só uma: fazermos crescer o monstro da ineficiência sistémica que nos asfixia. Eis o paradoxo da ineficiência ocidental: quanto mais crises financiamos, mais crises enfrentamos. Até perecermos de vez!

Fonte aqui