Feliz Natal

(Por Estátua de Sal, 24/12/2024)

O Natal na Palestina ocupada

Queria escrever hoje um texto anódino, afastado da política, dos conflitos e das mazelas que grassam pelo mundo, uma salva de palmas aos sorrisos e à esperança. Não o consegui fazer completamente, porque não quis adornar sob um peso grande de consciência.

Daí ter escolhido a imagem acima, como embaixadora da nossa mensagem de Natal. Sim, há milhares que estão a ser imolados no altar do genocídio prepertado pelos assassinos de Israel, e cujo Natal é uma ode ao terror e uma porta para a morte.

Não fora esse cancro humano, que alastra diante dos nossos olhos e que ninguém ousa parar, e a imagem que teríamos escolhido seria a que podem ver aqui ao lado.

Por isso, algumas reflexões que partilhamos nos assaltam.

Natal. Seja lá o que isso for. Não é por fazermos votos de bom Natal que passaremos a ter um Mundo melhor. Nem que a vida passe a ser melhor para milhões de deserdados e sofredores da iniquidade e de um sistema económico que prospera cada vez mais para poucos em detrimento da grande maioria.

Mas as comunidades também vivem de rituais e da partilha de comportamentos. As tradições são isso mesmo. Uma herança da memória de outros tempos, por vezes atavismos fora de época.
E essa partilha pode gerar uma resultante social, positiva ou não, construtiva ou não. Dinâmica para a esperança ou dinâmica para coisa nenhuma.

E neste Natal, em particular, dinâmica também para o perigo da escalada dessas guerras insanas que estão a povoar o Mundo e a ameaçar as nossas vidas. Sim, porque os morticínios não são “lá longe”, entram-nos casa adentro, todos os dias em doses cavalares, servidos pela nudez crua das imagens das televisões. E que nos lembremos que não são marionettes mas sim seres humanos que estão a ser espezinhados por outros seres humanos. A barbárie a que urge pôr cobro, assim a paz se impusesse, ao menos porque é Natal…

Natal. Seja lá o que isso for, é pelo menos uma pausa na rotina de muitos de nós. Algumas liturgias tomam conta do quotidiano. As prendas, as crianças, as ceias, os encontros e reencontros familiares, os presépios e outros símbolos para os crentes e até para os menos crentes.

E por isso mesmo, quer queiramos quer não, o Natal é sempre uma singularidade, no percurso do calendário anual. Quer para os que o vivem em esperança, em fervor e em otimismo, quer para os que amargamente sofrem o desânimo de nada ter para vivenciar, e para os quais o Natal é apenas mais um dia no caminho de um calvário repetido e constante. Lembremo-nos desses, reflitamos porque são as coisas assim e questionemos porque terão que ser assim.

E para que se mantenha a tradição, para todos os meus amigos e para todos os que me lêem. aqui ficam os meus votos de Feliz Natal. Seja lá o que isso for. Seja lá o que cada um queira que seja, e que possa ser, nestes tempos sombrios de guerra e de barbárie.


Natal e a «mentalidade de guerra» de Mark Rutte

(Por António Bernardo Colaço, in AbrilAbril, 23/12/2024)

Tanque de guerra alemão Leopard 2, que equipa os exércitos da NATO e da Ucrânia

Natal é um acontecimento social festivo universalmente praticado, pelos cristãos e não-cristãos, independentemente de qualquer credo religioso. É o «tempo» de todos os cidadãos do mundo – tanto os que o celebram, como os que não o podem celebrar –, mas no qual todos anseiam pela PAZ, CONCÓRDIA e SOLIDARIEDADE ENTRE OS SERES HUMANOS. 

Foi, por isso, surpreendente e assombroso o discurso do Sr. Mark Rutte – secretário-geral da NATO, no Carnegie Europe, em Bruxelas, no dia 12.12.2024. Eis alguns chavões:

Ler artigo completo aqui.

No labirinto do “governo invisível”

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 21/12/2024)

O turbilhão de acontecimentos que atinge a Europa é deliberadamente ilegível, tal a intensidade de narrativas fabricadas, encarniçadas contra a debilidade da verdade material. Querer substituir a dureza dos factos pelas opiniões convenientes, é receita certa para o desastre. Tentemos, pelo menos, entender o essencial.

Depois de quase três anos de guerra europeia, a sorte das armas favorece a Rússia. Biden, perdidas as eleições, sem autorização de Trump (segundo confissão do próprio), resolve envolver-se diretamente no conflito (com o apoio de Londres), através do uso de mísseis contra alvos na Rússia. É um gesto de temerária e violenta fraqueza, mas arriscando generalizar a guerra. A bandeira da democracia é desfraldada nos discursos dos seus dirigentes, enquanto a UE é cúmplice num golpe de mão contra a Roménia, usando como espada o seu Tribunal Constitucional: o candidato que iria ganhar folgadamente a segunda volta, Calin Georgescu, queria sair da guerra e travar a construção na Roménia da maior base da NATO. Os protestos foram abafados, incluindo com detenções…

A retórica humanista do Ocidente tem coabitado com a perseguição a cidadãos que nos EUA, Alemanha e Reino Unido protestam contra o genocídio e a violência extrema de Israel em todo o Médio Oriente (apoiado por esses países). Von der Leyen desobedeceu à exigência do Tribunal Europeu de Justiça, não-divulgando a sua correspondência privada com o CEO da Pfizer, em 2021, no caso que envolveu a compra bilionária pela UE de vacinas anticovid. Como “punição”, foi reinvestida na presidência da CE… O descontentamento popular com o empobrecimento europeu, muito forte em Paris e Berlim, bate no muro blindado de uma ordem, aparentemente, inamovível.

Como explicar o que paralisa os cidadãos, atrofiando a sua capacidade de pensar e protestar? 
Para perceber o que mudou na estrutura do poder nas democracias representativas, temos de recuar quase um século, até Edward L. Bernays (1891-1995). Eis a tese central do seu seminal livro Propaganda (1928): “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante do nosso país [EUA].

O resto foi explicado por Hannah Arendt, num artigo de 1967, “Verdade e Política”: os interesses instalados criaram uma indústria de “mentira organizada”. As verdades empíricas, os factos, são apresentados como meras opiniões. É onde estamos, numa perigosa encruzilhada. Desprovidos da bússola existencial que separa a verdade da falsidade.