De boas intenções está o Inferno cheio

(Pacheco Pereira, in Público, 23/01/2021)

Pacheco Pereira

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Os EUA (e não só) têm um problema racial grave. Não é preciso ir mais longe do que ver a diferença de tratamento entre os manifestantes que assaltaram o Capitólio e os que participaram nas manifestações do Black Lives Matter. Ou a facilidade com que a polícia dispara a matar contra negros. Ou muito mais coisas que encheriam todo o jornal, tão evidente que esse problema existe e é grave.

Mas há qualquer coisa de errado quando, para combater esse racismo, se começa a definir toda a gente pela raça, e se começa a institucionalizar um sistema de quotas igualmente pela raça, na maioria dos casos, pela cor da pele. Os democratas americanos e a Administração Biden não fizeram outra coisa nestes últimos dias senão dizer: temos X mulheres (muito do que aqui se diz aplica-se às quotas de género, mas fica para outra vez), X de toda a longa sequência LGBTQ+, X de negros, também identificados como afro-americanos, X de “castanhos”, que é uma categoria nova, X de nativos, X de latinos, X de indianos-americanos, X de americanos orientais, etc. Eu percebo que a diversidade de uma sociedade feita pelos emigrantes, como é a americana, ganhe com a variedade cultural, religiosa, étnica, de origem geográfica, para além da diversidade de género e orientação sexual, mas há qualquer coisa de retrocesso civilizacional neste caminho.

Os países em que este tipo de categorização existe na lei são países em que ser classificado num grupo, seja por orientação sexual, seja por etnia, cor da pele ou raça, ou pela religião, é feito para discriminar e perseguir, não para integrar. Os católicos nos países muçulmanos, as minorias muçulmanas na China, os homossexuais nas Filipinas ou no Uganda, em todos os sítios em que estas categorias estão inscritas em listas ou nos censos, nunca favoreceram a integração, mas, pelo contrário, a guetização. Um assunto conexo, quase sempre tratado com ligeireza, é o das listas públicas de predadores sexuais e pedófilos, mas também aqui fica para outra altura.

Para usar um exemplo ainda mais brutal na sua provocação, mas que penso ter sentido nem que seja pela revelação que às vezes o excesso dá, ninguém como os nazis levou mais longe esta obsessão pela classificação do outro, que se destinava também a defender, pelas suas fronteiras claras, o próximo, o ariano louro. Nos campos de concentração, os judeus, os homossexuais, os ciganos, as testemunhas de Jeová gozavam de uma plena identidade rácica, étnica, religiosa para serem alvo de perseguição e morte. É o inverso das boas intenções do presente, mas o mecanismo é idêntico.

Tenho para mim que numa sociedade democrática todos são iguais, e essa igualdade deriva da pessoa humana, do indivíduo, compreendendo todos os factores de identidade que advêm do género, da cor da pele, da orientação sexual, da religião, mas que são, ou devem ser, para os procedimentos da democracia, invisíveis. Uma pessoa, um voto, uma pessoa, um cidadão, uma pessoa, uma identidade cívica, e só depois é que tudo o resto conta. Na verdade, a nossa tradição democrática assenta na condição de cidadão, e esta qualidade, tal como com a democracia, quando é adjectivada, é enfraquecida. A democracia é uma escolha cultural e política, não parte de uma descrição sociológica nem antropológica da sociedade. O sistema de quotas, que está a crescer, assumidas na lei ou implicitamente funcionando como exclusão ou vantagem, torna, em nome da igualdade, as pessoas desiguais e perverte a cidadania. Mas o mais importante é que não permite combater os males que estão por trás da desigualdade.

Podem dizer-me que isso significa que as instituições, empresas, poderes vão continuar a ser masculinos, brancos e socialmente privilegiados. É verdade e é mau, mas não é instituindo sistemas de quotas, visíveis ou invisíveis, que se combate esta situação. Pelo contrário, institucionaliza-se uma diferença que dilui a igualdade da cidadania e, portanto, mantém os mais fracos, fracos. É verdade que essa igualdade é virtual e não real, mas, do ponto de vista dos procedimentos da democracia, é essa virtualidade que conta. Mais: é essa igualdade virtual que é a base da igualdade real, sendo que a diferença entre uma e outra é do domínio das políticas, e das lutas sociais.

O discurso cada vez mais hegemónico sobre o género, a preferência sexual, a cor da pele, a etnia ou a religião tem o resultado de ocultar que não há legislação nem práticas “politicamente correctas” que resolvam o problema de fundo que explica quer as discriminações, quer o racismo, ou seja, a pobreza, a exclusão, a desigualdade de oportunidades. Enquanto se viver numa sociedade desigual, ela tenderá a potenciar todos os factores de exclusão e esses factores incluem o género, a orientação sexual, a cor da pele, a etnia e a religião. Se se quer combater o racismo e a discriminação, é na luta social que está a chave para combater as injustiças e não pensando que há força nos guetos.

Historiador


Na vertigem da desrazão

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 23/01/2021)

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Escrevo na pior fase, até agora, da crise pandémica mundial. Portugal é agora um trágico campeão. A contar, não a partir de cima, do sítio onde se vislumbra o céu, mas a partir do fundo, do temível lugar de baixo onde todas as culturas milenares situam o inferno. Nos próximos 40 dias poderemos perder tanta gente para a covid-19 como o número de soldados que morreram em 13 anos de guerras ultramarinas. Afinal, este “vírus bonzinho” continua a semear morte e miséria e a deixar muitos líderes políticos, que julgavam ter o assunto resolvido com as vacinas e a propaganda, a fazer pagar aos seus povos o preço da tóxica combinação de ignorância com arrogância.

O que hoje acontece com a pandemia, e o que irá suceder, salvo ocorra um milagre, daqui a dez ou quinze anos com a entrada em cena de disruptivas reações em cascata, provocadas pela aceleração da crise ambiental e climática, é a confirmação da completa erosão do senso comum, essa faculdade que nos liga ao mundo. Essa erosão resulta de um longo e complexo processo histórico, com raiz na Europa de Quatrocentos, que os académicos costumam designar como modernidade. Estamos a viver o crepúsculo universal do programa renascentista de Pico della Mirandola (1463-1494): compreender o homem como uma criatura destinada por Deus à liberdade de escolher o seu destino. Ao fim de algum tempo, a parceria com Deus deu origem a um afastamento completo. Como Laplace disse a Napoleão: na ciência Deus é uma hipótese desnecessária. O cristianismo tinha sido o amparo espiritual dos europeus nos mil anos de escassez medieval. Mas, quando a ciência trocou o serviço da verdade pela busca fáustica do poderio tecnológico, o narcisismo humanista, exaltado na contemplação das suas possibilidades infinitas, deixou mergulhar Deus num longo eclipse.

A modernidade não só dispensou o Criador, como escravizou o mundo natural da Criação à voragem de uma economia que deixa desertos no seu rasto. A partir do século XIX, o primado tecnológico transformou-se numa infeção cultural, que contaminou todas as esferas da existência. A natureza deveria submeter-se, obedientemente, a todos os desvarios do imperativo tecnológico que perdeu a mínima consciência dos limites. Alguns exemplos. Em 1934, Sydney Chapman (1888-1970) sonhava limpar a atmosfera da camada de ozono para aumentar a sensibilidade dos aparelhos astronómicos à radiação ultravioleta mais remota! Não lhe ocorreu perguntar se isso acarretaria danos colaterais. Seria Thomas Migdley (1889-1944), responsável também pela calamidade para a saúde pública resultante da invenção da gasolina aditivada com chumbo, a produzir os clorofluorcarbonos (CFC), que provocaram a depleção da camada de ozono. Todavia, foi por puro acaso que Migdley usou para o seu novo produto o cloro (CI) em vez do brómio (Br), que teria um efeito destruidor sobre a camada de ozono estratosférico cem vezes maior! De acordo com cálculos do nobel da Química Paul Crutzen, se tal tivesse sucedido, em 1976 a humanidade teria sido aniquilada sem sequer perceber porquê…

A reclusão forçada pela pandemia deu-nos oportunidade de escutar os sons de uma natureza que submetemos e esquecemos, como se dela não fizéssemos parte. Mas que ninguém espere uma nova sabedoria nascida da tragédia. Quando esta pandemia se dissipar, o cruzador da modernidade zarpará de novo a todo o vapor, cumprindo o lema extremo que Pessoa foi buscar ao general romano Pompeu: “Navegar é preciso; viver não é preciso.”

Professor universitário


Um sonho destruído?

(José Gameiro, in Expresso, 21/01/2021)

José Gameiro

Corro o risco de ser considerado um velho conservador e pessimista. Paciência. Em vésperas de mais uma eleição presidencial, apeteceu-me pensar sobre o caminho percorrido pela minha geração. Já devem estar a pensar, este gajo tem a mania, como é que ele consegue numa crónica escrever sobre umas dezenas de anos de um país. Presunção e água benta, cada um toma a que quer…

Numa conversa recente, com alguém com quem falo regularmente e que não partilha as chamadas ideias de esquerda, ouvi isto: “Para vocês que começaram um sonho quando eram jovens, olhar para o país, agora, deve ser uma desilusão.”

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Muita desta desilusão, para quem teve sempre alguma participação cívica ou mesmo política, advém da velha crítica aos partidos. As suas características macrofágicas, a dificuldade de aceitação do pensamento independente, o uso oportunista de quem não é filiado e o seu posterior afastamento, não são exclusivos de Portugal. Em democracia não há alternativa ao sistema partidário, ainda que entre nós a frouxidão da participação dos cidadãos na vida política seja muito limitada. A lógica partidária é uma lógica futebolística, por vezes quase de seita. Como a hipótese de os partidos se reformarem é muito baixa, por aqui estamos conversados.

Para um leigo em economia é difícil compreender qual o caminho a seguir, mas uma coisa podemos ter a certeza, o nosso país, desde o ano 2000, está a ficar para trás em relação à maior parte dos países europeus. Temos uma taxa anual de crescimento média de 0,67%…

Quando oiço jovens recém-licenciados dizerem que ganham menos de mil euros líquidos por mês e que desesperam para se autonomizarem da família, ou seja, terem uma casa, sustentarem-se todos os meses, sinto alguma vergonha pela minha geração. Claro que estão muito melhor do que antes da democracia, mas não pode servir de desculpa… Não fomos capazes de transformar os nossos sonhos num futuro melhor para os nossos filhos e netos.

Mas conseguimos ter um país seguro, com um sistema de saúde universal e quase gratuito em que ninguém fica à porta de um hospital porque não tem dinheiro para pagar.

Claro que isto tem um preço que pagamos indiretamente, através dos nossos impostos. Muito se discute sobre a altíssima carga fiscal. As teses liberais defendem que uma baixa fiscal criaria, a prazo, maior rendimento, para os que menos ganham. Não sei discutir isto. Mas sei que nem toda a receita fiscal, longe disso, serve para pagar a saúde, a justiça, a segurança e todos os serviços públicos. Também tem servido para pagar os negócios, altamente rentáveis da energia e das Scuts.

Somos fracos, muito fracos, na capacidade de contestar decisões duvidosas. Deixamos isto aos políticos da oposição, apesar de cada vez mais termos informação acessível. Somos também muito fracos na produtividade, no rigor do cumprimento das horas e dos prazos.

Em relação ao pensar a nossa posição na Europa e no mundo, não somos fracos, somos nulos e deixamos esta discussão aos políticos. Mesmo estes, publicamente, não se aventuram por aqui, como se vê na atual campanha eleitoral. Nenhum candidato e nenhum jornalista pôs questões internacionais e, no nosso regime constitucional, o PR pode ter um papel importante nas relações externas. Preferiram discutir questões de atualidade e proferir afirmações vagas sobre a necessidade de nos darmos todos muito bem…

Se aqueles que pensam à esquerda não conseguirem mudar este estado de coisas, vou continuar a ouvir a frase do jovem empregado num supermercado com quem conversei há dias e a quem dedico esta crónica: “Acabei o curso de Economia numa escola de referência, preciso de ganhar dinheiro, estou aqui na caixa. Mal possa, piro-me para outro país…”