Dias Loureiro e a PJ

(Carlos Esperança, 06/10/2018)

dn

Seria injusto e de mau gosto beliscar a honra de dois catedráticos ilustres, Passos Coelho e Cavaco Silva, referências éticas, políticas e intelectuais do nosso País, mas surpreendeu a aparente falta de sentido de Estado nas insinuações e no azedume com que se pronunciaram perante o normal fim do mandato da PGR.

cavaco_loureiro

O facto de Dias Loureiro, ministro dileto de Cavaco Silva, e empresário modelo de Passos Coelho, ter sido constituído arguido e não ter havido consequências, só pode dever-se à sua inocência, mas o pior que poderia suceder era ficar a pairar qualquer dúvida.

Seria desonesto pensar que a raiva ruminada pelos ex-governantes pudesse ser uma questão de gratidão à PGR que a poria injustamente em causa.

Para que a luta política não venha a acusar de incúria a PGR cessante, era conveniente que a notícia do DN de 6 de maio de 2015 (aqui), caída no esquecimento, fosse esclarecida para preservar o prestígio e a confiança nas instituições.

A uma semana de terminar o mandato único de PGR é ainda tempo de perguntar à Dr.ª Joana Marques Vidal o motivo que a levou a não repudiar a calúnia da sua colega Cândida Almeida ao órgão oficioso do MP – Correio da Manhã – e a não exercer a competência disciplinar que lhe cabia. E, eventualmente a processar o DN.

Ainda sobre o (triste) caso do Azeredo Lopes, notas

(Por RFC, 06/10/2018)

azeredo5

Se eu assinalei na semana passada o facto de os rapazes do Expresso não disporem dos saberes para serem reconhecidos como um player na política portuguesa, sendo que o resultado sobre a recondução da actual PGR foi estatelarem-se ao comprido, pois por aqui ninguém perdoa nada!, no caso do ministro Azeredo Lopes deve ter sido um dia, ou dois, de pura adrenalina.

Acontecimentos, uma narrativa possível:

Um comité revolucionário (1), escreveu que o Camarada Vasco, o da PJM, revelou no seu depoimento no DCIAP que Mr. Magoo estava a par da aldrabice sobre a descoberta das armas na Chamusca e, tal como com o edital de Calvino, pregaram-no e exibiram-no no lugar do estilo, não na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, mas nas portas, janelas e postigos, (no confessionário?), do tipo da Microsoft através da edição online.

… «não as portas da porta da Igreja do Castelo de Wittenberg,», a porta da igreja acho.

Os algoritmos dispararam, e na redacção do Expresso a adrenalina manteve-se elevada: seguiram-se as reacções (umas públicas, muitas privadíssimas), assessores, adjuntos, chefes de gabinete, todo o pessoal dos gabinetes ministerais.

Marcelo Rebelo de Sousa e o palácio de Belém à escuta, o palacete de São Bento em obras, a Gomes Freire fervilha, largo do Rato, Lapa, Almirante Reis, Soeiro Pereira Gomes arregalam os olhos, os gatos do PAN arrebitam as orelhas, SIC N na dianteira, TVI24 na peugada, RTP 3, Manuel Carvalho e Ana Sá Lopes entreolham-se, DN, TSF, Antena 1, Renascença.

A Estrela Serrano está cada vez mais preocupada com a pouca sorte e a falta de jeito do seu partenaire num blog que jaz morto e arrefece, e até mesmo, em pontas!, a personagem valupiana, sempre enfrascada, delira febrilmente rezando para que consiga ser um dos milhares de figurantes neste filme.

Chegam as notícias nas TV’s à hora de jantar e começa o ritual. Perante tal sacrifício alguns dos espectadores desabafam sobre o que lhes vai na alma nos balcões dos cafés, e nas caixas de comentários dos jornais. Os cabos de esquadra dos blogs acordam, nos táxis o motorista desenrosca a cabeça, bate no volante e grita, enquanto o cliente da Uber, mais clean, usa o Twitter, a selva do FB  e o Instagram, para dar um alô pessoal. Outros mostram-se condoídos e vão à página do Provedor da RTP indignar-se por lhes ser dado a ver, pormenorizadamente, aquilo que parecia ser o cadáver de Azeredo Lopes.

Este, entretanto, não sabe se o vão demitir mas, pelo sim pelo não, giza um plano de fuga num fim-de-semana prolongado (que se lixe o 5 de Outubro e as paradas militares, que isso não é coisa para quem não percebe patavina de G3’s, tanques de guerra, de messes, continências e gajos fardados!).

A sexta à meia-noite aproxima-se, qual será a manchete do Expresso? Demissão? «Eu, estou demitido?», pensa Mr. Magoo enquanto escreve uma carta a agradecer todo o apoio do PM, fala da honra que foi servir e tal-e-tal. Uma frase mais colorida do PR e deixam-no cair? Que não, afinal, que está provavelmente adiada a demissão. Quê?

Ainda assim, a manchete do Expresso em papel (ver aqui), de tão inspirada é cruelmente mortal: diz-se que o ministro da Defesa está nas mãos do careca que mandava na Polícia Judiciária Militar, simplesmente! Ou seja, que está na palminha das mãos da tropa. Que é esta quem decide se o ministro que deveria tutelar os militares está politicamente morto-morrido, ou não.

E António Costa, que na sua bonomia aparentemente não percebeu o cerne do problema – que é como se deixou encurralar neste processo -, ficará a aguardar dias ou semanas pelos militares até que, eventualmente pelos canais formais, lhe sejam apresentados os resultados da autópsia.

Até lá, até lá, que se dane mas que… não bufe.


(1) Hugo Franco, Joana Pereira Bastos, Micael Pereira, Pedro Santos Guerreiro, Rui Gustavo, cinco jornalistas!, sendo, logo de seguida, difundida pelo Martim Silva através do Twitter e retweetada pelo Bernardo Ferrão. Cinco, siblinho, sinal de que a Impresa aprendeu com o erro da PGR.

Como se elege um fascista

(Daniel Oliveira, in Expresso, 05/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

O erro da ditadura foi torturar e não matar.” “O soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um cobarde.” “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso.” “Seria incapaz de amar um filho homossexual.” Dirigindo-se a uma deputada: “Não te estupro porque você não merece.” “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.” “Nem para procriador o afrodescendente serve mais.” “Parlamentar não deve andar de ónibus.” Como ficaram os brasileiros anestesiados, a ponto de poderem eleger como presidente o autor destas alarvidades?

Um homem que nem sequer está livre de acusações de corrupção. O PT tem culpas. Por não ter livrado o Brasil da dependência das matérias-primas, o que tornou a crise inevitável. Mas foi com ele que assistimos ao maior salto económico e social da história do Brasil. Por não ter feito a reforma política e ter mantido todo o sistema dependente da compra e venda de deputados, incluindo os seus. Mas foi ele que fez as leis que facilitaram o combate à corrupção, mal de sempre no Brasil. Por não ter percebido que as primeiras manifestações, em 2013, não eram uma contrariedade mas uma oportunidade para mudanças mais profundas. Preferiu entregar o protesto à direita.

O PT falhou, falhou, falhou. Mas não foi o PT que fez Bolsonaro. Foi o golpe. Os que fizeram cair Dilma, criando um ambiente de exceção constitucional, não tinham ninguém para pôr no seu lugar. Só o caos. Com o mais popular dos candidatos preso, e a oposição ao PT amarrada ao mais impopular governo da história, Bolsonaro ficou sozinho no descontentamento. Foi à direita tradicional, sobretudo ao PSDB, que foi buscar os votos. Não foi ao PT.

O grotesco Jair Bolsonaro não é o representante da fúria popular contra a elite. Tem 40% de apoio entre os mais ricos, 38% entre quem tem curso superior e 37% no sul. Tudo acima da sua média. Entre quem recebe mais de 10 salários mínimos o índice de rejeição do candidato do PT chega aos 57%, o de Bolsonaro fica-se pelos 37%. Nos eleitores com menos de dois salários mínimos acontece o oposto: Bolsonaro tem uma rejeição de 48% e Haddad de 20%. Se só votassem homens com mais de cinco salários mínimos Bolsonaro seria eleito na primeira volta com mais de 50% dos votos. Se só votassem mulheres pobres ficava nos 10%.

Numa entrevista que fiz a Gregório Duvivier, o humorista da “Porta dos Fundos” defendeu que a irritação da classe média com o PT se deve a uma perda relativa de estatuto. Enquanto ficava no mesmo lugar, viu os ricos ficarem mais ricos e distantes e milhões a saírem da miséria e a aproximarem-se. Não se vencem eleições no Brasil com a classe média ressentida, mas sempre foi com ela que os fascistas ganharam músculo. Para porem os pobres na ordem.

Graças à popularidade de Lula, Fernando Haddad irá à segunda volta. Terá de se confrontar com uma ideia instalada pelos media: que os extremos se tocam. Como se o prefeito que encheu São Paulo de ciclovias e transportes públicos fosse comparável à besta que grita que vai fuzilar os opositores.

Esta normalização de Bolsonaro revela que, para a elite económica, política e mediática brasileira, mais vale um fascista do que um democrata que queira redistribuir rendimento. Só na segunda volta saberemos até que ponto o classismo, e não a democracia, continua a ser a marca identitária de quem manda no Brasil.