Vou fazer como Marcelo e Marques Mendes…

(Pacheco Pereira, in Sábado, 12/08(2018)

JPP

Pacheco Pereira

Uma coisa é a livre expressão de críticas e outra a organização de grupos e fracções como Passos fez contra Manuela Ferreira Leite, e Montenegro, Duarte e muitos membros do Grupo Parlamentar e algumas distritais fazem a Rio, e Lopes vai fazer, pelo menos com maior transparência, porque sob outro chapéu.

…e dizer: como eu vos disse, como eu tinha previsto a semana passada, etc.
Sim, como eu tinha previsto há mais tempo que a semana passada, Lopes admite que o seu “novo” partido tem como objectivo arranjar uns lugares nas próximas eleições, o dele em particular, e ninguém do PSD saiu atrás de Lopes sem se consumar a derradeira e desesperada tentativa de derrubar Rui Rio, antes que este possa condicionar as listas para deputados.
É o objectivo de Pedro Duarte e Montenegro. As suas estratégias têm nuances: Duarte quer condicionar as escolhas das próximas eleições, Montenegro é mais prudente e como sabe que elas serão muito difíceis de ganhar, prefere esperar para não ter o ónus da derrota.

Hipocrisias

Claro que ambos juram hipocritamente que não querem “desestabilizar” a direcção, mas isso é o lugar -comum do “politiquês” muito pobre, feito de frases feitas e rodriguinhos, que todos usam. Críticas a Rio, duras que sejam, serei o último a pôr esse direito em causa, até porque o exerço em abundância. E vejo com ironia como muitos dos que me criticaram fazem hoje o mesmo.
Só que, uma coisa é a livre expressão de críticas e outra a organização de grupos e fracções como Passos fez contra Manuela Ferreira Leite, e Montenegro, Duarte e muitos membros do Grupo Parlamentar e algumas distritais fazem a Rio, e Lopes vai fazer, pelo menos com maior transparência, porque sob outro chapéu.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Os passos

O primeiro passo foi a contestação imediata e às claras com centro no Grupo Parlamentar (e tal não é por acaso…), o segundo é a contestação organizada com exigência de um novo Congresso que agora Duarte vai tentar liderar.
O terceiro passo deste movimento, caso falhe a tentativa de derrubar Rio, então será a transumância para o partido de Lopes, ou para o CDS de Cristas. Mas só depois de se esgotarem as tentativas internas.

Vai ser interessante ver quem vai financiar quem

Quem vai financiar o PS a gente já sabe: toda a gente que tem capacidade para financiar a vida política. O PS está no poder e não lhe vão faltar apoios nos meios económicos e empresariais. Para os grandes partidos, incluindo o PSD, é esta proximidade que explica muita da corrupção e do tráfico de influências que inquinam a vida política nacional. O PSD terá um quinhão mais pequeno dos mesmos que vão financiar o PS.

É uma velha prática apoiar sempre em partes desiguais conforme quem tenha o poder, o PS e o PSD. Deixo de lado o BE e o PCP, cujos mecanismos de financiamento são de outra natureza, mas com zonas pouco transparentes como é o caso das autarquias para o PCP.
O financiamento do CDS pode até crescer, porque é como o financiamento de uma startup, e a ecologia do CDS sozinho e alguma renovação interna vão torná-lo apetecível para os deserdados ideológicos e políticos do PSD de Passos, ou seja a alt-right portuguesa, os think tanks conservadores, os trumpistas envergonhados, o Observador, e outros blogues muito activos na direita radical.
Agora verdadeiramente interessante será o financiamento do partido de Lopes, embora suspeite que vai ter as mesmas origens do financiamento do CDS de Cristas. Vamos ver.

É um pouco aborrecido…

…ter quase a certeza de que daqui a uns dias vou poder começar de novo a dizer, como Marcelo e Marques Mendes, como eu tinha previsto… Mas prometo moderar-me.

Os proletários do desporto: a Volta a Portugal acima de 40º

Querem um exemplo de gritante irresponsabilidade? Permitir que várias etapas da Volta a Portugal em bicicleta se realizassem no pico da onda de calor em pleno Alentejo, com temperaturas à volta dos 45o. Alguém o permitiu e esse alguém é um criminoso que podia ter matado ou atingido gravemente um ou vários ciclistas, já para não falar dos que vão para as estradas ver a volta passar. Pelos vistos, considera-se normal manter o espectáculo por causa dos múltiplos interesses em jogo, dos da publicidade até aos dos órgãos de comunicação que precisam de alimento.
Felizmente parece que não aconteceu nada, mas isso é irrelevante. Ah! e para além dos promotores da Volta, o Governo é igualmente responsável e muito.

A Realidade dos Meios Aéreos

(Dieter Dellinger, 11/08/2018)

canadair

Foto: Um C-130 a lançar água com retardante a título experimental.

Muito se falou nos anos 70 a respeito da utilização dos meios aéreos da Força Aérea no combate a incêndios.

Chegou-se a comprar kits especiais (Modular Airborne System for Fighting Fires) para reconverter os C-130 nessa função em que utilizariam também retardadores e chegou a ser utilizado um helicóptero Aluette III com 2 sapadores florestais equipados com um extintor de 6kg de pó cada um.

Durante anos discutiu-se o assunto até que a FAP chegou à conclusão que os C-130 eram demasiado valiosos para serem utilizados no combate aos incêndios e não poderiam reabastecer-se em qualquer albufeira ou no mar como fazem os T-Roc, Canadair e Kamov, além da dificuldade em ter dois ou mais C-130 a trabalharem ao mesmo tempo que teriam sempre de aterrar na sua base para se reabastecer, o que significava uma enorme perda de tempo.

Portugal é um país com mais de 50 barragens de norte a sul, pelo que há sempre uma albufeira ou um rio a poucos quilómetros de algum incêndio e os dois modelos de aviões anfíbios enchem os depósitos sem pararem, limitando-se a amarar e quando em contacto com água enchem os depósitos. Até podem reabastecer-se no mar como fizeram recentemente no combate ao incêndio de Monchique. Os Kamov podem encher um balde de 500 litros até numa piscina, tendo duas hélices de sustentação que dá um impulso suficiente mesmo numa atmosfera muito quente e pouco densa.

O avião ideal para combater o fogo continua a ser o Canadair que é, de resto, o único avião do mundo construído para essa missão.

Posteriormente, quando foram adquiridos os 12 helicópteros E-101 alvitrou-se a hipótese de serem utilizados no combate a incêndios. Sucede que estes helicópteros vieram no âmbito dos planos estratégicos da Nato e um desses helicópteros custou tanto como 6 Kamovs além de que a formação dos pilotos da FAP é caríssima em comparação com os civis.

Os Kamov russos foram fornecidos a um preço especial, parece que em segunda mão, mas a sua manutenção é bastante cara. Mesmo assim, inferior à dos helicópteros E-101 que fazem revisões globais no fabricante.

A FAP é extremamente cara. Os seus pilotos voam em média pouco mais de 6 anos e levam 2 a 4 a serem instruídos, passando depois a oficiais do Estado Maior, algo que não sucede com os civis das empresas a quem se alugam os meios aéreos ou se contratam os trabalhos de manutenção e pilotagem com um custo elevado por hora que não dura todo o ano.

Segundo um estudo publicado na revista alemã “Der Spiegel” acerca dos incêndios em todo o Mundo, Portugal passou de um mês de grande seca e calor a sul e 2 meses no centro e norte entre 1971 e 2000 a 3 a 4 meses nos anos mais recentes. Isto em consequência de um aumento médio da temperatura global na Europa da ordem dos 2ºC.

Muitas foram as comissões que estudaram o problema dos meios aéreos, tendo a FAP descartado a possibilidade de participar no combate aos incêndios. A compra de 4 Canadair com apoio da União Europeia foi posta de lado devido aos custos de manutenção e instalação de infraestruturas adequadas. Acabou-se por recorrer ao aluguer periódico que feitas as contas por todos os governos ainda é a solução mais económica apesar dos seus elevados custos.

No âmbito destas questões dos fogos apanhámos a RDP2 a mentir quando colocou uma tímida engenheira do ambiente a dizer que Portugal é o país da Europa que possui a maior percentagem de floresta. A senhora esqueceu-se da Suécia, Finlândia e Noruega, países quase sem uma agricultura normal e cobertos a mais de 80% por florestas. A Rússia também tem uma gigantesca Sibéria toda florestada e sem grande agricultura por causa do frio.

A senhora confirmou indiretamente que Portugal é vítima dos incendiários quando disse que os vários estudos da sua universidade mostram que os incêndios variam de ano para ano entre o sul, centro e norte. Ora, na generalidade, acontece como este ano, o calor e a seca abrangem todo o país e não há uma explicação para a concentração dos incêndios em zonas diferenciadas por anos. Simplesmente, os interesses dos incendiários não abrangiam sempre a totalidade da Nação.

A história do rato e do psicólogo

(António Guerreiro, in Público, 10/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Na semana passada, assistimos em Portugal a dois fenómenos extremos: um, foi o excesso de calor, parecia que a Terra tinha saído dos eixos e tudo chegara a um ponto de extenuação; o outro foi a saturação do espaço público pela proliferação de artigos, crónicas, reportagens, opiniões, comentários, que escorreram como o caudal de um rio, sobre os negócios do vereador do Bloco de Esquerda em Lisboa.

Chegou-se ao limite em que o caso do vereador era uma protuberância tão dilatada que pensámos que ela iria parir. Mas não, era apenas uma manifestação espectacular da obesidade do sistema. Não há nenhuma prova de que estes dois fenómenos extremos tenham uma causa comum ou qualquer relação um com o outro, a não ser que os incluamos na vaga ideia de extenuação por excesso e num conceito muito alargado de poluição.

Não menosprezo a justiça imanente que assistiu aos dois fenómenos extremos e a punição que em ambos se cumpriu (um consenso científico diz-nos que o homem é tão culpado das alterações climáticas como da compra de bens imobiliários). Mas gostaria de mostrar aqui o paradoxo que consiste em as coisas, ao chegarem a um nível excessivo, se anularem ou começarem até a produzir o seu contrário. No segundo fenómeno extremo a que me refiro, esse paradoxo é potenciado pelas manhas incontroláveis da reversibilidade.

A reversibilidade é uma figura que explica o modo de funcionamento de alguns sistemas actuais. Foi isso que nos ensinou o sociólogo Jean Baudrillard, com uma forte pulsão especulativa, e que até chegou a ter um andar em Alfama. As histórias de reversibilidade, escreveu ele, são sempre as mais divertidas, como a do rato e do psicólogo.

Nesta história, o rato conta como condicionou o psicólogo a dar-lhe um pedaço de pão cada vez que accionava um dispositivo da gaiola. Talvez seja precipitado transpor para a história do vereador, tal como ela se desenrolou na semana passada, um semelhante fenómeno de reversibilidade, mas uma saturação fatal, até à náusea, desviou o sentido das palavras e das frases que sobre o assunto se foram acumulando.

Quase todas elas denunciavam justamente a falsa moralidade e as incoerências políticas do vereador. Mas, por saturação, elas obstruíram o próprio sistema de onde emergiam e já só apontavam, dotadas de reversibilidade, para quem as pronunciava. Todo o discurso sobre o assunto já só parecia uma excrescência, um efeito que ganha vida autónoma, separando-se das suas causas.

Os factos implodem na hipertrofia dos comentários. E o demónio da reversibilidade perturba a possibilidade de percepções e juízos pertinentes porque se anulou até o sentido da realidade. Todo o discurso adquire então uma forma imoral e histérica, e é já só esse imoralismo que nos interpela e suscita reacção, já que o imoralismo e a contradição política insanável do vereador que começaram por ser o motivo da crítica, da denúncia e da indignação perderam substância e resistência.

O motivo da “festa” desaparece porque esta vai para além dos seus próprios fins e torna-se hipertélica. Começa por ser uma orgia, mas prolonga-se de maneira patética: há sempre alguém ainda a correr para alimentar a orgia e não deixar que ela acabe.

Não há êxtase que sempre dure, e uma orgia alimentada como uma novela deixa de ser uma orgia, é um  serviço obrigatório, mais militar do que civil.

Uma pergunta conhecida, cheia de implicações, devia ser colocada à porta onde se aglomeram tantos funcionários da palavra erecta: “What are you doing after the orgy [com o vereador imoral]”? Nada, absolutamente nada, a não ser tornar bem visível a obscenidade e a inércia de um mundo saturado.