O PR e a fé

(Por Carlos Esperança, 11/02/2018)

marcelo_natalia

É inegável a categoria intelectual, cultural e ética de Marcelo. As auditorias promovidas pelo PR, em 2016 e 2017, devidamente publicitadas com a sua autorização, revelam que a salubridade regressou ao Palácio de S. Belém, certificada pelo Tribunal de Contas.

A qualidade dos seus discursos e a sua postura nas relações internacionais mostram um político preparado, que dignifica o País. A sua chegada foi uma lufada de ar fresco.

A simpatia de que goza é um capital pessoal que conquistou por mérito, mas foi o trilho aberto com inquestionável mérito por Cavaco Silva que lhe facilitou a avenida de afetos por onde circula. Sem a aversão suscitada por Cavaco nunca seria tão grande a simpatia, que condiciona os partidos políticos. Marcelo é o amigo dos pobrezinhos nas televisões e o dos muito ricos na intimidade.

A sua presidência, globalmente positiva, é uma infindável campanha eleitoral capaz de alterar o sentido de voto por quem pode prometer o que outros não podem cumprir, ao sabor da sua agenda ideológica e pessoal.

Cavaco falhou, de forma primária e canhestra, o que Marcelo sabe fazer com elegância e inteligência. Cavaco vingava-se da esquerda por ressentimento, este, luta pela direita com convicção e, no seu peronismo mitigado, molda o PSD a seu jeito e terá o líder que quiser. Basta-lhe esperar.

O que compromete Marcelo e o pode desacreditar é a fé, que turva a razão dos sábios. É a fé que o leva a genufletir-se, em humilhantes piruetas pias, para oscular sofregamente o anelão de qualquer bispo e, em volúpia mística, o do Papa.

A fé, e a deliciosa mescla de travessura, levam-no a atribuir os êxitos económicos deste governo ao “trilho aberto com inquestionável mérito” por Passos Coelho. Marcelo não mente, e crê tão piamente na ironia que chega a pensar que é realidade. E há verdade na afirmação. Se não fosse tão mau o anterior governo não brilharia tanto o atual.

Que constitucionalista confundiria o governo que, em quatro anos, nunca apresentou um OE constitucional e careceu sempre de um retificativo (8 no total), com um governo que já apresentou três Orçamentos imaculados e de resultados opostos aos do antecessor?

As travessuras de Marcelo, sem desmerecerem as qualidades que o exornam, estendem-se da Vichyssoise ao sarcástico elogio de despedida a Passos Coelho.

Os partidos de esquerda não devem afrontá-lo, dada a sua popularidade, mas têm de se preparar para o enfrentar. Por ora, alegremo-nos com a clarividência da saudosa Natália.

A “CARTA-CASSETE” DE PENEDA

(Por Soares Novais, in A Viagem dos Argonautas, 11/02/2018)

peneda1

Apesar das falinha mansas que sempre usa em público, o ex-presidente do Conselho Económico e Social (CES), ex-assalariado ao serviço de Junker, figura notável do antigo “grupo da sueca” e membro “VIP” de várias confrarias gastronómicas, engrossou a voz para dizer: “É altura de todos os parceiros sociais tomarem uma posição clara sobre a postura da CGTP no processo da Autoeuropa e na própria concertação social.»

Esta afirmação de Peneda, tornada pública em carta aberta, que melhor será designar por “carta-cassete”, bem podia ser subscrita pelo Saraiva da CIP ou pelo Silva da UGT. Ou seja: diz aquilo que os personagens citados, e outros da mesma laia, sempre dizem quando está em causa a sua santificada Autoeuropa. É a cassete do costume. Roufenha de tão usada.

Acresce: as semelhanças entre esta “carta cassete” e todos os vómitos anteriores não se ficam por aqui. Para o autor da carta, é também o Partido Comunista que está por trás da CGTP.  “À falta de mobilização no sector privado descobriu agora a Autoeuropa como palco para a sua investida”, pois assevera o ex-ministro do erudito Cavaco, “a sua sobrevivência como força política depende da desordem e da falta de confiança que consiga instalar no tecido económico. Sempre foi e assim será.” (Salazar não diria melhor).

Por isso, sugere com alarde: “É preciso que se denuncie de forma clara que a estratégia dos comunistas para a Autoeuropa é que esta feche as portas e se desloque para outras paragens. Aí o PCP cantará vitória e como sempre serão vitórias “conquistadas” à custa de milhares de trabalhadores que ficarão no desemprego e a Península de Setúbal voltará a viver os tempos de fome da década de 80, mas aí o PCP e a CGTP estarão no seu terreno favorito a desfraldar as bandeiras negras, nunca assumindo culpas, mas remetendo-as para os vícios do capitalismo.”

“Vícios do capitalismo” que, recordo, ele beatificou enquanto ministro do Emprego do Dr. Cavaco e em que, como já lembrou a CGTP, foi “co-responsável pela política que na altura gerou desemprego, salários em atraso, fome no distrito de Setúbal, cargas policiais sobre os trabalhadores e a população em geral.”

As afirmações do ex-presidente do CES mostram o seu mundo. Um mundo que começa em São Mamede de Infesta e acaba em Palmela. Convenientemente. Explico: é que na mesma altura em que tornou pública a sua “carta-cassete”, a Reuters noticiava:

“Mais de 300 mil trabalhadores estiveram envolvidos nos primeiros dois dias de greve, que atingiram a produção em inúmeras unidades industriais alemãs de empresas como a MAN, a ZF Friedrichshafen, a Porsche, a Ford e a Audi. A greve está a ter forte impacto nas fábricas da BMW na Baviera (Sul da Alemanha), bem como nas fábricas da Airbus em Bremen, Hamburgo e Baixa Saxónia.” (Sendo certo que nenhum destes gigantes ameaçou deslocalizar as suas fábricas).

E o portal El Salto anunciava:

“O IG Metall, com cerca de 2,3 milhões de filiados, estima que mais de 250 empresas sejam atingidas nestes três dias de greve, que, de acordo com fontes sindicais, serve como último aviso antes do endurecimento da luta, caso o patronato faça ouvidos moucos às reivindicações dos trabalhadores. Estes exigem um aumento salarial de 6% e a possibilidade de optarem por uma semana laboral de 28 horas ― para cuidarem de crianças, pessoas mais velhas e familiares doentes ― por um período de dois anos, com direito a regressarem à semana de 35 horas no final desse tempo.”

A luta dos trabalhadores alemães, que por cá foi convenientemente silenciada pela imprensa, levou a um acordo entre o sindicato IG Metall e a federação patronal Suedwestmettal e prevê um aumento salarial de 4,3% para este ano e contempla o pagamento de outros prémios ao longo de 27 meses.

Além da remuneração, o acordo também prevê uma redução da carga horária semanal de 35 para 28 horas durante dois anos, se os trabalhadores tiverem de cuidar de crianças, ou de familiares que precisem de cuidados ou que estejam doentes.

Perante a dura jornada de luta dos trabalhadores alemães, desconfio que o IG Metall, tal como a portuguesa CGTP, segundo Peneda, “não apoia nem nunca apoiou a concertação social porque nunca teve nem terá uma postura baseada numa cultura de compromisso.”

Também o IG Metall como a CGTP quer “impor de forma unilateral os seus pontos de vista, através de práticas que são imposição sobre os outros.”

Uma afirmação que o ex-presidente do CES sustenta assim:

“A CGTP nunca conviveu bem com a negociação. A CGTP é cada vez mais um braço armado ao serviço de uma ideologia comunista que não tem pontos de ligação aos princípios que estão na base do projeto europeu, nem da sã convivência democrática. É altura de todos os parceiros sociais tomarem uma posição clara sobre a postura da CGTP no processo da Autoeuropa e na própria concertação social.”

Ainda bem que o ex-presidente do CES se deixou de palavrinhas mansas e voltou a manifestar a sua fidelidade ao capitalismo, aos seus “vícios”, bem como ao patronato português que, como se sabe, está sempre aberto ao diálogo e à “concertação social”…


A tempo: A partir do “curriculum vitae” de Peneda, plasmado em www.parlamento.pt, vê-se que, o ex-assalariado de Junker, é um daqueles bem-aventurados que nasceu para ser ministro, deputado no Parlamento Europeu, administrador de empresas, e que nunca esteve sujeito aos salários pagos à aristocracia operária da Autoeuropa. E, concluo, também, por aquilo que diz na sua “carta-cassete” que, enquanto presidente do CES, olhou sempre de soslaio para Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP e membro do Comité Central do Partido Comunista – um operário cuja visão da vida e do mundo não se queda por ir “à bola” ou jogar a “sueca” com os seus amigalhaços…


Fonte aqui

Criminalizar a pobreza – a via natural da direita

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 10/02/2018)

ISA_MOR

Lembro-me bem. Quando o projeto de lei do CDS destinado a criminalizar “um conjunto de comportamentos que atentam contra os direitos dos idosos” foi chumbado pelas pessoas razoáveis que felizmente habitam o Parlamento, Assunção Cristas disse que estava “chocada”.

É um estado de espírito que salienta com frequência. O estar chocada. Sempre que as propostas do CDS não são aprovadas, sobretudo as que têm títulos que aguçam o apetite eleitoralista, a líder do CDS fica “chocada”.

 Do seu ponto de vista, legítimo, é “chocante” que o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior do Ministério Público, o PS, o PCP, o PEV e o BE vejam profundas deficiências no apego ao direito penal numa área que é acima de tudo social.

O CDS que roubou, em violação confirmada da Constituição, reformas e pensões aos idosos; o CDS que, sem choque, mas deslizando na sua rampa cada vez mais à direita, fez parte do Governo que atirou milhares de idosos para a pobreza extrema através do corte brutal do CSI; esse CDS que alinhou numa política transversal de empobrecimento do Estado social teve, e volta agora a ter, a resposta sonora ao drama da pobreza dos idosos e de quem cuida dos idosos: criminalizar o abandono de quem o CDS abandonou.

À falta (cada vez mais natural) de uma agenda social, o CDS volta à carga com o seu amor direitola ao direito penal. Em vez de ser uma via de último recurso, como aprendemos no curso de Direito, o direito penal é a solução grátis e boa para títulos de jornais.

Quem abandona um/uma idosa no hospital, por exemplo, não é alguém que tem de ser protegido com respostas sociais, precisamente para que não se veja na circunstância terrível de não poder cuidar dos seus. Quem o faz, “com intenção”, como frisou o CDS na quarta-feira, é um/uma criminosa.

Evidentemente, a violência sobre idosos já é crime. Um Partido com apego ao bom-senso sabe que a proteção dos idosos não passa pelo incremento da via penal. As respostas têm de ser estruturadas e, portanto, transversais.

Fazer o contrário é, como disseram tantos dos que foram ouvidos a este respeito, a criminalização da pobreza.

Não há surpresa. Lembro-me de quando o CDS dizia zero sobre o investimento na escola pública, mas defendia a criminalização da violência escolar.

Não há surpresa, mesmo. É a direita natural.